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Flip 2010 - As “maria-borralheiras” de Freyre Escrito em 09 de agosto de 2010
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Alberto Costa e Silva, Maria Lúcia Pallares-Burke e Angela Alonso analisam três livros menos famosos do sociólogo

A mesa “Para além da casa grande”, realizada na manhã desta sexta-feira (6), jogou luz em obras menos célebres do homenageado Gilberto Freyre: “Nordeste”, de 1937; “Ingleses no Brasil”, de 1948; e “Ordem e progresso”, de 1957. Como elemento comum aos três livros, o acadêmico Alberto Costa e Silva e as sociólogas Maria Lúcia Pallares-Burke e Angela Alonso, mediados por Lilia Schwarcz, destacaram o olhar para os personagens obscuros, os “maria-borralheiras” da História, como o próprio Freyre os definia.

“Ele se voltava para o mundo pequeno, para o que tem importância parecendo não ter importância”, afirmou Costa e Silva, em sua análise de “Nordeste”. Para exemplificar, o acadêmico mencionou os micro-ensaios nos quais Freyre trata, entre outras coisas, do cafuné, do bicho de pé e da rede de dormir - elementos e costumes que constituíam valor singular dentro da vida em comunidade.

Segundo Costa e Silva, o livro evidencia também como o negro foi colonizador do Brasil - e na mesma proporção do branco europeu. “Os portugueses aprenderam com os africanos práticas como a agricultura, a pecuária e a cata de ouro. Aliás, Freyre deu nova dimensão ao negro, que foi totalmente ignorado por pensadores como Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Hollanda”, ressaltou.

Em “Ingleses no Brasil”, essa valorização do aparentemente periférico se repete, como demonstrou Maria Lúcia. Ao estudar a participação britânica na formação do Brasil, Freyre se debruça sobre o que chama de “revolução branca”. “Ele investiga a invasão de produtos como a lâmpada a gás, a cerveja, e hábitos como o uso de facas, procurando compreender como se deu esse encontro entre duas culturas desiguais. Encontro que envolveu subordinação, conflito, resistência e acomodação”, explicou.

Ela fez questão de alertar, porém, que o livro não é uma denúncia do imperialismo, e que Freyre registrou também as marcas do “abrasileiramento” dos “invasores”. Maria Lúcia citou as palavras do próprio sociólogo: “Os ingleses levaram mais do que exóticas borboletas, papagaios e macacos”.

Ao examinar “Ordem e progresso”, Ângela Alonso comentou a metodologia de Freyre, que recorria, em seus estudos, a anúncios, rótulos de cigarro, receitas de bolo e modinhas. “Freyre dizia fazer bisbilhotice disfarçada de investigação sociológica”, observou. Para escrever “Ordem e progresso”, ele entrevistou militares, políticos, ex-escravos, prostitutas e babalorixás. E mesmo alguns personagens que se quiseram dar entrevistas foram incluídos. São os casos do ex-presidente da República Getúlio Vargas e do escritor Monteiro Lobato, cujas cartas de recusa Freyre reproduziu no livro.

Ângela salientou que, ao abordar a desagregação da sociedade patriarcal no Brasil, “Ordem e progresso” não busca explicar a transformação política, mas refletir sobre a mudança de padrões sociais. “E para isso o que importa não é o 15 de novembro, é o 13 de maio”, sintetizou ela.

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