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Rosa noturna

Rosa noturna

Teresa tinha um pênis de vinte e dois centímetros, contados na régua. O atributo lhe rendia fama nos arredores da praça Paris, onde trabalhava de terça a domingo, das onze às cinco, quarenta reais por uma gozada, sem beijo na boca. “Beijar, nem por cem. É só para namorado”.

Os quarenta (e mais quarenta e mais quarenta e mais quarenta) ajudavam a pagar as despesas do apartamento da rua Cândido Mendes, dividido com duas amigas. Era ali que Teresa dormia, depilava as pernas, o sovaco e o rosto, tonificava os glúteos com os exercícios da revista de ginástica, aplicava em ampolas de hormônio as futuras curvas de mulher. Era ali que, enfim, abrigava-se durante o invisível do dia, nas horas de inexistência, antes de virar purpurina sublime e esparsa numa calçada de Glória.

Nas dimensões apertadas do apartamento, ela se amontoava às próprias coisas, às amigas e aos objetos das amigas, espalhados pelos dois cômodos. A topografia das caixas de papelão, dos móveis atravancados, dos colchões no colchão, da geladeira no meio da sala, dos poucos armários para muitas roupas, era como um raio X invertido da própria Teresa: desordem.

O dinheiro, contudo, não permitia mais espaço. “Só estico a mão até onde posso alcançar. Quem sabe quando encontrar um italiano rico…”, ela pegava emprestado o sonho das amigas, mas devolvia rápido. Pois sabia que ao menos naquele apartamento conseguia morar sem maiores entraves – em geral com três sessões arrecadava o básico das despesas.

Responsável pela organização da contabilidade interna, fixou uma quantia mensal para cada moradora e, de sua parte, distribuiu os gastos do mês pelos 26 dias de trabalho (segunda era folga), estabelecendo um valor mínimo a garantir noite após noite. Caso ficasse doente e fosse obrigada a faltar, compensava nos dias seguintes.

Problemas mais sérios mesmo só enfrentava nas épocas chuvosas, como aquele mês de outubro, que resolveu desafiar todos os prognósticos. Lá se iam mais de três semanas de temporal e ruas vazias. “Quando chove, os homens somem. Parece que são feitos de papel. A gente lá, com guarda-chuva na mão, passando frio, e ninguém dá as caras.”

Teresa passou o mês inteiro de olho na previsão do tempo, adiando a apreensão. Mas já era dia 27, não havia como esperar mais. As dívidas gritavam em vermelho num bilhete na geladeira: “A pagar: dia 30 – aluguel, dia 5 – condomínio, luz e água, dia 8 – conta do restaurante.”

Se no restaurante poderia até negociar, com algum juro, um prazo melhor, outros pagamentos tinham que ser na data, sem chororô. “Boneca que atrasa dorme na rua”, o proprietário do apartamento já avisara – e quando ele falava apertando a orelha direita (e ele falou), significava que o assunto requeria seriedade.

Por isso naquela noite, a primeira cujo teto não se cobrira com o véu da chuva, ele decidiu colocar de uma só vez as contas em dia. Com cinco sessões, calculou, abateria boa parte da dívida. Bastavam disposição, preservativos e uma roupa sensual.

Optou pelo vestido de paetês dourados, bainha pelo menos dois palmos acima do joelho, delineando as coxas e a bunda, e pelos sapatos plataforma que lhe impingiam ainda mais altura. Pintou o rosto em cores quentes, recolocou o piercing brilhante no nariz. Depois ajeitou o sutiã, compensando com enchimento o peito menor pela injeção de silicone mal aplicada, borrifou perfume, pegou a bolsa e ganhou a rua.
– Quanto é o boquete? – Não eram nem onze e meia quando, direto no assunto, o rapaz no Chevette a abordou. Ele era jovem, bastante jovem, fazia o tipo namorado-certinho-que-resolveu-aprontar.

– Boquete, vinte; completo, quarenta. Vale a pena, viu, gato?

– Vinte? Não rola por quinze, não? – ele chorou.

– Vinte, gato. É tabelado.

– Mas onde a gente faz?

