
Não tem jeito: embora se trata da crônica de uma morte anunciada, o fim do Jornal do Brasil fez, de hoje, um dia triste. Mas tristeza é para ser purgar. E boa pedida para isso é prestigiar o lançamento do livro Memória de um secretário - Pautas e fontes, que o Alfredo Herkenhoff, "puta velha" do jornalismo carioca, lançará, a partir das 18h, no Nova Capela.
Bom, para ser exato, o furdunço acontecerá no anexo ao Capela (o lugarzinho é esquisito, mas, como a cozinha é a mesma da matriz, dá para relevar). Alguns jornalistas que passaram pelo jornal e atuam também como DJs, casos de Marcelo Janot, Zé Octavio e Daniel Koslinski, se revezarão nas carrapetas, garantindo a qualidade do som. Haverá, também, violões e microfone para quem quiser se arriscar. Ou seja, mais que o lançamento do livro, o evento será uma espécie de "réquiem" para o velho e bom JB.
Comentarista enfant terrible da internet brasileira, o confrade imperiano Carlos Andreazza está de volta. No blog Não passarão, há pouco mais de uma semana no ar, ele vem analisando a campanha eleitoral com um raro (e assumido) viés de direita, além da contundência que já demonstrava no site Tribuneiros.
O talento e a sensibilidade de Luiz Antonio Simas, muitas vezes ressaltados aqui, resplandecem novamente no texto "O Maracanã que mora em mim", que ele acaba de publicar em seu referencial blog Histórias brasileiras. Na esteira de mais uma reforma do histórico estádio (para quem não sabe, entre outras mudanças, o campo será reduzido), Simas lamenta o que chama de "profanação do sagrado" e, a partir de um maiores dos símbolos cariocas, evoca imagens de uma cidade que conserva a memória em suas ruas e construções. Um valor intangível, estranho à contínua exigência de mudança que a modernidade impôs. Segue um trecho do post. Leia a íntegra aqui.
(...) Existem lugares de esquecimento, territórios do efêmero - penso nos shoppings - e lugares de memória, territórios de permanência. Esses últimos são espaços que, sacralizados pelos homens em suas geografias de ritos, antecedem a sua própria criação e parecem estar aí desde a véspera da primeira manhã do mundo.
O meu Maracanã é assim. É feito a Penha, a Pedra e o Cais. Nasceu estádio de futebol antes do rio que lhe nomeia; é carioca antes de Estácio de Sá; é de um tempo anterior ao tempo e foi erguido perto da minha casa antes que a primeira flecha tupinambá cortasse o céu da Guanabara.
O meu Maracanã, velho Maraca não reformado, é o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, onde Jeremias e Daniel bailam no ar como Zizinho e Didi bailaram nas quatro linhas. É o terreiro do Axé Opô Afonjá, onde Xangô dançou pelo corpo de Mãe Aninha como Ademir, feito raio, rasgou o campo em direção ao gol. O Maraca é a primeira ponte do rio Capibaribe e todas as pontes de São Castilho. O meu estádio é a ciranda de Lia e a areia da praia onde Lia dançou ciranda, pois ali, na grama verde, um anjo de pernas tortas cirandou um dia.
Coisas de matéria e sonho. (...)
Hoje, a partir das 19h, o escritor, jornalista e professor Felipe Pena vai lançar o livro Seu Adolpho (Editora Vermelho Marinho) na Saraiva do Botafogo Praia Shopping. A obra é, na definição do próprio autor, uma biografia "em fractais" de Adolpho Bloch, fundador da revista e da TV Manchete. O texto foi escrito a partir de depoimentos das esposas, amigos, parentes mais próximos, antigos funcionários e anônimos que fizeram parte do dia a dia do biografado.
Felipe explica que a ideia de escrever o livro surgiu durante o velório de Bloch. “Por incrível que possa parecer, nunca o conheci pessoalmente. Na verdade, a única vez em que o vi foi no seu velório. Foi um velório diferente, cada pessoa que chegava tinha uma ou várias histórias inusitadas para contar, cada causo mais interessante que o outro. Daí passei a colecioná-los. Tempos depois, no meu doutorado, criei o método da biografia em fractais e apliquei no livro. A sugestão inicial partiu do jornalista Fernando Barbosa Lima, em um jantar na casa da viúva de Adolpho, Anna Bentes, que tinha sido minha aluna em um curso de extensão”, conta ele.
