
Artigo publicado no Jornal do Brasil
O poeta Eugénio de Andrade buscava o sublime nas pequenas coisas
É emblemático, mas não surpreendente, que a morte de Eugénio de Andrade tenha sido ignorada quase unanimemente pelos suplementos culturais dos jornais brasileiros. Afinal, apesar de certamente estar entre os grandes de nosso tempo, o poeta português é pouquíssimo conhecido neste país, que, se mal olha para a poesia feita em seu território, atenta menos ainda para os versadores de outras plagas. Chega a ser espantoso que ignoremos escritores como a portenha Alejandra Pizarnick, cuja obra nunca foi lançada por aqui. O caso de Eugénio, contudo, é ainda mais estarrecedor, pelo evidente aspecto da proximidade lingüística.
Eugénio morreu na segunda-feira, aos 82 anos, na cidade do Porto, onde viveu seus últimos anos lutando arduamente contra doença não divulgada - a discrição, aliás, sempre foi um traço do autor. Nascido numa pequena aldeia da Beira Baixa sob o nome de José Fontinhas, teve uma infância campestre muito ligada à figura da mãe, marcas que estariam patentes em seus escritos até a maturidade. Começou a publicar poemas bem cedo e o reconhecimento de público e de crítica chegaria com As mãos e os frutos, de 1948.
A partir daí teria início uma trajetória rica não só na área da poesia, mas também na prosa, no ensaio e na tradução. Sua produção poética destacou-se pela extraordinária capacidade de criar conexões entre a aparente banalidade do circunstancial e o sublime, como exprimem os versos de Memória doutro rio, de 1978: ''Com a manhã chega o anônimo respirar do mundo./ Um cheiro de pão fresco invade o pátio todo./ Vem dos lados do rio: para levar à boca, ou ao poema''. Sem recair no melodramático ou no meramente pomposo, seu lirismo alimentava-se do rigor, da depuração das palavras, buscando, seja na natureza, seja no homem, a fagulha capaz de fazer fulgurar um instante qualquer de beleza em meio à brutalidade do mundo.
Como apontou o poeta Carlito Azevedo na apresentação da antologia editada pela Nova Fronteira, a poesia de Eugénio é eminentemente solar. Mesmo quando esbarra na melancolia tão afeita à cultura portuguesa, sua obra insiste em cavoucar a luminosidade que se esconde sob os breus mais absolutos. ''Nas suas margens nuas, desoladas,/ cada homem tem apenas para dar/ um horizonte de cidades bombardeadas'', escreveu ele num de seus mais célebres poemas.
A consciência de que tais ''bombardeios'' deixam máculas convive, no entanto, com a certeza perene de que a alegria esquecida pode nos surpreender na imagem mais prosaica. Como a cena que o poeta flagra de sua varanda no poema Há uns dias. Trata-se de um daqueles momentos ''em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima'', mas ele, ao avistar as crianças ''correndo no molhe'' e cantando, recorda-se do próprio menino que foi. ''Um sorriso abre-se então/ num verão antigo/ que dura''. ''E dura ainda'', insiste, para encerrar o poema - e delinear um epitáfio possível da forma como vislumbrou (e sentiu) a vida.
