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    <title>Contos - Marcleo Moutinho</title>
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    <updated>2011-11-22T19:51:54Z</updated>
    <subtitle>Contos de Marcelo Moutinho - www.marcelomoutinho.com.br</subtitle>
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    <title>Bravo!  Literatura e Futebol</title>
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    <published>2011-06-09T20:23:37Z</published>
    <updated>2011-11-22T19:51:54Z</updated>
    
    <summary>Segue o texto de apresentação da revista especial, que tive a alegria de organizar: Apresentação Marcelo Moutinho Na noite de 2 de julho de 2008, 78.918 pessoas estiveram no Maracanã para assistir à final da...</summary>
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        <![CDATA[<p>Segue o texto de apresentação da revista especial, que tive a alegria de organizar:</p>

<p><a href="http://www.marcelomoutinho.com.br/contos/CAPA_Literol.jpg"><img border="0 <img alt="CAPA_Literol.jpg" src="http://www.marcelomoutinho.com.br/contos/CAPA_Literol-thumb.jpg" width="280" height="331" /></a></p>

<p><strong>Apresentação</strong></p>

<p><em>Marcelo Moutinho</em></p>

<p>Na noite de 2 de julho de 2008, 78.918 pessoas estiveram no Maracanã para assistir à final da Taça Libertadores da América, entre o Fluminense e a LDU, do Equador. Após uma campanha até então irrepreensível, na qual eliminou equipes como Boca Juniors e São Paulo e se manteve o tempo todo como líder geral do torneiro, o tricolor carioca chegou à decisão com ares de favorito. O resultado da primeira partida, porém, foi desastroso. Embalados pela altitude de Quito, os equatorianos venceram por 4 x 2. Ao Fluminense restava, portanto, derrotá-los por três gols de diferença no jogo de volta, no Rio — se a vitória fosse por dois tentos, haveria prorrogação e, persistindo o resultado, pênaltis.</p>

<p>Eu era uma daquelas 78.918 pessoas que testemunharam o que se desenrolou no histórico estádio carioca. Logo no início, o Flu levou um gol, o que o obrigava a marcar três, se quisesse ao menos chegar ao tempo extra. E, graças a uma atuação espetacular do camisa dez Thiago Neves, o time conseguiu, levando o público das arquibancadas e milhares de torcedores em todo o país a alimentar uma certeza: diante da realização de tarefa tão improvável, não haveria como o título escapar.</p>

<p>Mas escapou. Faltou um gol — o gol solitário que definiria a contenda em favor do Fluminense — e, na disputa de pênaltis, a LDU foi campeã.</p>

<p>Nunca consegui, embora ganhe meu pão com o ofício da escrita, formar uma seqüência de palavras capaz de expor com precisão o que aconteceu naquele 2 de julho. As lembranças são embaçadas. O enredo soa inverossímil, de tão dramático. A narrativa simplesmente não dá conta.</p>

<p>Porém tal circunstância ajudou a lançar uma luz, ainda que precária, numa antiga perplexidade que me dominava: compreender por que um esporte tão impregnado no imaginário brasileiro, como o futebol, tem, à exceção da crônica, uma presença relativamente tímida em nossa literatura.</p>

<p>Mais do que a questão, sempre levantada, de um suposto elitismo dos escritores, talvez essa dificuldade de reproduzir em texto a algaravia de fatos, situações, sentimentos que animam um jogo, de recriar com tintas ficcionais o que se passa dentro das quatro linhas, seja o principal fator de limitação. Como afirmou Flávio Moreira da Costa, organizador da antologia “22 Contistas em Campo”, a exemplo da arte no sentido tradicional o futebol é “uma expressão em si mesma”. De modo que toda outra expressão sobre o futebol tenderia ao “discurso sobre o discurso”, à diluição. No entanto, embora pequena, nossa produção literária tem refletido — e com alta qualidade — os diferentes capítulos da história do chamado esporte bretão no Brasil desde que Charles Miller o trouxe da Inglaterra, no fim do século 19. Tanto na crônica — cuja fortuna é significativamente mais extensa que a dos demais gêneros — quanto no conto e na poesia.</p>

<p>Já nos primórdios, a nova modalidade foi pauta no meio literário. Escritores como Afrânio Peixoto e Coelho Neto saudavam o futebol — na época, restrito à aristocracia nacional — como elemento capaz de ajudar a ensinar a disciplina e a desenvolver o espírito de grupo. Graciliano Ramos, em oposição, revoltava-se contra a “invasão” de um esporte britânico e apostava no fracasso da modalidade por causa do biotipo do brasileiro. “Os verdadeiros esportes regionais estão aí abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, a cavalhada, e o melhor de tudo, o cambapé, a rasteira. A rasteira! Esse sim é o esporte nacional por excelência!”, protestou Graciliano, sob o pseudônimo de J. Calisto, em artigo publicado em 1921.</p>

<p>O maior opositor, porém, foi Lima Barreto. Indignado contra o caráter elitista dos clubes, ele chegou a fundar, em 1919, uma “Liga Contra o Foot-Ball”. O objetivo era alertar contra os malefícios da prática do jogo de bola, como brigas e contusões, e lutar pela proibição do esporte.</p>

<p>Com a popularização, que acabaria por mudar radicalmente o perfil aristocrático dos primeiros anos, as polêmicas  diminuíram de intensidade, mas não se extinguiram. Na década de 1940, Oswald de Andrade e José Lins do Rego reeditaram o debate, temperando-o com as vaidades do mundo da literatura. Para Oswald, que via o esporte como um “ardil imperialista”, José Lins do Rego se servia do futebol como “lenitivo” para a própria “escassez literária”. A resposta foi dada, embora de forma implícita, na crônica “Fôlego e Classe”, na qual José Lins do Rego observava: “Na verdade uma partida de futebol é alguma coisa a mais que bater uma bola, que uma disputa de pontapés. [...] Há uma grandeza no futebol que escapa aos requintados”.</p>

<p>Nessa época, o esporte começava a aparecer também fora do âmbito da crônica. José Lins do Rego dedicara um romance ao futebol (Água-mãe), e Alcântara Machado, curiosamente um amigo de Oswald, fazia sucesso com Brás, Bexiga e Barra Funda, seleta de contos na qual o jogo aparecia com destaque. Mais tarde, contistas como Edilberto Coutinho, Sérgio Sant’Anna e Rubem Fonseca também abordariam o futebol em suas obras, pavimentando uma estrada na qual, hoje, caminham autores da chamada Geração 90, como Marcelino Freire e Flávio Carneiro.</p>

<p>O time da poesia poderia escalar Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar, Armando Freitas Filho e Glauco Mattoso. Todos dedicaram versos ao esporte. Na contenção, jogaria João Cabral de Melo Neto, que chegou a atuar de center-half (ou, como se diz hoje, volante) no América, de Recife — time para o qual torcia. Tido com um talento promissor, João Cabral integrou também a equipe do Santa Cruz, sagrando-se campeão estadual juvenil de 1935, antes de abandonar os gramados.</p>

<p>Já a tradição da crônica futebolística, menos “ficcional” porquanto mais centrada na análise dos jogos ou na descrição de episódios da vida dos envolvidos com o esporte, se sedimentou por intermédio de nomes como João Saldanha, Sandro Moreyra, Armando Nogueira, Mario Filho e Nelson Rodrigues. Os dois últimos, irmãos, foram pioneiros — cada qual a seu modo.</p>

<p>Mario tirou o fraque e a cartola da crônica, abdicando do formalismo em favor de um registro mais coloquial, próximo do linguajar do torcedor. Além disso, foi peça fundamental na popularização do futebol, promovendo eventos como o Torneio Rio-São Paulo e criando designações hoje clássicas, como o termo “Fla x Flu”. Apaixonado torcedor do Fluminense e dono de um estilo singular, Nelson via o futebol como síntese da “alma brasileira” e o campo, como um microcosmo das tensões sociais e estéticas que animam o país. Em suas crônicas, inventava personagens como o Gravatinha e o Sobrenatural de Almeida, que se imiscuíam no relato e não raro interferiam nos jogos, esfumaçando de vez as fronteiras entre realidade e imaginação.</p>

<p>Outros autores-cronistas, embora não tenham se notabilizado pelo registro esportivo, trataram do futebol em seus textos. É o caso de Carlos Drummond de Andrade, que comentou sobretudo as Copas do Mundo, de 1958 a 1986. E também Clarice Lispector, que, naquela que talvez seja sua única incursão no tema, realiza o desejo de Armando Nogueira, então seu colega no Jornal do Brasil. Armando disse que trocaria uma vitória do seu Botafogo por uma crônica de Clarice sobre futebol. Hoje, cronistas como Luis Fernando Verissimo, Cristovão Tezza e Marcos Caetano mantêm a bola em jogo com suas colunas em diferentes jornais.</p>

<p>Ao fazer a seleção dos 18 textos desta edição especial — referência ao número de jogadores inscritos numa partida oficial —, procuramos contemplar todos os gêneros, as distintas épocas e os mais relevantes personagens do futebol. Nos contos, crônicas e poemas que se seguem, o artilheiro, o goleiro, o ex-jogador, o técnico, o juiz, o torcedor e, claro, a bola são protagonistas ou coadjuvantes de histórias contadas por alguns dos principais au-tores que escreveram sobre o esporte, quase todos já mencionados nesta apresentação.<br />
“Quase” porque incluímos outros dois. José Soares, representando aqui o cordel, que tanto espaço reservou (e reserva) ao esporte em seus livretos, e Paulo Perdigão. Mais conhecido como crítico de cinema, Perdigão tinha três obsessões na vida: o filme “Os Brutos também Amam”, o filósofo Jean-Paul Sartre e a Copa de 50. Sobre ela, escreveu um livro seminal: “Anatomia de uma Derrota”, de onde retiramos o conto “O Dia em que o Brasil Perdeu a Copa”. A história, que virou curta-metragem de relativo sucesso nas mãos de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado, não era publicada há dez anos.</p>

<p>“O Dia em que o Brasil Perdeu a Copa” gira em torno do papel do “se” no futebol — e na vida. É uma alegoria sobre a inevitabilidade de certas coisas, e permite estendermos uma ponte imaginária com a crônica de Marcos Caetano, que especula sobre a existência de um lugar para o qual iria tudo o que “quase” aconteceu. Lugar onde, entre bolas na trave, chutes para fora e defesas impossíveis, está o gol que Thiago Neves marcou, no finalzinho da prorrogação do jogo contra a LDU no Maracanã, dando o título da Taça Libertadores ao Fluminense.</p>

