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Contos, Crônicas e Artigos
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Caixas de papelão

As caixas amontoadas tomam todo o apartamento: nossas coisas.

Após o fim-de-semana extenuante de separa, embala, fecha, não há quase mais nada nas estantes - que me olham, cabisbaixas, exprimindo o desamparo de sua súbita prescindibilidade. Retribuo o olhar.

Uma sala cheia de caixas de papelão só não é mais triste do que uma sala vazia. E toda mudança tem um sabor agridoce: se a perspectiva do novo vibra à frente, como uma pista de asfalto fritando no calor, a gente adivinha uma saudade que ainda não chegou.

O garçom do bar que fica no fim da rua, o atendente da livraria-café, o jornaleiro que torce para o Botafogo, o café-da-manhã na sorveteria, o almoço no restaurante a quilo. A vizinha loura que desce, de elevador, sempre com duas borrifadas a mais de perfume. O crepe de frango ao curry, pedido por telefone. O chato que reclama do barulho. O toque estridente da campainha. O porteiro que lê, na encolha, o jornal dos moradores que ainda dormem. O começo da vida a dois.

Ao ver as caixas de papelão, sinto que tudo isso de uma hora para outra deixará de ser familiar, dando lugar a registros outros. Eu e minha dificuldade em deixar as coisas, pessoas. Eu e minha facilidade em construir cotidianos, hábitos. Eu, cindido, flutuando no vácuo entre o que foi e o que virá, nesse limbo estranho e furta-cor.

Durante a arrumação, aquela quantidade absurda de objetos à minha frente afligia. Livros sobre Cuba, sobre a formação do PT. Estudos sobre assuntos que possivelmente nunca mais me interessarão. Cadernetas do Colégio Nossa Senhora da Piedade, óculos e relógios velhos, já fora de moda, trabalhos da faculdade, mágicas da época em que fazia truques para impressionar.

Eu e minha dificuldade em jogar coisas fora.

Diante daquele aglomerado, só pensava ‘mas para que, meu Deus, para quê?’ Qual o objetivo de apinhar os armários com badulaques sem serventia, que só voltarei a visitar numa nova mudança, quando será mais uma vez necessário acondicioná-los para o devido transporte?

Pensava nisso e seguia colocando-os nas caixas de papelão, com todo o esmero. Às vezes, comentava com a F.: ‘caramba, essa calculadora do Mickey eu ganhei quando era muito pequeno mesmo’, ‘nem lembrava que ainda tinha esse livro’. Às vezes, exclamava: ‘meu boletim da sétima série!’; ‘tem uma nota vermelha em Moral e Cívica’, e ria.

À medida que os depositava, aqueles objetos, em sua aparente inutilidade, me recontavam a minha própria história. Fatos que o tempo fez perder o verniz voltaram a cintilar, rostos já esmaecidos tiveram seus contornos refeitos, com impressionante precisão.

Então percebi que, juntas, aquelas coisas que mantenho por esses anos todos constituem uma insólita engrenagem. Uma espécie de máquina da lembrança que está sempre à mão, sempre disposta a ser acionada, sem ficha alguma, para instantaneamente reerguer mundos de dor, contentamento, algaravia e silêncio - e impedir que eu esqueça de mim mesmo.

Talvez por isso eu as guarde.

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Rosa Maria da Luz • 14 de julho de 2008

Oi, Marcelo.Felicidades na nova casa.Adorei este texto.Como vou viver uma situação semelhante daqui a poucos meses, preciso pôr em prática o desapego das coisas que nos lembram quem fomos .É difícil, não? Gostaria de ter seu texto impresso,se você não se importar, mas parece que no blog não é possível fazê-lo.Como consegui-lo?Um abraço.Rosa

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Manoela Sawitzki • 11 de julho de 2008

Vixe, Marcelo, que boniteza de texto!
Rapidamente você me teletransportou pras pilhas de mudanças que já fiz nessa vida, sobretudo essa última, pra vir ser retirante gaúcha no Rio de Janeiro.
Tem razão, uma sala cheia de caixas de papelão só não é mais triste do que uma sala vazia. E esses objetos que guardamos, como se tivéssemos esquecido dentro do armário, parece que ganham vida, tão impregnados que estão de nós mesmos. E cada um que jogamos no lixo (ai, precisamos mesmo jogar no lixo, não é?!!!) nos faz sentir um pouco homicidas...
...
Enfim, tou adorando aqui. Aos poucos, pisando manso, vou lendo mais e dizendo mais...
Beijo grande
Manu

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Mara Coradello • 10 de julho de 2008

Acabo de mudar, colega Moutinho, e ao ler seu trecho me irrompeu uma total identificação. Se for mesmo autobiográfico, espero que a mudança se arrume. O final, principalmente o final, me fez amar o texto todo e me deu a descoberta a respeito das coisas que também coleciono. Mas ao contrário de você, ando querendo me esquecer e joguei muita coisa fora... Abraços.

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