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Dindinha

Dindinha

Júlia já havia parado de chorar quando ela bateu suavemente na porta do quarto.

– Abre, querida, é a Dindinha.

A menina acabou de enxugar os olhos com a palma das mãos e caminhou, esvaziada, até a porta.

– Oi, Dindinha – e a madrinha a enlaçou num abraço em que a demora não se nota.

Sentadas na cama, a porta já fechada, Dindinha alisava os cabelos negros de Júlia enquanto falava que a mãe logo iria esquecer o assunto, que a mãe era nervosa mesmo, e que esse negócio de fingir dor de barriga para faltar à escola não estava mesmo certo.

– Mas você vai ver. Depois de um dia ruim vem sempre um dia bom.

Júlia nunca tinha pensado nisso. Que pudesse existir alguma lei, segundo a qual haveria sempre um revezamento nas coisas que aconteciam com a gente.

– É uma questão de justiça divina, Julita – e a Dindinha sabia de tudo. Era a mais estudada da família, fez até faculdade. A mãe às vezes dizia que a Dindinha se achava e Júlia ficava pensando que faltava algo aí. Se a tia se achava, se achava o quê?

 

*

O som agudo soou logo cedo. Dindinha apertava a buzina do carro para acordar a manhã e expulsar qualquer sujeira que restasse da noite passada. Júlia reconheceu o barulho, e correu para o quintal a tempo de ver a tia ainda batendo a porta do Chevette dourado.

Ao entrar na casa, Dindinha ouviu os muxoxos da mãe de Júlia, que reclamava daquela algazarra antes das oito. Mas não ligou:

– Julita, vamos pra Petrópolis!

– Vamos?

– Vamos. Você tem que conhecer o Museu Imperial. Pra entrar lá, a gente tem que botar uns sapatos grandões.

– Como assim, Dindinha?

– É pra não arranhar o chão. São umas pantufas imensas. E você vai conhecer também a casa do Santos Dumont.

– Aquele do avião?

– É!

– Posso ir, mãe?

– Vai, mas quero ela aqui antes de anoitecer, viu, Dona Beth?

– Fechado.

Ao entrar no carro da Dindinha, a mochila da Mônica colada às costas, Júlia carregava uma vastidão de ansiedades, que haveriam de morrer à medida que o dia transcorresse.

– Eu não disse que depois de um dia ruim vem sempre um dia bom?

E ela não tinha como discordar da tia, que dirigia fazendo um dueto com Roberto Carlos, cujas canções tocavam sem parar no toca-fitas.

– Você sabia que a sua mãe sonhava em casar com o Roberto Carlos?

– Minha mãe? Mas e o meu pai?

– Sonho é sonho, Julita.

– Eu não queria que meu pai fosse o Roberto Carlos. – E a Dindinha riu do resmungo da menina.

Na parada da Casa do Alemão, as duas comeram brioches e bolinhos de carne, e compraram biscoitos amanteigados para na volta amansar a mãe. Já em Petrópolis, depois de visitar o museu e brincar de limpar o piso arrastando os sapatos, foram à casa de Santos Dumont, onde Júlia se divertiu com a escada projetada para se começar a subida com o pé direito – canhota, ela não entendia por nada essa mania de as pessoas acharem que tem que começar tudo com o pé direito. Até o Santos Dumont, meu Deus.

Foram ao Quitandinha, à Casa da Princesa Isabel, ao Palácio de Cristal, e passearam pelas ruas antigas da cidade, as mãos entrelaçadas dizendo mais do que as palavras, Júlia maior por dentro do que por fora. Quando enfim almoçaram, um canelone ao molho branco, com direito a torta alemã de sobremesa, a tarde já começava a se despedir com o vento frio da serra.

– Vamos embora. Senão, já viu – e Dindinha pagou a conta, tocando Júlia até o carro.

Pegaram a estrada. Enquanto desciam, Júlia dançava com as curvas, deslizando de um lado a outro no banco de trás. Só pararam para comprar banana-ouro.

– Você já provou?

– Nunca!

– É docinha…

Comeu praticamente todo o cacho, que ficou a seu lado até a chegada ao Rio.

Júlia passou mal no dia seguinte, e teve ainda mais certeza: depois de um dia bom vem um dia ruim, e vice-versa. Dor de barriga, enjoo, o corpo pesado como chumbo. O que valia era Petrópolis latejando na lembrança.

 

*

 

Quando prendeu o dedo na cadeira de praia, e a mãe jogou vinagre, santo remédio caseiro, sem contudo evitar a dor e a rouxidão, que permaneceu por dias;

Quando Aline não quis emprestar o livro sobre a menina que virava rosa, e Júlia achou que ela não era mais a sua melhor amiga;

Quando o pai não deixou que ela fosse para a colônia de férias da escola, e todas as outras garotas foram;

Quando jogaram fora a Luluzinha, boneca de que mais gostava;

Quando o bloco passava na rua, e ela não podia ir ver as fantasias;

Quando a mãe montou uma festa no quintal, e choveu.

Nessas, e em tantas outras ocasiões, vigorou a frase da Dindinha, que Júlia tomou como regra. Confortava a certeza de que tudo de ruim, e grande, poderia vir seguido de algo bom do mesmo tamanho.

 

*

 

E foi à frase da tia que ela recorreu, mais ou menos um ano depois de ouvi-la pela primeira vez, ao ver Dindinha recostada na cama do hospital.

Exames de rotina, contou a mãe, e aquela visita não fez medo em Júlia.

– Quando a gente vai de novo a Petrópolis? – perguntou ela, sapecando um beijo na testa da tia.

– Logo que eu sair daqui.

– E vai demorar?

– Acho que não, Julita. É só acabarem os exames.

– E a gente vai poder ir de novo no museu?

– Claro!

– E na casa do Santos Dumont? E comer canelone?

– Vai, meu amor.

– E comprar banana-ouro na volta?

– Só se você prometer não comer o cacho todo para não passar mal. – E o gracejo rasgou um sorriso no rosto de Júlia.

*

 

Na semana seguinte, estava de volta ao hospital.

– A tia precisou fazer mais exames, Júlia.

– A essa hora da noite?

– Mudaram o horário de visita.

– Mas ela tinha falado que ia pra casa logo! E que a gente ia de novo para Petrópolis.

– Por favor, filha, não comenta isso lá de jeito algum.

Júlia não comentou. Ao olhar para a tia, parecia que não, aquela não era a Dindinha. Os cabelos, agora ralos, abriam pequenas falhas. Estava magra, um fiapo em roupas brancas. A expressão, abatida, mentia sobre quem estava ali.

Dindinha tomava café com leite com a ajuda de uma enfermeira, que erguia a colher, levava até sua boca e voltava a mergulhar na xícara. Júlia pediu que ligassem a TV para ver o programa da Hebe, o preferido da tia.

Viram juntas.

Quando o programa terminou, a mãe chamou Júlia para irem embora.

– Não esqueci de Petrópolis, viu, Julita?

Na semana que vem, tá combinado?

– Combinado, Dinda – a menina respondeu, reencontrando no semblante da tia uma nesga de serenidade.

– Vamos embora, Júlia – a mãe apressou.

Antes de ir, Júlia voltou até a cama, aproximou os lábios do ouvido da tia e disse, sem acreditar, que depois de um dia ruim sempre vem um dia bom.

 

***

 

* Este conto integra o livro A palavra ausente (Rocco, 2011)


  1. Edson Braz

    20 julho

    Um belo conto, com certeza. Parabéns!

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