<p>Boa leitura.</p>]]>
        
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    <title>A incoerência do Rei</title>
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    <published>2011-04-20T18:42:00Z</published>
    <updated>2011-04-20T18:42:54Z</updated>
    
    <summary>Figura de proa da Jovem Guarda, autor de canções que tocam no ponto mais sensível da alma brasileira, servindo de trilha-sonora a milhares de histórias de amor, Roberto Carlos receberá, no próximo Carnaval,</summary>
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        <name>Marcelo Moutinho</name>
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        <![CDATA[<p>Figura de proa da Jovem Guarda, autor de canções que tocam no ponto mais sensível da alma brasileira, servindo de trilha-sonora a milhares de histórias de amor, Roberto Carlos receberá, no próximo Carnaval, uma merecida homenagem da GRES Beija-Flor. O feliz enredo, somado à conhecida competência técnica, à força financeira e ao poder político da escola, eleva desde já a agremiação de Nilópolis ao posto de favorita em 2011. Se confirmado, o título tornará ainda mais marcante o tributo ao artista.</p>

<p>A infância em Cachoeiro do Itapemirim, o sucesso com o rock que “era uma brasa, mora?”, a vitória no Festival de San Remo, a longa parceria com Erasmo, a virada romântica, cada curva da estrada por onde Roberto Carlos caminhou será lembrada na Marques de Sapucaí. E Roberto abraçou com entusiasmo a proposta da Beija-Flor, que além de tudo é sua escola de coração. Não apenas com a sinalização de que aceitava a homenagem, mas acenando com uma participação ativa: anunciou que visitará a quadra durante os ensaios e confirmou que estará no desfile da segunda-feira de Carnaval. Serão, podemos prever, 82 minutos de muita emoção.</p>

<p>Em meio ao reverente público que assistirá à passagem da Beija-Flor, provavelmente estará Paulo César Araújo. Historiador, autor de ‘Eu Não Sou Cachorro Não’, obra de referência sobre a chamada ‘música brega’ no Brasil, Araújo é antigo fã de Roberto Carlos. Tão admirador que dedicou 16 anos a pesquisar a trajetória do cantor e compositor que o povo, com carinho, batizou de Rei. Araújo entrevistou 200 pessoas que estiveram presentes na vida de Roberto, de uma maneira ou de outra. Tanto trabalho resultou em um livro de 504 páginas, que a Editora Planeta lançou em 2006. "Roberto Carlos em detalhes" rapidamente entrou para a lista de best-sellers. Foram 22 mil exemplares vendidos, e esse número cresceria muito se o biografado não tivesse recorrido à Justiça para impedir a produção e a venda da obra. </p>

<p>A absurda censura, que remonta a épocas sombrias, representa uma séria ameaça a futuras tentativas de se registrar em palavras a história do Brasil, de preservar nossa memória. Como a iniciativa foi do próprio Roberto Carlos, assinala também uma triste incoerência. Roberto admite ser enredo de escola de samba, mas não de livro. E, ao agir assim, restringe a biografia ao tom laudatório, à abordagem exclusivamente elogiosa, esquecendo-se de que o mito é sempre a sombra do humano. O que, para citar o título do bom samba da Beija-Flor, não combina com “a simplicidade de um Rei”.</p>

<p><em>* Artigo publicado no jornal "O Dia"</em></p>]]>
        
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    <title>Paula Brito</title>
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    <published>2010-08-30T20:09:13Z</published>
    <updated>2010-08-30T20:14:28Z</updated>
    
    <summary>Quando se menciona hoje o nome de Francisco de Paula Brito, cujo bicentenário será comemorado no próximo dia 2, a frase quase sempre comporta uma alusão a Machado de Assis. Essa recorrência, que parece natural pelo fato de Paula Brito ter sido o primeiro editor a publicar um texto de Machado...</summary>
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        <![CDATA[<p>Quando se menciona hoje o nome de Francisco de Paula Brito, cujo bicentenário será comemorado no próximo dia 2, a frase quase sempre comporta uma alusão a Machado de Assis. Essa recorrência, que parece natural pelo fato de Paula Brito ter sido o primeiro editor a publicar um texto de Machado, na verdade acaba por tornar periférico um personagem que teve papel central no universo da cultura brasileira do Século XIX.</p>

<p>Foi no jornal A Marmota que, em 1855, Paula Brito veiculou o poema “Ela”, escrito por aquele que viria a se consagrar como o Bruxo do Cosme Velho. Machado tinha, então, pouco mais de 15 anos de idade e já frequentava a loja que o editor mantinha na antiga Praça da Constituição (hoje Praça Tiradentes).</p>

<p>O estabelecimento chamava-se Empresa Tipográfica Dois de Dezembro - alusão aos aniversários de Paula Brito e do imperador D. Pedro II - e era um misto de papelaria, livraria, editora e tipografia. Além disso, funcionava como ponto de encontro de artistas, políticos e intelectuais da época. Gente como o próprio Machado, Manuel de Araújo Porto-Alegre, Joaquim Manuel de Macedo e o Visconde de Rio Branco, que formavam a Sociedade Petalógica.</p>

<p>Reunindo-se aos sábados, a confraria era um núcleo de debates sobre os assuntos mais variados, da plástica do verso à pirueta da dançarina da moda. O tom bem-humorado se sugeria já no título da irmandade, derivado da palavra “peta” (“mentira”). </p>

<p>“Queríeis saber do último acontecimento parlamentar? Era ir à Petalógica. Do nôvo livro publicado? (...) Da última peça de Macedo ou Alencar? Do estado da praça? Dos boatos de qualquer espécie? Não se precisava ir mais longe, era ir à Petalógica”, como comentou Machado, em texto de 1865. Neste sentido, a loja foi pioneira, abrindo caminho para outras livrarias que futuramente se transformaram em território de discussão e mediação cultural, como a José Olympio.</p>

<p>Em sua firma, Paula Brito publicou livros, jornais, revistas, opúsculos, peças de teatro, teses e estampas.<br />
- Foi o primeiro grande editor do Brasil, responsável inclusive pela primeira revista cultural de importância por aqui, a Guanabara - conta o escritor e historiador da arte Rafael Cardoso, que dedica um dos capítulos do recém-lançado Impresso no Brasil – 1808/1930 (Verso Brasil) ao trabalho do tipógrafo.</p>

<p>Entre os livros editados por Paula Brito, estão o primeiro romance brasileiro - O filho do pescador, de Teixeira e Souza, uma de nossas peças inaugurais (Antonio José, ou o poeta e a Inquisição, de Gonçalves de Magalhães), obras de Martins Pena, Casimiro de Abreu, Machado e de vários membros da Petalógica.</p>

<p>- Quase tudo que se entende por Romantismo, nos estudos literários brasileiros, passou pro seus prelos - frisa Rafael.</p>

<p>Muitos desses autores costumavam colaborar também com A marmota, que promoveu inovações na imprensa do período. Menos sisudo do que os demais periódicos, o jornal de Paula Brito trazia em suas páginas anedotas, máximas, charadas e enigmas, além dos textos ficcionais.</p>

<p>Paula Brito foi, também, poeta, contista, dramaturgo, tradutor e letrista. Com Francisco Manuel da Silva, autor do Hino Nacional Brasileiro, compôs o Lundu da Marrequinha, bastante tocado em seu tempo. E, honrando a fama de bom anfitrião, promoveu eventos que reuniam músicos e escritores, estimulando parcerias em modinhas e lundus.</p>

<p>Outro aspecto relevante de sua trajetória foi o engajamento na luta abolicionista. Paula Brito já militava contra a escravidão e a favor da igualdade racial antes mesmo de expoentes da causa, como José do Patrocínio e Joaquim Nabuco, terem nascido. Como ressalta o escritor Nei Lopes, o jornal O homem de cor, editado a partir de 1833 por Paula Brito, marca o início de uma imprensa voltada para a defesa dos interesses da população negra no Brasil. “Segundo Roger Bastide, entre outros méritos, esse tipo de jornal permitiu aos escritores de cor, que dificilmente podiam participar de periódicos, a publicação de seus versos e contos, revelando novos valores literários”, observa Nei.</p>

<p>Doutora em História Social e pesquisadora do Iphan, Renata Santos destaca que Paula Britto fez tudo isso “sem obter uma educação formal e ocupando um lugar à margem da elegante Rua do Ouvidor”. </p>

<p>- Ele consolidou seu negócio como uma referência na cidade. Apesar de ter se esforçado para incorporar a cultura letrada, não abriu mão de afirmar a sua condição de tipógrafo, construindo uma trajetória que desconsiderou os limites entre o erudito e o popular - diz ela.</p>

<p>Renata salienta a colaboração do tipógrafo e editor à construção de uma identidade relacionada ao mundo do trabalho. “Sujar as mãos era coisa de escravo e Paula Brito foi ousado e corajoso o suficiente para contestar isso com inteligência. Naquela época - e, de certa forma, até hoje -, o trabalho intelectual se sobrepõe ao trabalho manual. Imagino o quanto não foi difícil não abdicar de sua identidade de origem e, ao mesmo tempo, projetar-se em um ambiente avesso a esse valor”, afirma a pesquisadora.</p>

<p>Em texto veiculado na Marmota em 1855, e reproduzido por Eunice Ribeiro Gondim na biografia Vida e obra de Paula Brito, o próprio tipógrafo reiterava esse orgulho: “Amamos tanto a tipografia, somos tão entusiastas dela, que por mais elevada que fosse a nossa posição, por maiores que fossem os nossos haveres, dir-nos-íamos sempre tipógrafo, porque se o ser artista, simplesmente, não é uma honra, o ter habilitações para o ser (...) é uma glória que, se nem todos a tem, todos deveriam caprichar em tê-la”.</p>

<p>No entanto, se esse mulato de origem humilde conseguiu conquistar lugar num meio tão hostil aos de sua linhagem, seus feitos são atualmente pouquíssimo reconhecidos. Lamentando a relativa desimportância a ele dispensada, Renata lembra por oposição o caso de Machado, também pobre e de ascendência negra, que conseguiu se inserir na esfera intelectual e cuja herança é festejada. </p>

