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    <title>Contos - Marcleo Moutinho</title>
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    <updated>2008-07-21T20:50:54Z</updated>
    <subtitle>Contos de Marcelo Moutinho - www.marcelomoutinho.com.br</subtitle>
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    <title>Caixas de papelão</title>
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    <published>2008-06-20T03:32:23Z</published>
    <updated>2008-07-21T20:50:54Z</updated>
    
    <summary>As caixas amontoadas tomam todo o apartamento: nossas coisas. Após o fim-de-semana extenuante de separa, embala, fecha, não há quase mais nada nas estantes...</summary>
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        <name>Marcelo Moutinho</name>
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        <![CDATA[<p>As caixas amontoadas tomam todo o apartamento: nossas coisas. </p>

<p>Após o fim-de-semana extenuante de separa, embala, fecha, não há quase mais nada nas estantes - que me olham, cabisbaixas, exprimindo o desamparo de sua súbita prescindibilidade. Retribuo o olhar.</p>

<p>Uma sala cheia de caixas de papelão só não é mais triste do que uma sala vazia. E toda mudança tem um sabor agridoce: se a perspectiva do novo vibra à frente, como uma pista de asfalto fritando no calor, a gente adivinha uma saudade que ainda não chegou. </p>

<p>O garçom do bar que fica no fim da rua, o atendente da livraria-café, o jornaleiro que torce para o Botafogo, o café-da-manhã na sorveteria, o almoço no restaurante a quilo. A vizinha loura que desce, de elevador, sempre com duas borrifadas a mais de perfume. O crepe de frango ao curry, pedido por telefone. O chato que reclama do barulho. O toque estridente da campainha. O porteiro que lê, na encolha, o jornal dos moradores que ainda dormem. O começo da vida a dois.</p>

<p>Ao ver as caixas de papelão, sinto que tudo isso de uma hora para outra deixará de ser familiar, dando lugar a registros outros. Eu e minha dificuldade em deixar as coisas, pessoas. Eu e minha facilidade em construir cotidianos, hábitos. Eu, cindido, flutuando no vácuo entre o que foi e o que virá, nesse limbo estranho e furta-cor.</p>

<p>Durante a arrumação, aquela quantidade absurda de objetos à minha frente afligia. Livros sobre Cuba, sobre a formação do PT. Estudos sobre assuntos que possivelmente nunca mais me interessarão. Cadernetas do Colégio Nossa Senhora da Piedade, óculos e relógios velhos, já fora de moda, trabalhos da faculdade, mágicas da época em que fazia truques para impressionar. </p>

<p>Eu e minha dificuldade em jogar coisas fora.</p>

<p>Diante daquele aglomerado, só pensava ‘mas para que, meu Deus, para quê?’ Qual o objetivo de apinhar os armários com badulaques sem serventia, que só voltarei a visitar numa nova mudança, quando será mais uma vez necessário acondicioná-los para o devido transporte?</p>

<p>Pensava nisso e seguia colocando-os nas caixas de papelão, com todo o esmero. Às vezes, comentava com a F.: ‘caramba, essa calculadora do Mickey eu ganhei quando era muito pequeno mesmo’, ‘nem lembrava que ainda tinha esse livro’. Às vezes, exclamava: ‘meu boletim da sétima série!’; ‘tem uma nota vermelha em Moral e Cívica’, e ria.</p>

<p>À medida que os depositava, aqueles objetos, em sua aparente inutilidade, me recontavam a minha própria história. Fatos que o tempo fez perder o verniz voltaram a cintilar, rostos já esmaecidos tiveram seus contornos refeitos, com impressionante precisão. </p>

<p>Então percebi que, juntas, aquelas coisas que mantenho por esses anos todos constituem uma insólita engrenagem. Uma espécie de máquina da lembrança que está sempre à mão, sempre disposta a ser acionada, sem ficha alguma, para instantaneamente reerguer mundos de dor, contentamento, algaravia e silêncio - e impedir que eu esqueça de mim mesmo. </p>

<p>Talvez por isso eu as guarde.</p>]]>
        
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    <title>Hotel com garagem</title>
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    <published>2008-02-19T21:03:42Z</published>
    <updated>2008-07-21T20:54:28Z</updated>
    
    <summary>Sob o sol preguiçoso do meio da tarde, a nitidez da Praça Tiradentes chega a espantar. No lugar do breu decadente que se espraia como uma coberta espessa a cada vez que o dia apaga...
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        <name>Marcelo Moutinho</name>
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        <![CDATA[<p>Sob o sol preguiçoso do meio da tarde, a nitidez da Praça Tiradentes chega a espantar. No lugar do breu decadente que se espraia como uma coberta espessa a cada vez que o dia apaga, sou capaz de distinguir seus contornos mais recônditos, suas grades, sua aspereza, suas sujeiras, numa clareza opressiva. </p>

<p>O sinal demora a fechar, mas não tenho pressa. À espera da luz verde, passeio vagarosamente os olhos pelas construções e pelas pessoas que correm, ligeiras, perseguindo as horas perdidas. Meu destino é a Saara, onde os apetrechos exigidos por uma festa à fantasia aguardam deitados em bancas ou pendurados nos cabides empoeirados das velhas lojas, entre esfihas e barraquinhas de sorvete - um balé colorido e nostálgico. </p>

<p>No centro da rua, ônibus e carros se atravancam na confusão do trânsito quase parado. Subitamente, seus intervalos transformam-se em corredores, por onde fileiras de homens deslizam como uma imensa centopéia. No João Caetano, o painel anuncia uma peça qualquer a preços populares. Faz calor e penso em comprar um ingresso. Desisto logo. É preciso providenciar os objetos para a fantasia, cumprir o objetivo, a meta, sem desvios, sem subterfúgios. Então confiro novamente o sinal: o tempo parece estancado no verde. É quando noto a moça.</p>

<p>Debruçada sob o parapeito da janela de um edifício na Avenida Passos, ela apóia o cotovelo sobre o outro braço feito uma daquelas bonecas típicas de Tiradentes e contempla o movimento da rua. Não parece triste, apenas distante – enfronhada nos próprios pensamentos. Talvez lamente uma noite ruim, talvez pense nas contas que não fecham, talvez faça planos para as horas que hão de vir. Elas sempre vêm.</p>

<p>Deslocando o olhar, percorro a parede do prédio, andar por andar, até encontrar a portaria. No letreiro, uma pintura já esmaecida informa: ‘Motel’.</p>

<p>Lembro que, quando pequeno, meus pais costumavam dizer que motel era um hotel com garagem embaixo. Durante algum tempo acreditei nisso, e a recordação arranca do meu rosto um sorriso nostálgico. Meus olhos, assim como os da moça, por um segundo fitam a Praça sem enxergá-la.</p>

<p>Mas o foco logo volta ao edifício. A fachada que confessa seu cansaço nos espaços vazados dos rebocos. As feias janelas de alumínio, quase todas fechadas, guardando as promessas da madrugada, quando enfim se abrirão. A entrada do corredor principal. O cartaz pedindo vinte reais pelo período: seis horas, almoço incluído. Por fim a moça, que permanece no vão do terceiro andar, estátua viva, quase parte da construção.</p>

<p>Nos quartos trancados, imagino eu, homens trepam com mulheres, homens com homens, mulheres com mulheres, vários jogos, montagens, formações, gostos, desejos: no 201, o rapaz com a amante mais velha; no 304, o senhor casado que alugou um garoto; no 407, o clássico chefe-secretária; no 409, o casal de estudantes com pouca grana aproveita a promoção (e a refeição) da tarde.</p>

<p>Todos multiplicados nos espelhos da parede e do teto em pernas, braços, mãos, pés, dedos que se entrelaçam, se esfregam, se agridem, se apertam, preenchendo os próprios vazios com carne, fluidos e transpiração, à espera de um gozo incerto, mas obsessivamente buscado.</p>

<p>(Nas TVs de catorze polegadas que enfeitam os aposentos, o gozo é garantido).</p>

<p>O sinal provavelmente já se fechou, abriu, tornou a se fechar, e percebo que a moça se foi. Deixou seu lugar já quase cativo na janela, seja porque combinara de encontrar alguém ou porque queria ir para casa, precisava comprar carne e leite, ou simplesmente dormir. </p>

<p>Na ausência dela, o vão na imensidão azul de concreto é apenas uma moldura. Não demorará até que a faxineira entre no quarto, varra o chão, troque os lençóis, borrifando um spray de cheiro bom no ar. Depois sairá e fechará a porta, a caminho de outro cômodo. </p>

