
Crônica publicada no blog Pentimento
No sábado passado, enfim fui conferir a peça sobre a vida do Renato Russo. Lembro-me de quando ele morreu. Estava no Maracujina, meu bar de estimação dos tempos de Barra. Lembro também que, ao receber a notícia, imediatamente comprei uma ficha, coloquei na jukebox que havia por lá e fiquei ouvindo Teatro dos vampiros. Foi uma tristeza quase transparente de tão triste.
A canção, que ao lado de Andrea Doria e Vento no litoral forma minha trinca preferida no repertório da Legião, não faz parte do espetáculo sobre o Renato, cujo momento mais emocionante se deu quando o ator Bruce Gomlevsky, praticamente incorporando o artista morto, cantou Pais e filhos.
Ao escutar os versos da música, imediatamente pensei no meu velho. Não o do fim dos dias, emagrecido pelo câncer que começou a corroê-lo pelo estômago e acabou por levá-lo, mas o coroa careca e com barriga de chope que trazia sempre um Holywood no bolso da camisa de mangas curtas e piadas infames na boca.
Eu e o pai tínhamos tantas diferenças que, numa determinada época, parecia que nunca chegaríamos a um consenso sobre coisa alguma. Ele, um lacerdista inverterado. Eu, o jovem que queria a Revolução. Ele, machista a ponto de festejar com charutos o nascimento do primeiro filho homem. Eu, desde cedo completamente liberal quanto a costumes, drogas e sexualidade.
É curioso, no entanto, como por detrás dessa capa pesada de querelas radicais percebíamos haver algo que nos vinculava. Não o simples fato de sermos pai e filho, embora evidentemente também isso. Mas uma conexão singular, fortíssima - e silenciosa, como tudo o que vem dos fundos mais fundos da terra.
O velho era retraído. Tinha tanto amor represado dentro dele que não sabia o caminho do desafogo. Quando fiz dezoito anos, ele andava numa fase péssima. Já separado da mãe, mas ainda morando na mesma casa, tocava os dias burocraticamente, quase como um pária.
Naquela tarde, ele chegou no quarto onde eu via um filme esticado na cama. Visivelmente, havia bebido um pouco. Pediu então que eu levantasse, abraçou-me e entregou-me um envelope, com um cartão de crédito dentro. Às lágrimas, sussurou no meu ouvido um lamento daqueles que mais dilaceram, porque nascem da impotência: “Queria te dar um carro”.
O carro que nunca esperei e possivelmente acreditava ser meu presente dos sonhos quando – e nem eu mesmo sabia – ele já me transmitira herança mais valiosa. O gosto por um bom samba do João Nogueira ou uma canção do Herivelto. A reverência sagrada ao Império Serrano. E, sobretudo, a lição de que amor não foi feito pra ser guardado, lição que aprendi porque ele nunca soube – e sofreu por isso.
Sempre que viajava no carro com ele, gostava de me sentar no banco da frente. Nunca soube explicar a razão - talvez seja um comportamento comum aos garotos, uma espécie de rito de passagem da infância, pois já ouvi de amigos relatos semelhantes.
Por ser o mais velho dos homens, em geral tinha lugar garantido, embora o pai demonstrasse preocupação pela vulnerabilidade de quem viaja ali, no caso de um acidente. Toda as vezes em que ele se via obrigado a dar uma freada brusca, ato-contínuo esticava o braço para o lado direito, tentando (ou imaginando tentar) proteger uma possível topada minha contra o pára-brisa. Não estou certo se algum dia chegou a evitar. Em geral eu mesmo me segurava. Mas era bom ter a certeza que ele invariavelmente se mantinha presente para qualquer coisa. Porque hoje dói saber que o braço do pai não está mais por aqui. Nem que seja para me proteger das freadas que dá a vida.


Oi,
Marcelo.
Bela e tocante crônica.
Faz lembrar "Espelho", dos grandes Paulo César Pinheiro e João Nogueira.
Obrigado e parabéns!
Bela cronica Marcelinho. A leitura do Pentimento me ajuda tanto nessa fase de ...do outro lado do oceano....beijos.
Bela crônica, caro MM. E tem muito a ver com o meu conto favorito do seu livro, o primeiro, que sempre esqueço o nome e estou a kilômetros do volume pra confirmar, aquele do passeio de carro com o pai. Pai, melhor não tê-lo. Mas sem tê-lo, como sabê-lo?
Muito bonito, amor. Uma das suas maiores virtudes é não ter medo de demonstrar carinho/afeto/amor pelas pessoas que te cercam. Foi uma bela herança! Viva o sogrinho! :-)
Excelente a idéia da crônica mensal, Marcelo, como excelente também a peça de estréia.
Muita boa a crônica. A relação com meu pai só começou a ser mais tranquila depois de adulto, antes disso sempre foi meio conturbada. Ele está ficando mais velho e está se tornando uma pessoa melhor em todos os sentidos, a velhice está fazendo bem a ele, acho que é a experiência de vida. Sobre crônicas, João Ubaldo Ribeiro é uma exceção, escreve todos os domingos n'O globo, página 7, muito bom.
É curioso isso... Um gênero ke nasceu no jornal (a crônica) tem cada vez menos espaço nos jornais. Só a internet mesmo pra nos ajudar!
Linda crônica. Com alguns ajustes, caberia bem na relação que tenho com meu pai. Aliás, não lembro se te contei, mas o primeiro conto do seu livro me fez chorar tanto que eu tive que ficar uma semana longe dele, me recuperando de tamanha emoção. Depois, li tudo de uma vez só. Mensal? Larga de ser preguiçoso!! Queremos crônicas semanais. :-) Ah, nos jornais há espaço sim. Só acho que não são bem preenchidos. Falta sangue novo e de fora da panelinha.