
Conto publicado na capa da edição de Natal do suplemento Idéias • Jornal do Brasil
No princípio, bastavam termos como Feliz Natal, Boas Festas, Próspero Ano Novo, e estava resolvido. Com o tempo, a exigência cresceu: tornou-se necessário espremer a imaginação até escapulir algo menos banal. A premissa: palavras doces, suaves, poéticas.
Passei então a frases mais longas: “Que os anjos o iluminem na noite natalina”, “Um ano novo fulgurante de paz, amor e felicidade”, “Natal é tempo de benevolência, generosidade e perdão”, “Que o menino Jesus esteja presente em seu lar”.
Às vezes dá vontade de arriscar uma traquinagem qualquer, bagunçar o presépio, lembrar que nem todo mundo é filho de Papai Noel. Desisto por estar certo de que pouco adiantaria. A supervisão não aprovará o cartão. Eles são rigorosos, lêem tudo, catam os mínimos erros de gramática ou qualquer coisa que extrapole os objetivos da empresa: palavras doces, suaves, poéticas.
Ao contrário do que as pessoas pensam, dezembro não é mês tranqüilo para tipos como eu. Por mais que me adiante e consiga entregar todas as mensagens solicitadas, sempre há tarefas novas, textos a fazer. “Todo mundo fica mais carinhoso nessa época”, me diz o chefe. As vendas vão bem, a empresa não paga mal e o resultado é que a carga horária dobra.
Dezembro é uma farpa no correr do ano. Festas de confraternização, caixinhas de Natal, trenós, bolas vermelhas, neve de algodão, ruas iluminadas, apreços compulsórios, tudo parece uma extensão do meu trabalho: um colorido e sorridente cartão de dois reais. É como se eu estivesse escrevendo uma mesma história, pincelando um mesmo desenho.
Joana não entende por que não gosto desse período. Ela se apraz em montar a árvore com antecedência, enche a casa de enfeites, projeta a ceia quase um mês antes do dia 25. Joana gosta dos meus cartões.
“Você cria frases lindas. Como pode não se emocionar?”, ela indaga, e fala que Natal é tempo de renascimento, que todos nós renascemos em Cristo e nos salvamos com Ele.
Talvez o Natal seja isso mesmo, e eu não perceba. Joana sempre foi mais sensível. É nela em quem penso agora, dirigindo rumo à nossa casa, vendo a cidade no lusco-fusco das pequenas lâmpadas que se acendem em contraste com a tarde que vai dormir. Ao acelerar, imagino meus cartões nos bolsos e bolsas de todos por quem passo; visualizo os contornos, brilhos e frases guardando a felicidade que um deseja ao outro – ou, sem desejar, o finge.
Paro no sinal vermelho. A multidão que atravessa é como uma cortina que se move ligeira à minha frente, tampando a visão. Penso novamente em Joana: arrumando a mesa, conferindo o ponto do pernil, fritando as rabanadas. Joana: os cabelos presos no rabo-de-cavalo, os seios escapando pelo vão do vestido. Joana: aguardando o vinho que carrego, o pão fresco, o gelo filtrado. Joana: de banho tomado, cheirando a alfazema. Joana: à minha espera.
Na pasta, levo um cartão para ela. Entre os 116 modelos que criamos lá na empresa, escolhi o de número 87-A, que tem purpurina na capa. Foi o mais elogiado pelos chefes, um dos mais vendidos. Traz estampado algo simples: “Muita paz e alegria em suas festas natalinas”. Uma frase fisgada no coletivo de muitas outras. Uma junção de letras enfileiradas: doces, suaves, poéticas.
Ao chegar em casa, abraçarei Joana. Jantaremos, trocaremos beijos, presentes, afagos. Depois sentaremos no sofá da sala — Joana escondendo, com a almofada marrom sobre o colo, o abismo que já não posso preencher. Veremos a festa na TV, um flash da missa, o anúncio de Panetone. Nada direi. De tanto escrevê-las, as palavras ficaram ocas. Então, no mais completo silêncio, desejarei por um instante que ela seja a destinatária de todos os cartões já impressos — e iremos dormir.
