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Artigo definido

Artigo definido


Anteontem recebi um email de minha irmã Lilian sobre o imóvel que temos em Madureira. Herança do pai, a propriedade está envolvida em chatíssimo imbróglio porque o inquilino, depois de atrasos por meses em sequência, simplesmente decidiu não pagar mais o aluguel. Virou briga judicial.

“Temos proposta de locação da casa de Madureira”, informava a Lilian na mensagem enviada aos irmãos e às sobrinhas, também herdeiras. Logo começaram a pipocar as respostas. Entre comentários e esclarecimentos sobre os termos da oferta, surpreendeu a mensagem da Sofia, minha sobrinha mais velha, hoje com 23 anos:

“Estou por fora, não sei do que vocês estão falando. Que casa é essa?”

A dúvida, ficaria esclarecido, era sobre qual casa a Lilian se referia. Aquela onde moramos na infância ou a de nossa bisavó, que ficava a apenas alguns quarteirões. Para nós, a confusão não fez sentido algum.

Explico. Nossa casa se tornou “A casa da Madureira” assim que nos mudamos do bairro. Isso se deu nos anos 80, muito antes de Madureira fazer sucesso da TV Globo disfarçado de Divino. Como meu pai demorou a alugar a casa, embora não morássemos mais lá de alguma maneira mantivemos uma sensação de pertencimento que se traduzia no artigo definido. Não era uma casa de Madureira, era “a” casa de Madureira.

Igualmente, a “casa da vovó” – que, na verdade, era bisavó – não poderia ser outra que não o sobrado rosa bebê da rua Carvalho de Souza, em cuja varanda aprendi a ler.

– Ca-sa Ol-ga. Ca-sas Ba-tis-ta, Ca-sa Ta-va-res.

E, a pedido do tio Chico, eu pronunciava as sílabas dos letreiros vizinhos, tentando entender por que afinal se definiam como “casas” se eram lojas.

Então o tio dizia “muito bem” e apertava minha mão, num gesto de homens crescidos que dourava o orgulho.

Sofia não experimentou momentos como esse. Tampouco pôde frequentar o velho sobrado onde todos nós – primos, tios, avós – tivemos a oportunidade de conviver. Ali, a família se reafirmava como tal. Em colisões e silêncios, afeto e estardalhaço.

Invariavelmente cheio de gente, o sobrado era a sede dos almoços, o camarote do carnaval, o refúgio sempre às ordens para quem, por alguma razão, precisasse de abrigo.

No aposento principal, havia uma grande mesa com tampo de mármore, protegida pela reprodução de A última ceia. Perto da mesa, uma pia. Sempre achei horrível o lavatório em plena sala. Hoje entendo que era a insígnia do espírito gregário daquele lugar.

A casa de Madureira, hoje um imóvel comercial, e a casa da vovó, que se transformou em consultório odontológico, começam a perder seus artigos definidos, como mostrou a Sofia. O passo seguinte é se perder por inteiro, esfarelar-se até virar grão, imperceptível.

Não é de gramática, é de tempo que falamos aqui.


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