Amanhã, às 15h30, no Teatro Tablado, o amigo Clóvis Bulcão vai lançar o infanto-juvenil Noel - O menino da Vila (Escrita Fina), que escreveu a quatro mãos com sua irmã, Márcia. Na esteira do centenário de nascimento do compositor, a obra narra a história do músico de forma romanceada e privilegiando sua infância. As ilustrações do livro são de Iara Teixeira.
"Muitos já escreveram sobre o Poeta da Vila, mas ninguém teve a idéia de criar uma obra sobre ele para a petizada e se ater, prioritariamente, no seu tempo moleque, relatando com graça as suas peraltices”, elogia Martinho da Vila, na orelha da publicação. A tarde de lançamento incluirá um pocket show da coautora Márcia, que é também cantora, com repertório centrado nas músicas de Noel.
Jovem talentoso e conhecedor, como poucos, da história do samba, coração tão grande quanto o corpanzil talhado a cerveja, o querido Gabriel da Muda apresentará hoje, às 19h30, no Teatro Rival, o show Quando o samba veio me buscar. O espetáculo, que contará com a participação especial de Moacyr Luz, terá seu repertório centrado em quatro eixos: a boemia, o Rio de Janeiro, o samba em si e o bairro da Tijuca, onde Gabriel mora. Ele cantará músicas próprias e composições de bambas como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Candeia, Cartola e Caxiné, além de Moacyr. Estarei lá.
Beatriz Bracher, William Kennedy, Pauline Melvile, Reinaldo Moraes, Lionel Shriver, A.B. Yehoshua e Azar Nafisi foram as atrações da mesa “Livro de cabeceira”, que tradicionalmente encerra a Flip. Com mediação de Liz Calder, os escritores leram trechos de suas obras literárias prediletas.
Primeira a se apresentar, Beatriz escolheu “Angústia”, de Graciliano Ramos. Na sequência, Kennedy leu parte de um conto de Ernest Hemingway, publicado no livro “The Nick Adams Stories”. A terceira foi Pauline, que optou por “Bartebly”, de Herman Melville. Reinaldo escolheu “Memórias de um sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, e Lionel, “A era da inocência”, de Edith Wharton. Yehoshua lembrou Willian Faulkner, com “O som e a fúria”. Encerrando o painel, Azar declamou poemas de escritores que viveram sob regimes totalitários.
Símbolos e estereótipos brasileiros são comentados pelos tradutores Benjamin Moser e Bertold Zilly, que criticam promoção do país no exterior
Em uma conversa que foi da caipirinha ao samba, de Paulo Coelho a Guimarães Rosa, Benjamin Moser e Bertold Zilly falaram, na noite deste domingo (8), sobre a visão do estrangeiro quanto ao Brasil, em mesa mediada pelo jornalista Claudiney Ferreira. Tradutores de obras de autores brasileiros, Moser e Zilly mostraram sintonia ao criticar a insuficiente atuação do governo na promoção do país no exterior.
“A Alemanha mantém o Instituto Goethe; Portugal, o Camões; a Inglaterra, o British Institute. O Brasil não conta com uma entidade dessa natureza”, lamentou Zilly. Ele citou o caso da Catalunha, província espanhola, “que investe dez vezes mais do que o Brasil” para disseminar sua cultura entre os outros povos.
Segundo Zilly, há um enorme interesse nas coisas brasileiras em todo o mundo. Como exemplo disso, ele mostrou o cartaz que anunciava uma montagem alemã de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. “Na última aldeia da Floresta Negra você encontra capirinha”, observou, propondo que o Brasil faça um trabalho institucional de imagem com caráter duradouro, e não campanhas eventuais.
