Xodó

Ele se mantinha de bruços, o short não de todo arriado, mas eu podia enxergar o corte que rasga a parte inferior das costas, formando duas bandas onduladas. A nesga vermelha da cueca — aquela
mesma que a mamãe já pedira muitas vezes que ele jogasse fora — contrastava com o tecido preto do calção e a pele alvíssima. O que eu não conseguia definir, na perspectiva da fresta da porta,
era o que estava sob o corpo dele, que se mexia, os movimentos concentrados entre as pernas e o tronco.

Esperei que terminasse o que fazia. Quando se levantou, fui por alguns instantes até o banheiro, para que ele saísse do quarto sem saber que o observara. Assim que deixou o cômodo, voltei. Lá estava ela, na mesma posição, os cabelos loiros um pouco desgrenhados, uma perna para o alto, a outra para baixo: minha boneca Xodó.

Mamãe me deu de presente quando completei seis anos. Na embalagem de papelão, o nome oficial — “Meu Xodó” — vinha escrito em enormes letras cor-de-rosa. Ela era maior do que um bebê de
verdade e tinha um mecanismo que, naquela época, impressionava todas as minhas amigas. Quando a gente tirava a chupeta, falava “Apague a luz, estou com sono”. Ficava repetindo a frase até que a boca fosse tapada novamente.

Xodó logo se tornou minha predileta — e olha que eu não tinha poucas bonecas. Umas vinte, mais ou menos. Mas havia cinco entre elas que eram diferentes. Costumava chamá-las de filhas. Significava algo como um afeto preferencial, embora ainda não soubesse dizer isso com palavras tão pomposas.
Naquele dia, não entendi por que o Rodrigo entrou no meu quarto e se deitou sobre a Xodó. Achei melhor não perguntar.

*

Não se passou um mês até que aconteceu de novo.

Voltara mais cedo do curso de inglês, porque a professora havia passado mal, e encontrei a porta do quarto fechada. Pensei que a mamãe talvez estivesse usando minha TV, já que era dia de a Dona Sônia limpar a casa, e bati na porta, como a vovó me ensinou.
— Espera!Era uma voz masculina, de garoto. A voz do meu irmão.
— O que você tá fazendo aí? — perguntei, invocada.

— Espera! — ele insistiu.

Já dentro do quarto, vi o Rodrigo tentando colocar a Xodó na estante das bonecas.

Tinha mesmo percebido que, volta e meia, ela mudava de posição. Até porque eu sempre fui organizada, e arrumava minhas filhas na estante por ordem de idade. A Xodó era a caçula, então ficava
na ponta esquerda da prateleira.

Uma vez encontrei a Xodó na banda oposta da estante, bem à direita. Em outro dia, ela foi parar no colo da Tininha. Tudo errado. No entanto era bom imaginar que a Xodó na verdade esperava que eu dormisse, ou fosse à escola, para caminhar pelo quarto, brincando com as quatro irmãs. E que, na pressa de deixar as coisas de acordo com a arrumação anterior, acabava errando sua posição na prateleira.

Mas imaginação é como sonho, só que a gente está acordado, não dura quase nada. E de pronto entendi que o responsável pela bagunça na estante era o Rodrigo, mesmo. Que era ele quem pegava
a Xodó e não botava no lugar. Fui contar para a mamãe.
*

Quem não gostou nada dessa história do Rodrigo com a Xodó foi o papai. Eu não ouvi a bronca, porque ele se trancou com meu irmão no escritório e os dois ficaram quase uma hora lá. Mamãe contou que eles tiveram uma conversa de homem para homem.

O papai proibiu o Rodrigo de encostar nas minhas bonecas — nem um dedinho, ele ordenou — e avisou que menino tem que brincar é de jogar futebol e videogame. Que menino que brinca com boneca não dá coisa boa no futuro.

Confesso que fiquei com um pouco de pena do Rodrigo. Depois da reprimenda, ele ficou calado por vários dias. Mesmo quando o Fábio tocava lá em casa — e olha que o Fábio era o seu melhor
amigo —, o Rodrigo dizia que não, não podia sair, que tinha que estudar para a prova. E a gente estava de férias.

