
Notei quando passava de manhã pelo Aterro do Flamengo: começaram a florescer os ipês.
Percebi que o mais apressado deles – o de cor roxa, que fica no finalzinho da Praia de Botafogo, ao lado de um posto de gasolina – já se abriu em flores lilases. É esse ipê isolado no parque desenhado por Burle Max, solitário em meio ao tráfego, à fumaça e à pressa de todos nós, que precede ano após ano a primavera absolutamente própria da espécie. Porque os ipês não obedecem às estações; florescem de junho a setembro, indiferentes aos recortes do tempo e às medidas dos homens.
Leio que pertencem à família das bignoniáceas, e que seu nome tem origem tupi-guarani, significando ‘pau ou madeira que flutua’. Para mim, contudo, o sentido é outro. Os ipês são um contraponto possível à eventualidade do mau-humor matinal, um rasgo de lirismo no cinza do cotidiano, minha companhia diária no trajeto rumo ao Centro.
E é aquele ipê roxo na última curva da Praia de Botafogo que anuncia a cor da temporada que se inaugura. Como um arco-íris atemporão que se insurge antes mesmo da chuva, ele toca o primeiro acorde, ao qual os outros ipês da cidade prestarão reverência, como se todos eles - peças de um dominó colorido - sentissem a obrigação de envernizar os olhos da cidade em penugens amarelas, rosas, brancas, verdes.
Justamente no período menos ensolarado do ano, ele abre suas asas para debochar da paisagem gelada das ruas, da frieza posada dos que trafegam ligeiros em seus carros turbinados sem percebê-lo, do cheiro acre que o vento retira da Baía de Guanabara e lhe sopra nas folhas, fazendo-as dançar mesmo que não queiram.
Ele é a sílaba tônica, o senão, a epifania plausível na recém-nascida semana. O tom dissonante que torna possível viver as horas seguintes sem a impressão de que são apenas horas, a lufada de ar que empresta oxigênio para o dia todo.
O ipê roxo de Botafogo está alheio aos homens com seus tantos e imensos problemas. Não repara o menino que joga os limões para o alto sinal de trânsito, nem a senhorinha que atravessa a pista com a sacola da Casa & Vídeo nas mãos. Ignora a louca que se julga guarda de trânsito e orienta os motoristas em estranhos movimentos com os braços para um lado e para o outro. Desconhece o preço do táxi, do cinema, da chapinha no cabelo, do prêmio da Mega-Sena. E mantém-se em silêncio, na quietude de quem a tudo ignora para apenas estar ali, na última curva antes da Praia do Flamengo, oferecendo uma visão singela a quem o espreita, por um instante que seja, numa manhã de segunda-feira.
Crônica publicada no blog Pentimento
