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Flip 2010 - A vez da política Escrito em 09 de agosto de 2010
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Azar Nafisi e A.B.Yehoshua tratam de liberdade e subversão em uma conversa na qual sobraram farpas para Lula

A cativante simpatia da escritora Azar Nafisi não impediu que falasse com contundência ao comentar a atitude do presidente Lula quanto à pena capital por apedrejamento, imposta pelo governo iraniano a Sakineh Ashtiani, uma mulher de 43 anos, por crime de adultério. “Não intervir já é uma forma de intervenção”, argumentou Azar no diálogo que travou com o escritor israelense A.B.Yehoshua na mesa “Promessas de um velho mundo”, realizada na noite desta sexta-feira (6).

Mesmo a mudança na postura de Lula – no sentido que Ashtiani se asile no Brasil – recebeu críticas. “Lula afirmou que a mulher condenada estaria perturbando seu amigo Mahmoud Ahmadinejad. No fundo, é o contrário. Esse sujeito é que está perturbando a mulher com a condenação. E não acho certo que democratas sejam amigos de não democratas, de gente que apedreja as pessoas até a morte”.

Para a escritora de origem iraniana, se Ashtiani vier para o Brasil, deve ter companhia – e muita. “Neste caso, que venham também os outros indivíduos condenados no Irã, os presos políticos, os 75 jornalistas detidos, as meninas jovens que mantêm as armas de destruição em massa que são seus cabelos. Diria que quase 80% da população do país terá que vir para o Brasil”, ironizou, sendo muito aplaudida pela plateia.

Quando o mediador Moacyr Scliar se referiu ao caráter político de seus livros, Azar recusou o rótulo. Segundo ela, obras como “Lendo Lolita em Teerã” – que ficou por 117 semanas na lista de best-sellers do New York Times – não são políticas, mas subversivas: “A ideia de um livro, para florescer, independe da política. Ele se torna subversivo porque revela a verdade, e diante da verdade não podemos permanecer em silêncio. A literatura pode olhar para a política, mas não deve ter a mesma textura”.

A.B. Yehoshua se solidarizou com Azar, expulsa na Universidade de Teerã por se recusar a usar o véu e hoje distante do país natal. “Lendo seus livros, notamos que ela traz o luto de não poder estar na sua terra, sentimos o drama de quem perdeu o cheiro da infância”, ressaltou. O escritor defendeu uma “restauração” da questão moral na literatura, bradando contra o relativismo que é marca da chamada pós-modernidade. Para Yehoshua, a literatura não pode “produzir milagres, mas deve recuperar o poder de dar algum sentido aos problemas de ordem moral que afligem as pessoas”.

Ele fez questão de ler em hebraico um trecho de seu romance “Fogo amigo”. “É para que os judeus não esqueçam de que têm uma língua”, justificou. E apelou à comunidade internacional, “inclusive o Brasil”, no sentido de que ofereça ajuda a palestinos e israelenses para que cheguem a uma “solução lógica” no conflito entre os dois povos.

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