<p>- Por que o legado social de Paula Brito não é mais que suficiente para lhe atribuir mérito? - questiona a pesquisadora, arriscando uma explicação. - Talvez porque ele se constituiu como uma espécie de ‘operário das letras’, não se encaixando na figura do intelectual padrão, o que dificulta a tarefa de classificá-lo. Como explicar um mulato que, sem dinheiro, sem nunca ter frequentado a escola, abre espaço para si em plena sociedade escravista do Século XIX, levando ao limite as possibilidades do seu ofício?</p>

<p>De todo modo, a memória de Paula Brito está sendo evocada ao menos pelas livrarias do Centro. Desde o começo do ano, o dono da Folha Seca, Rodrigo Ferrari, mantém em sua loja um banner em tributo ao tipógrafo, desenhado pelo caricaturista Cássio Loredano. Abraçando a iniciativa de Ferrari, a Leonardo da Vinci e a Travessa vão expor o painel no mês de dezembro. Paula Brito será também o homenageado na próxima edição do Mapa das Livrarias do Centro. Nada mais adequado para quem sempre viveu cercado de ideias – e livros.</p>

<p>Box: 'Imagem alterada para reforçar o mito de herói'</p>

<p>O episódio em torno do retrato do marinheiro Simão, publicado em 1853 na Marmota Fluminense e depois distribuído por Paula Brito sob a forma de estampa, é um exemplo da militância abolicionista do tipógrafo. No livro A arte brasileira em 25 quadros (Record), Rafael Cardoso mostra como Paula Brito utilizou a pintura de José Correia Lima para reiterar o mito de herói que recaía sobre o marinheiro negro, responsável pelo salvamento de 13 pessoas no naufrágio do vapor Pernambucana.</p>

<p>Simão, que na pintura aparecia em roupas simples, surge na estampa de Paula Britto vestido de casaca e gravata, com uma cabeleira alta e bem penteada. “Na passagem para a imprensa, a figura de Simão foi submetida ao mesmo critério de respeitabilidade que caracteriza outros retratos e auto-retratos abolicionistas do Século XIX, em que a imagem do negro é refeita para conformar aos padrões e convenções da boa sociedade branca”, observa Rafael.</p>

<p>O caso mereceu também uma série de textos laudatórios. No último deles, sob a forma de versos, Paula Brito dizia: “Ninguém a Simão despreze, / Ninguém lhe negue o valor: / Simão fez atos divinos; / A virtude não tem cor”.</p>

<p><em>* Texto publicado no suplemento "Prosa & Verso" (O Globo)</em></p>]]>
        <![CDATA[<p>O operário das letras</p>]]>
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    <title>Samba-enredo - A Memória Pop do Rio</title>
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    <published>2010-03-11T20:26:28Z</published>
    <updated>2011-02-24T21:11:15Z</updated>
    
    <summary>A preparação começava no finzinho da manhã. Primeiro, uma das pistas era fechada, atravancando ainda mais o trânsito já complicado do sábado. Quando se aproximava de uma da tarde, a polícia interditava toda a Carvalho de Souza. Em poucos minutos, a rua estaria tomada de gente. Todo Carnaval era assim...</summary>
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        <![CDATA[<p>A preparação começava no finzinho da manhã. Primeiro, uma das pistas era fechada, atravancando ainda mais o trânsito já complicado do sábado. Quando se aproximava de uma da tarde, a polícia interditava toda a Carvalho de Souza. Em poucos minutos, a rua estaria tomada de gente. Todo Carnaval era assim. Madureira, principal centro comercial do subúrbio do Rio de Janeiro, cerrava as portas de suas lojas e parava para assistir à passagem do Bloco das Piranhas. Na rua, milhares de homens barbados metidos em vestidos de chita dançavam e cantavam, oferecendo um colorido espetáculo para o garoto que, de um dos sobrados, a tudo via com olhos úmidos de inocência e fascínio. O garoto era eu. </p>

<p>O Carnaval da minha infância é a imagem difusa desse desfile. As "piranhas" agarrando os incautos que passavam pela rua em trajes "normais". As latas de cerveja erguidas sobre as cabeças. Os vômitos nos postes de uns poucos que resistiam até tarde da noite. E, sobretudo, a música que movia e dava sentido à multidão: o samba-enredo. Berço do Império Serrano e vizinha de Oswaldo Cruz - o bairro sede da Portela -, Madureira sempre teve esse estilo de samba como trilha-sonora. Na absoluta maioria das casas, o disco com os sambas-enredo era comprado assim que chegava às lojas e girava na vitrola até que cada verso estivesse devidamente decorado. Começando, é claro, pelos hinos de Império e Portela.</p>

<p>Lá em casa não era diferente. Aos 8 anos, ao lado de minha mãe, saudei o circo repetindo o refrão de David Corrêa, Jorge Macedo e Norival Reis para a Portela: "Ó raia o sol o dindin / Suspende a lua dindin / Salve o palhaço / Que está lá no meio da rua". Dois carnavais depois, foi por conta de um samba-enredo que desviei da linhagem portelense da absoluta maioria da família e abracei a agremiação de meu pai. O Império, então, denunciava o progressivo gigantismo das escolas ("Super Escolas de Samba S/A / Super-alegorias / Escondendo gente bamba / Que covardia!") e, com Bum Bum Paticumbum Prugurundum, ganhou o título. Autores do hino, Beto Sem Braço e Aluízio Machado cruzaram o bairro em carro aberto, sob aplausos de uma impressionante aglomeração. Com o Império campeão e a Portela em segundo, Madureira chorou - mas de alegria. Naquele 1982, eu completava a primeira década da existência, cursava a segunda série primária num colégio do bairro da Piedade, passava as férias na Barra da Tijuca e certamente me apaixonei por alguma menina da escola. A lembrança mais funda, contudo, é do samba que varreu a cidade e acabaria se tornando clássico. </p>

<p>Talvez como em nenhum canto do país, no Rio de Janeiro os sambas-enredo são, efetivamente, parte da alma da cidade: tocam nas rádios e nas ruas, tornam-se objeto de exaustiva discussão. Até a década de 1980, a seleta com os hinos das escolas vendia mais de um milhão de cópias por ano, entre LPs e fitas-cassete. Hoje, com a democratização da internet, essa demanda foi canalizada para os sites especializados e para o YouTube, que meses antes do Carnaval já disponibilizam as faixas dos sambas em MP3, além de vídeos com letra e melodia. Os aficionados, então, trocam arquivos e impressões.</p>

<p>A popularidade é tamanha que as torcidas dos clubes cariocas costumam levar trechos dos hinos para os estádios. Os versos "Explode coração / Na maior felicidade / É lindo o meu Salgueiro / Contagiando e sacudindo essa cidade", com o nome do clube da vez no lugar do termo "Salgueiro", são os campeões de audiência. Mas o Maracanã já ouviu muitos outros sambas, como É Hoje ("É hoje o dia da alegria / E a tristeza nem pode pensar em chegar"), da União da Ilha, e Chuê Chuá, as Águas Vão Rolar ("É no chuê, chuê, é no chuê, chuá / Não quero nem saber / As águas vão rolar"), da Mocidade Independente de Padre Miguel, este nos jogos sob chuva. Os alvinegros gostam especialmente de E Por Falar em Saudade ("Tem bumbum de fora pra chuchu / Qualquer dia é todo mundo nu"), da Caprichosos de Pilares, que faz uma menção direta ao clube ("Bota, bota, bota fogo nisso").</p>

<p>Os hinos são lembrados também nas rodas de samba que se espalham pelo Rio. Há, inclusive, o caso de um samba-enredo derrotado na disputa interna da escola e que acabou virando item recorrente no repertório dessas rodas. Estrela de Madureira ("E um trem de luxo parte / Para exaltar a sua arte / Que encantou Madureira"), de Acyr Pimentel e Cardoso, hoje é mais conhecido do que o hino que o Império levou à Av. Antônio Carlos em 1975. Muita gente ignora até mesmo tratar-se de um samba, originalmente, de enredo.</p>

<p>Estranho pensar que, quando as escolas começaram a surgir, suas exibições não se davam com uma composição alusiva à história contada na Avenida. No início dos anos 1930, época em que agremiações como a Estação Primeira de Mangueira e a Oswaldo Cruz (futura Portela) passaram a se apresentar na Praça Onze, o desfile se desenrolava ao som dos chamados 'sambas de terreiro', cujas letras retratavam o cotidiano da comunidade. Não havia conexão direta entre o que se cantava e o que se exibia.</p>

<p>Desfazendo (ou aprofundando) a controvérsia sobre qual teria sido o primeiro samba exaltar especificamente o tema definido pela escola, no recém-lançado Samba de Enredo: História e Arte, o escritor Alberto Mussa e o historiador Luiz Antonio Simas apontam 61 anos de República, de 1951. Segundo eles, embora tributário de experiências anteriores levadas a cabo pela Unidos da Tijuca, pela Portela e pela Mangueira, foi o hino de Silas de Oliveira para o Império que finalmente sintetizou o formato. No livro, os autores investigam as origens do samba-enredo, sua evolução formal e temática. Desmontam a tese de que os enredos nacionalistas que predominavam até os anos 1970 se deviam somente à imposição do governo, mostrando que as agremiações tomavam esse caminho também para conquistar aceitação social, legitimando-se frente ao Estado. E lembram sambas que acabaram soterrados pelo tempo, de escolas como Em Cima da Hora e Tupi de Brás de Pina.</p>

<p>Mas o rigor da pesquisa não é capaz de solapar a memória afetiva. O salgueirense Mussa recorda-se, por exemplo, das manhãs em que ia à praia com a mãe ouvindo tocar, no rádio do carro, Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade ("Cirandeiro, cirandeiro ó / A pedra do teu anel / Brilha mais do que o sol"), da Vila Isabel. O imperiano Simas conta que descobriu o duplo significado da palavra "veado" com o samba Sonhar com Rei dá Leão ("Sonhar com filharada é o coelhinho / Com gente teimosa, na cabeça dá burrinho / E com rapaz todo enfeitado / O resultado pessoal é pavão ou é veado), da Beija-Flor. E ainda hoje sofre quando escuta Invenção de Orfeu, da Vila, que remonta ao ano da separação de seus pais.</p>