Moser argumentou que é preciso desfazer a imagem do país como um lugar distante e violento. “Todas as pessoas que trago ao Brasil ficam encantadas. Começa para Praia de Ipanema e vai até Clarice Lispector, Guimarães Rosa. Então percebem que a impressão inicial era equivocada”, salientou.
O tradutor americano – que é autor da biografia “Clarice,” – provocou muxoxos na plateia ao mencionar o nome de Paulo Coelho, a quem defendeu: “Trata-se do segundo escritor mais lido do planeta. Os brasileiros não deveriam se envergonhar dele. Imagine se eu tivesse vergonha de toda a merda cultural que meu país exporta”. Para Moser, é errônea também a ideia de que o brasileiro não lê, usando como exemplo a própria Flip. “Vinte mil pessoas vieram a Paraty ouvir debates sobre literatura. Seriam todos noruegueses?”, indagou.
A relação com a Língua Portuguesa também foi comentada pelos dois, que apresentaram ótimo domínio do idioma. Moser revelou ter aprendido facilmente o Português por dominar desde criança o Espanhol, já que morava no Sul dos EUA, próximo à fronteira com o México. Já Zilly afirmou ter uma ligação “erótica” com a Língua Portuguesa. “Não é à toa. Ela te dá carinho”, disse ele.
Robert Crumb e Gilbert Shelton cantarolam e conversam sobre política, sexo e – claro - quadrinhos
Robert Crumb cantarolou “Aquarela do Brasil”, Gilbert Shelton escolheu “Garota de Ipanema”. E esse clima de descontração foi mantido durante toda a conversa entre os dois quadrinistas que são mitos da contracultura e estiveram reunidos na noite deste sábado (7) na mesa “A origem do universo”. O painel incluiu a exibição de desenhos dos dois convidados no telão e teve uma participação especial: Aline Kominsky, também quadrinista e mulher de Crumb, que subiu ao palco e contou sobre o casamento e os trabalhos produzidos a quatro mãos com o marido.
Falante e bem humorado, Crumb comentou a viagem ao Brasil. Ele disse que veio à Flip “porque adora viajar de graça” e elogiou um grupo de choro, chamado “Os curandeiros”, cujo CD comprou em Paraty. Para seu país natal, sobraram críticas. O quadrinista, radicado na França desde 1991, afirmou que sente vergonha quando o chamam de cidadão americano. “Os EUA hoje são um centro cruel de fascismo corporativo. Mas não quero que isso saia nos jornais, porque a CIA pode me perseguir”, ironizou.
Mais tímido, Shelton lembrou de quando conheceu Crumb, em 1969, e os tempos de amizade com a cantora Janis Joplin: “Éramos amigos na época da universidade, ouvíamos música folclórica americana. O curioso é que ela dizia que músicos de folk não deviam escutar rock. Depois, mudou de ideia. Não deveria ter mudado porque, neste caso, estaria viva”.
Shelton recordou também a criação dos Freak Brothers, seus mais célebres personagens. “Naquele tempo, havia uns jornais de esquerda com os quais eu me solidarizava, mas que eram chatíssimos, tinham um discurso pesado. Propus colocarmos tirinhas nas páginas. Foi meu modo de ajudar”, destacou.
A obsessão de Crumb pelo sexo foi abordada a partir de uma pergunta do mediador Sérgio D’Ávila. Crumb respondeu que a relação mudou. “Estou ficando velho. Não consigo mais me identificar nessas histórias, que têm mais de 20 anos. No fundo, fico até com um pouco de vergonha”, confessou.
Sobre a postura do público quanto à sua adaptação para quadrinhos do “Gênesis”, que demorou quatro anos para ficar pronta, ele explicou que a reação mais contundente veio dos próprios fãs: “Muitos pensaram que eu estava me tornando religioso, que havia me arrependido do sexo na juventude”. D’Ávila, então, observou que o livro teve uma receptividade ótima em Israel, referindo-se à resenha positiva “de um jornal conservador local”. Crumb, que desconhecia o fato, reagiu com sarcasmo: “Israelenses conservadores? O que eu fiz de errado?”.