<p>Retomo então o trajeto rumo à Saara e, ao cruzar a Avenida Passos, volto ainda uma vez o olhar. Avisto ao longe a janela do terceiro andar, já cerrada. No escuro, o quarto desocupado decerto espera outra moça. Sem amor, sem tesão, sem suor, sem ninguém. Somente a acachapante solidão dos lençóis brancos, limpíssimos, sobre a cama.</p>

<p><em>Crônica publicada no blog Pentimento</em></p>]]>
        
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    <title>Ipês</title>
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    <published>2007-08-30T17:29:38Z</published>
    <updated>2008-02-19T21:06:29Z</updated>
    
    <summary>Notei quando passava de manhã pelo Aterro do Flamengo: começaram a florescer os ipês. Percebi que o mais apressado deles – o de cor roxa, que fica no finalzinho da Praia de Botafogo, ao lado...</summary>
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        <name>Marcelo Moutinho</name>
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        <![CDATA[<p>Notei quando passava de manhã pelo Aterro do Flamengo: começaram a florescer os ipês.</p>

<p>Percebi que o mais apressado deles – o de cor roxa, que fica no finalzinho da Praia de Botafogo, ao lado de um posto de gasolina – já se abriu em flores lilases. É esse ipê isolado no parque desenhado por Burle Max, solitário em meio ao tráfego, à fumaça e à pressa de todos nós, que precede ano após ano a primavera absolutamente própria da espécie. Porque os ipês não obedecem às estações; florescem de junho a setembro, indiferentes aos recortes do tempo e às medidas dos homens.</p>

<p>Leio que pertencem à família das bignoniáceas, e que seu nome tem origem tupi-guarani, significando ‘pau ou madeira que flutua’. Para mim, contudo, o sentido é outro. Os ipês são um contraponto possível à eventualidade do mau-humor matinal, um rasgo de lirismo no cinza do cotidiano, minha companhia diária no trajeto rumo ao Centro.</p>

<p>E é aquele ipê roxo na última curva da Praia de Botafogo que anuncia a cor da temporada que se inaugura. Como um arco-íris atemporão que se insurge antes mesmo da chuva, ele toca o primeiro acorde, ao qual os outros ipês da cidade prestarão reverência, como se todos eles - peças de um dominó colorido - sentissem a obrigação de envernizar os olhos da cidade em penugens amarelas, rosas, brancas, verdes.</p>

<p>Justamente no período menos ensolarado do ano, ele abre suas asas para debochar da paisagem gelada das ruas, da frieza posada dos que trafegam ligeiros em seus carros turbinados sem percebê-lo, do cheiro acre que o vento retira da Baía de Guanabara e lhe sopra nas folhas, fazendo-as dançar mesmo que não queiram.</p>

<p>Ele é a sílaba tônica, o senão, a epifania plausível na recém-nascida semana. O tom dissonante que torna possível viver as horas seguintes sem a impressão de que são apenas horas, a lufada de ar que empresta oxigênio para o dia todo. </p>

<p>O ipê roxo de Botafogo está alheio aos homens com seus tantos e imensos problemas. Não repara o menino que joga os limões para o alto sinal de trânsito, nem a senhorinha que atravessa a pista com a sacola da Casa & Vídeo nas mãos. Ignora a louca que se julga guarda de trânsito e orienta os motoristas em estranhos movimentos com os braços para um lado e para o outro. Desconhece o preço do táxi, do cinema, da chapinha no cabelo, do prêmio da Mega-Sena. E mantém-se em silêncio, na quietude de quem a tudo ignora para apenas estar ali, na última curva antes da Praia do Flamengo, oferecendo uma visão singela a quem o espreita, por um instante que seja, numa manhã de segunda-feira.</p>

<p><em>Crônica publicada no blog Pentimento</em></p>]]>
        
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    <title>Fogos</title>
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    <published>2007-06-20T19:37:59Z</published>
    <updated>2007-06-20T19:40:31Z</updated>
    
    <summary>Tudo começou com um pedaço de guardanapo, que entreguei a ele já meio bêbada, depois que dançamos duas músicas juntos na festa do namorado da Claudinha; havíamos conversado um pouco, ele arquiteto e interessado em...</summary>
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        <![CDATA[<p>Tudo começou com um pedaço de guardanapo, que entreguei a ele já meio bêbada, depois que dançamos duas músicas juntos na festa do namorado da Claudinha; havíamos conversado um pouco, ele arquiteto e interessado em design, essas coisas, eu dizendo que adorava arquitetura mas detestava o modernismo, e o papo correu para Itaipava por causa da Lota de Macedo Soares, e eu falei que sonhava morar naquela casa em que ela morou com a Elizabeth Bishop e tinha lido o livro sobre a vida das duas, aí ele riu e brincou: “mas aquela casa é em estilo modernista”, eu fiquei sem graça mas não dei bandeira não, fui logo retrucando que na casa delas, mesmo sendo modernista, eu moraria feliz, por causa da história de amor entre as duas; ele me chamou de romântica e perguntei se ele não se considerava romântico; “mais ou menos”, respondeu, um pouco vermelho, envergando o rosto para baixo; então eu toquei com meus dedos bem perto da orelha dele e acariciei até o pescoço; senti que ele arrepiou o corpo todo e ficou ainda mais envergonhado, mas apesar disso pediu meu telefone porque precisava ir embora; eu consegui uma caneta com a Claudinha e anotei no guardanapo de papel ainda com a gordura da bolinha de queijo que acabara de comer porque era o que de mais perto havia, e de repente comecei a sentir uns fogos de artifício estalando dentro de mim, bem no lugar onde havia a bolha branca que parecia só crescer crescer crescer crescer sem que nunca explodisse de vez; e depois do guardanapo nos falamos e resolvemos ir ao cinema, e fiquei feliz à beça quando soube que ele também adorava o Woody Allen e que Manhattan era um dos filmes de sua vida, assim como é da minha, e ficamos quase três horas falando sobre Woody Allen e tomando cerveja de garrafa na mesa de um boteco perto do cinema; dali fomos para a casa dele sob o pretexto de um café que nunca bebemos, porque logo ao entrar naquela sala amarela eu pulei em cima dele como um cachorro pula em cima do outro, envolvi minhas pernas em volta da cintura dele e comecei a lamber aquela boca carnuda; ele tinha uns lábios grossos que me despertavam tesão, mordi o seu pescoço até machucar, enquanto esfregava os pés na bunda dele, e as pernas nas pernas dele, que tirou a blusa de forma meio desengonçada, e depois as calças, e depois a cueca, eu já completamente nua porque eu era o bicho e ele, a presa, e transamos ali mesmo, na sala, deitados sob o tapete que espetava as costas, pois não ligávamos para essas mumunhas; o que importava era a língua dele girando dentro de mim e eu quase virando água, depois ele me comendo como nunca ninguém havia comido e o corpo tremendo sozinho quase meia hora depois de ele ter gozado, espasmos curtos e sucessivos, enquanto me olhava com cara de cabotino; e dormimos juntos ali mesmo, sobre o tapete que espeta; era como se estivéssemos dormindo no mais caro colchão já fabricado, no mais macio, no mais cheiroso; e o cheiro do colchão se misturava ao cheiro dele, cheiro de homem, sabe como é?, e potencializava o perfume Calvin Klein que saía do alto do pescoço, naquela região onde eu mais gostava de me aninhar e ainda não sabia, e onde me aninhei naquele dia pela primeira vez, no chão da sala amarela do apartamento dele, os livros em volta, os quadros em volta, os papéis de arquiteto em volta, acordando com um beijo leve na testa e a pequena bandeja com café, pão francês, queijo branco e geléia de amoras, não sei como ele descobriu que gosto de geléia de amoras, talvez eu tivesse dito na festa, já meio bêbada, e tomamos o café-da-manhã juntos, agarradinhos, depois fomos caminhar nas Paineiras, e depois almoçar num bistrô charmoso “que só ele conhecia”, e então voltamos para o apartamento dele precisando de ouvir música, Caetano, Edu, Francis, algum jazz e umas coisas que ele trouxe, todo pimpão, da Europa, e transamos transamos transamos, como iríamos transar quase que diariamente a partir dali, no apartamento dele, no meu apartamento, depois no nosso apartamento, onde ele aparecia todo dia seis com flores, porque foi num dia seis que eu falei “eu te amo” pela primeira vez para ele; eu lembro que a gente estava deitado vendo um filme qualquer no vídeo e do nada eu falei “eu te amo”, assim, sem nenhum glamour, e ele achou mais bonito ainda por causa disso, e decidiu que seria a “nossa data”, eu concordei, porque também achei bonito isso de festejarmos o primeiro “eu te amo”, ainda mais porque ele não me veio com um banal “eu também”, ele se virou para mim e falou “Garota, você me transforma num louco”, e abri um sorriso por dentro que quase me estourou inteira, mais uma vez aqueles fogos de artifício explodiram e soltaram suas luzes lilases; foi parecido com o que aconteceu quando ele soube que ia ser pai e começou a chorar, e eu chorava também com o exame nas mãos, e ele me abraçou de um jeito terno, me beijou na bochecha, ali era carinho não era tesão, e sussurrou que eu ia ser a mãe mais linda desse mundo, ia ter o filho mais lindo desse mundo, e modéstia à parte acho o Bruno o filho mais lindo desse mundo mesmo, inclusive agora, quando ele já está casado e nos deu a Bia, que, claro, claro, claro, é a neta mais linda desse mundo, e foi concebida lá em Itaipava, não na casa da Lota e da Bishop, mas no sítio que nós compramos ao completar vinte anos juntos e hoje não temos mais, embora permaneça nas fotos da gente por lá, bebendo vinho em torno da lareira, fazendo churrasco, vendo o Bruno ainda pequeno tomar banho na água geladíssima da piscina natural, como se estivesse morna, e acenando para que nós entrássemos também, e nós acabávamos entrando, e ele e o Bruno jogavam pólo aquático, e ele e o Bruno saíam para fazer expedições pela mata, e ele e o Bruno saíam para andar a cavalo, e o Bruno cresceu e conheceu a Monica, que curtia muito o sítio, até que numa época eles passaram a ir mais para lá do que nós, e ela também sentiu uns fogos de artifício espoucarem dentro dela, e esses fogos agora estão lá dentro da Bia, à espera de uma fagulha, parecida com aquela que se acendeu dentro de mim quando ele, tímido, me pediu o telefone na festa do namorado da Claudinha.</p>

