Água

Ele entrou no banheiro completamente nu, em um silêncio áspero. Apenas a toalha vermelha pesava sobre os ombros, dando algum colorido às costas envergadas . Conduzi-o até o boxe, procurando firmar a lenta caminhada em passos estáveis.

Ampará-lo.

Não havia espaço para nós dois. Fiquei do lado de fora; ele, no de dentro. Foi preciso deixar a cortina aberta, mas fiz questão de fechar a porta do banheiro, embora não houvesse mais ninguém no apartamento.

Os azulejos do banheiro suavam, ele mal me olhava. Mantinha a cabeça inclinada para baixo, a nuca parecendo maior, e eu tentando reverberar seu constrangimento em palavras singelas: tá bom assim?, viu a confusão de ontem em Laranjeiras?, sabia que o trânsito tá um nó?, e seu Botafogo?, a gente pode começar?

Girei os registros para temperar a água quente, ele conservando a mudez . Em seguida, molhei a toalha e pedi que se virasse.

Ele plantou as mãos — imóveis — sobre a parede, como se estivesse sob séria ameaça, como se eu lhe apontasse um revólver, uma faca, algo assim. A cortina, inquieta, tocou meu rosto. Insistia em fechar, ainda que eu a arrastasse cada vez que se soltava e corria no trilho.

Insistia em fechar.

Guiada por mim, a toalha passeou: cabeça, pescoço, tronco, braços, pernas, pé. A toalha molhada explorava o corpo, sugava o suor e a sujeira, acarinhava.

E ele permanecia imóvel, embora as mãos não pudessem deter o tremelique. Não era por causa do frio, e nós dois sabíamos. Eu esfregando a toalha, ele com os olhos cerrados num breu misterioso. Talvez, no fundo de si, lembrasse: “Um dia, há muito tempo, dei banho neste menino”.

Girei novamente os registros, troquei a toalha por outra, seca. Pedi que deixasse o boxe com cuidado para não escorregar, e que pisasse no tapete. Escorei-o com uma das mãos. Enquanto enxugava, ouvi-o dizer, bem baixinho, quase num sussurro: obrigado. E tive a impressão de que não há como se sair limpo de um banho desses.

 

***

 

* Este conto integra o livro A palavra ausente (Rocco, 2011)


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