Menos favoráveis foram as cartas que recebeu após casar com Aline Kaminsky e transformá-la em personagem. “Diziam: ela deve ser uma boa trepada, mas, por favor, tire-a das páginas”. Aline afirmou que é tranquilo trabalhar com o marido. “Ele melhora meus desenhos. Quando não estou vendo, bota uma sombra ou outra coisa”, relatou.
Antonio Cicero, Chacal, Eucanaã Ferraz e Ferreira Gullar leem versos de Drummond para lembrar 80 anos do livro “Alguma poesia”
Os 80 anos de “Alguma poesia”, obra de estreia de Carlos Drummond de Andrade, foram lembrados na mesa que reuniu os poetas Antonio Cicero, Chacal, Eucanaã Ferraz e Ferreira Gullar na tarde deste sábado (7). Em leituras individuais e feitas de forma sóbria, os escritores mostraram ao público vários poemas do livro, entre eles textos célebres como os de “No meio do caminho”, “Coração numeroso” e “Silvo longo”. Quando chegou a vez de “Quadrilha”, os quatros declamaram em grupo.
Houve espaço também para pequenos depoimentos sobre Drummond. Cicero destacou que se trata de um dos maiores poetas do mundo, “que orgulha a Língua Portuguesa e o Brasil”. “É muito bom ter vivido na mesma época de Drummond, assim como é muito bom viver na mesma época de Ferreira Gullar”, afirmou ele, para aplausos da plateia. Gullar agradeceu com um leve meneio com a cabeça e respondeu, tímido: “Eu não posso aplaudir isso”.
Chacal foi outro que aproveitou o tributo para estender a homenagem ao escritor maranhense – Gullar completará 80 anos no próximo dia 12 de setembro. Ao ressaltar que, por conta da contracultura, demorou quatro décadas para encontrar a poesia de Drummond, ele revelou ter sido uma surpresa perceber como “aqueles poemas eram bons de se falar”. “Me encantei com os sons misteriosos que vinham de ‘algum lugar’, como o livro do Gullar. Se rimou, deixa rimar”, versou.
Coordenador da mesa, Eucanaã chamou atenção para a contemporaneidade da obra do poeta mineiro. “Toda a poesia dele é surpreendentemente atual. Mesmo referências que hoje podem parecer enigmáticas, como a alusão a políticos da época, não fazem com que se perca o essencial”, observou.
Gullar salientou que Drummond foi o primeiro poeta modernista que leu na vida. “Eu era parnasiano, gostava de versos rimados sobre temas metafísicos, sobre coisas sublimes. Aí me deparei com poemas como “Lua diurética”. ‘Diurética?’, pensei. Isso não é poesia. Mas depois vi que era, sim. Uma poesia nova, que partia do cotidiano”, contou ele. Para Gullar, Drummond ensinou que há beleza mesmo nas coisas sórdidas.
Com mordacidade, Terry Eagleton defende a religião e solta farpas na direção de seu mais ferrenho contendor
Classificado pelo Sunday Times como “marxista, religioso, velho e punk”, o crítico cultural Terry Eagleton mostrou na manhã de hoje (7) que o jornal inglês poderia ter acrescentado mais um adjetivo à lista: mordaz. Estrela da mesa “Andar com fé”, mediada pelo jornalista Silio Boccanera, Eagleton não poupou farpas na direção de seus mais notórios contendores. O principal deles, Richard Dawkins, que esteve na Flip 2009.
“Dawkins é antiquado, parece um racionalista do século 19 em sua crença de que Deus é um mal da evolução. Repete que não acredita em Deus, mas não tem a menor ideia de o que Deus significa”, afirmou. Eagleton foi irônico ao apontar um suposto paradoxo no discurso do cientista: “Ele acredita que, se não fosse a religião, poderíamos caminhar para frente rumo a um novo Iluminismo. Não consigo pensar em algo mais supersticioso do que isso”.
Nas considerações sobre Deus e religiosidade, sobrou também para outro ateísta célebre: o jornalista Christopher Hitchens, que também já veio à Paraty (Flip 2006). “Ele acha simplesmente que a religião é uma coisa nojenta. Mas é melhor argumentar com Hitchens do que com o camareiro da rainha, que não vai perguntar se você quer ser lavado em sangue de ovelha, apenas se você quer um Brandy”, disse Eagleton, com senso de humor puramente britânico.
