
Olha o velho aí, garotão, com a Flávia, minha irmã. Atrás, o Dodge Dart que ele adorava - modelo com banco contínuo na frente e marcha no painel. Hoje, se vivo, o pai faria 78 anos. Saudade...
Os escritores Adriana Lisboa e Antonio Torres se encontrarão, na próxima quarta (dia 29), às 19h30, para debater como nossa produção literária é observada fora do país - e também as diferentes visões internas. Torres, por exemplo, migrou do sertão baiano para o "Sul Maravilha", o que teve influência em seu olhar e em sua escrita. Já Adriana vive hoje a experiência de morar em Colorado, nos Estados Unidos. Ambos os autores foram traduzidos no exterior.
Com mediação deste que vos escreve, o painel Literatura Brasileira: Olhar de dentro, olhar de fora acontecerá na Biblioteca Municipal de Botafogo (Rua Farani, 53), dentro dos Encontros Literários da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Apareçam!
Sobre o livro Geração 00, objeto de matéria na capa do Prosa & Verso de sábado passado, duas observações:
1. Respeito muito o Nelson de Oliveira, com quem tenho ótima relação, e também os autores do livro, muitos dos quais meus amigos, mas soa pretensioso o organizador dizer que reuniu os "melhores da geração". Como antologista que também sou, nunca me arvorei em afirmar que escolhi os "melhores", mas sim amostras que me pareciam significativas.
2. É pura forçação de barra asseverar que o "bizarro" é a marca de uma geração cuja marca é justamente a falta de uma marca. Posso citar aqui vários ótimos autores cujas obras não tem nada a ver com o bizarro (não por acaso, não estão no livro).
Hoje, a partir das 19h, na Travessa do Leblon, o querido amigo Alberto Mussa lança O senhor do lado esquerdo (Record), seu novo romance. Todos à Travessa, pois.
Caramelos Toffee Luxo com cobertura de chocolate, da Bhering. Quando vi o saquinho, hoje mais cedo, no Villariño, fui imediatamente remetido para as sessões dos filmes de Os Trapalhões no Madureira 1 e no Madureira. Comprei o saquinho, provei um caramelo, e foi o suficiente para reiterar: não devemos voltar aos encantos da infância, sob pena de desmoralizá-los.
A edição de junho da Tribuna do Advogado traz, na contracapa, entrevista que fiz com o procurador Athayde Costa, coordenador do grupo de trabalho criado pelo Ministério Público Federal para acompanhar a organização da Copa. Na conversa, ele critica duramente a Medida Provisória 521, que cria regime especial de licitação e contratação para as obras que servirão aos grandes eventos esportivos no Brasil. Segue a íntegra:
'É falácia atribuir atraso nas obras da Copa a rigor da Lei de Licitações'
Marcelo Moutinho
Em nota enviada ao Congresso, o Ministério Público Federal (MPF) apontou a inconstitucionalidade dos dispositivos incluídos na Medida Provisória 521 e que criam regime especial de licitação e contratação para as obras necessárias a grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olímpiadas de 2016. Segundo o procurador Athayde Costa, coordenador do grupo de trabalho criado pelo MPF para acompanhar a organização da Copa, o projeto dá um "cheque em branco" para as empreiteiras, "favorecendo superfaturamentos e encarecimento das obras, além de dificultar o controle de qualidade". Athayde concedeu a seguinte entrevista à TRIBUNA.
Quais as inconstitucionalidades da MP 521, que cria regime especial de licitação e contratação para as obras que servirão à Copa e às Olímpiadas?
Athayde Costa - As principais inconstitucionalidades detectadas inicialmente pelo MPF referem- se à transferência ao gestor, sem a adoção de critério objetivo, da qualificação de obra ou serviço que favorecerá a Copa e a Olimpíada. A disposição afronta a Constituição, pois cabe à lei essa tarefa, não podendo o Executivo, mediante critérios subjetivos, apontar qual regime de licitação será adotado ao argumento de que a obra atenderá a Copa ou a Olimpíada. Além disso, as licitações serão efetuadas sem projeto, não permitindo definir o que será licitado, em afronta à Constituição. Tenta-se transferir às construtoras a responsabilidade de realizar, após a licitação, o projeto da obra. Isso significa um cheque em branco para as empreiteiras, pois a administração ficará refém delas, favorecendo os infindáveis aditivos contratuais, os superfaturamentos e o encarecimento das obras, além de dificultar o controle de qualidade. Visualiza-se um panorama caótico para o país. Na nota foram também apontados vícios com relação ao subjetivismo, na tentativa de utilizar como critério de julgamento da licitação o maior retorno econômico, mormente quando conjugado com a criação de novo tipo contratual denominado contrato de eficiência. Não há delimitação sobe o campo de abrangência do denominado contrato de eficiência. Há violação ao princípio da impessoalidade.
