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Direto do Jardim Botânico para a nostálgica raspadinha de groselha

Crônica publicada no Jornal do Brasil

Mesmo com meu Flu fora da parada, fui ao Maracanã na decisão do último Campeonato Carioca. Com aquele orgulho mais essencial - o que nasce do pertencimento-, vesti minha velha camisa de listas azul, amarelo e grená e engrossei o coro que, embalado pelos agogôs imperiais, incentivou o escrete do Madureira contra o poderoso Botafogo no inusitado duelo final.

Perdemos. Mas desde o começo ficou claro que a questão ali não se limitava à banal dualidade entre vitória e derrota. Era algo maior: o emblema de um renascimento. A empolgação dos madureirenses que dividiam um dos anéis do mítico estádio, cantando antigos sambas, gritando os mesmos gritos, no fundo exaltavam o modo de ser de um bairro até há pouco ameaçado de dissolvição, num triste paralelo à crise que, profetizada no enredo das Superescolas de Samba S.A, quase maculou as duas jóias de sua coroa: o Império Serrano e a Portela.

Sou um moço que nasceu e cresceu entre a Carvalho de Souza e a Edgard Romero. Freqüentei o parquinho do Tem Tudo, tomei raspadinha de groselha em frente ao colégio Lemos de Castro, comi trilha frita na Carolina Machado, subi com meu tio Chico os degraus da Igreja de São José Operário. Fiz colônia de férias no Madureira Esporte Clube, cujas cores defendi, já adolescente, no I Campeonato Estadual de Futebol de Mesa (o nome pomposo que escolheram para o jogo de botão). A cada carnaval, corria empolgado para o sobrado da família no afã de assistir, com ângulo privilegiado, à passagem do Bloco das Piranhas.

Foi da sacada daquele mesmo prédio - ainda de pé - que vi o bairro viver seu dia mais feliz. Beto Sem Braço e Aluísio Machado desfilaram em carro aberto, homens e mulheres se abraçavam, grupos de Clóvis movimentavam suas bexigas e sombrinhas, inimigos se reconciliavam, a auto-estima estalava em cada morador porque, com Bum bum paticumbum prugurundum, o Império havia vencido o desfile. Com a Portela em segundo, o Rio todo era Madureira.

Foi essa Madureira da minha infância que brilhou, cheia de viço e lustre, naquela tarde no Maracanã. E que hoje, felizmente, volta a reluzir a cada feijoada nas quadras das escolas, a cada baile soul sob o viaduto Negrão de Lima, a cada passo de jongo onde quer que seja. Reluz em resistência porque o madureirense, como o sertanejo, é sobretudo um forte.

Por isso, mesmo morando atualmente no Jardim Botânico, insisto em voltar lá sempre que posso. Seja para ouvir os versos nos quais Roberto Ribeiro exaltou a arte e lamentou a morte da vedete Zaquia Jorge ou para pedir um calor à baiana mãe de todos nós; seja para simplesmente olhar para aquelas ruas, refinar a alma e chorar um choro pungente, um choro para dentro, autenticamente feliz - como se Madureira inteira chorasse dentro de mim.