
Contra a dislexia, o sublime
Grandes filmes em geral permitem diversificadas e invariavelmente ricas leituras. Ao crítico, cabe a difícil tarefa de detectar os diferentes fios que os delineiam em observações precisas, sempre sob a exigência da síntese e da coerência. Esta introdução, à beira do “nariz de cera”, torna-se necessária porque analisar O Homem Que Copiava, o novo filme de Jorge Furtado, decerto é uma tarefa complicada justamente pela riqueza e multiplicidade de questões levantadas ao longo das duas horas de projeção. Na película, o diretor e roteirista gaúcho mistura drama, comédia, suspense e dialoga o tempo todo com a tradição do cinema, através de citações – Janela Indiscreta, explicitamente, e A Última Gargalhada, com mais sutileza, são alguns exemplos. Tal aproximação com a Sétima Arte conecta o eixo principal da história – a fragmentação – ao próprio “fazer” cinematográfico.
O Homem Que Copiava baseia-se na trajetória do protagonista, André (Lázaro Ramos), um operador de máquina copiadora cuja vida banal é explicitada na primeira terça parte do filme. Ele trabalha durante o dia numa papelaria no centro de Porto Alegre, na companhia de Marinês (Luana Piovani), balconista insinuante que tem como meta encontrar um marido rico, passaporte para o mundo colorido das revistas. Completam o rol dos personagens centrais Sílvia (Leandra Leal), vizinha de André, por quem ele nutre uma paixão secreta, e Cardoso (Pedro Cardoso), atendente de uma loja de velharias, um tipo escorregadio, próximo da malandragem. A trama se desenvolverá a partir da tentativa de André em conseguir dinheiro para conquistar Sílvia, tarefa que o colocará no centro de uma grande confusão, envolvendo traficantes, chantageadores e a polícia.
Furtado mais uma vez exercita sua excelência na construção de um roteiro bem amarrado, que transforma esse retrato fiel do indivíduo urbano contemporâneo em diversão das mais sofisticadas para o espectador. Além do roteiro e da interpretação inspirada dos quatro atores, com destaque para Lázaro e Leandra, a elaboradíssima edição (de Giba Assis Brasil) é outro ponto alto: remetendo a um dos primeiros curtas do diretor, Ilha das Flores, os planos (1448 ao todo) revezam-se, formando uma torrente de estímulos que reflete com perfeição o estado de André, homem capaz de amealhar informações tão-somente por intermédio de trechos das cópias que faz durante seu trabalho na fotocopiadora. Pedaços de poemas, capítulos de livros, pesquisas escolares... Uma vida de recortes, captada por meios distintos – vídeo, animação, cinema – mas cuja soma das partes não chega a resultar em um “todo”.
A sintonia imagem/trama/conceito se dá sem afetação. É muito fácil utilizar tais expedientes para “soar moderno”, como fez Oliver Stone no lamentável Assassinos por Natureza, há alguns anos. Em O Homem Que Copiava, as correlações servem ao filme, não à vaidade do autor.
Evidentemente, há no filme uma referência ao mecanicismo e à exagerada especialização que marcam nossos tempos pós-tudo. Georg Simmel já detectou, em seminal estudo, que “o traço fundamental do homem urbano se define em termos de um eu fragmentado”. Tal fragmentação acentuou-se no decorrer do último século, transformando a metropóle num jorro de discursos e imagens transitórias que paradoxalmente aprisionam em vez de libertar. No centro desse ambiente, muitas vezes mostrado pelo próprio cinema, paira um indivíduo sem senso algum de coletividade. No caso de André, à beira da dislexia. Ele é incapaz de formular algum conhecimento sistematizado. Faz colagens, mas no fundo desse espoucar de associações fugazes jaz um imenso vazio ontológico. O título do filme - aliás, um achado! – já alude a essa tendência à cópia, à abdicação (ou mesmo impossibilidade) da “autoria”.
Interessante notar como Furtado acena para esse quadro, explicita a desorientação de quem teve que aprender a viver sem referências, sem perder a mão, sem enredar-se pela confusão. Ao espectador, fica claro que, a permanecer no estado de completa desorientação em que está metido, André caminhará a passos largos para insanidade completa. O protagonista do filme é um caso extremo, até pela insuficiência de recursos, pela pobreza que fica clara logo na seqüência inicial, mas o sintoma apresentado pelo diretor está patente no cotidiano das ruas de qualquer metrópole brasileira, independentemente de classe social.
Em contraste com personagens típicos do cinema dos anos 70 e 80, cuja desorientação nascia da dissolução das grandes narrativas de explicação do mundo, mas cuja crise era para eles uma “questão”, para André há apenas o vazio. Ainda assim, ele consegue escapar. E aí a proposta de Furtado inclui uma possibilidade e uma ironia. A possibilidade, a busca pela sublimação. É através do amor por Sílvia que começa a se esboçar um sentido para a vida de André. O diretor sublinha essa rota na lírica seqüência do passeio do casal à beira do rio Guaíba, filmada em tempo real, contrariando as elipses que marcam praticamente toda a narrativa. Enquanto caminham e ela lhe explica, verso a verso, um soneto de Shakespeare cujo tema é justamente o tempo, o espectador nota que o que está a ocorrer na tela é uma epifania, algo capaz de suspender os atos meramente cotidianos, trazer elevação e algum conforto real.
A ironia é o “happy end”: os quatro terminam ricos e aparentemente felizes, malgrado a amoralidade dos gestos que os levaram a tal situação: falsificação, assalto e até homicídio. Talvez Furtado, com mordacidade, deixe essa rubrica como a lembrança de que mesmo naquela alegria esfuziante persiste a fragilidade diante da “doença moral” que nos atinge desde que elegemos o relativismo absoluto como raiz primeva da existência: um vale-tudo que se constrói na base de muito “venha a nós” e de nada, ou quase nada, “ao vosso reino”.
Resenha publicada no site Críticos.com