<p>Poxa, ele bem que podia ter ligado. </p>]]>
        <![CDATA[<p>Conto publicado no livro <em>Somos todos iguais nesta noite</em> (Rocco, 2006)</p>]]>
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    <title>O braço do pai</title>
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    <published>2007-04-13T22:31:34Z</published>
    <updated>2007-04-11T19:11:44Z</updated>
    
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    <author>
        <name>Gabriel Lupi</name>
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        <![CDATA[<p>No sábado passado, enfim fui conferir a peça sobre a vida do Renato Russo. Lembro-me de quando ele morreu. Estava no Maracujina, meu bar de estimação dos tempos de Barra. Lembro também que, ao receber a notícia, imediatamente comprei uma ficha, coloquei na jukebox que havia por lá e fiquei ouvindo Teatro dos vampiros. Foi uma tristeza quase transparente de tão triste.</p>

<p>A canção, que ao lado de Andrea Doria e Vento no litoral forma minha trinca preferida no repertório da Legião, não faz parte do espetáculo sobre o Renato, cujo momento mais emocionante se deu quando o ator Bruce Gomlevsky, praticamente incorporando o artista morto, cantou Pais e filhos.</p>

<p>Ao escutar os versos da música, imediatamente pensei no meu velho. Não o do fim dos dias, emagrecido pelo câncer que começou a corroê-lo pelo estômago e acabou por levá-lo, mas o coroa careca e com barriga de chope que trazia sempre um Holywood no bolso da camisa de mangas curtas e piadas infames na boca.</p>

<p>Eu e o pai tínhamos tantas diferenças que, numa determinada época, parecia que nunca chegaríamos a um consenso sobre coisa alguma. Ele, um lacerdista inverterado. Eu, o jovem que queria a Revolução. Ele, machista a ponto de festejar com charutos o nascimento do primeiro filho homem. Eu, desde cedo completamente liberal quanto a costumes, drogas e sexualidade. </p>

<p>É curioso, no entanto, como por detrás dessa capa pesada de querelas radicais percebíamos haver algo que nos vinculava. Não o simples fato de sermos pai e filho, embora evidentemente também isso. Mas uma conexão singular, fortíssima - e silenciosa, como tudo o que vem dos fundos mais fundos da terra.</p>

<p>O velho era retraído. Tinha tanto amor represado dentro dele que não sabia o caminho do desafogo. Quando fiz dezoito anos, ele andava numa fase péssima. Já separado da mãe, mas ainda morando na mesma casa, tocava os dias burocraticamente, quase como um pária.<br />
Naquela tarde, ele chegou no quarto onde eu via um filme esticado na cama. Visivelmente, havia bebido um pouco. Pediu então que eu levantasse, abraçou-me e entregou-me um envelope, com um cartão de crédito dentro. Às lágrimas, sussurou no meu ouvido um lamento daqueles que mais dilaceram, porque nascem da impotência: “Queria te dar um carro”.</p>

<p>O carro que nunca esperei e possivelmente acreditava ser meu presente dos sonhos quando – e nem eu mesmo sabia – ele já me transmitira herança mais valiosa. O gosto por um bom samba do João Nogueira ou uma canção do Herivelto. A reverência sagrada ao Império Serrano. E, sobretudo, a lição de que amor não foi feito pra ser guardado, lição que aprendi porque ele nunca soube – e sofreu por isso.</p>

<p>Sempre que viajava no carro com ele, gostava de me sentar no banco da frente. Nunca soube explicar a razão - talvez seja um comportamento comum aos garotos, uma espécie de rito de passagem da infância, pois já ouvi de amigos relatos semelhantes. </p>

<p>Por ser o mais velho dos homens, em geral tinha lugar garantido, embora o pai demonstrasse preocupação pela vulnerabilidade de quem viaja ali, no caso de um acidente. Toda as vezes em que ele se via obrigado a dar uma freada brusca, ato-contínuo esticava o braço para o lado direito, tentando (ou imaginando tentar) proteger uma possível topada minha contra o pára-brisa. Não estou certo se algum dia chegou a evitar. Em geral eu mesmo me segurava. Mas era bom ter a certeza que ele invariavelmente se mantinha presente para qualquer coisa. Porque hoje dói saber que o braço do pai não está mais por aqui. Nem que seja para me proteger das freadas que dá a vida.</p>]]>
        <![CDATA[<p>Crônica publicada no blog Pentimento</p>]]>
    </content>
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    <title>Serrinha dos sonhos dourados</title>
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    <id>tag:www.marcelomoutinho.com.br,2007:/contos//1.35</id>
    
    <published>2007-04-12T22:28:55Z</published>
    <updated>2007-04-10T22:36:50Z</updated>
    
    <summary>Madureira parou naquela Quarta-Feira de Cinzas, quando uma multidão foi às ruas comemorar o título do Império Serrano ao som de “Bum Bum Paticumbum”. Corria então o ano de 1982, e eu era apenas um...</summary>
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        <name>Gabriel Lupi</name>
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        <![CDATA[<p>Madureira parou naquela Quarta-Feira de Cinzas, quando uma multidão foi às ruas comemorar o título do Império Serrano ao som de “Bum Bum Paticumbum”. Corria então o ano de 1982, e eu era apenas um garoto que, começando a tatear as coisas da vida, me deslumbrava com as pessoas em festa, debruçado na varanda do sobrado da família. </p>

<p>Não poderia imaginar que a alegria do campeonato não se repetiria. Mais: que o samba composto por Aloísio Machado e pelo saudoso Beto Sem Braço anunciaria, de forma profética, o futuro do próprio Império. Prestes a completar 60 anos, a agremiação hoje parece relegada a segundo plano ante a espetacularização que rege as Superescolas de Samba S.A.</p>

<p>Sem patronos, o Império patenteou desde o berço sua principal marca: a democracia. A escola surgiu da revolta de integrantes da antiga Prazer da Serrinha frente à imposição de um samba ao escolhido pela maioria. Comandado por Sebastião de Oliveira, o Molequinho, o grupo se amotinou e decidiu fundar uma agremiação diferente, na qual não haveria ordens verticais sem debate. Essa aparente utopia ganhou corpo na casa de Dona Eulália, onde foram escolhidos o nome e as cores que pintariam o estandarte. O líder Molequinho queria tingir o Império de ouro e azul, mas, derrotado na votação que consagrou o verde-e-branco, acatou o resultado. Naquele 23 de março de 1947, a vocação libertária se confirmava. </p>