O Ministério Público Federal afirma que a aplicação do Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC) para licitações e contratos relacionados com obras para esses eventos é uma cláusula intoleravelmente aberta. Por quê?
Athayde Costa - A proposta confere à administração o dever de adoção preferencial do regime denominado contratação integrada, no caso de obras e serviços de engenharia. Com isto, obras e serviços de engenharia ficam livres da exigência de apresentação de projeto básico e de projeto executivo, nos termos da legislação geral em vigor (artigo 7º, da Lei nº 8.666/ 1993). Há previsão apenas de um anteprojeto de engenharia. Ocorre que o conteúdo do denominado anteprojeto de engenharia é vago, genérico, e implicará a ausência de definição do objeto da licitação e do futuro contrato, violando o artigo 37, inciso XXI, da Constituição, que impõe o dever de licitar para contratações de obras e serviços de engenharia e pressupõe, logicamente, a sua exata configuração. Não há licitação sem prévio e determinado objeto, porque sem isto não há condições de disputa. Admitindo-se o anteprojeto de engenharia, isto implicará violação dos princípios da competitividade, isonomia e impessoalidade, porque impedirá o julgamento objetivo da licitação. Também poderá ensejar graves desvios de verbas públicas em razão da deficiência e da insuficiência do citado anteprojeto de engenharia. Por essas razões, foi dito que o RDC é intoleravelmente aberto.
A urgência das obras não pode ser obtida com a eliminação do núcleo essencial do princípio da licitação, diz a nota. O argumento da relatora da MP, deputada Jandira Feghalli, é a celeridade. É possível conciliar pressa e rigor?
Athayde Costa - É uma falácia atribuir o atraso nas obras ao eventual rigor da Lei de Licitações. A ideia da flexibilização somente serve para chancelar o péssimo planejamento dos gestores que, por incapacidade, desídia ou até má-fé, fabricam a emergência da contratação e possibilitam obras superfaturadas ou que demandam aditivos vultosos, em indesejável desrespeito ao cidadão. Lembre-se que o Brasil foi escolhido em 2007 para sediar a Copa. O que se busca ao invocar a celeridade é a não realização dos projetos básicos das obras, mediante a transferência da tarefa para as construtoras após as licitações. Como já dito, isso significa um cheque em branco para as empreiteiras e a administração ficará refém delas
Há precedentes de atrasos deliberados em obras para, depois, afrouxarem-se os critérios para licitações?
Athayde Costa - Há casos em que os gestores fabricam a emergência para efetuarem a contratação por dispensa de licitação, o que configura ato de improbidade administrativa.
Existe algum questionamento do Ministério Público Federal quanto ao fato de as mudanças no sistema de licitação terem sido propostas como emendas numa MP que trata da remuneração de médicos residentes?
Athayde Costa - Na análise preliminar, o MPF se ateve ao mérito do projeto que se revelou muito prejudicial aos cofres públicos. Ou seja, em vez de fortalecer o controle, pretende-se liberar geral e prejudicar o combate à corrupção. A tentativa fere a Convenção Interamericana contra a Corrupção promulgada no Brasil por meio do Decreto nº 4.410/02. Trata-se de violação da obrigação internacional de assegurar um sistema de aquisição de bens e serviços por parte do Estado brasileiro fundado nos princípios da transparência, equidade e eficiência.
Os ótimos sambas de Bide e Marçal serão lembrados hoje, às 19h30, no Trapiche Gamboa, pelo amigo Pedro Paulo Malta. Acompanhado por Pedro Amorim, Pepê interpretará composições como Agora é cinza, Barão das cabrochas e Madalena.
(Maior sucesso da dupla, Agora é cinza tem uma história curiosa. Em uma noite no Café Nice, a canção foi oferecida, junto com Vivo sonhando, a Mário Reis, que a recusou. Mário sugeriu que Bide e Marçal levassem as duas para Francisco Alves, a quem queria afagar, já que os dois cantores andavam amuados. Acontece que O Rei da Voz preferiu gravar Vivo sonhando. Mário acabou ficando com a que sobrou, e que arrebentou nas paradas).
O show de Pedro Paulo e Pedro Amorim é a melhor pedida do dia.