– Pode ser dentro do carro mesmo, tem uma rua bem discreta ali em cima…

Teresa entrou no Chevette, sentando-se ao lado do rapaz, e subiram uma ladeira até chegar a um canto ermo do bairro, onde havia outros carros parados. Ele abriu as calças, ela pôs a boca, ele gozou, ela cuspiu, e em meia hora voltava ao mesmo ponto onde antes ela se achava, na calçada entre as lojas de portas cerradas e a praça Paris, no entrelugar, sempre no entrelugar.

Por cerca de uma hora, Teresa permaneceu ali, à espera, observando carros a circundar a praça, desejos rondando sem coragem de estacionar. Até que um Fiat Uno piscou o farol em sua direção, diminuiu a velocidade e se aproximou. O homem de meia-idade, cavanhaque somando anos extras ao rosto, pareceu-lhe levemente bêbado.

– Oi, tesão! – ele movia os músculos da boca de maneira esquisita, tentando desenhar no rosto uma excitação.

– Oi, gato. Procurando diversão? Teresa encostou abunda na janela do carro e puxou a mão dele até sua nádega esquerda.

– Depende…

– Depende de quê, gato?

– Do preço dessa diversão.

– Ah, não é caro, não. E garanto que você não vai se arrepender. – Com a bunda projetada ainda mais para o interior do veículo, ela pousou os dedos sobre o sexo dele e começou a massageá-lo. – Quarenta reais e você vai à lua comigo.

– Mas está incluído o motel lá na lua? – ele fez graça.

– Não, gato, mas o motel só custa quinze e aceita cartão.

– Você também aceita?

– Ainda não. Quem sabe um dia, no futuro. Nós somos as mulheres do futuro, você sabia?

– E você é ativa também, mulher do futuro? – ele desafiou.

– Faço de tudo, amor. Menos beijar na boca.

– Pode entrar. Vamos lá. – O homem abriu a porta do carona, engatou a primeira e entabulou uma conversa.

– Sabe por que eu gosto de transar com vocês? Porque um homem conhece exatamente onde fica o prazer de outro homem. Mas não gosto de corpo de homem, e vocês já têm corpo de mulher…

– Mulheres do futuro, já falei – Teresa sorriu. – É aqui. Pára ali, colado naquele poste – apontou o indicador.

Andaram poucos metros até o motel, onde ela cumprimentou a recepcionista e pediu a

chave do 206. Permaneceu no quarto com o homem do cavanhaque por mais de hora e meia. Duas gozadas, pagamento dobrado, menos oitenta do bilhete na geladeira. O homem levou-a de volta à praça Paris.

Teresa precisava de um pequeno intervalo. Enquanto esperava pelo novo cliente, comprou uma lata de cerveja num bar próximo. Tomou lá mesmo, apoiada no balcão. Três e meia da manhã, três sessões: nada mal. Uns quinze minutos ficaram no bar.

– Pendura, Zé – e rumou para a calçada.

Então, o susto: um carro esportivo, não deu para ver direito a marca, voou repentinamente da faixa central para a pista colada à calçada, e Teresa só pode sentir o jato forte soprando um pó branco contra seu rosto.

– Pirocuda! – alguém berrou de dentro do carro, que partia. Ela ainda enxergou o extintor de incêndio projetado para fora da janela. E com as mãos friccionando o vestido no meio das próprias pernas, rebateu:

– Viados! Playboys filhos-da-puta!

Embora já tivesse acostumada, ainda perdia a pose com esses ataques. Mas a raiva não tardava a se esvair. Uma ajeitada no vestido, um pente rápido nos cabelos e a noite aquietava: pronta para outra. Para mim duas, aliás. A intenção era concluir o plano até cinco da manhã. Teresa retornou ao bar apenas para a última ajeitada no espelho e vamos lá: mais duas.

Não precisou aguardar muito. Carro novo, casal com jeitão de recém-casado, tudo bem, claro, com os dois, sem problema, nesse caso é sessenta mais quinze do motel, eu ensino como faz para chegar lá, é aqui, quarto 202, não, não, sem beijo de língua, chupar a moça tudo bem, foder a moça tudo bem, com você tudo bem também, vai, vai, goza gostoso, vai, goza aqui na minha boca, isso, isso, mais sessenta reais na carteira, vocês podem dar carona até a praça?