<p>Apaixonado pelo assunto como os dois, curiosamente só fui sair na minha escola de coração em 1996 - e exatamente em razão de um samba-enredo. A Serrinha prestaria tributo ao sociólogo Herbert de Souza, já bastante debilitado, e o samba de Aluízio Machado, Lula, Beto Pernada, Arlindo Cruz, e Índio do Império era capaz de emocionar o mais frio dos homens. "Quero ter a minha terra, ô ô ô / Meu pedacinho de chão, meu quinhão / Isso nunca foi segredo / Quem é pobre tá com fome / Quem é rico tá com medo", dizia o refrão, e a cada audição me dominava o pavor de não participar de uma vitória imperiana - e com um grande samba. Faltando três dias para o desfile, telefonei para a quadra e comprei uma fantasia. Sozinho, sem conhecer ninguém da ala ou da escola, cheguei à Avenida. Procurei fantasias iguais à minha e, ao encontrar, fiquei por perto, esperando o momento de entrar. Ao pisar na Sapucaí, desabei no choro.</p>

<p>Ali, na presença de componentes com quem nunca sequer conversara, na cadência singular daquela bateria, naquele belo samba, não havia apenas uma lírica e contudente crítica social. Ali, estava a casa da minha bisavó, estava o primeiro amor num parquinho de Madureira, estava o meu pai. Até hoje, a cada vez que entro na quadra ou desfilo no Império, sinto como se estivesse com ele, a barriga inflada de chope, o Hollywood no bolso da camisa. Escutar os sambas do Império é meu modo de vencer tardiamente o câncer que o derrotou, de tê-lo novamente comigo. E restaurar uma nesga de ilusão que, como um dia cantou a Vila Isabel, ajuda a dar "razões pra vida tão real da quarta-feira". </p>

<p><em>* Texto publicado na revista Bravo!</em></p>]]>
        
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    <title>Carnaval from Broadway, bicho!</title>
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    <published>2010-03-11T20:21:32Z</published>
    <updated>2010-03-11T20:28:53Z</updated>
    
    <summary>Peço licença para devagar, devagarinho, destoar do coro dos contentes. Não vou entrar em matéria de mérito – até porque faz muito tempo não existe relação direta entre merecimento e resultado quando se trata de julgamento de carnaval. Quero apenas levantar a questão: o que havia, no desfile vitorioso em 2010, da tradicional escola de samba surgida em 1931 no Morro do Borel?...</summary>
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        <![CDATA[<p>Peço licença para devagar, devagarinho, destoar do coro dos contentes. Não vou entrar em matéria de mérito – até porque faz muito tempo não existe relação direta entre merecimento e resultado quando se trata de julgamento de carnaval. Quero apenas levantar a questão: o que havia, no desfile vitorioso em 2010, da tradicional escola de samba surgida em 1931 no Morro do Borel? Pouco, quase nada. Havia, sim, teatro. Pirotecnia. Efeitos especiais. Sub-Broadway.</p>

<p>Nada contra a Unidos da Tijuca, digna de todo o respeito, pela trajetória e pela representatividade no carnaval do Rio de Janeiro. Mas quando cada componente - de carro e de chão - passa a ter uma "função" rigorosa dentro do desfile, deixa de ser folião. E então nos distanciamos do conceito de escola de samba historicamente construído, que dá lugar a um “espetáculo" no qual, assim como numa ópera, ou numa peça, os atores desempenham papel rígido. Pode ser genial, mas está longe de caracterizar a essência da festa de Momo.</p>

<p>O uso de teatralização no desfile, que não repudio em si, é expediente utilizado pelas escolas há muitas décadas. Mas os excessos trazidos pelo modelo Paulo Barros transformam em central o que era - e deveria continuar sendo - periférico. E levam ao paroxismo um caminho que infelizmente parece inevitável: a mudança no eixo medular dos grêmios recreativos. </p>

<p>Sim, porque, na concepção consagrada pela História, as escolas de samba trabalhavam durante todo o ano para mostrar, na Avenida, um pouco do saber nascido e cultivado entre os seus. Para reafirmar, no desfile, as suas singularidades - ainda que se apropriando de influências externas, e sintetizando-as. Esse diálogo entre os núcleos das agremiações e a cultura “de fora” se revelou extremamente rico até que as escolas começassem progressivamente a cair de joelhos diante do poder do carnavalesco. A se tornar reféns de um olhar de fora, em geral acadêmico, sempre dominante. Em resumo, o vínculo se desequilibrou.</p>

<p>Como a Unidos da Tijuca deixou patente, uma escola comandada por Paulo Barros mostra a arte de Paulo Barros. Hoje a Tijuca, amanhã uma outra, sempre a arte de Paulo Barros. Os gritos da torcida durante a apuração foram emblemáticos: aludiam ao carnavalesco, não à escola campeã. Não lhe nego talento, a imensa criatividade. Mas seu modelo simboliza com limpidez a perigosa prevalência do teatral sobre o momesco, do visual sobre os demais quesitos. Não à-toa, os últimos sambas-enredo que efetivamente colaram na memória popular datam do início dos anos 1990. </p>

<p>Na verdade, a desproporcionalidade de critérios entre as notas dos itens, digamos, “sambísticos” (bateria, samba-enredo, harmonia, evolução) e as dos quesitos plásticos, como fantasia e alegorias, vem suscitando uma mudança na forma de se olhar o desfile. Como observou o jornalista Sidney Rezende, “o carnaval virou uma pasta geral e não uma festa de detalhes. Quem está na arquibancada valoriza o carro alegórico, as musas e o casal de mestre-sala e porta-bandeira, pois são as poucas possibilidades para o olhar mais distante. Fisicamente dizendo. O resto é plano geral”.</p>

<p>Esse processo se agrava com a débil transmissão pela TV, que repisa o favorecimento ao visual, privilegia as celebridades em detrimento das personagens das próprias escolas e é incapaz de contextualizar o desfile na perspectiva da ‘biografia’ de cada agremiação. Grandes referências, como Vilma, da Portela, ou Seu Molequinho, do Império Serrano, e mesmo talentos mais recentes, como Mestre Marcone, da Imperatriz Leopoldinense, se vêem diluídos num mar de gente, do qual as câmeras pescam apenas as modelos que vestem a camisa da escola uma vez ao ano e falam de sua "emoção", as rainhas de bateria que compram seus postos, ou os carros alegóricos, cada vez maiores.</p>

<p>Um dos motes dos defensores do novo modelo é a crítica a uma suposta repetição. Talvez por isso o aparecimento de personagens como Batman, Homem-Aranha, Michael Jackson - embora a rigor às vezes nem aludam ao enredo - tenha tanto apelo. Aliás, a roupagem pop de Paulo Barros é puro bálsamo para os pós-modernos sempre ávidos pelo novo, e o novo, e o novo. </p>

<p>Essa ânsia reiterada exulta o descompasso no "mais do mesmo" que os desfiles teriam se tornado, como se fosse necessário apagar todas as marcas de origem que as diferentes escolas consolidaram. No entanto, ao negar a ponte com a tradição, rompe com o que há de mais belo e genuíno no carnaval. A emoção de ouvir o surdo sem resposta da Mangueira ou a cadência da bateria da Beija-Flor, de ver a coroa do Império, a águia da Portela, o vermelho e branco do Salgueiro, de reencontrar o colorido da União da Ilha.</p>

<p>Na década de 70, Candeia já alertava para o fenômeno da descaracterização das escolas de samba. Quando li pela primeira vez suas teses, julguei-as demasiadamente radicais, apocalípticas até. Hoje, percebo que o baluarte portelense foi profético. Ao abrir mão da personalidade que as distingue em prol da onda do momento, ao transformar o componente em mero repetidor de passos ensaiados, ao ceder à ditadura estética, as escolas perigam virar entidades ocas, exuberância sem conteúdo. E a natureza ensina: árvore que não rega as raízes acaba morrendo.</p>

<p><em>* Artigo publicado na seção Logo, do jornal O Globo</em></p>]]>
        
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    <title>Flores de inverno</title>
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    <published>2009-09-03T20:49:00Z</published>
    <updated>2009-09-03T20:50:51Z</updated>
    
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        <![CDATA[<p><em>Na profundeza do inverno, finalmente aprendi que dentro de mim repousava um verão invencível.<br />
(Albert Camus) </em></p>

<p>e então você, ao me ver aqui, sentado sobre a poltrona, nesta sala onde apenas uma luminária faz contraponto à escuridão, repetindo que enfim descobri que embora não tenhamos consciência há uma queda por detrás de todo horizonte, vem e me fala que existem flores que só dão no inverno, e nestes dias que andam um pouco mais frios do que o habitual na indefinição de estações do Rio de Janeiro não é, de jeito algum, um sinal de que também estou invernando, sob a luz esguia da tarde que vem do leste, sob o vento que sopra do mar em direção à terra, um vento estranho ao litoral, fazendo a cidade renegar a sua vocação mais óbvia e nos deixando meio que sem saber o que fazer, se abre aquela garrafa de vinho que ganhou no aniversário e dorme há tanto tempo no armário, se espanta o mofo dos casacos de lã guardados no gavetão, se simplesmente resolve ficar em casa, debaixo do cobertor, sem coragem para enfrentar a brisa gélida que bate no rosto de quem se atreve a passear à beira-mar, com medo do risco de sem querer respingar uma gota que seja da água do mar no nosso rosto, ou nas nossas costas, sobra de uma onda revolta, desenhando espinha abaixo um caminho de geada, ou, ainda, penetrando corpo adentro, a evidenciar que somos como esponjas, absorvendo e eliminando sentimentos e situações e sujeiras, imundícies como aquela que enche os sacos dispostos pelo corredor quando começo a escutar a vizinha do 204 reclamando, "quem é o porco que deixou estes sacos aqui", "só tem animal neste prédio", "síndico de merda", e longe, muito longe de saber, ou de querer saber que os sacos azuis espalhados pelo hall significam tão pouco se ignoramos quem será enfim capaz de lacrar o saco de lixo do mundo; eu a debruçar minha atenção sobre dilemas como esse, sem nenhum traço mínimo de covardia, nenhum soluço trêmulo, nem mesmo uma expressão de culpa, atiçando como quem sacode carne na frente de um bicho faminto, tentando despertar cada lobo que se espreita na imensa matilha do meu corpo de homem ainda subindo os degraus da velhice, mas de alguma forma preso a uma tábua de valores e idéias e ruminações que, estabelecida em algum momento, não parece ter mudado, tornando-me um náufrago de saudades indizíveis, um saudoso eterno das agruras do impossível, um insistente pedinte de que o feio se transfigure em beleza, ainda que por um momento breve, para sustentar alguma leveza nesta sala que traz em si todo o peso do excesso, para tentar não submergir neste mundo-gesso com os braços e as pernas sem músculos capazes de agüentar, para tentar tramar planos infalíveis, impraticáveis, chamar com urgência à fala os acenos e as sombras que prometem de novo o que ocorreu, procurando antes efeitos do que causas concretas, e contudo a palavra se negando a pronunciar, e somente as mãos sugerindo o poder mágico de dizer o que no lábio ainda é segredo nesta minha boca cansada de falas, repleta de amarras costuradas pelo tempo com suas agulhas traiçoeiras (você não ouve mais o som rascante das cigarras que como trovoadas anunciam a chuva, embora sem impor autoridade, e os estrondos se revelam efêmeros como em geral os autoritarismos); pois saiba que no sótão do navio incerto da afeição quem invoca sentimentos vis nem por isso estará enterrado para sempre na cova rasa da vilania, mas, de todo modo, "todo dia é um dia roubado da morte", já dizia Clarice, e é melhor, pois, manter a janela entreaberta, a fim de que, pelo espaço dado, assustado, possa assistir a tudo como um menino que vê o sol se afogar no oceano, voyeur de meus pares, deste globo insandecido e imenso, nem que seja tentando encontrar em algum canto, sob um monte de papel, ou um saco de lixo qualquer, um jornal velho, um arbusto, uma colméia, escondidas, espremidas, esquecidas, as tais flores que dão no inverno, pois ainda não as vi, mas sei que existem.</p>]]>
        <![CDATA[<p><em>* Conto publicado no livro "Memória dos barcos" (7Letras, 2001)</em></p>]]>
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    <title>Hotel com garagem</title>
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    <published>2009-06-23T21:39:57Z</published>
    <updated>2009-06-23T21:40:37Z</updated>
    