<p>A estréia da nova escola sinalizaria o início de uma trajetória vitoriosa. Já no ano seguinte, o Império faturou o título, o que se repetiu sucessivamente até 1951. Em seis décadas, foram nove conquistas e 10 vice-campeonatos, jóias reluzentes de uma caminhada repleta de desfiles memoráveis que, se muitas vezes não receberam o reconhecimento dos jurados, sempre tiveram a acolhida popular.</p>

<p>Foi o caso da homenagem a Betinho, em 1996, quando a Serrinha passou pela Sapucaí aos prantos. A falta de dinheiro se evidenciava na dimensão dos carros alegóricos e na pobreza das fantasias — e, no entanto, o Império desfilou com vigor e coragem. A beleza, ali, brotava da valentia. Não à toa: de certo modo, assim como o Betinho, éramos almas intensas num corpo frágil — e conscientes disso.</p>

<p>Algo semelhante aconteceu em 2004, quando a escola levantou a Avenida como há tempos não se via ao reviver “Aquarela Brasileira”. A reverência a Silas de Oliveira, compositor que, ao lado de Mano Décio da Viola, formatou o samba-enredo nos moldes clássicos, remetia ao carnaval de outrora: a essência do desfile fora o prazer de brincar, não a riqueza. </p>

<p>Silas, aliás, é responsável por dois outros hinos que figuram entre os mais geniais já escritos: “Heróis da Liberdade” e “Os Cinco Bailes da História do Rio”. E não foi só nisso que o Império inovou. O primeiro destaque, a comissão de frente, os pratos, o reco-reco e o agogô chegaram à Avenida através da Serrinha. </p>

<p>Claro que essa bonita história — contada graças aos sonhos de tantos, mas também ao trabalho admirável de Rachel Valença — tem seus momentos tristes. O maior deles quando a escola resolveu, em seu Jubileu de Ouro, vender-se por 30 dinheiros e cantar a vida de Beto Carrero. Pagou o preço do rebaixamento. São, porém, notas de rodapé que não chegam a tirar o foco da luz que guia o Império: a tradição.</p>

<p>E é justamente pela fidelidade à tradição que a Serrinha se distingue. Muitos defendem que a agremiação se adapte, enverede pelo espetaculoso, já que hoje uma alegoria modesta conta ainda menos do que um samba ruim, numa inversão perversa. Não! Se, com as atuais regras, a escola está fora do jogo, pior para o jogo. Nada contra organização, capricho e requinte. Mas o Império Serrano tem que continuar a ser o “Menino de 47”, de Campolino e Molequinho, a escola da “Serra dos Sonhos Dourados”, o reduto do jongo, a casa de Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara, Mestre Fuleiro e Wilson das Neves. </p>

<p>Imperiano de fé não cansa, não.</p>]]>
        <![CDATA[<p>Artigo publicado no jornal O Globo</p>]]>
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    <title>Na roda do Bip Bip, o tempo pára e a vida fica lá fora</title>
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    <published>2007-04-11T22:30:12Z</published>
    <updated>2007-04-10T17:32:08Z</updated>
    
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        <![CDATA[<p>Certa vez perguntei ao Chiquinho Genu por que enfim todo domingo, esteja triste ou alegre, disposto ou desanimado, ele pega seu violão e ruma para o Bip Bip. Espécie de líder informal da roda de samba que acontece semanalmente, com a mesma voz rascante que enverniza as canções de Nelson Cavaquinho e Chico Buarque, Genu me respondeu: "Precisamos mostrar para os mais jovens o que é o Bip, porque caberá a eles levar adiante".</p>

<p>Comovente em sua simplicidade, a explicação dá conta do significado maior que alimenta não só a roda do Bip, mas tantas outras que se espalham pelo Rio, alheias a modismos eventuais. Evidentemente, o minúsculo bar da Avenida Almirante Gonçalves tem lá suas peculiaridades, a começar pelo dono. Alfredo Jacinto Mello, o Alfredinho, é a personificação do poema de Maiakovski: "todo coração". Apaixonado pelo Botafogo e pela Mangueira, socialista e cristão daqueles que vão mesmo à missa, é o elemento aglutinador daquela pequena multidão que se reúne no crepúsculo do fim de semana em Copacabana.</p>

<p>Mas para além de qualquer singularidade – e cada espaço decerto tem as suas -, há nesses redutos aquelas relações íntimas de pertencimento que meu saudoso professor e amigo Roberto M. Moura apontou no livro No princípio, era a roda – Um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes. Laços de amizade e sangue são construídos, dores individuais são maceradas em ritmo e álcool, diluídas no canto forte e sinuoso que, num feliz paradoxo, embala o lamento característico de boa parte das letras de samba. "É como se o tempo tivesse parado e o mundo ficasse lá fora", observou Moura.</p>

<p>E a dor que se canta não é só aquela mais comum e profunda: a dos amores que se foram e não se sabe se voltarão. Canta-se também a dor coletiva – no caso específico dos cariocas, a dor das flechas que, como alertaram Aldir Blanc, Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro em Saudades da Guanabara, foram fincadas sobre o corpo frágil do padroeiro São Sebastião. Canta-se a nostalgia de uma cidade que, ainda imune a Cesares e Garotinhos, era mais Cabral pai e menos Cabral Filho. E onde, para nos mantermos no boteco de Aldir/Moacyr, as nossas histórias pessoais escorrem, queiramos ou não.</p>

<p>Essa cidade ainda é possível porque sua alma, embora machucada, viceja em cantos como os que foram citados na matéria ao lado, pequenos recintos nos quais as ondas do momento, sempre passageiras, não imperam. Microcosmos onde a herança é motivo permanente de tributo, sem que isso signifique colocar vendas sobre aquilo que é novo – e, bem processado, encaminha-se para virar memória também. Porque sempre haverá dor, e amores, e histórias escorrendo pelas esquinas. Sempre haverá, enfim, samba. E, se Deus quiser, haverá Bip Bip também - para que a gente possa no domingo ter a fina alegria de atravessar o bar, espremendo-se entre os músicos e os outros freqüentadores, e pedir: "Anota mais uma cerveja, Alfredinho!"</p>]]>
        <![CDATA[<p>Crônica publicada no Jornal do Brasil</p>]]>
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    <title>Uma sublime forma de amor</title>
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    <published>2007-03-30T22:32:09Z</published>
    <updated>2007-04-10T17:35:39Z</updated>
    
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        <![CDATA[<p>Nem sempre um romance lido quando já vencida a adolescência entra na lista particular (e necessariamente ilógica) dos “livros de nossa vida”. Em geral, os eleitos são sorvidos na quentura da descoberta, naquele momento em que acabamos de olhar para o mundo e perceber que a solidão de alguns, se não exatamente igual, é bastante parecida com a nossa. Pois foi tardiamente que O encontro marcado, de Fernando Sabino, passou a integrar, ao lado de Kafkas e Clarices, a prateleira mais preciosa de minha estante íntima. Lembro dele neste mês de julho, ao ser informado pela folhinha de um calendário que o dia 20 foi consagrado a celebrar a amizade. </p>

<p>A escolha da data, pesquiso, inspirou-se na viagem do homem à lua, que significaria, mais do que uma conquista científica, a chance de arregimentar amigos em outros cantos do universo. Quando Neil Armstrong fincou a bandeira norte-americana, Sabino tinha 33 anos e já havia lançado O encontro marcado. Vivia, portanto, aquela idade em que boa parte das grandes amizades já foram feitas. Seu romance funda-se justamente na história da consolidação do imenso afeto que o uniu a Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino.</p>

<p>É no indecifrável mosaico de elementos intangíveis que servem como argamassa desse sentimento, construído em estridência e silêncio, em dor e sândalo, que Sabino mergulha de forma quase delirante, conseguindo sintetizar, em expressão que se tornaria clássica, a dedicação trágica que é marca inexorável de um amigo. Quem nunca “puxou angústia” ao ouvir um samba triste, ao engolir o quinto chope numa mesa de bar, ao abraçar o colega de trabalho que chegou carregando o mundo junto à maleta?</p>

