
Crônica publicada na Revista do Unibanco
Nem sempre um romance lido quando já vencida a adolescência entra na lista particular (e necessariamente ilógica) dos “livros de nossa vida”. Em geral, os eleitos são sorvidos na quentura da descoberta, naquele momento em que acabamos de olhar para o mundo e perceber que a solidão de alguns, se não exatamente igual, é bastante parecida com a nossa. Pois foi tardiamente que O encontro marcado, de Fernando Sabino, passou a integrar, ao lado de Kafkas e Clarices, a prateleira mais preciosa de minha estante íntima. Lembro dele neste mês de julho, ao ser informado pela folhinha de um calendário que o dia 20 foi consagrado a celebrar a amizade.
A escolha da data, pesquiso, inspirou-se na viagem do homem à lua, que significaria, mais do que uma conquista científica, a chance de arregimentar amigos em outros cantos do universo. Quando Neil Armstrong fincou a bandeira norte-americana, Sabino tinha 33 anos e já havia lançado O encontro marcado. Vivia, portanto, aquela idade em que boa parte das grandes amizades já foram feitas. Seu romance funda-se justamente na história da consolidação do imenso afeto que o uniu a Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino.
É no indecifrável mosaico de elementos intangíveis que servem como argamassa desse sentimento, construído em estridência e silêncio, em dor e sândalo, que Sabino mergulha de forma quase delirante, conseguindo sintetizar, em expressão que se tornaria clássica, a dedicação trágica que é marca inexorável de um amigo. Quem nunca “puxou angústia” ao ouvir um samba triste, ao engolir o quinto chope numa mesa de bar, ao abraçar o colega de trabalho que chegou carregando o mundo junto à maleta?
“Vivíamos em estado permanente de discussão”, ele comentou certa vez, referindo-se às delongas que, superando tempo e geografias, estenderam-se pelos anos posteriores às travessuras da adolescência. Em carta remetida a Hélio, em 1945, Sabino confessava ter o coração cheio de “alegria triste”, e observava: “Há qualquer coisa de comovente nesse encontro de nós quatro assim de longe – tão longe que estamos um do outro, você do Paulo, o Paulo do Otto, o Otto de mim, e no entanto tão juntos, que nossa respiração se confunde, nossas mãos se tocam (...) e há um resto de doçura no olhar de cada um, que é a lembrança dos outros três”. Tal doçura, viçosa e valente, nasce da capacidade de mostrarmos sem medo ou vergonha os nossos corações uns para os outros, como bem definiu um desses amigos que sabem ser doces. Desprendendo-se do romance, Sabino, Hélio, Otto e Paulo esquentam hoje as letras frias daquele 20 de julho grafado no calendário. Mineiramente, eles nos sopram que a amizade é, sobretudo, uma forma de amor.
