
A angústia da impossibilidade
Uma briga de galos – um branco, outro negro – funciona, logo no início da projeção, como uma espécie de prelúdio da história que será narrada em Cidade Baixa. Captado pela câmera frenética de Sérgio Machado, o sangrento embate entre os dois animais na rinha antecipa, de forma metafórica, o que veremos a seguir: o crescente conflito entre Naldinho (Wagner Moura) e Deco (Lázaro Ramos), dois amigos de longa data, a partir do momento em que conhecem a prostituta Karina (Alice Braga) e são por ela enredados numa relação triangular e inter-racial.
Força-motriz de clássicos como Jules e Jim (François Truffaut), o hoje desgastado tema do trígono amoroso ganha, em Cidade Baixa, novos tons. Sob o signo do realismo extremado, o filme desnuda uma Salvador léguas distante da que fulgura nos cartões postais e que, por inversão, alude à dicotomia sugerida já no título. A cidade baixa é aquela que viceja no subterrâneo, que arde nos intestinos da paisagem idílica, com regras próprias e uma lei suprema: o importante é sobreviver.
Nesse purgatório sem promessa de paraíso, Naldinho, Deco e Karina entrelaçam seus caminhos. A imagem granulada e o ritmo nervoso da montagem exacerbam a progressiva tensão que corrói os três personagens, cindidos entre a atração e a repulsa mútua, numa relação que parece inexoravelmente destinada a desfecho trágico. Um dos muitos méritos de Cidade Baixa, aliás, é suscitar tal sensação com sutileza, abdicando de recorrer ao fácil expediente da “fala”. Pois se os diálogos exprimem o esfarelamento da cumplicidade dos dois amigos à medida que Karina se imiscui entre eles, é nos silêncios, nos relances sensuais dos corpos, na expressividade per se dos olhares, que o drama efetivamente se estabelece.
O filme, portanto, não se sustentaria caso o entrosamento entre os atores fosse construído sobre bases frouxas - o que felizmente não acontece. Pelo contrário: as atuações de Wagner Moura, Lázaro Ramos e Alice Braga são viscerais e orgânicas, exprimindo com as nuances possíveis o amálgama de paixão, tesão, ciúmes, raiva, culpa e desejo que sedimenta cada um dos personagens e rege suas contendas. Tais sentimentos estarão potencializados na belíssima seqüência final, quando a abissal angústia que nasceu e alimentou-se da impossibilidade, da interdição, transfigura-se nas lágrimas que percorrem o rosto de Karina e no sangue diluído que desce pela pia. No pequeno quarto do apartamento há, então, apenas os três. E seus corações, como um dia escreveu Ferreira Gullar, “pulsam como um relógio num tic tac que não se ouve”.
Resenha publicada no catálogo da Mostra Os Melhores Filmes de 2005, realizada no CCBB