O crítico centrou fogo ainda no que chamou de “islãfobia”, salientando que não se pode confundir uma minoria adepta do Islamismo radical – “que mata pessoas em nome de Alá” - com milhares de muçulmanos. E propôs que o Ocidente faça um ‘mea culpa’: “Há uma variedade texana do Islamismo, e várias formas de Islamismo evangélico, no mundo e aqui mesmo, no Brasil. Mas os liberais sempre acham que os bárbaros são os outros, como se a tradição ocidental fosse isenta de barbarismos”.
Ao abordar, instado por Boccanera, a relação entre marxismo e fé, o crítico lamentou que a famosa frase do mentor da doutrina comunista seja em geral compreendida fora de seu contexto: “Antes de dizer que é o ópio do povo, Marx afirmou que a religião é o coração de um mundo sem coração”. Apesar de marxista, Eagleton fez a ressalva de que não subscreve tudo o que o filósofo escreveu. “Não conheço freudiano que concorde com todas as teorias de Freud, nem darwiniano que acredite em tudo o que Darwin defendeu. A não ser Dawkins, é claro”, comentou ele, na alfinetada final.
Azar Nafisi e A.B.Yehoshua tratam de liberdade e subversão em uma conversa na qual sobraram farpas para Lula
A cativante simpatia da escritora Azar Nafisi não impediu que falasse com contundência ao comentar a atitude do presidente Lula quanto à pena capital por apedrejamento, imposta pelo governo iraniano a Sakineh Ashtiani, uma mulher de 43 anos, por crime de adultério. “Não intervir já é uma forma de intervenção”, argumentou Azar no diálogo que travou com o escritor israelense A.B.Yehoshua na mesa “Promessas de um velho mundo”, realizada na noite desta sexta-feira (6).
Mesmo a mudança na postura de Lula – no sentido que Ashtiani se asile no Brasil – recebeu críticas. “Lula afirmou que a mulher condenada estaria perturbando seu amigo Mahmoud Ahmadinejad. No fundo, é o contrário. Esse sujeito é que está perturbando a mulher com a condenação. E não acho certo que democratas sejam amigos de não democratas, de gente que apedreja as pessoas até a morte”.
Para a escritora de origem iraniana, se Ashtiani vier para o Brasil, deve ter companhia – e muita. “Neste caso, que venham também os outros indivíduos condenados no Irã, os presos políticos, os 75 jornalistas detidos, as meninas jovens que mantêm as armas de destruição em massa que são seus cabelos. Diria que quase 80% da população do país terá que vir para o Brasil”, ironizou, sendo muito aplaudida pela plateia.
Quando o mediador Moacyr Scliar se referiu ao caráter político de seus livros, Azar recusou o rótulo. Segundo ela, obras como “Lendo Lolita em Teerã” – que ficou por 117 semanas na lista de best-sellers do New York Times – não são políticas, mas subversivas: “A ideia de um livro, para florescer, independe da política. Ele se torna subversivo porque revela a verdade, e diante da verdade não podemos permanecer em silêncio. A literatura pode olhar para a política, mas não deve ter a mesma textura”.
A.B. Yehoshua se solidarizou com Azar, expulsa na Universidade de Teerã por se recusar a usar o véu e hoje distante do país natal. “Lendo seus livros, notamos que ela traz o luto de não poder estar na sua terra, sentimos o drama de quem perdeu o cheiro da infância”, ressaltou. O escritor defendeu uma “restauração” da questão moral na literatura, bradando contra o relativismo que é marca da chamada pós-modernidade. Para Yehoshua, a literatura não pode “produzir milagres, mas deve recuperar o poder de dar algum sentido aos problemas de ordem moral que afligem as pessoas”.
Ele fez questão de ler em hebraico um trecho de seu romance “Fogo amigo”. “É para que os judeus não esqueçam de que têm uma língua”, justificou. E apelou à comunidade internacional, “inclusive o Brasil”, no sentido de que ofereça ajuda a palestinos e israelenses para que cheguem a uma “solução lógica” no conflito entre os dois povos.
