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Flip 2010 - Bate-bola entre mitos da contracultura Escrito em 09 de agosto de 2010
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Robert Crumb e Gilbert Shelton cantarolam e conversam sobre política, sexo e – claro - quadrinhos

Robert Crumb cantarolou “Aquarela do Brasil”, Gilbert Shelton escolheu “Garota de Ipanema”. E esse clima de descontração foi mantido durante toda a conversa entre os dois quadrinistas que são mitos da contracultura e estiveram reunidos na noite deste sábado (7) na mesa “A origem do universo”. O painel incluiu a exibição de desenhos dos dois convidados no telão e teve uma participação especial: Aline Kominsky, também quadrinista e mulher de Crumb, que subiu ao palco e contou sobre o casamento e os trabalhos produzidos a quatro mãos com o marido.

Falante e bem humorado, Crumb comentou a viagem ao Brasil. Ele disse que veio à Flip “porque adora viajar de graça” e elogiou um grupo de choro, chamado “Os curandeiros”, cujo CD comprou em Paraty. Para seu país natal, sobraram críticas. O quadrinista, radicado na França desde 1991, afirmou que sente vergonha quando o chamam de cidadão americano. “Os EUA hoje são um centro cruel de fascismo corporativo. Mas não quero que isso saia nos jornais, porque a CIA pode me perseguir”, ironizou.

Mais tímido, Shelton lembrou de quando conheceu Crumb, em 1969, e os tempos de amizade com a cantora Janis Joplin: “Éramos amigos na época da universidade, ouvíamos música folclórica americana. O curioso é que ela dizia que músicos de folk não deviam escutar rock. Depois, mudou de ideia. Não deveria ter mudado porque, neste caso, estaria viva”.

Shelton recordou também a criação dos Freak Brothers, seus mais célebres personagens. “Naquele tempo, havia uns jornais de esquerda com os quais eu me solidarizava, mas que eram chatíssimos, tinham um discurso pesado. Propus colocarmos tirinhas nas páginas. Foi meu modo de ajudar”, destacou.

A obsessão de Crumb pelo sexo foi abordada a partir de uma pergunta do mediador Sérgio D’Ávila. Crumb respondeu que a relação mudou. “Estou ficando velho. Não consigo mais me identificar nessas histórias, que têm mais de 20 anos. No fundo, fico até com um pouco de vergonha”, confessou.

Sobre a postura do público quanto à sua adaptação para quadrinhos do “Gênesis”, que demorou quatro anos para ficar pronta, ele explicou que a reação mais contundente veio dos próprios fãs: “Muitos pensaram que eu estava me tornando religioso, que havia me arrependido do sexo na juventude”. D’Ávila, então, observou que o livro teve uma receptividade ótima em Israel, referindo-se à resenha positiva “de um jornal conservador local”. Crumb, que desconhecia o fato, reagiu com sarcasmo: “Israelenses conservadores? O que eu fiz de errado?”.

Menos favoráveis foram as cartas que recebeu após casar com Aline Kaminsky e transformá-la em personagem. “Diziam: ela deve ser uma boa trepada, mas, por favor, tire-a das páginas”. Aline afirmou que é tranquilo trabalhar com o marido. “Ele melhora meus desenhos. Quando não estou vendo, bota uma sombra ou outra coisa”, relatou.

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