    <summary>Sob o sol preguiçoso do meio da tarde, a nitidez da Praça Tiradentes chega a espantar. No lugar do breu decadente que se espraia como uma coberta espessa a cada vez que o dia apaga, sou capaz de distinguir seus contornos mais recônditos...</summary>
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        <name>Marcelo Moutinho</name>
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        <![CDATA[<p>Sob o sol preguiçoso do meio da tarde, a nitidez da Praça Tiradentes chega a espantar. No lugar do breu decadente que se espraia como uma coberta espessa a cada vez que o dia apaga, sou capaz de distinguir seus contornos mais recônditos, suas grades, sua aspereza, suas sujeiras, numa clareza opressiva. </p>

<p>O sinal demora a fechar, mas não tenho pressa. À espera da luz verde, passeio vagarosamente os olhos pelas construções e pelas pessoas que correm, ligeiras, perseguindo as horas perdidas. Meu destino é a Saara, onde os apetrechos exigidos por uma festa à fantasia aguardam deitados em bancas ou pendurados nos cabides empoeirados das velhas lojas, entre esfihas e barraquinhas de sorvete - um balé colorido e nostálgico. </p>

<p>No centro da rua, ônibus e carros se atravancam na confusão do trânsito quase parado. Subitamente, seus intervalos transformam-se em corredores, por onde fileiras de homens deslizam como uma imensa centopéia. No João Caetano, o painel anuncia uma peça qualquer a preços populares. Faz calor e penso em comprar um ingresso. Desisto logo. É preciso providenciar os objetos para a fantasia, cumprir o objetivo, a meta, sem desvios, sem subterfúgios. Então confiro novamente o sinal: o tempo parece estancado no verde. É quando noto a moça.</p>

<p>Debruçada sob o parapeito da janela de um edifício na Avenida Passos, ela apóia o cotovelo sobre o outro braço feito uma daquelas bonecas típicas de Tiradentes e contempla o movimento da rua. Não parece triste, apenas distante – enfronhada nos próprios pensamentos. Talvez lamente uma noite ruim, talvez pense nas contas que não fecham, talvez faça planos para as horas que hão de vir. Elas sempre vêm.</p>

<p>Deslocando o olhar, percorro a parede do prédio, andar por andar, até encontrar a portaria. No letreiro, uma pintura já esmaecida informa: ‘Motel’.</p>

<p>Lembro que, quando pequeno, meus pais costumavam dizer que motel era um hotel com garagem embaixo. Durante algum tempo acreditei nisso, e a recordação arranca do meu rosto um sorriso nostálgico. Meus olhos, assim como os da moça, por um segundo fitam a Praça sem enxergá-la.</p>

<p>Mas o foco logo volta ao edifício. A fachada que confessa seu cansaço nos espaços vazados dos rebocos. As feias janelas de alumínio, quase todas fechadas, guardando as promessas da madrugada, quando enfim se abrirão. A entrada do corredor principal. O cartaz pedindo vinte reais pelo período: seis horas, almoço incluído. Por fim a moça, que permanece no vão do terceiro andar, estátua viva, quase parte da construção.</p>

<p>Nos quartos trancados, imagino eu, homens trepam com mulheres, homens com homens, mulheres com mulheres, vários jogos, montagens, formações, gostos, desejos: no 201, o rapaz com a amante mais velha; no 304, o senhor casado que alugou um garoto; no 407, o clássico chefe-secretária; no 409, o casal de estudantes com pouca grana aproveita a promoção (e a refeição) da tarde.</p>

<p>Todos multiplicados nos espelhos da parede e do teto em pernas, braços, mãos, pés, dedos que se entrelaçam, se esfregam, se agridem, se apertam, preenchendo os próprios vazios com carne, fluidos e transpiração, à espera de um gozo incerto, mas obsessivamente buscado.</p>

<p>(Nas TVs de catorze polegadas que enfeitam os aposentos, o gozo é garantido).</p>

<p>O sinal provavelmente já se fechou, abriu, tornou a se fechar, e percebo que a moça se foi. Deixou seu lugar já quase cativo na janela, seja porque combinara de encontrar alguém ou porque queria ir para casa, precisava comprar carne e leite, ou simplesmente dormir. </p>

<p>Na ausência dela, o vão na imensidão azul de concreto é apenas uma moldura. Não demorará até que a faxineira entre no quarto, varra o chão, troque os lençóis, borrifando um spray de cheiro bom no ar. Depois sairá e fechará a porta, a caminho de outro cômodo. </p>

<p>Retomo então o trajeto rumo à Saara e, ao cruzar a Avenida Passos, volto ainda uma vez o olhar. Avisto ao longe a janela do terceiro andar, já cerrada. No escuro, o quarto desocupado decerto espera outra moça. Sem amor, sem tesão, sem suor, sem ninguém. Somente a acachapante solidão dos lençóis brancos, limpíssimos, sobre a cama.</p>

<p><em>* Crônica publicada no blog Pentimento</em></p>]]>
        
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    <title>Caixas de papelão</title>
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    <id>tag:www.marcelomoutinho.com.br,2008:/contos//1.522</id>
    
    <published>2008-06-20T03:32:23Z</published>
    <updated>2008-07-21T20:50:54Z</updated>
    
    <summary>As caixas amontoadas tomam todo o apartamento: nossas coisas. Após o fim-de-semana extenuante de separa, embala, fecha, não há quase mais nada nas estantes...</summary>
    <author>
        <name>Marcelo Moutinho</name>
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    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://www.marcelomoutinho.com.br/contos/">
        <![CDATA[<p>As caixas amontoadas tomam todo o apartamento: nossas coisas. </p>

<p>Após o fim-de-semana extenuante de separa, embala, fecha, não há quase mais nada nas estantes - que me olham, cabisbaixas, exprimindo o desamparo de sua súbita prescindibilidade. Retribuo o olhar.</p>

<p>Uma sala cheia de caixas de papelão só não é mais triste do que uma sala vazia. E toda mudança tem um sabor agridoce: se a perspectiva do novo vibra à frente, como uma pista de asfalto fritando no calor, a gente adivinha uma saudade que ainda não chegou. </p>

<p>O garçom do bar que fica no fim da rua, o atendente da livraria-café, o jornaleiro que torce para o Botafogo, o café-da-manhã na sorveteria, o almoço no restaurante a quilo. A vizinha loura que desce, de elevador, sempre com duas borrifadas a mais de perfume. O crepe de frango ao curry, pedido por telefone. O chato que reclama do barulho. O toque estridente da campainha. O porteiro que lê, na encolha, o jornal dos moradores que ainda dormem. O começo da vida a dois.</p>

<p>Ao ver as caixas de papelão, sinto que tudo isso de uma hora para outra deixará de ser familiar, dando lugar a registros outros. Eu e minha dificuldade em deixar as coisas, pessoas. Eu e minha facilidade em construir cotidianos, hábitos. Eu, cindido, flutuando no vácuo entre o que foi e o que virá, nesse limbo estranho e furta-cor.</p>

<p>Durante a arrumação, aquela quantidade absurda de objetos à minha frente afligia. Livros sobre Cuba, sobre a formação do PT. Estudos sobre assuntos que possivelmente nunca mais me interessarão. Cadernetas do Colégio Nossa Senhora da Piedade, óculos e relógios velhos, já fora de moda, trabalhos da faculdade, mágicas da época em que fazia truques para impressionar. </p>

<p>Eu e minha dificuldade em jogar coisas fora.</p>

<p>Diante daquele aglomerado, só pensava ‘mas para que, meu Deus, para quê?’ Qual o objetivo de apinhar os armários com badulaques sem serventia, que só voltarei a visitar numa nova mudança, quando será mais uma vez necessário acondicioná-los para o devido transporte?</p>

<p>Pensava nisso e seguia colocando-os nas caixas de papelão, com todo o esmero. Às vezes, comentava com a F.: ‘caramba, essa calculadora do Mickey eu ganhei quando era muito pequeno mesmo’, ‘nem lembrava que ainda tinha esse livro’. Às vezes, exclamava: ‘meu boletim da sétima série!’; ‘tem uma nota vermelha em Moral e Cívica’, e ria.</p>

<p>À medida que os depositava, aqueles objetos, em sua aparente inutilidade, me recontavam a minha própria história. Fatos que o tempo fez perder o verniz voltaram a cintilar, rostos já esmaecidos tiveram seus contornos refeitos, com impressionante precisão. </p>