Alberto Costa e Silva, Maria Lúcia Pallares-Burke e Angela Alonso analisam três livros menos famosos do sociólogo
A mesa “Para além da casa grande”, realizada na manhã desta sexta-feira (6), jogou luz em obras menos célebres do homenageado Gilberto Freyre: “Nordeste”, de 1937; “Ingleses no Brasil”, de 1948; e “Ordem e progresso”, de 1957. Como elemento comum aos três livros, o acadêmico Alberto Costa e Silva e as sociólogas Maria Lúcia Pallares-Burke e Angela Alonso, mediados por Lilia Schwarcz, destacaram o olhar para os personagens obscuros, os “maria-borralheiras” da História, como o próprio Freyre os definia.
“Ele se voltava para o mundo pequeno, para o que tem importância parecendo não ter importância”, afirmou Costa e Silva, em sua análise de “Nordeste”. Para exemplificar, o acadêmico mencionou os micro-ensaios nos quais Freyre trata, entre outras coisas, do cafuné, do bicho de pé e da rede de dormir - elementos e costumes que constituíam valor singular dentro da vida em comunidade.
Segundo Costa e Silva, o livro evidencia também como o negro foi colonizador do Brasil - e na mesma proporção do branco europeu. “Os portugueses aprenderam com os africanos práticas como a agricultura, a pecuária e a cata de ouro. Aliás, Freyre deu nova dimensão ao negro, que foi totalmente ignorado por pensadores como Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Hollanda”, ressaltou.
Em “Ingleses no Brasil”, essa valorização do aparentemente periférico se repete, como demonstrou Maria Lúcia. Ao estudar a participação britânica na formação do Brasil, Freyre se debruça sobre o que chama de “revolução branca”. “Ele investiga a invasão de produtos como a lâmpada a gás, a cerveja, e hábitos como o uso de facas, procurando compreender como se deu esse encontro entre duas culturas desiguais. Encontro que envolveu subordinação, conflito, resistência e acomodação”, explicou.
Ela fez questão de alertar, porém, que o livro não é uma denúncia do imperialismo, e que Freyre registrou também as marcas do “abrasileiramento” dos “invasores”. Maria Lúcia citou as palavras do próprio sociólogo: “Os ingleses levaram mais do que exóticas borboletas, papagaios e macacos”.
Ao examinar “Ordem e progresso”, Ângela Alonso comentou a metodologia de Freyre, que recorria, em seus estudos, a anúncios, rótulos de cigarro, receitas de bolo e modinhas. “Freyre dizia fazer bisbilhotice disfarçada de investigação sociológica”, observou. Para escrever “Ordem e progresso”, ele entrevistou militares, políticos, ex-escravos, prostitutas e babalorixás. E mesmo alguns personagens que se quiseram dar entrevistas foram incluídos. São os casos do ex-presidente da República Getúlio Vargas e do escritor Monteiro Lobato, cujas cartas de recusa Freyre reproduziu no livro.
Ângela salientou que, ao abordar a desagregação da sociedade patriarcal no Brasil, “Ordem e progresso” não busca explicar a transformação política, mas refletir sobre a mudança de padrões sociais. “E para isso o que importa não é o 15 de novembro, é o 13 de maio”, sintetizou ela.
Peter Burke e Robert Darnton fazem um passeio pela história do livro e prognósticos para o futuro
Da “Enciclopédia”, de Diderot e D’Alembert, ao Kindle, leitor digital da Amazon, passando pelos romances eróticos do século 18, os historiadores Peter Burke e Robert Darnton travaram na noite desta quinta-feira (5) uma erudita e divertida discussão sobre o percurso do livro ao longo dos tempos, mediada por Lilian Schwarcz. Ao olhar para o presente e suas aceleradíssimas mudanças, sobraram elogios para a Wikipedia e reservas quanto ao uso dos leitores digitais.