A noite estava promissora confirmava a vocação e apesar de cansada, Teresa sentia alívio: faltava somente a derradeira sessão e, depois, casa.

Ainda era madrugada, mas a manhã já se insinuava e o movimento diminuía. Os funcionários das padarias começavam a aparecer, carregando os seus “bom-dia” nas mochilas, e quando as lojas abrissem os clientes de certo sumiriam de vez. “Mais um, só mais um e posso ir…”

Teresa vertia o cansaço na maquiagem que esfriara, mas se ascendeu de novo ao notar que um Honda Civic, com cara de zero-quilômetro, desacelerou cerca de vinte metros à sua frente. O motorista pousou duas rodas sobre a calçada, trancou a porta e riscou o chão em linha reta para onde ela estava.
– Boa noite, estou com pressa, programa rápido, quanto é? – ele, esbaforido, engolia as palavras.

– Quarenta, o completo.

– Tem local?

– Motel. Soma mais quinze.

– É perto?

– É, mas indo de carro.

– Não. Sem carro. Não tem outro?

– Tem. Só que é mais caro. Custa cinqüenta por uma hora.

– E quinze minutos?

– Cinqüenta também.

– Fechado – e tomou Teresa pelo antebraço, puxando-a com força, como se fosse ele o guia.

Afobados, andaram no compasso ditado pelo homem até o motel mais luxuoso, vencendo vertiginosamente a portaria. Mal entrou no quarto, ele pediu a Teresa que tirasse a roupa, se lubrificasse e ficasse de quatro sobre a cama. Em seguida, arriou a calça de moleton e entrou nela com violência. Gozou em menos de três minutos.

– Pronto. Pode se vestir. – Já recomposto, ele lavava as mãos.

– Calma. E o pagamento?

O homem se secou com a toalha de papel, apalpou o bolso de trás da calça e então percebeu: o dinheiro ficara no carro.

– Olha só, esqueci a carteira no porta-luvas. Vamos até lá que eu pago.

– E o motel?

– Você não tem algum aí?

– Eu? Eu é que vou pagar?

– Só até o carro. Pode deixar que eu compenso…

Teresa não via outra saída se não confiar nele. Mesmo tensa com a possibilidade de um golpe, mais um, deixou cinqüenta reais na recepção do motel e o seguiu.

– Olha só, você fica no mesmo lugar onde estava quando fui falar contigo. Por favor, não se aproxima do carro, OK?

“Lá se vão meus cinqüenta”, e Teresa estancou no ponto combinado, ele se encaminhando ao seu Honda Civic. Para surpresa dela, porém, o homem de fato resgatou a carteira e num passo retornava com os noventa reais, que lhe foram entregues com um seco “obrigado”.

Em seguida, ele se virou de costas e fez o trajeto de volta, preciptando-se carro adentro. Ajeitou-se na posição do motorista e, com a porta entreaberta, pendeu para o banco de trás, de onde retirou algo que ela não definia bem e que ele manteve no colo. Teresa se aproximou um pouco e pôde ver com mais nitidez: era um buquê de rosas vermelhas.

Passaram-se alguns instantes, ele fitando as rosas sobre seu ventre, e a cena se dispersou. Num ato repentino, o homem escancarou a porta do carro, atirou as flores no chão, engatou a chave e arrancou de forma brusca. Os pneus gritaram por ele.

Teresa então notou que, com a rispidez da queda, uma rosa se desgarrara do buquê. Ela se abaixou, pegou a rosa e, ainda agachada, inflou o rosto num sorriso, imaginando quem seria enfim o destinatário que nunca receberia aquelas flores. Talvez alguém se foi, independente como um barco que se desamarra da margem; talvez uma mulher que, por um motivo qualquer ou sem motivo algum, não as merecesse; ou ainda o próprio homem, que as desprezou pela remissão a alguém que hoje só desperta ira. As possibilidades rebolavam em sua cabeça, alongavam-se as especulações, até que Teresa atinou: pouco importava. Aquela rosa, que brotara inesperadamente numa fenda invisível da madrugada, na mesma calçada entre as lojas e a praça Paris, agora era dela.

Hora de ir para casa: a noite estava ganha.

 

***

* Este conto integra o livro Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006)


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