<p>“Vivíamos em estado permanente de discussão”, ele comentou certa vez, referindo-se às delongas que, superando tempo e geografias, estenderam-se pelos anos posteriores às travessuras da adolescência. Em carta remetida a Hélio, em 1945, Sabino confessava ter o coração cheio de “alegria triste”, e observava: “Há qualquer coisa de comovente nesse encontro de nós quatro assim de longe – tão longe que estamos um do outro, você do Paulo, o Paulo do Otto, o Otto de mim, e no entanto tão juntos, que nossa respiração se confunde, nossas mãos se tocam (...) e há um resto de doçura no olhar de cada um, que é a lembrança dos outros três”. Tal doçura, viçosa e valente, nasce da capacidade de mostrarmos sem medo ou vergonha os nossos corações uns para os outros, como bem definiu um desses amigos que sabem ser doces. Desprendendo-se do romance, Sabino, Hélio, Otto e Paulo esquentam hoje as letras frias daquele 20 de julho grafado no calendário. Mineiramente, eles nos sopram que a amizade é, sobretudo, uma forma de amor.</p>]]>
        <![CDATA[<p>Crônica publicada na Revista do Unibanco</p>]]>
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    <title>Entre dores e delícias, a literatura dos tempos de hoje</title>
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    <published>2007-03-30T22:31:52Z</published>
    <updated>2007-03-30T22:32:05Z</updated>
    
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        <![CDATA[<p>No polêmico O cânone ocidental – Os livros e a escola do tempo, Harold Bloom faz o elogio da tradição em contrapartida ao questionável relativismo pregado pelas cátedras dos chamados “estudos culturais”. Logo na primeira frase do prefácio, contudo, o professor da Universidade de Yale admite que, ao eleger e estudar 26 dos mais respeitados autores da literatura mundial, deixou-se “necessariamente” levar por “certa nostalgia”. Felizmente, a “nostalgia” de Bloom, como a leitura atenta do livro comprova, refere-se à natural influência dos antigos sobre os novos escritores, num processo que envolve transmissão e também desvios, conflito entre gênios passados e aspirações presentes. “Poemas, contos, romances e peças nascem como uma resposta a poemas, contos, romances e peças anteriores, e essa resposta depende de atos de leitura e interpretação pelos escritores posteriores”, anota ele.</p>

<p>Sob esse aspecto, o raciocínio revela-se bem azeitado. O problema é que, pelo menos no caso brasileiro, tanto a Academia, quanto boa parte da crítica apegam-se a outro tipo de “nostalgia”. Como que usando antolhos às avessas, simplesmente parecem ignorar aqueles que surgem como potenciais novos atores da cena literária. Recordo-me que, há cerca de três anos, conversava com um professor sobre a possibilidade de cursar o mestrado em Letras, tendo como foco de estudos os textos veiculados nos blogs, então em pleno processo de disseminação. “A maioria da banca nem saberá do que se trata”, foi o comentário dele a respeito da proposta. Esse “saudosismo” que engessa setores da crítica e da universidade não se deve apenas à (desejada) ânsia pelo “rigor”; comporta também o receio do equívoco ao ratificar “talentos” ainda não legitimados.</p>

<p>Só para nos mantermos na seara da prosa, abundam em universidades e livrarias teses e monografias sobre Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e tantos outros que ajudaram a construir a “tradição” brasileira. Também merecem a deferência de pesquisadores e editoras nomes mais contemporâneos, como Sérgio Sant’anna, Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu... Todos eles, sem dúvida, mui dignos da atenção dispensada. Mas a quem o bastão será entregue? </p>

<p>Caso os próprios autores que tentam romper esse círculo vicioso não começassem a forçar passagem, provavelmente tal bastão não sairia do lugar. E o rompimento vem se dando a partir de várias frentes. De edições independentes, que lutam bravamente contra as imensas dificuldades de distribuição e penetração na mídia especializada; dos blogs, que - vale lembrar - constituem um meio, e não um fim, e facilitam a “publicação” dos textos e o contato inicial com um público-leitor; de oficinas e saraus que se multiplicam espontaneamente; e de iniciativas como a revista Paralelos, com seu fundamental trabalho de mapeamento em nível nacional.</p>

<p>O lançamento da coletânea Prosas cariocas – Uma nova cartografia do Rio e o conseqüentes debate A nova prosa carioca, promovido pelo Espaço Sesc, vêm somar-se a esse grande movimento cuja meta primeira é a visibilidade - não sob a perspectiva espúria do ingresso no mundo cor-de-rosa das “celebrities”, mas sob a premissa de que escritores escrevem para serem lidos. O livro Prosas cariocas, organizado por mim em parceria com o jornalista e escritor Flávio Izhaki, reúne alguns desses novos escribas, cuja produção não pode continuar a ser ignorada a priori. O conjunto de 17 contos expõe uma visão sobre o panorama literário da cidade, e os 17 escritores esperam que possíveis avaliações tenham como base dados concretos - ou seja, a leitura de seus textos -, e não abstrações que preguiçosamente estão sempre à mão, sobretudo daqueles que, “nostálgicos”, não se dispõem a procurar.</p>

<p>Estão aí, atrás de publicação individual, Ana Beatriz Guerra, Antonia Pellegrino, Augusto Sales, Cecilia Giannetti, o já citado Flávio, Henrique Rodrigues, Marcelo Alves, Mariel Reis, Miguel Conde, Sidney Silveira e Vinicius Martinelli Jatobá. Estão aí, dando seguimento à trajetória já iniciada, Bianca Ramoneda, João Paulo Cuenca, Juva Batella e Mara Coradello. Está aí Adriana Lisboa, chegando ao quarto livro. E estão aí também autores como Tatiana Salem Levy, Pedro Sussekind, Simone Campos e Rosana Caiado, que não entraram no Prosas cariocas, mas têm ajudado a oxigenar nossa literatura ao dar efetividade prática ao mister a que se propuseram – escrever –, sem chororô e com entusiasmo. Apesar de o artigo ter como objeto autores-revelação no âmbito do Rio de Janeiro, não falamos de um “fenômeno” carioca. O espectro é mais amplo, como o demonstram Santiago Nazarian, Índigo, Joca Reiners Terron, entre tantos ao redor do país. E nem mesmo restringe-se às Letras, já que em outras áreas – o teatro, as artes plásticas, o cinema, para ficarmos só com três exemplos - ocorrem movimentações semelhantes.</p>

<p>Em meio a esse crescente grupo de escritores, cada um com seu estilo (alguns ainda em processo de afirmação), cada um com suas influências (alguns ainda demasiadamente presos a elas), entre textos mais afeitos às escolas clássicas e narrativas mais experimentais, há decerto flutuações de qualidade. Talvez haja também o deslumbre marcadamente pós-moderno (e bastante compreensível) em torno da “originalidade”; a impressão de se ser  “Adão de manhã cedo”, para recorrer novamente a Bloom. Independentemente disso – e então me incluo taxativamente -, somos a dor e a delícia dos tempos de hoje, da literatura que se faz nos tempos de hoje, ou “as flores do mal e do bem do florilégio de uma época”, como bem frisou Nelson de Oliveira ao apresentar, há dez anos, outra seleta de quase-calouros.</p>

<p>Nesse recorte subjetivo, cuja construção se segue com empreitadas coletivas e individuais, novos nomes com certeza entrarão. Outros, desaparecerão antes mesmo de constituir uma “obra”. Importa é que uma geração inteira de escritores começa a pleitear um minuto da atenção, um minuto de leitura e uma postura menos passiva das editoras, em geral tão conservadoras na hora de arriscar. E arriscar, como observou o sagaz Flávio Izhaki, “não significa transformar blogs muito visitados em papel couché”, mas filtrar o que há de precioso e ainda inédito, ou ainda garimpar promissoras pedras brutas - e burilá-las.</p>]]>
        <![CDATA[<p>Artigo publicado no site Portal Literal</p>]]>
    </content>
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    <title>Superescolas de samba S.A.</title>
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    <published>2007-03-30T22:31:16Z</published>
    <updated>2007-03-30T22:31:30Z</updated>
    
    <summary>Nasci em Madureira há quase 32 anos. Passei parte da infância no bairro, entre as ruas Carvalho de Souza e Edgar Romero, onde ficava a loja de meu pai. Cercado por uma família de portelenses,...</summary>
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        <![CDATA[<p>Nasci em Madureira há quase 32 anos. Passei parte da infância no bairro, entre as ruas Carvalho de Souza e Edgar Romero, onde ficava a loja de meu pai. Cercado por uma família de portelenses, aprendi desde cedo a amar o Império Serrano, ainda num tempo em que a escola costumava brigar pelas primeiras colocações. </p>