“Entramos em uma fase absolutamente nova com a Wikipedia. A variedade de colaboradores é muito maior do que nas enciclopédias impressas. Qualquer pessoa pode escrever um artigo. Além disso, é possível a atualização constante, seja por conta de um novo evento, seja para consertar algum erro”, afirmou Burke. Outro ponto positivo, destacou, é a advertência para que não se confie totalmente no conteúdo. “Trata-se de um importante alerta no sentido de que o leitor seja crítico do que lê”.
Também se dizendo fã da Wikipedia, Darnton não mostrou o mesmo entusiasmo quando o assunto são os leitores digitais. “Não leio livros em máquinas. Respeito aqueles que lêem, mas gosto de folhear, passar as páginas. Nosso desafio, hoje, é encontrar uma maneira de que os livros impressos e virtuais convivam, e reforcem um ao outro”, salientou.
Para Burke, o papel do livro – seja impresso ou virtual – diminuirá de forma progressiva, com a redução de sua importância perante outros meios e um “enxugamento, este literal”, que vai gerar narrativas mais curtas. “Não imagino alguém lendo as mil páginas de ‘Guerra e Paz’ no Kindle”, exemplificou. “Semi-pessimista”, como ele mesmo se classificou, Burke revelou o temor de que as gerações futuras percam a capacidade de ler lentamente. “E a leitura lenta, assim como a cozinha lenta, é importante para a civilização”, concluiu, sob aplausos do público.
Reinaldo Moraes, Beatriz Bracher e Ronaldo Correia de Brito falam sobre seu processo de criação e a relação entre vida e obra
Três vertentes da literatura brasileira – os romances urbano, intimista e “do sertão”, para usar palavras da mediadora, Cristiane Costa – estiveram representadas na mesa “Fábulas contemporâneas”, realizada na tarde desta quinta-feira (5). Reinaldo Moraes, Beatriz Bracher e Ronaldo Correia de Brito, todos premiados por livros recentes, leram seus textos e falaram com bom humor sobre o processo de criação e a relação entre obra e biografia, entre outros assuntos.
Ronaldo expôs ao público um trecho do recém-lançado “Retratos imorais”, enquanto Beatriz apresentou o conto que escreveu por encomenda para a revista “Serrote”, com inspiração em uma imagem da fotógrafa Hildegard Rosenthal. Já Reinaldo provocou muitas gargalhadas ao relatar a “suruba tântrica” que é um dos destaques do romance “Pornopopéia”.
Quando indagados por Cristiane sobre o método de escrita, os três apontaram caminhos distintos. Ronaldo salientou que “escrever não é uma atividade diletante, mas um ofício diário e permanente”, revelando que parte sempre de um projeto. Beatriz, por sua vez, disse que prescinde de uma rota prévia: “A direção se define a partir da briga que temos com nós mesmos à medida que escrevemos”. Para Reinaldo, é preciso antes de tudo manter distância dos autores aos quais reverenciamos. “Quem se mete a escrever como Guimarães Rosa crua forçosamente uma porcaria. Busco as vozes que vão se plasmando e vazam na linguagem”, resumiu ele.
Ao responder sobre a tensão vida x obra, os três autores mostraram sintonia. Reinaldo relembrou a época em que lançou seu primeiro trabalho – o romance “Tanto faz”. “Todos achavam que o protagonista era eu. E meu personagem se divertia muito mais. Quem dera ter uma vida daquelas”, brincou ele, admitindo no entanto que algo da experiência pessoal acaba impresso nas páginas de seus livros. A exemplo dele, Ronaldo e Beatriz revelaram que seus textos estão impregnados das próprias vivências. “O mais verdadeiro de você mesmo é o que você escreve na ficção”, sintetizou ela.
Qualidade da escrita do sociólogo é ressaltada por Moacyr Scliar, Edson Nery da Fonseca e Ricardo Benzaquen
“Teu poema, Gilberto, será minha eterna dor de corno”, disse Manuel Bandeira após ler o pequeno impresso que Gilberto Freyre lhe remetera e que continha o poema “Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados”. O episódio, de 1926, foi lembrado pelo crítico literário Edson Nery da Fonseca nesta quinta-feira (5) pela manhã na mesa “Ao correr da pena”, que debateu a qualidade da escrita do sociólogo, reunindo também o ficcionista Moacyr Scliar e o historiador Ricardo Benzaquen, com mediação de Angel Gurría-Quintana. Ao fim de sua fala, Edson Nery declamou, de cor, o longo poema, emocionando a plateia.