A Xodó também parece ter sofrido com a confusão, porque ficou por semanas sem sair de seu lugar na estante. Ela continuava dormindo comigo noite após noite, com o silêncio garantido pela chupeta devidamente colocada na boca. Mas parou de brincar com as irmãs.
*

Quando acabaram as férias, todo mundo lá em casa já havia esquecido essa história. O Rodrigo voltou a sair com o Fábio e com os outros bobocas dos amigos dele, que adoravam implicar comigo.
A família das bonecas tinha aumentado: a caçula passou a ser a Chuquinha, que, além de falar, vinha com patins. Ela tomou o lugar da Xodó
na estante.

Papai e mamãe viajaram logo na segunda semana de aulas. A tia Neia estava passando uns dias lá em casa, para tomar conta da gente e nos levar ao colégio. Eu adorava a tia Neia. No sábado, ela perguntou se eu queria ir à loteria, porque o prêmio havia acumulado e era a chance de ficar rica de uma vez. “Seu irmão já tá bem crescidinho e pode se virar
sozinho em casa”.

Não demoramos. A fila na loteria andou rápido, e em menos de vinte minutos estávamos de volta. Como a tia Neia levou a chave, não foi necessário tocar a campainha. Entramos direto, e eu corri para o quarto, porque queria contar para a Chuquinha e suas irmãs que a gente ia ganhar muito dinheiro, mudar para uma casa maior e viajar para a Disney.

A porta estava escancarada e entrei em passos ligeiros, flagrando a cena: Rodrigo estava nu, na minha cama, com a Xodó. Esfregava-se nela, tão envolvido num abraço que não notou minha chegada.

Ela, também sem sua roupa, insistia “Apague a luz, estou com sono”, “Apague a luz, estou com sono”, “Apague a luz, estou com sono”, mas o Rodrigo não ligava. Meu irmão já estava grande, quase do tamanho do papai, e, com os olhos fechados, roçava o corpo contra a pequenininha da Xodó, como se quisesse levá-la para dentro dele, esmagar com a barriga até que ela desaparecesse. As mãos e as pernas friccionavam o lençol com uma intensidade que aumentava na medida da respiração. Ele parecia puxar o oxigênio só com a boca, soprando o ar para fora com força, e os movimentos também foram ficando mais rápidos, e mais rápidos, até que simplesmente pararam.

Ainda de olhos fechados, Rodrigo saiu de cima da Xodó e se deitou ao seu lado.

Eu, paralisada, apenas olhava.

Não sei quantos minutos se passaram até que ele enfim abriu os olhos e me viu.

— Calma, eu já explico. Não conta nada para o papai — pediu, entre assustado e sonolento.

Pensei em chamar a tia Neia, mas o Rodrigo saltou da cama e me abraçou. Não havia ameaça ou raiva naquele abraço, mas uma candura que eu desconhecia.

— Não conta nada, por favor. Eu te dou a minha parte da mesada. Eu deixo você comer o peito do frango. Eu faço o que você quiser.

Me deu vontade de chorar. Estava confusa, e preocupada com a Xodó. Fui até a cama — ele, atrás de mim, repetia “não conta, não conta” — e, ao pegá-la no colo, a perna
direita da Xodó se soltou.

— Desculpa, eu não queria…

Catei a perna no chão e tentei encaixá-la.

— Eu conserto, pode deixar.

Ele tinha quebrado a minha boneca.

Triste e com a consciência pesada — talvez fosse minha culpa, por dar tanta atenção à Chuquinha —, colei a Xodó ao meu peito e falei que ela ia ficar boa, que eu ia cuidar de tudo, que não se preocupasse.

Foi quando senti que, em seu corpo, havia um líquido viscoso, gelado.

— É meu — e Rodrigo disse que era coisa de garoto quando ficava adulto, que nem a mamãe falou que acontece com as meninas quando elas começam a sangrar uma vez por mês.

— Pode deixar que eu limpo. E conserto a perna dela.

Mamãe realmente comentou desse sangue, mas não havia dito nada sobre líquidos que saem dos garotos quando crescem.

— Está aqui a toalha. Passei água e sabão. Vira ela pra mim e segura firme. Não conta nada, tá?

Enquanto eu a segurava, e o Rodrigo bulia a toalha úmida, ele jurou que nunca mais brincaria com a Xodó, e eu prometi que não ia mesmo contar.

Nosso primeiro pacto de adultos.

 

***

 

Conto publicado no livro Ferrugem (Record, 2017)

 


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