<p>Cresci acompanhando o processo que a fez submergir numa inglória batalha contra as dificuldades profeticamente anunciadas no célebre desfile de 1982. Em "Bum bum paticumbum prugurundum", enredo com o qual conquistou seu último título, a verde e branco de Madureira alertava contra a megalomania que começava a tomar conta dos desfiles das agremiações e do carnaval. "Superescolas de samba S.A. / Superalegorias / Escondendo gente bamba / Que covardia" — diziam os versos de Beto Sem Braço e Aluízio Machado. Mal se sabia que o problema para o qual alertavam os dois compositores acabaria vitimando o próprio Império. <br />
Impotente diante da maior capacidade financeira das co-irmãs, despedaçada em razão de brigas políticas, a escola entrou num processo de sobe-e-desce entre os grupos Especial e de Acesso. Tal ambivalência espelhava involuntariamente uma indecisão entre o mergulho na própria tradição — que historicamente revelou uma postura crítica e combativa — e a aposta em enredos economicamente interessantes, como a lamentável homenagem a Beto Carreiro. <br />
Felizmente, este pêndulo nos últimos anos atou-se com mais firmeza à primeira opção. E a escolha de "Aquarela brasileira" — hino de Silas de Oliveira que animou o carnaval de 1964 — para a festa deste ano foi a confirmação disso. Malgrado as disputas internas, o Império conseguiu extrair deste retorno à sua seiva mais vital — a história — uma poderosa energia, um entusiasmo que chegou a extrapolar os limites de sua pequena mas fiel torcida. <br />
Foi impressionante a forma como a agremiação amealhou simpatias. Durante o período de ensaios, a quadra esteve cheia como nunca. Aos moradores de Madureira e da Serrinha, aos que sofrem ano a ano com a batalha do Império pela sobrevivência, juntou-se gente de toda a cidade. Havia saudosos da uma época em que o carnaval era cantado em composições como a do mestre Silas. Havia jovens da Zona Sul, aqueles mesmos que ajudaram a revitalizar o samba nas rodas que se espalharam por todo o Rio de Janeiro. Havia, sobretudo, uma enorme emoção no ar, que se traduzia na expectativa de entrar na Marquês de Sapucaí cantando a plenos pulmões a nossa "maravilha de cenário". </p>

<p>Toda esta expectativa foi confirmada na última segunda-feira. Mesmo diante das complicações pré-carnavalescas, como a verba engessada pela Justiça que prejudicou, por exemplo, os trabalhos de finalização dos carros alegóricos, a escola fez um desfile memorável. Não pelo aspecto técnico — as alegorias evidentemente não tinham riqueza comparável à das agremiações mais poderosas e apresentavam problemas de acabamento, as fantasias não primavam pela criatividade —, mas pela empatia imediata com o público, pela bateria impecavelmente harmônica, pelos componentes que cantaram "Aquarela brasileira" como se fosse um mantra. Como bem definiu o imperiano Zuenir Ventura, vivemos a "emoção que um bom samba pode produzir", para além da "indigestão de beleza que ronda as escolas". </p>

<p>Terminado o desfile, boa parte dos que desfilaram seguiu caminhando pelo túnel em direção à Lapa. O samba ainda era cantado com euforia, em olhares cúmplices. Nas mãos, já um tanto combalidas pela chuva, as fantasias. Nas bocas, sorrisos serenos. No coração, a certeza de que no sábado estaríamos de volta, para reviver aquele episódio único. Mas episódios únicos não são revividos — e os jurados, do alto de seus tecnicismos, encarregaram-se de nos provar esta assertiva. Na Avenida, foram 80 minutos lúdicos, em que construímos juntos uma beleza simples, em que sentimos soar verdadeiramente os pequeninos guizos do que se pode chamar felicidade. Para além das notas, nós brincamos nosso carnaval. Diante disso tudo, da alegria que foi estar na Sapucaí, da frustração de não poder voltar, uma certeza é perene: restarão apenas lembranças boas — e um lamento. </p>

<p>Ah, senhores jurados, nós só queríamos brincar mais um pouco... </p>]]>
        <![CDATA[<p>Artigo publicado no jornal O Globo</p>]]>
    </content>
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    <title>Luminosidade no breu</title>
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    <id>tag:www.marcelomoutinho.com.br,2007:/contos//1.42</id>
    
    <published>2007-03-30T22:30:57Z</published>
    <updated>2007-03-30T22:31:12Z</updated>
    
    <summary>O poeta Eugénio de Andrade buscava o sublime nas pequenas coisas É emblemático, mas não surpreendente, que a morte de Eugénio de Andrade tenha sido ignorada quase unanimemente pelos suplementos culturais dos jornais brasileiros. Afinal,...</summary>
    <author>
        <name>Gabriel Lupi</name>
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        <![CDATA[<p><strong>O poeta Eugénio de Andrade buscava o sublime nas pequenas coisas </strong></p>

<p>É emblemático, mas não surpreendente, que a morte de Eugénio de Andrade tenha sido ignorada quase unanimemente pelos suplementos culturais dos jornais brasileiros. Afinal, apesar de certamente estar entre os grandes de nosso tempo, o poeta português é pouquíssimo conhecido neste país, que, se mal olha para a poesia feita em seu território, atenta menos ainda para os versadores de outras plagas. Chega a ser espantoso que ignoremos escritores como a portenha Alejandra Pizarnick, cuja obra nunca foi lançada por aqui. O caso de Eugénio, contudo, é ainda mais estarrecedor, pelo evidente aspecto da proximidade lingüística. </p>

<p>Eugénio morreu na segunda-feira, aos 82 anos, na cidade do Porto, onde viveu seus últimos anos lutando arduamente contra doença não divulgada - a discrição, aliás, sempre foi um traço do autor. Nascido numa pequena aldeia da Beira Baixa sob o nome de José Fontinhas, teve uma infância campestre muito ligada à figura da mãe, marcas que estariam patentes em seus escritos até a maturidade. Começou a publicar poemas bem cedo e o reconhecimento de público e de crítica chegaria com As mãos e os frutos, de 1948. </p>

<p>A partir daí teria início uma trajetória rica não só na área da poesia, mas também na prosa, no ensaio e na tradução. Sua produção poética destacou-se pela extraordinária capacidade de criar conexões entre a aparente banalidade do circunstancial e o sublime, como exprimem os versos de Memória doutro rio, de 1978: ''Com a manhã chega o anônimo respirar do mundo./ Um cheiro de pão fresco invade o pátio todo./ Vem dos lados do rio: para levar à boca, ou ao poema''. Sem recair no melodramático ou no meramente pomposo, seu lirismo alimentava-se do rigor, da depuração das palavras, buscando, seja na natureza, seja no homem, a fagulha capaz de fazer fulgurar um instante qualquer de beleza em meio à brutalidade do mundo. <br />
Como apontou o poeta Carlito Azevedo na apresentação da antologia editada pela Nova Fronteira, a poesia de Eugénio é eminentemente solar. Mesmo quando esbarra na melancolia tão afeita à cultura portuguesa, sua obra insiste em cavoucar a luminosidade que se esconde sob os breus mais absolutos. ''Nas suas margens nuas, desoladas,/ cada homem tem apenas para dar/ um horizonte de cidades bombardeadas'', escreveu ele num de seus mais célebres poemas. </p>

<p>A consciência de que tais ''bombardeios'' deixam máculas convive, no entanto, com a certeza perene de que a alegria esquecida pode nos surpreender na imagem mais prosaica. Como a cena que o poeta flagra de sua varanda no poema Há uns dias. Trata-se de um daqueles momentos ''em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima'', mas ele, ao avistar as crianças ''correndo no molhe'' e cantando, recorda-se do próprio menino que foi. ''Um sorriso abre-se então/ num verão antigo/ que dura''. ''E dura ainda'', insiste, para encerrar o poema - e delinear um epitáfio possível da forma como vislumbrou (e sentiu) a vida.</p>]]>
        <![CDATA[<p>Artigo publicado no Jornal do Brasil</p>]]>
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    <title>Almoço com patente imperial</title>
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    <published>2007-03-30T22:30:44Z</published>
    <updated>2007-03-30T22:30:53Z</updated>
    
