
Na sexta passada, completaram-se exatos 30 anos da morte de Sidney Miller. Não li nada sobre a data na imprensa, o que talvez reflita o relativo ocaso a que esse cantor e compositor de pequena discografia e grande talento acabou relegado desde que se foi.
Miller gravou apenas três álbuns - Sidney Miller, de 1967; Brasil, do guarani ao guaraná, de 1968; e Línguas de fogo, de 1974 -, mas teve muitas suas composições registradas em LPs de outros artistas, gente do calibre de Nara Leão e Paulinho da Viola. As letras, pelo esmero construtivo e pelo corte político, muitas vezes levaram a comparações com Chico Buarque – a quem, de fato, faz lembrar. Escreveu também para o teatro e para o cinema.
Conheci mais detidamente a obra de Miller por conta de uma canção que julgo extraordinária: Nós, os foliões. O samba foi gravado por Paulinho no LP A toda hora rola numa estória. Nós, os foliões trata da dor do carnaval que passa, de quando “a realidade é maior”, até que um dia reacendem-se, de novo, as “alegrias e os salões” (ouça aqui, com Sanny Alves).
Esta é apenas uma entre as tantas pérolas que o compositor nos deixou em apenas 35 anos de vida. Pérolas de versos pungentes e alguma tristeza, como os de A estrada e o violeiro (“Segue em frente, violeiro, que eu lhe dou a garantia / De que alguém passou primeiro na procura da alegria”, ou os de Quem dera (“Mas afinal, de que serve então teu carnaval / Olhando para a tua fantasia, pode ser / Que a lua vá buscar um novo dia pra você”).
No último sábado, num papo regado a vinho com o querido Luis Antonio Simas e outros amigos, lembramos de outra canção, esta bastante popular, mas que na verdade pouca gente remete a Sidney Miller. Refiro-me a O circo (ouça aqui, com o próprio Miller), aquela que começa com “Vai, vai, vai começar a brincadeira / Tem charanga tocando a noite inteira / Vem, vem, vem ver o circo de verdade / Tem, tem, tem picadeiro de qualidade...”
O Simas cantarolou a música e me pus a pensar como, a exemplo de Nós, os foliões, O circo é uma peça exemplar da obra do compositor. O viés social crítico, a tensão entre a dureza do cotidiano e colorido da ilusão, o lirismo que irrompe em construções aparentemente simples como “Sopra o vento que protesta, cai no teto, rompe a lona / Pra que a lua de carona também possa ver a festa” sintetizam com perfeição a estética do Miller. Uma estética que me interessa, com a qual me identifico, que me emociona.
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