Antes dele, Scliar definiu os estudos de Freyre como uma síntese de duas culturas: a humanística e a científica. “Assim como Goethe, Tchecov e Freud, Freyre transitou por essas duas áreas, entre as quais quase sempre há um abismo”, observou. Scliar elogiou o registro “poético” da prosa do sociólogo e reconheceu a excelência de obras como “Casa Grande e Senzala”, mas salientou que ele às vezes tropeçava. “O livro “Sociologia da Medicina”, por exemplo, que li quando jovem, não resiste à comparação com os textos clássicos da matéria. O legado ficcional também não me entusiasma”, afirmou.
Já Benzaquen analisou a obra de Freyre sob a perspectiva da tradição do ensaísmo, situando-a na vertente dominante no Brasil e nos EUA nas décadas de 20 e 30. “Havia uma preocupação com uma espécie de ‘inacabamento’, com certa imprecisão, e paralelamente se tentava, por meio exame do material empírico, atingir um ponto central, essencial, a partir do qual se poderia dar conta do resto”, explicou. Segundo Benzaquen, muitos ensaístas acabavam afetivamente enredados com esse “ponto central”, que passava a suscitar paixão, ou repúdio. “Era um risco dessa busca pelo diamante em meio às cinzas. Mas Freyre se distinguiu por uma avaliação ao mesmo tempo positiva e negativa, ele não se aproximava tanto dos pontos centrais”, ponderou.
Recém-chegado de Paraty, reproduzo aqui as máterias que fiz para o site oficial da Flip 2010. Acho que dão uma boa ideia dos debates que aconteceram por lá. O primeiro texto é sobre o show de abertura
Show de abertura une o erudito ao popular
Edu Lobo, Renata Rosa, Marcelo Jeneci e Quarto de Cordas da Osesp dão as boas-vindas musicais ao público da Flip
O show de abertura da Flip 2010 lembrou o homenageado Gilberto Freyre ao saudar o “equilíbrio de opostos” – expressão cara ao sociólogo - no âmbito da música brasileira. Em uma formação que unia o popular ao erudito, e sob a direção artística do maestro Arthur Nestrovski, Edu Lobo, Renata Rosa, Marcelo Jeneci e o Quarteto de Cordas da Academia da Osesp interpretaram clássicos (“Assum preto”, “Noite de São João”, de Luiz Gonzaga), recordaram sucessos (“Beatriz”, “Choro bandido” de Edu e Chico Buarque) e mostraram ao público novas canções, como a parceria entre Renata e o escritor Ariano Suassuna (“Marcha do Donzel”).
A cantora foi a primeira a se apresentar, logo após a saudação de Liz Calder e as boas-vindas do prefeito de Paraty, José Carlos Porto Neto. Paulista radicada em Olinda (PE), Renata centrou o repertório em ritmos nordestinos e músicas da própria lavra. Em dueto, ela e Edu prestaram tributo ao também pernambucano Moacyr Santos, com “Santinha lá da Serra”. Na sequência, o cantor e compositor enfileirou uma série de pérolas escritas a quatro mãos com Chico Buarque.
Uma delas gerada de forma curiosa, como Edu revelou à plateia da Flip: “Chico estava na Europa e eu lhe enviara uma fita com a melodia que deveria ganhar letra para a trilha da peça na qual trabalhávamos. Ele, então, me telefonou dizendo que tinha gostado das duas. Duas?, eu perguntei. E depois entendi: uma melodia de que não gostava, da qual havia desistido de vez, que queria na verdade apagar, acabou ficando gravada na fita”. Chico, de fato, fez a letra. E a canção, “Ode aos ratos”, entrou na trilha de “Cambaio”.
Estou cobrindo as mesas da Flip 2010 para o site oficial do evento. Leia os textos aqui. Até a volta.