<p>Então percebi que, juntas, aquelas coisas que mantenho por esses anos todos constituem uma insólita engrenagem. Uma espécie de máquina da lembrança que está sempre à mão, sempre disposta a ser acionada, sem ficha alguma, para instantaneamente reerguer mundos de dor, contentamento, algaravia e silêncio - e impedir que eu esqueça de mim mesmo. </p>

<p>Talvez por isso eu as guarde.</p>]]>
        
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    <title>Hotel com garagem</title>
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    <published>2008-02-19T21:03:42Z</published>
    <updated>2011-06-09T15:15:54Z</updated>
    
    <summary>Sob o sol preguiçoso do meio da tarde, a nitidez da Praça Tiradentes chega a espantar. No lugar do breu decadente que se espraia como uma coberta espessa a cada vez que o dia apaga...
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        <name>Marcelo Moutinho</name>
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        <![CDATA[<p>Sob o sol preguiçoso do meio da tarde, a nitidez da Praça Tiradentes chega a espantar. No lugar do breu decadente que se espraia como uma coberta espessa a cada vez que o dia apaga, sou capaz de distinguir seus contornos mais recônditos, as grades, a aspereza, as sujeiras, numa clareza opressiva. </p>

<p>O sinal demora a fechar, mas não tenho pressa. À espera da luz verde, passeio vagarosamente os olhos pelas construções e pelas pessoas que correm, ligeiras, perseguindo as horas perdidas. Meu destino é a Saara, onde os apetrechos exigidos por uma festa à fantasia aguardam deitados em bancas ou pendurados nos cabides empoeirados das velhas lojas, entre esfihas e barraquinhas de sorvete - um balé colorido e nostálgico. </p>

<p>No centro da rua, ônibus e carros se atravancam na confusão do trânsito quase parado. Subitamente, seus intervalos transformam-se em corredores, por onde fileiras de homens deslizam como uma imensa centopéia. No João Caetano, o painel anuncia uma peça qualquer a preços populares. Faz calor e penso em comprar um ingresso. Desisto logo. É preciso providenciar os objetos para a fantasia, cumprir a meta, sem desvios, sem subterfúgios. Então confiro novamente o sinal: o tempo parece estancado no verde. É quando noto a moça.</p>

<p>Debruçada sob o parapeito da janela de um edifício na Avenida Passos, ela apóia o cotovelo sobre o outro braço feito uma daquelas bonecas típicas de Tiradentes e contempla o movimento da rua. Não parece triste, apenas distante – enfronhada nos próprios pensamentos. Talvez lamente uma noite ruim, talvez pense nas contas que não fecham, talvez faça planos para as horas que hão de vir. Elas sempre vêm.</p>

<p>Deslocando o olhar, percorro a parede do prédio, andar por andar, até encontrar a portaria. No letreiro, uma pintura já esmaecida informa: ‘Motel’.</p>

<p>Lembro que, quando pequeno, meus pais costumavam dizer que motel era um hotel com garagem embaixo. Durante algum tempo acreditei nisso, e a recordação arranca do meu rosto um sorriso nostálgico. Meus olhos, assim como os da moça, por um segundo fitam a Praça sem enxergá-la.</p>

<p>Mas o foco logo volta ao edifício. A fachada que confessa seu cansaço nos espaços vazados dos rebocos. As feias janelas de alumínio, quase todas fechadas, guardando as promessas da madrugada, quando enfim se abrirão. A entrada do corredor principal. O cartaz pedindo vinte reais pelo período: seis horas, almoço incluído. Por fim a moça, que permanece no vão do terceiro andar, estátua viva, quase parte da construção.</p>

<p>Nos quartos trancados, imagino eu, homens trepam com mulheres, homens com homens, mulheres com mulheres, vários jogos, montagens, formações, gostos, desejos: no 201, o rapaz com a amante mais velha; no 304, o senhor casado que alugou um garoto; no 407, o clássico chefe-secretária; no 409, o casal de estudantes com pouca grana aproveita a promoção (e a refeição) da tarde.</p>

<p>Todos multiplicados nos espelhos da parede e do teto em pernas, braços, mãos, pés, dedos que se entrelaçam, se esfregam, se agridem, se apertam, preenchendo os próprios vazios com carne, fluidos e transpiração, à espera de um gozo incerto, mas obsessivamente buscado.</p>

<p>(Nas TVs de catorze polegadas que enfeitam os aposentos, o gozo é garantido).</p>

<p>O sinal provavelmente já se fechou, abriu, tornou a se fechar, e percebo que a moça se foi. Deixou seu lugar já quase cativo na janela, seja porque combinara de encontrar alguém ou porque queria ir para casa, precisava comprar carne e leite, ou simplesmente dormir. </p>

<p>Na ausência dela, o vão na imensidão azul de concreto é apenas uma moldura. Não demorará até que a faxineira entre no quarto, varra o chão, troque os lençóis, borrifando um spray de cheiro bom no ar. Depois sairá e fechará a porta, a caminho de outro cômodo. </p>

<p>Retomo então o trajeto rumo à Saara e, ao cruzar a Avenida Passos, volto ainda uma vez o olhar. Avisto ao longe a janela do terceiro andar, já cerrada. No escuro, o quarto desocupado decerto espera outra moça. Sem amor, sem tesão, sem suor, sem ninguém. Somente a acachapante solidão dos lençóis brancos, limpíssimos, sobre a cama.</p>

<p><em>Crônica publicada no blog Pentimento</em></p>]]>
        
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    <title>Ipês</title>
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    <published>2007-08-30T17:29:38Z</published>
    <updated>2008-02-19T21:06:29Z</updated>
    
    <summary>Notei quando passava de manhã pelo Aterro do Flamengo: começaram a florescer os ipês. Percebi que o mais apressado deles – o de cor roxa, que fica no finalzinho da Praia de Botafogo, ao lado...</summary>
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        <name>Marcelo Moutinho</name>
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        <![CDATA[<p>Notei quando passava de manhã pelo Aterro do Flamengo: começaram a florescer os ipês.</p>

<p>Percebi que o mais apressado deles – o de cor roxa, que fica no finalzinho da Praia de Botafogo, ao lado de um posto de gasolina – já se abriu em flores lilases. É esse ipê isolado no parque desenhado por Burle Max, solitário em meio ao tráfego, à fumaça e à pressa de todos nós, que precede ano após ano a primavera absolutamente própria da espécie. Porque os ipês não obedecem às estações; florescem de junho a setembro, indiferentes aos recortes do tempo e às medidas dos homens.</p>

<p>Leio que pertencem à família das bignoniáceas, e que seu nome tem origem tupi-guarani, significando ‘pau ou madeira que flutua’. Para mim, contudo, o sentido é outro. Os ipês são um contraponto possível à eventualidade do mau-humor matinal, um rasgo de lirismo no cinza do cotidiano, minha companhia diária no trajeto rumo ao Centro.</p>

<p>E é aquele ipê roxo na última curva da Praia de Botafogo que anuncia a cor da temporada que se inaugura. Como um arco-íris atemporão que se insurge antes mesmo da chuva, ele toca o primeiro acorde, ao qual os outros ipês da cidade prestarão reverência, como se todos eles - peças de um dominó colorido - sentissem a obrigação de envernizar os olhos da cidade em penugens amarelas, rosas, brancas, verdes.</p>

<p>Justamente no período menos ensolarado do ano, ele abre suas asas para debochar da paisagem gelada das ruas, da frieza posada dos que trafegam ligeiros em seus carros turbinados sem percebê-lo, do cheiro acre que o vento retira da Baía de Guanabara e lhe sopra nas folhas, fazendo-as dançar mesmo que não queiram.</p>

<p>Ele é a sílaba tônica, o senão, a epifania plausível na recém-nascida semana. O tom dissonante que torna possível viver as horas seguintes sem a impressão de que são apenas horas, a lufada de ar que empresta oxigênio para o dia todo. </p>

<p>O ipê roxo de Botafogo está alheio aos homens com seus tantos e imensos problemas. Não repara o menino que joga os limões para o alto sinal de trânsito, nem a senhorinha que atravessa a pista com a sacola da Casa & Vídeo nas mãos. Ignora a louca que se julga guarda de trânsito e orienta os motoristas em estranhos movimentos com os braços para um lado e para o outro. Desconhece o preço do táxi, do cinema, da chapinha no cabelo, do prêmio da Mega-Sena. E mantém-se em silêncio, na quietude de quem a tudo ignora para apenas estar ali, na última curva antes da Praia do Flamengo, oferecendo uma visão singela a quem o espreita, por um instante que seja, numa manhã de segunda-feira.</p>

<p><em>Crônica publicada no blog Pentimento</em></p>]]>
        
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    <title>Fogos</title>
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    <published>2007-06-20T19:37:59Z</published>
    <updated>2007-06-20T19:40:31Z</updated>
    