Publiquei hoje, na seção Contos, crônicas e artigos aqui do site, a íntegra da apresentação que escrevi para a edição especial Bravo! - Literatura e Futebol. O livro, que organizei para a Editora Abril, esteve nas bancas no começo do ano e reúne 18 textos (crônicas, contos e poemas) de grandes autores brasileiros em que a atração principal é o velho esporte bretão. Leia o texto aqui.
O camarada Henrique Rodrigues lançou, hoje pela manhã, no FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, seu novo infantil: Sofia e o dente de leite (Editora Memória Visual). Li o texto, vi a prova do livro, com as lindas ilustrações de Bruna Assis Brasil, e posso garantir: ficou uma beleza. Altamente recomendável.
"Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas".
A Carta da Paixão, de Herberto Helder. Para a Ju.
O próximo domingo marcará o sexto aniversário de morte do grande Eugénio de Andrade. Lembro o poeta, aqui, por intermédio do pequeno artigo que escrevi, na época de seu falecimento, para o Jornal do Brasil:
Luminosidade no breu
O poeta Eugénio de Andrade buscava o sublime nas pequenas coisas
Marcelo Moutinho
É emblemático, mas não surpreendente, que a morte de Eugénio de Andrade tenha sido ignorada quase unanimemente pelos suplementos culturais dos jornais brasileiros. Afinal, apesar de certamente estar entre os grandes de nosso tempo, o poeta português é pouquíssimo conhecido neste país, que, se mal olha para a poesia feita em seu território, atenta menos ainda para os versadores de outras plagas. Chega a ser espantoso que ignoremos escritores como a portenha Alejandra Pizarnick, cuja obra nunca foi lançada por aqui. O caso de Eugénio, contudo, é ainda mais estarrecedor, pelo evidente aspecto da proximidade lingüística.
Eugénio morreu na segunda-feira, aos 82 anos, na cidade do Porto, onde viveu seus últimos anos lutando arduamente contra doença não divulgada - a discrição, aliás, sempre foi um traço do autor. Nascido numa pequena aldeia da Beira Baixa sob o nome de José Fontinhas, teve uma infância campestre muito ligada à figura da mãe, marcas que estariam patentes em seus escritos até a maturidade. Começou a publicar poemas bem cedo e o reconhecimento de público e de crítica chegaria com As mãos e os frutos, de 1948.
A partir daí teria início uma trajetória rica não só na área da poesia, mas também na prosa, no ensaio e na tradução. Sua produção poética destacou-se pela extraordinária capacidade de criar conexões entre a aparente banalidade do circunstancial e o sublime, como exprimem os versos de Memória doutro rio, de 1978: ''Com a manhã chega o anônimo respirar do mundo./ Um cheiro de pão fresco invade o pátio todo./ Vem dos lados do rio: para levar à boca, ou ao poema''. Sem recair no melodramático ou no meramente pomposo, seu lirismo alimentava-se do rigor, da depuração das palavras, buscando, seja na natureza, seja no homem, a fagulha capaz de fazer fulgurar um instante qualquer de beleza em meio à brutalidade do mundo.
Como apontou o poeta Carlito Azevedo na apresentação da antologia editada pela Nova Fronteira, a poesia de Eugénio é eminentemente solar. Mesmo quando esbarra na melancolia tão afeita à cultura portuguesa, sua obra insiste em cavoucar a luminosidade que se esconde sob os breus mais absolutos. ''Nas suas margens nuas, desoladas,/ cada homem tem apenas para dar/ um horizonte de cidades bombardeadas'', escreveu ele num de seus mais célebres poemas.
A consciência de que tais ''bombardeios'' deixam máculas convive, no entanto, com a certeza perene de que a alegria esquecida pode nos surpreender na imagem mais prosaica. Como a cena que o poeta flagra de sua varanda no poema Há uns dias. Trata-se de um daqueles momentos ''em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima'', mas ele, ao avistar as crianças ''correndo no molhe'' e cantando, recorda-se do próprio menino que foi. ''Um sorriso abre-se então/ num verão antigo/ que dura''. ''E dura ainda'', insiste, para encerrar o poema - e delinear um epitáfio possível da forma como vislumbrou (e sentiu) a vida.