    <summary>Aos quarenta quilos de feijão com lombo, pé e orelha de porco, carne seca, bucho, rabo e paio, acompanhados de arroz, couve à mineira, laranja e caipirinha, Dulcinéia do Nascimento (foto), a responsável pela cozinha...</summary>
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        <![CDATA[<p>Aos quarenta quilos de feijão com lombo, pé e orelha de porco, carne seca, bucho, rabo e paio, acompanhados de arroz, couve à mineira, laranja e caipirinha, Dulcinéia do Nascimento (foto), a responsável pela cozinha do Império Serrano, acrescenta um ingrediente especialíssimo. </p>

<p>- É o amor, meu filho. Nosso diferencial é que aqui nessa escola fazemos tudo com amor, do samba à feijoada - entrega ela, que está à frente das 12 cozinheiras auxiliares que abastecem os estômagos famintos da verde-e-branco de Madureira a cada terceiro sábado do mês. <br />
O lugar comum que a declaração de Dona Déia poderia sugerir desfaz-se quando ela se põe a falar dos 10 anos em que freqüenta a agremiação e seus olhos, antes centrados no interlocutor, começam a passear pela quadra. As mãos afagam uma à outra, a voz ameaça fraquejar diante da simples menção à escola. O Império de hoje é mesmo um desafio à banalidade de certas expressões; talvez mais: um vigoroso exemplo de que muitas vezes o clichê exprime verdades genuínas. Porque se há um conceito abstrato que parece tomar forma em cada folião presente à feijoada é justamente este: um desmedido amor. </p>

<p>Amor que, como ressaltou Dona Déia, está no preparo do feijão, servido a R$ 7 a partir das 13h, numa comprida mesa onde cada um faz seu próprio prato. Que está também na maneira caprichosa com que Jorginho do Império - 40 anos de escola - organiza o evento, compondo um repertório que mescla clássicos sambas-de-enredo de Silas de Oliveira e Beto Sem Braço a canções de mestres como Nelson Cavaquinho, passando pelo suingue do Rei dos Bailes Bebeto e chegando ao sotaque rítmico à la Fundo de Quintal de Arlindo Cruz e Jorge Aragão. Amor que está sobretudo no clima familiar da quadra. </p>

<p>A feijoada integra um movimento que parece ter tomado a escola de modo definitivo. Ciente do enfraquecimento que a desarmonia interna provocava e de que acabara sendo umas das principais vítimas da auto profecia - quando denunciou que o luxo e o gigantismo das ''Superescolas de Samba S.A.'' esconderia gente bamba -, o Império decidiu tirar energias de sua própria tradição. A contratação de um novo carnavalesco (Paulo Menezes) e de um casal de mestre-sala e porta-bandeira (Robson e Ana Paula), a renovação do contrato do puxador Nêgo e a escolha do promissor enredo sobre as festas religiosas brasileiras - léguas distantes de aventuras tresloucadas como a homenagem a Beto Carrero - alimentam a esperança de um bom desfile em 2006. Mas tais iniciativas pouco efeito teriam se, paralelamente, a escola não se reaproximasse de seu berço. </p>

<p>E isto de fato vem acontecendo, como evidenciam o projeto de um Centro de Memória, capitaneado pela vice-presidente cultural, Rachel Valença, e a retomada do Grito de Carnaval. Realizado há pouco menos de um mês, o evento reuniu o Jongo, a Velha Guarda, a harmônica bateria e uma multidão de convictos imperianos, que esbanjaram felicidade ao encontrar a quadra limpíssima e reformada e doaram 700 quilos de alimentos não-perecíveis, posteriormente entregues à comunidade da Serrinha. Jorginho do Império salienta que a idéia é manter o espaço movimentado de segunda a sábado e, para aqueles que torcem ou simpatizam com as históricas patentes imperiais, acena com uma programação que inclui roda de samba, shows, bailes dançantes e aulas de percussão, além dos ensaios normais. E, claro, a feijoada, cuja próxima edição acontecerá dia 16, tendo como atração a Velha Guarda. É preparar o apetite - e o coração. <br />
</p>]]>
        <![CDATA[<p>Artigo publicado no Jornal do Brasil</p>]]>
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    <title>Decifrando os mistérios da roda</title>
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    <published>2007-03-30T22:30:26Z</published>
    <updated>2007-03-30T22:30:39Z</updated>
    
    <summary>Ao anoitecer de cada domingo, num minúsculo boteco de Copacabana reúnem-se alguns dos mais talentosos músicos cariocas. Aos poucos, eles chegam com seus instrumentos, tocam e cantam, sem cobrar couvert artístico e pagando do próprio...</summary>
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        <![CDATA[<p>Ao anoitecer de cada domingo, num minúsculo boteco de Copacabana reúnem-se alguns dos mais talentosos músicos cariocas. Aos poucos, eles chegam com seus instrumentos, tocam e cantam, sem cobrar couvert artístico e pagando do próprio bolso a cerveja que consomem. A tradicional roda de samba do Bip Bip, porém, tem suas regras. Sob olhar atento do proprietário do estabelecimento, Alfredo Jacinto Mello, ou simplesmente Alfredinho, os participantes devem falar baixo e evitar pedidos ou aplausos. Além disso, só os músicos sentam-se nas cadeiras de ferro do bar. Muitos dos desavisados que chegam à Rua Almirante Gonçalves estranham e juram nunca mais voltar. Outros encantam-se com o ambiente e acabam por se tornar assíduos, embora não saibam exatamente nomear o que os move a cada domingo em direção ao apertado boteco.</p>

<p>O rígido ordenamento interno e os mistérios singulares, ambos conhecidos da grande maioria dos freqüentadores do Bip, são sintomáticos também do que ocorre em tantas outras rodas ao redor da cidade, esmiuçadas com erudição pelo jornalista, crítico e produtor Roberto M. Moura em No princípio, era a roda – Um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes, que acaba de ser lançado pela Editora Rocco. Baseado em tese de doutorado em Música defendida na Unirio, o livro parte da premissa de que as rodas precedem as escolas e mesmo o próprio “samba”. Acredita o autor que elas vieram favorecer e proporcionar uma “ambiência sonora” que desembocaria no surgimento do gênero, já que representam sua “matriz física”, sua célula original. Da casa de Tia Ciata, Praça XI, no início do século passado, as rodas teriam tomado forma no bairro do Estácio e se espalhado pelos subúrbios cariocas através dos encontros de terreiro, realizados dentro das próprias escolas e decerto fomentadores dos chamados “sambas-de-quadra” que tanto sucesso fizeram em agremiações como Portela e Império Serrano.</p>

<p>Ainda sob perspectiva histórica, Moura sinaliza para o fenômeno seguinte, que ocorreu nos anos 60. Com a institucionalização das escolas - elevadas a ponto principal do carnaval carioca - e o imenso sucesso popular dos sambas-de-enredo, as composições de terreiro foram paulatinamente aniquiladas, obrigando os sambistas a transferirem as suas rodas das quadras para teatros e bares, como o mítico Zicartola. Foi uma época de shows memoráveis, caso do célebre Rosa de Ouro, que levou ao palco, entre outros bambas, Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Clementina de Jesus. Se o sambista não podia mais fazer da quadra o seu quintal, levava-o para outros cenários, talvez nem tão maravilhosos, mas onde lhe seria permitido reencenar, por intermédio da realização da roda, uma representação possível da própria “casa”.</p>

<p>Sim, porque na oposição entre os conceitos de “casa” e “rua”, cunhados pelo antropólogo Roberto DaMatta, encontra-se o cerne do trabalho de Roberto Moura. Não se trata, evidentemente, de espaços geográficos, mas de esferas simbólicas, áreas de ação social, domínios culturais. O jornalista identifica nas rodas a reprodução de relações íntimas e de pertencimento nas quais os laços de amizade e sangue são permanentemente renovados. A intimidade da “casa” confrontaria-se com o mundanismo da “rua” em que se transformaram as escolas de samba a partir da espetacularização do carnaval. Tal traço é sublinhado no livro por intermédio do depoimento de músicos como Nei Lopes, Monarco e Luiz Carlos da Vila, de entrevistas realizadas com freqüentadores e de versos de sambas que tratam do tema, todos eles citados e relacionados ao final do volume. </p>