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        <name>Marcelo Moutinho</name>
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    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://www.marcelomoutinho.com.br/contos/">
        <![CDATA[<p>Tudo começou com um pedaço de guardanapo, que entreguei a ele já meio bêbada, depois que dançamos duas músicas juntos na festa do namorado da Claudinha; havíamos conversado um pouco, ele arquiteto e interessado em design, essas coisas, eu dizendo que adorava arquitetura mas detestava o modernismo, e o papo correu para Itaipava por causa da Lota de Macedo Soares, e eu falei que sonhava morar naquela casa em que ela morou com a Elizabeth Bishop e tinha lido o livro sobre a vida das duas, aí ele riu e brincou: “mas aquela casa é em estilo modernista”, eu fiquei sem graça mas não dei bandeira não, fui logo retrucando que na casa delas, mesmo sendo modernista, eu moraria feliz, por causa da história de amor entre as duas; ele me chamou de romântica e perguntei se ele não se considerava romântico; “mais ou menos”, respondeu, um pouco vermelho, envergando o rosto para baixo; então eu toquei com meus dedos bem perto da orelha dele e acariciei até o pescoço; senti que ele arrepiou o corpo todo e ficou ainda mais envergonhado, mas apesar disso pediu meu telefone porque precisava ir embora; eu consegui uma caneta com a Claudinha e anotei no guardanapo de papel ainda com a gordura da bolinha de queijo que acabara de comer porque era o que de mais perto havia, e de repente comecei a sentir uns fogos de artifício estalando dentro de mim, bem no lugar onde havia a bolha branca que parecia só crescer crescer crescer crescer sem que nunca explodisse de vez; e depois do guardanapo nos falamos e resolvemos ir ao cinema, e fiquei feliz à beça quando soube que ele também adorava o Woody Allen e que Manhattan era um dos filmes de sua vida, assim como é da minha, e ficamos quase três horas falando sobre Woody Allen e tomando cerveja de garrafa na mesa de um boteco perto do cinema; dali fomos para a casa dele sob o pretexto de um café que nunca bebemos, porque logo ao entrar naquela sala amarela eu pulei em cima dele como um cachorro pula em cima do outro, envolvi minhas pernas em volta da cintura dele e comecei a lamber aquela boca carnuda; ele tinha uns lábios grossos que me despertavam tesão, mordi o seu pescoço até machucar, enquanto esfregava os pés na bunda dele, e as pernas nas pernas dele, que tirou a blusa de forma meio desengonçada, e depois as calças, e depois a cueca, eu já completamente nua porque eu era o bicho e ele, a presa, e transamos ali mesmo, na sala, deitados sob o tapete que espetava as costas, pois não ligávamos para essas mumunhas; o que importava era a língua dele girando dentro de mim e eu quase virando água, depois ele me comendo como nunca ninguém havia comido e o corpo tremendo sozinho quase meia hora depois de ele ter gozado, espasmos curtos e sucessivos, enquanto me olhava com cara de cabotino; e dormimos juntos ali mesmo, sobre o tapete que espeta; era como se estivéssemos dormindo no mais caro colchão já fabricado, no mais macio, no mais cheiroso; e o cheiro do colchão se misturava ao cheiro dele, cheiro de homem, sabe como é?, e potencializava o perfume Calvin Klein que saía do alto do pescoço, naquela região onde eu mais gostava de me aninhar e ainda não sabia, e onde me aninhei naquele dia pela primeira vez, no chão da sala amarela do apartamento dele, os livros em volta, os quadros em volta, os papéis de arquiteto em volta, acordando com um beijo leve na testa e a pequena bandeja com café, pão francês, queijo branco e geléia de amoras, não sei como ele descobriu que gosto de geléia de amoras, talvez eu tivesse dito na festa, já meio bêbada, e tomamos o café-da-manhã juntos, agarradinhos, depois fomos caminhar nas Paineiras, e depois almoçar num bistrô charmoso “que só ele conhecia”, e então voltamos para o apartamento dele precisando de ouvir música, Caetano, Edu, Francis, algum jazz e umas coisas que ele trouxe, todo pimpão, da Europa, e transamos transamos transamos, como iríamos transar quase que diariamente a partir dali, no apartamento dele, no meu apartamento, depois no nosso apartamento, onde ele aparecia todo dia seis com flores, porque foi num dia seis que eu falei “eu te amo” pela primeira vez para ele; eu lembro que a gente estava deitado vendo um filme qualquer no vídeo e do nada eu falei “eu te amo”, assim, sem nenhum glamour, e ele achou mais bonito ainda por causa disso, e decidiu que seria a “nossa data”, eu concordei, porque também achei bonito isso de festejarmos o primeiro “eu te amo”, ainda mais porque ele não me veio com um banal “eu também”, ele se virou para mim e falou “Garota, você me transforma num louco”, e abri um sorriso por dentro que quase me estourou inteira, mais uma vez aqueles fogos de artifício explodiram e soltaram suas luzes lilases; foi parecido com o que aconteceu quando ele soube que ia ser pai e começou a chorar, e eu chorava também com o exame nas mãos, e ele me abraçou de um jeito terno, me beijou na bochecha, ali era carinho não era tesão, e sussurrou que eu ia ser a mãe mais linda desse mundo, ia ter o filho mais lindo desse mundo, e modéstia à parte acho o Bruno o filho mais lindo desse mundo mesmo, inclusive agora, quando ele já está casado e nos deu a Bia, que, claro, claro, claro, é a neta mais linda desse mundo, e foi concebida lá em Itaipava, não na casa da Lota e da Bishop, mas no sítio que nós compramos ao completar vinte anos juntos e hoje não temos mais, embora permaneça nas fotos da gente por lá, bebendo vinho em torno da lareira, fazendo churrasco, vendo o Bruno ainda pequeno tomar banho na água geladíssima da piscina natural, como se estivesse morna, e acenando para que nós entrássemos também, e nós acabávamos entrando, e ele e o Bruno jogavam pólo aquático, e ele e o Bruno saíam para fazer expedições pela mata, e ele e o Bruno saíam para andar a cavalo, e o Bruno cresceu e conheceu a Monica, que curtia muito o sítio, até que numa época eles passaram a ir mais para lá do que nós, e ela também sentiu uns fogos de artifício espoucarem dentro dela, e esses fogos agora estão lá dentro da Bia, à espera de uma fagulha, parecida com aquela que se acendeu dentro de mim quando ele, tímido, me pediu o telefone na festa do namorado da Claudinha.</p>

<p>Poxa, ele bem que podia ter ligado. </p>]]>
        <![CDATA[<p>Conto publicado no livro <em>Somos todos iguais nesta noite</em> (Rocco, 2006)</p>]]>
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    <title>O braço do pai</title>
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    <id>tag:www.marcelomoutinho.com.br,2007:/contos//1.44</id>
    
    <published>2007-04-13T22:31:34Z</published>
    <updated>2007-04-11T19:11:44Z</updated>
    
    <summary>No sábado passado, enfim fui conferir a peça sobre a vida do Renato Russo. Lembro-me de quando ele morreu. Estava no Maracujina, meu bar de estimação dos tempos de Barra. Lembro também que, ao receber...</summary>
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        <![CDATA[<p>No sábado passado, enfim fui conferir a peça sobre a vida do Renato Russo. Lembro-me de quando ele morreu. Estava no Maracujina, meu bar de estimação dos tempos de Barra. Lembro também que, ao receber a notícia, imediatamente comprei uma ficha, coloquei na jukebox que havia por lá e fiquei ouvindo Teatro dos vampiros. Foi uma tristeza quase transparente de tão triste.</p>

<p>A canção, que ao lado de Andrea Doria e Vento no litoral forma minha trinca preferida no repertório da Legião, não faz parte do espetáculo sobre o Renato, cujo momento mais emocionante se deu quando o ator Bruce Gomlevsky, praticamente incorporando o artista morto, cantou Pais e filhos.</p>

<p>Ao escutar os versos da música, imediatamente pensei no meu velho. Não o do fim dos dias, emagrecido pelo câncer que começou a corroê-lo pelo estômago e acabou por levá-lo, mas o coroa careca e com barriga de chope que trazia sempre um Holywood no bolso da camisa de mangas curtas e piadas infames na boca.</p>

<p>Eu e o pai tínhamos tantas diferenças que, numa determinada época, parecia que nunca chegaríamos a um consenso sobre coisa alguma. Ele, um lacerdista inverterado. Eu, o jovem que queria a Revolução. Ele, machista a ponto de festejar com charutos o nascimento do primeiro filho homem. Eu, desde cedo completamente liberal quanto a costumes, drogas e sexualidade. </p>

<p>É curioso, no entanto, como por detrás dessa capa pesada de querelas radicais percebíamos haver algo que nos vinculava. Não o simples fato de sermos pai e filho, embora evidentemente também isso. Mas uma conexão singular, fortíssima - e silenciosa, como tudo o que vem dos fundos mais fundos da terra.</p>

<p>O velho era retraído. Tinha tanto amor represado dentro dele que não sabia o caminho do desafogo. Quando fiz dezoito anos, ele andava numa fase péssima. Já separado da mãe, mas ainda morando na mesma casa, tocava os dias burocraticamente, quase como um pária.<br />
Naquela tarde, ele chegou no quarto onde eu via um filme esticado na cama. Visivelmente, havia bebido um pouco. Pediu então que eu levantasse, abraçou-me e entregou-me um envelope, com um cartão de crédito dentro. Às lágrimas, sussurou no meu ouvido um lamento daqueles que mais dilaceram, porque nascem da impotência: “Queria te dar um carro”.</p>

<p>O carro que nunca esperei e possivelmente acreditava ser meu presente dos sonhos quando – e nem eu mesmo sabia – ele já me transmitira herança mais valiosa. O gosto por um bom samba do João Nogueira ou uma canção do Herivelto. A reverência sagrada ao Império Serrano. E, sobretudo, a lição de que amor não foi feito pra ser guardado, lição que aprendi porque ele nunca soube – e sofreu por isso.</p>

<p>Sempre que viajava no carro com ele, gostava de me sentar no banco da frente. Nunca soube explicar a razão - talvez seja um comportamento comum aos garotos, uma espécie de rito de passagem da infância, pois já ouvi de amigos relatos semelhantes. </p>

<p>Por ser o mais velho dos homens, em geral tinha lugar garantido, embora o pai demonstrasse preocupação pela vulnerabilidade de quem viaja ali, no caso de um acidente. Toda as vezes em que ele se via obrigado a dar uma freada brusca, ato-contínuo esticava o braço para o lado direito, tentando (ou imaginando tentar) proteger uma possível topada minha contra o pára-brisa. Não estou certo se algum dia chegou a evitar. Em geral eu mesmo me segurava. Mas era bom ter a certeza que ele invariavelmente se mantinha presente para qualquer coisa. Porque hoje dói saber que o braço do pai não está mais por aqui. Nem que seja para me proteger das freadas que dá a vida.</p>]]>
        <![CDATA[<p>Crônica publicada no blog Pentimento</p>]]>
    </content>
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    <title>Serrinha dos sonhos dourados</title>
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    <id>tag:www.marcelomoutinho.com.br,2007:/contos//1.35</id>
    
    <published>2007-04-12T22:28:55Z</published>
    <updated>2007-04-10T22:36:50Z</updated>
    
    <summary>Madureira parou naquela Quarta-Feira de Cinzas, quando uma multidão foi às ruas comemorar o título do Império Serrano ao som de “Bum Bum Paticumbum”. Corria então o ano de 1982, e eu era apenas um...</summary>
    <author>
        <name>Gabriel Lupi</name>
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    </author>
    
    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://www.marcelomoutinho.com.br/contos/">
        <![CDATA[<p>Madureira parou naquela Quarta-Feira de Cinzas, quando uma multidão foi às ruas comemorar o título do Império Serrano ao som de “Bum Bum Paticumbum”. Corria então o ano de 1982, e eu era apenas um garoto que, começando a tatear as coisas da vida, me deslumbrava com as pessoas em festa, debruçado na varanda do sobrado da família. </p>