E o Merval Pereira virou acadêmico, derrotando Antonio Torres. Pior para a Academia. Como bem disse o amigo Henrique Rodrigues, pelo visto, escritor agora só entra na ABL com sistema de cotas. Meu desagravo ao Antonio vem sob a forma de uma crônica escrita justamente pelo Moacyr Scliar, cuja cadeira na instituição era disputada. Segue o texto, que explicita a gravidade do erro cometido hoje:
"Meu querido Antônio Torres"
Moacyr Scliar
"Em Junco (Bahia), onde nasceu e se criou, Antônio Torres escrevia cartas para os analfabetos moradores da região. Uma ocupação que condicionou, e de forma mais que simbólica, seu destino: escrevendo, Torres se tornou um grande escritor, reconhecido no país e no exterior. Mas é, ao mesmo tempo, um escritor que escreve por aqueles que não podem ou não sabem fazê-lo. É um autor popular, no mais legítimo sentido da palavra. Não é de admirar que obras como Os Homens dos Pés Redondos (1973), Essa Terra (1976) – traduzido pelo menos em 15 idiomas – Carta ao Bispo (1979), Adeus, Velho (1981), Um Táxi para Viena d’Áustria (1991), Meu Querido Canibal (2000) tenham feito sucesso tanto de público quanto de crítica.
Deste sucesso, posso dar um testemunho pessoal. Sou amigo de Torres há muitos anos. Pertencemos à mesma geração literária, a geração que começou a publicar em fins dos anos 60 e começo dos 70, ou seja, no auge da ditadura. Naquela época escrever era uma forma de resistência. Resistência a que Torres engajou-se de maneira admirável. Junto com Ignácio de Loyola Brandão e João Antônio, ele percorreu o país, falando para jovens nos mais remotos lugares. E foi várias vezes para o Exterior.
Nessas viagens, não raro nos encontramos. Era, e é, ocasião para um bate-papo que se continua através do tempo, uma conversa que sempre retomamos. Para mim, com enorme prazer. É impossível não gostar de Torres. Ele é, pessoalmente, o mesmo autor amável e emotivo que encontramos nas páginas de seus livros. É um homem profundamente generoso. E profundamente brasileiro. As platéias estrangeiras sempre o escutam com atenção porque sabem que, através de sua voz, fala o Brasil mais autêntico, o Brasil que também está todo em sua obra. Que também prima pela originalidade. Quem chamaria um canibal de “meu querido”, senão Antônio Torres?
Agora ele está, como já fez muitas vezes, nos visitando. É uma oportunidade de conhecê-lo, e de conhecer as suas obras. Vale a pena. Nas páginas de Antônio Torres o Brasil escreve suas cartas. "
Hoje, o querido Pedro Paulo Malta estreia uma série de oito shows, ao lado de Pedro Amorim, no Trapiche Gamboa. As apresentações serão sempre nas quartas-feiras dos meses de junho e julho, às 19h30, cada uma delas homenageando um grande compositor brasileiro. O primeiro será Geraldo Pereira. Em seguida, virão Wilson Batista, Ismael Silva e a dupla Bide/Marçal.
A Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, colocou no ar uma ótima entrevista com o cantor Marcos Sacramento. Na conversa, entremeada pelas canções citadas, ele fala de Assis Valente, Orlando Silva, Custódio Mesquita e até do rock progressivo do Emerson, Lake and Palmer. Confira aqui.
Belíssima a análise que o Francisco Bosco traçou, em sua coluna de hoje em O Globo, sobre o poder da música - mais amplamente, sobre a capacidade da arte de, contra todas as evidências, derrotar o niilismo. O Chico parte de um trecho de No caminho de Swann, de Proust, para fazer seu erudito (mas nunca ininteligível) passeio em torno do assunto. Segue a íntegra do texto:
"Proust e a música"
Francisco Bosco
"As mais belas páginas sobre música que já li são de Proust. Trata-se de quatro ou cinco páginas no final da segunda parte de “No caminho de Swann”. Muitos se desencorajam diante da frase de Proust (eu mesmo, durante anos), porque ela costuma iniciar uma linha de sentido, deixá-la suspensa, iniciar e desenvolver outra linha, e lá na frente retomar a linha inicial, finalizando-a. Isso requer do leitor o trabalho de sustentar na memória o sentido suspenso. Pode incomodar de início, mas logo nos acostumamos. E aí começa uma das maiores experiências que se pode ter em toda a história da literatura.
