Voltar para Página Principal
Blog
Clicando nos botões ao lado você aumenta o tamanho da fonte do textoDiminui FonteAumenta Fonte
»
Jornal do Brasil Escrito em 13 de julho de 2010
separador

Lá em casa, o jornal era O Globo. Meu pai, de origem não letrada, alinhado à direita no campo político, simplesmente ignorava a existência do Jornal do Brasil e ou de qualquer outro. E eu, pequeno, lia o que a mim chegava.

Quando iniciei o Segundo Grau (hoje, chamam de Ensino Médio), passando a primeira lâmina do corte inevitável que um dia separa filhos e pais, comecei a me interessar mais fortemente por política – e por cultura. E quem se interessava por política e por cultura nos anos 1980 não tinha escapatória: era recorrer ao velho e bom JB. Assinei o jornal – assinatura que mantenho até hoje. Sim, sou um dos resistentes. E sabem por quê?

Porque foi lendo o JB que decidi estudar jornalismo. Foi lendo o Caderno B, o Ideias, a Programa, que, sem cultura de berço, pude satisfazer a ânsia por saber um pouco mais sobre cinema, literatura, teatro. Sobre a arte em geral. Sobre política. Foi lendo o JB que me formei.

Durante a faculdade, tudo o que eu queria era ser um Alexandre Medeiros, um Marceu Vieira. Aprender essa capacidade de olhar a notícia para além do óbvio, de entender e revelar o que pode estar por trás dela, turvado pela simples descrição do fato.

Nessa época, eu já sabia da importância do Jornal do Brasil, das revolucionárias inovações gráficas que promoveu, dos tantos grandes nomes que escreveram em suas páginas, e renovava essa admiração em minhas leituras, subscrevendo o passado no (então) presente. O sonho de todo estudante de Comunicação era trabalhar no JB.

Lembro que aos sábados, logo pela manhã corria para pegar o jornal e ler a Cantos do Rio, coluna que Marceu manteve durante um bom tempo. Foi ali que conheci a comovente história da mulher que chorava na Praça Nossa Senhora da Paz, que fui apresentado a personagens e espaços fascinantes de nossa cidade. Como Alfredinho e seu (nosso) Bip Bip.

Por isso doeu tanto saber ontem que o JB terminará com sua edição impressa. Sei que essa talvez seja uma tendência mundial, a progressiva troca do papel pela tela. Mas não há como sentir um gosto de fim de festa. A agonia pública parece ter chegado a termo. Apesar do heroico trabalho de colegas como Álvaro Costa e Silva, o nosso bravo Marechal, que tem sido exército de um homem só à frente do Ideias. Apesar do talento de gente que ainda trabalha lá, como Evandro Teixeira e Marcelo Migliaccio. Apesar do valor do nome/marca, ainda não de todo combalido.

Nesta hora, resta um fio de esperança: a de que algum empresário se convença de que há saída, e invista no jornal. Para que o JB, patrimônio carioca e do Brasil, não morra. E o leitor do Rio de Janeiro não fique, de vez, refém de um jornal só - por mais qualidade que tenha.

Clique para deixar seu comentário {4}