
Tive a oportunidade de conhecer mestre João nos poucos meses que antecederam a sua morte. Naquela ocasião nós realizávamos um pequeno documentário sobre literatura brasileira para a ZDF-TV Alemão. Eu havia sugerido o nome de João Antônio.
Não lembro mais as datas com precisão, pela minha indesculpável relutância em anotar nomes, lugares e os dias dos muitos acontecimentos que vivi durante o meu longo tempo de jornalista para televisão.
Durante dois meses perambulei por esta cidade com João, nos dias e nas noites de gravação e principalmente nos momentos em que, câmeras fora, me sentava com ele por longas horas de conversa fiada sobre filosofia (que ele adorava), estética, família, poucas vezes sobre literatura e nunca sobre a malandragem. Me lembro com especial predileção de uma tarde em que ele me levou à Lapa e visitamos uma inesperada carvoaria, onde o trabalho ainda feito ali, em pleno centro do Rio, parecia sair de uma gravura do século XIX.
João Antônio era uma pessoa de infinita doçura que, suponho, está refletida na sua tarefa de levar-nos a olhar a pequena humanidade que ele descreveu. Por trás da bizarrice da linguagem desse lumpesinato que ele nos mostrou, feito de desocupados, pilantras, bêbados, prostitutas, enfim, da gente que não percebemos, João estabelecia um vínculo afetivo do qual não temos ainda imitadores. Na maior parte das vezes as tentativas se restringem a descrever o lado pitoresco desses viventes do meio-fio. Na verdade, creio que o sofrimento de João vinha de se saber profundamente solitário como artista, de saber que sua arte não despertava simpatia facilmente e que uma espécie de “maldição” repousava sobre o seu destino. Ele teve que lutar contra essa “maldição” quando reescreveu inteiramente Malagueta, Perus e Baganaço destruído num incêndio. Depois a “maldição” continuou vida afora, com que ele se tornou parte dessa família de visionários sofridos que conhecemos em toda história da arte.
Poucas semanas antes de morrer ele me telefonou tarde da noite, desolado e tristíssimo com a morte da mãe. Conversamos um pouco, ele andava profundamente solitário. A morte da mãe acentuava este sentimento. Me despedi julgando que o confortara. Qual o quê! Semanas depois (ou terão sido alguns dias depois?) veio a falecer ignorado em seu apartamento na Serzedelo Correia. Creio que ele foi acometido do mesmo mal que acometera outrora um outro artista, Mozart, também consumido pela depressão depois da morte do pai. Mas o que eu escrevo não quer dizer absolutamente nada. Olhai por nós, João.