<p>Felizmente, o autor não se furta em comentar também processos mais recentes, como as importantes inovações efetuadas pelo Cacique de Ramos na década de 80 e a atualíssima revitalização capitaneada por produtores corajosos como Lefê Almeida e por jovens artistas como Galotti, Teresa Cristina, Nilze Carvalho, Pedro Miranda, agentes ativos e fundamentais de uma nova geração sem medo do diálogo com a tradição e cuja voz é registrada talvez pela primeira vez num estudo mais aprofundado. </p>

<p>Moura sustenta que, apesar do longo percurso histórico - da casa de Tia Ciata à Lapa de hoje -, pelo menos sob o ponto-de-vista da significação e das relações de hierarquia interna as rodas não mudaram tanto. No livro, ele enumera algumas das “regras” que perduraram: não se pode manejar um instrumento sem competência, nem falar mais alto do que o som. Imperdoável puxar um samba e esquecer a letra pela metade. Mais uma distinção: não importa o artista ser um sucesso de vendas ou execução, “nada lhe assegura qualquer respeitabilidade ou diferenciação dentro da roda. Seu lugar será sempre determinado pelo que for capaz de fazer ali.” Quando aos participantes, explica ainda o autor: “O modo mais natural de participar é cantando ou tocando, mas aqueles que integram o coro também são considerados ‘parte’ da roda”.</p>

<p>Outra característica seria o repertório em permanente busca por “saudar o passado”, embora paradoxalmente a roda funcione também como área de “legitimação” para novas canções, já que os sambistas costumam apresentar ali, entre seus pares, as composições inéditas. “Como em qualquer ritual, a roda preserva e atualiza o que terá em sua origem”, resume Moura, situando-a como uma resultante da “dialética entre o cotidiano e a utopia”, capaz de instaurar no sambista “a ilusão da eternidade”. “É como se o tempo tivesse parado e o mundo ficasse lá fora”, destaca Moura.</p>

<p>Entretanto, diante de tantas reflexões fundamentadas sobre o tema, não é do autor, nem de algum sambista entrevistado, ou mesmo do pensamento sempre sagaz de Roberto DaMatta, a melhor síntese sobre aquele mistério aludido no primeiro parágrafo: o motivo pelo qual alguém sai de sua casa e se aperta entre tantos outros para ouvir (e cantar) samba numa roda como a do Bip Bip. A fala é de André Vianna Dantas, professor de História, morador de Niterói e simples freqüentador, em resposta à pesquisa feita pelo site Agenda do Samba e do Choro. Diz André: “No meu caso, vou às rodas porque preciso mesmo. Não é frescura, é necessidade. Sai do plano individual e vai para o coletivo. É como se todo mundo se olhasse e dissesse: - A vida é foda mas é boa pra cacete”. </p>

<p>E não é mesmo?</p>]]>
        <![CDATA[<p>Artigo publicado no site Paralelos</p>]]>
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    <title>Olaria x Madureira em Berlim</title>
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    <published>2007-03-30T22:29:54Z</published>
    <updated>2007-03-30T22:30:08Z</updated>
    
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        <![CDATA[<p>Sobrou o Ricardinho, faltou o Alex. Juninho na reserva é inconcebível. Roberto Carlos não vai à linha de fundo desde a época em que usava relógio de camelô e chamar o Arouca não teria sido má idéia. Mas agora, com o leite já fervido, vale é que enfim a pasmaceira pré-Copa – maquiada pela efusão dos treinos lotados, a discussão sobre o melhor esquema (vamos de quarteto ou não vamos?) e a insuspeita troca da limonada pela caipirinha como bebida oficial dos suíços – dará lugar à peleja propriamente dita. Bola pro mato, portanto.</p>

<p>Engrosso a partir de hoje o coro da minoria – 130 milhões contra o resto – na torcida pelo hexacampeonato, com a disposição de trocar o melhor livro por um memorável Irã x Angola. Sim, porque há vida além da Seleção Brasileira, e nem sempre o embate mais interessante do campeonato acontece entre gigantes como Argentina e Holanda. Quem já assistiu a um Madureira x Olaria na Rua Bariri bem sabe quão tocante é ver aquele atacante trombador, com quem a bola não quis papo durante toda a partida, deslizar de carrinho pelo barro, esticar a rede adversária e correr, com o joelho esfolado e sem pensar em departamento médico, em direção à torcida que comemora como se fosse o título do Brasileirão. Nesses jogos, à margem da exuberância óbvia que exalam os gigantes das quatro linhas, a beleza nasce justamente do precário – do uniforme mal desenhado, da bizarra furada do zagueiro, da magreza sub-nutrida do lateral, do esforço comovente do camisa dez em honrar o número ao qual legou o rei Pelé uma mística inequívoca.</p>

<p>Guardadas as devidas proporções, na Alemanha também teremos esses anticlássicos por (falta de) excelência. Que venham, então, Inglaterra x Suécia, Alemanha x Polônia, Portugal x México, mas ainda Gana x Estados Unidos, Arábia Saudita x Tunísia, Togo x Coréia do Sul. Que venham Ronaldinho e Akwá, Zidane e Sterjovski, Crespo e Martinez, craques absolutos e pernas-de-pau de pelada no Aterro, que, com a compreensão previamente rogada aos nossos amores, povoarão nas próximas semanas as telas das TVs e de nossa imaginação. É tempo de Copa do Mundo, meus caros. E duro – duro mesmo – será apenas ficar um mês sem ver o Fluminense jogar.<br />
</p>]]>
        <![CDATA[<p>Crônica publicada no Jornal do Brasil</p>]]>
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    <title>Copa de alma botafoguense</title>
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    <published>2007-03-30T22:29:40Z</published>
    <updated>2007-03-30T22:29:51Z</updated>
    
    <summary>Embora sem muito brilho, os favoritos até agora têm feito a sua parte. Inglaterra e Itália venceram Equador e Austrália, os donos da casa passaram sem sustos pela Suécia e os hermanos – meus adversários...</summary>
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        <![CDATA[<p>Embora sem muito brilho, os favoritos até agora têm feito a sua parte. Inglaterra e Itália venceram Equador e Austrália, os donos da casa passaram sem sustos pela Suécia e os hermanos – meus adversários de coração para uma suposta finalíssima sul-americana – fizeram valer a tradição da camisa no jogo contra o México. De nossa parte, apesar da insistência do Parreira em barrar Juninho Pernambucano, a expectativa é que também nos classifiquemos às quartas-de-final, derrotando Gana.</p>

<p>Tudo anda tão previsível que esta Copa parece espreitada por uma insidiosa alma botafoguense. Explico: o alvinegro é um torcedor essencialmente trágico. Quanto mais positivos são os prognósticos, quanto mais unanimidade houver com relação ao júbilo absoluto e definitivo, maior será seu assombro. O combustível da paixão pelo clube que escolheu para torcer alimenta-se desse pessimismo atávico, em que cada fracasso serve sobretudo como a confirmação de seus piores pressentimentos. </p>

<p>Uma semana antes das finais do último Estadual, favas contadíssimas contra o Madureira, encontrei um amigo, fiel representante da espécie, num bar em Copacabana. Tristonho, ele lamentava previamente pela derrota contra um pequeno. Confessei-lhe que, fiel ao bairro onde nasci, torceria pelo Tricolor Suburbano. Ponderei, contudo, que com sinceridade não acreditava que o alvinegro pudesse perder o título. "Se fosse um grande clássico, eu estaria confiante. Mas o Madureira... O Madureira... O campeonato já era, rapaz", ele retrucou. Lapidar, a frase é uma síntese perfeita da ânima botafoguense.</p>

<p>A maré mansa em que corre a Copa me fez lembrar da conversa. Não houve grandes polêmicas quanto à convocação de nosso escrete. A preparação – excetuando-se a bolha e o bate-boca do ex-gordinho com o presidente – e a passagem pela primeira fase foram aparentemente tranqüilas, e as zebras não deram ainda as suas caras na competição. "Algo muito grave, portanto, está para acontecer", decerto põe-se a pensar o meu amigo, enquanto se prepara para assistir ao jogo de hoje no mesmo lugar e com a mesma camisa que usou na decisão de 2002, contra a Alemanha.</p>

<p>Não há meios de sabermos se a seqüência da competição virá confirmar esse sentimento tão alvinegro. Esperemos, pois – e com as velas acesas, por precaução. Só não vale me acusar de estar secando. Afinal, o Botafogo foi campeão este ano, não foi? </p>]]>
        <![CDATA[<p>Crônica publicada no blog Pentimento</p>]]>
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