Dessas quatro ou cinco páginas, vou identificar e comentar dois aspectos. Tudo gira em torno de uma pequena frase musical de uma sonata de Vinteuil (compositor fictício). Ao ouvi-la pela primeira vez, Swann sente abrirse-lhe a alma “como certos odores de rosa, circulando no ar úmido da tarde, têm a propriedade de dilatar-nos a narina”. Essa abertura de alma está na origem de seu amor por Odette, amor que se tornaria desde então vinculado à pequena frase da sonata. Alguns anos depois, exaurido
pelo ciúme e pelo desprezo cínico da amada, Swann, numa recepção, ouve novamente a frase, e a sente presente “como uma divindade protetora e confidente de seu amor, e que, para poder chegar até ele no meio da multidão e tomá-lo à parte para lhe falar, adotara aquele disfarce de uma aparência sonora”. A partir daí começa uma reflexão magnífica sobre o que é a música, qual o seu sentido, qual sua relação com a vida e a morte.
Eu não podia avaliar, antes disso, o quão proustiano é Deleuze. Com efeito, a teoria da arte desenvolvida por ele e Guattari em “O que é filosofia?” (minha preferida entre todas as teorias da arte que conheço) está fundamentalmente esboçada por Proust nessas páginas. “Tais encantos de uma tristeza íntima era o que ela tentava imitar, recriar, e até mesmo a essência deles, que, no entanto, é a de serem incomunicáveis e de parecerem frívolos a todo aquele que não os sente, a pequena frase a captara e tornara visível.” À arte cabe “imitar, recriar” um afeto que, na experiência direta da realidade, é incomunicável, de forma a comunicá-lo. É precisamente isso que Deleuze e Guattari chamam de passagem da afecção ao afecto: trata-se de transportar a chama do imediato para um meio frio (as palavras, na literatura; os sons, na música; etc.), sem que, no caminho, a chama se extingua, e, uma vez tendo chegado viva ao meio, lá sobreviva, eternamente. Essa sobrevivência da vida ao vivido, essa sua passagem de uma experiência particular para um meio potencialmente aberto a todos, aí reside o que se pode chamar de democracia essencial da obra de arte.
Pode ser que esse modo de compreender a arte tenha muitos antecessores. Em “O que é arte?”, por exemplo, de Tolstói, pode-se ler: “A arte começa quando o homem evoca novamente dentro de si o sentimento já experimentado, com o objetivo de transmiti-lo para outras pessoas, e o expressa por meio de determinados sinais expressos.” Afinal, que a arte é uma forma de comunicação, isso é evidente. Mas em Deleuze e Guattari essa evidência ganha sua teorização mais precisa; e, em Proust, sua mais bela homenagem: “Ela [a pequena frase] pertencia a uma ordem de criaturas sobrenaturais e que nunca vimos, mas que, apesar disso, reconhecemos deslumbrados quando algum explorador do invisível consegue captar uma, trazê-la do mundo divino a que teve acesso para brilhar por poucos momentos sobre o nosso.” (Os “poucos momentos” referem-se ao tempo de duração da experiência particular de cada sujeito, ao tempo em que a pequena frase é executada pelo pianista; já o tempo universal da obra de arte é eterno, enquanto durar o meio — enquanto a tinta no papel puder ser lida, enquanto a cor na tela puder ser vista.)
Outro aspecto forte dessas páginas diz respeito ao engrandecimento da vida pela arte. É a arte que revela às pessoas as “tantas riquezas desua alma”. Entramos, aqui, em terreno nietzscheano. O filósofo tinha um critério primordial para a avaliação do valor de uma obra de arte: ela afirma ou depreciaa vida? A arte deve ser um antídoto ao niilismo. É também o que se depreende dessa frase de Proust: “(...) O campo aberto ao músico não é um teclado mesquinho de sete notas, mas um teclado incomensurável ainda quase totalmente desconhecido, em que apenas aqui e ali, separados por espessas trevas inexploradas, alguns dos milhões de toques de ternura, de paixão, de coragem, de serenidade que o compõem, cada um tão diferente dos outros como um universo de outro universo, foram descobertos por alguns grandes artistas que nos prestam o serviço, despertando em nós o correspondente do tema que encontraram, de nos mostrar quanta riqueza, quanta variedade, sem que saibamos, oculta essa grande noite impenetrada e desencorajadora da nossa alma que tomamos por vazio e nada.”
Esses dois aspectos são duas chaves de compreensão possíveis para a famosa afirmação de Nietzsche, segundo a qual “sem a música a vida seria um erro”. Primeira: a música talvez seja a linguagem mais capaz de capturar as afecções, e as afecções são “certas”, no sentido de reais (enquanto a linguagem verbal, por sua dimensão semântica, está vinculada ao erro, a uma décalage constitutiva em relação ao real). Segunda: a música, alargando a alma, enche a vida de sentido, redime a existência, desacredita, contra todas as evidências, o niilismo."