<p>Não poderia imaginar que a alegria do campeonato não se repetiria. Mais: que o samba composto por Aloísio Machado e pelo saudoso Beto Sem Braço anunciaria, de forma profética, o futuro do próprio Império. Prestes a completar 60 anos, a agremiação hoje parece relegada a segundo plano ante a espetacularização que rege as Superescolas de Samba S.A.</p>

<p>Sem patronos, o Império patenteou desde o berço sua principal marca: a democracia. A escola surgiu da revolta de integrantes da antiga Prazer da Serrinha frente à imposição de um samba ao escolhido pela maioria. Comandado por Sebastião de Oliveira, o Molequinho, o grupo se amotinou e decidiu fundar uma agremiação diferente, na qual não haveria ordens verticais sem debate. Essa aparente utopia ganhou corpo na casa de Dona Eulália, onde foram escolhidos o nome e as cores que pintariam o estandarte. O líder Molequinho queria tingir o Império de ouro e azul, mas, derrotado na votação que consagrou o verde-e-branco, acatou o resultado. Naquele 23 de março de 1947, a vocação libertária se confirmava. </p>

<p>A estréia da nova escola sinalizaria o início de uma trajetória vitoriosa. Já no ano seguinte, o Império faturou o título, o que se repetiu sucessivamente até 1951. Em seis décadas, foram nove conquistas e 10 vice-campeonatos, jóias reluzentes de uma caminhada repleta de desfiles memoráveis que, se muitas vezes não receberam o reconhecimento dos jurados, sempre tiveram a acolhida popular.</p>

<p>Foi o caso da homenagem a Betinho, em 1996, quando a Serrinha passou pela Sapucaí aos prantos. A falta de dinheiro se evidenciava na dimensão dos carros alegóricos e na pobreza das fantasias — e, no entanto, o Império desfilou com vigor e coragem. A beleza, ali, brotava da valentia. Não à toa: de certo modo, assim como o Betinho, éramos almas intensas num corpo frágil — e conscientes disso.</p>

<p>Algo semelhante aconteceu em 2004, quando a escola levantou a Avenida como há tempos não se via ao reviver “Aquarela Brasileira”. A reverência a Silas de Oliveira, compositor que, ao lado de Mano Décio da Viola, formatou o samba-enredo nos moldes clássicos, remetia ao carnaval de outrora: a essência do desfile fora o prazer de brincar, não a riqueza. </p>

<p>Silas, aliás, é responsável por dois outros hinos que figuram entre os mais geniais já escritos: “Heróis da Liberdade” e “Os Cinco Bailes da História do Rio”. E não foi só nisso que o Império inovou. O primeiro destaque, a comissão de frente, os pratos, o reco-reco e o agogô chegaram à Avenida através da Serrinha. </p>

<p>Claro que essa bonita história — contada graças aos sonhos de tantos, mas também ao trabalho admirável de Rachel Valença — tem seus momentos tristes. O maior deles quando a escola resolveu, em seu Jubileu de Ouro, vender-se por 30 dinheiros e cantar a vida de Beto Carrero. Pagou o preço do rebaixamento. São, porém, notas de rodapé que não chegam a tirar o foco da luz que guia o Império: a tradição.</p>

<p>E é justamente pela fidelidade à tradição que a Serrinha se distingue. Muitos defendem que a agremiação se adapte, enverede pelo espetaculoso, já que hoje uma alegoria modesta conta ainda menos do que um samba ruim, numa inversão perversa. Não! Se, com as atuais regras, a escola está fora do jogo, pior para o jogo. Nada contra organização, capricho e requinte. Mas o Império Serrano tem que continuar a ser o “Menino de 47”, de Campolino e Molequinho, a escola da “Serra dos Sonhos Dourados”, o reduto do jongo, a casa de Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara, Mestre Fuleiro e Wilson das Neves. </p>

<p>Imperiano de fé não cansa, não.</p>]]>
        <![CDATA[<p>Artigo publicado no jornal O Globo</p>]]>
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    <title>Na roda do Bip Bip, o tempo pára e a vida fica lá fora</title>
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    <published>2007-04-11T22:30:12Z</published>
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        <![CDATA[<p>Certa vez perguntei ao Chiquinho Genu por que enfim todo domingo, esteja triste ou alegre, disposto ou desanimado, ele pega seu violão e ruma para o Bip Bip. Espécie de líder informal da roda de samba que acontece semanalmente, com a mesma voz rascante que enverniza as canções de Nelson Cavaquinho e Chico Buarque, Genu me respondeu: "Precisamos mostrar para os mais jovens o que é o Bip, porque caberá a eles levar adiante".</p>

<p>Comovente em sua simplicidade, a explicação dá conta do significado maior que alimenta não só a roda do Bip, mas tantas outras que se espalham pelo Rio, alheias a modismos eventuais. Evidentemente, o minúsculo bar da Avenida Almirante Gonçalves tem lá suas peculiaridades, a começar pelo dono. Alfredo Jacinto Mello, o Alfredinho, é a personificação do poema de Maiakovski: "todo coração". Apaixonado pelo Botafogo e pela Mangueira, socialista e cristão daqueles que vão mesmo à missa, é o elemento aglutinador daquela pequena multidão que se reúne no crepúsculo do fim de semana em Copacabana.</p>

<p>Mas para além de qualquer singularidade – e cada espaço decerto tem as suas -, há nesses redutos aquelas relações íntimas de pertencimento que meu saudoso professor e amigo Roberto M. Moura apontou no livro No princípio, era a roda – Um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes. Laços de amizade e sangue são construídos, dores individuais são maceradas em ritmo e álcool, diluídas no canto forte e sinuoso que, num feliz paradoxo, embala o lamento característico de boa parte das letras de samba. "É como se o tempo tivesse parado e o mundo ficasse lá fora", observou Moura.</p>

<p>E a dor que se canta não é só aquela mais comum e profunda: a dos amores que se foram e não se sabe se voltarão. Canta-se também a dor coletiva – no caso específico dos cariocas, a dor das flechas que, como alertaram Aldir Blanc, Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro em Saudades da Guanabara, foram fincadas sobre o corpo frágil do padroeiro São Sebastião. Canta-se a nostalgia de uma cidade que, ainda imune a Cesares e Garotinhos, era mais Cabral pai e menos Cabral Filho. E onde, para nos mantermos no boteco de Aldir/Moacyr, as nossas histórias pessoais escorrem, queiramos ou não.</p>

<p>Essa cidade ainda é possível porque sua alma, embora machucada, viceja em cantos como os que foram citados na matéria ao lado, pequenos recintos nos quais as ondas do momento, sempre passageiras, não imperam. Microcosmos onde a herança é motivo permanente de tributo, sem que isso signifique colocar vendas sobre aquilo que é novo – e, bem processado, encaminha-se para virar memória também. Porque sempre haverá dor, e amores, e histórias escorrendo pelas esquinas. Sempre haverá, enfim, samba. E, se Deus quiser, haverá Bip Bip também - para que a gente possa no domingo ter a fina alegria de atravessar o bar, espremendo-se entre os músicos e os outros freqüentadores, e pedir: "Anota mais uma cerveja, Alfredinho!"</p>]]>
        <![CDATA[<p>Crônica publicada no Jornal do Brasil</p>]]>
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    <title>Uma sublime forma de amor</title>
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    <published>2007-03-30T22:32:09Z</published>
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        <![CDATA[<p>Nem sempre um romance lido quando já vencida a adolescência entra na lista particular (e necessariamente ilógica) dos “livros de nossa vida”. Em geral, os eleitos são sorvidos na quentura da descoberta, naquele momento em que acabamos de olhar para o mundo e perceber que a solidão de alguns, se não exatamente igual, é bastante parecida com a nossa. Pois foi tardiamente que O encontro marcado, de Fernando Sabino, passou a integrar, ao lado de Kafkas e Clarices, a prateleira mais preciosa de minha estante íntima. Lembro dele neste mês de julho, ao ser informado pela folhinha de um calendário que o dia 20 foi consagrado a celebrar a amizade. </p>

<p>A escolha da data, pesquiso, inspirou-se na viagem do homem à lua, que significaria, mais do que uma conquista científica, a chance de arregimentar amigos em outros cantos do universo. Quando Neil Armstrong fincou a bandeira norte-americana, Sabino tinha 33 anos e já havia lançado O encontro marcado. Vivia, portanto, aquela idade em que boa parte das grandes amizades já foram feitas. Seu romance funda-se justamente na história da consolidação do imenso afeto que o uniu a Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino.</p>

<p>É no indecifrável mosaico de elementos intangíveis que servem como argamassa desse sentimento, construído em estridência e silêncio, em dor e sândalo, que Sabino mergulha de forma quase delirante, conseguindo sintetizar, em expressão que se tornaria clássica, a dedicação trágica que é marca inexorável de um amigo. Quem nunca “puxou angústia” ao ouvir um samba triste, ao engolir o quinto chope numa mesa de bar, ao abraçar o colega de trabalho que chegou carregando o mundo junto à maleta?</p>

<p>“Vivíamos em estado permanente de discussão”, ele comentou certa vez, referindo-se às delongas que, superando tempo e geografias, estenderam-se pelos anos posteriores às travessuras da adolescência. Em carta remetida a Hélio, em 1945, Sabino confessava ter o coração cheio de “alegria triste”, e observava: “Há qualquer coisa de comovente nesse encontro de nós quatro assim de longe – tão longe que estamos um do outro, você do Paulo, o Paulo do Otto, o Otto de mim, e no entanto tão juntos, que nossa respiração se confunde, nossas mãos se tocam (...) e há um resto de doçura no olhar de cada um, que é a lembrança dos outros três”. Tal doçura, viçosa e valente, nasce da capacidade de mostrarmos sem medo ou vergonha os nossos corações uns para os outros, como bem definiu um desses amigos que sabem ser doces. Desprendendo-se do romance, Sabino, Hélio, Otto e Paulo esquentam hoje as letras frias daquele 20 de julho grafado no calendário. Mineiramente, eles nos sopram que a amizade é, sobretudo, uma forma de amor.</p>]]>
        <![CDATA[<p>Crônica publicada na Revista do Unibanco</p>]]>
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