
Tenho atualizado pouquíssimo o Pentimento e isso se deve a algumas razões. Primeiro, porque soube, subitamente, que precisaria me mudar - e quem tem procurado apartamento no Rio de Janeiro após o anúncio da Copa de 2014 no Brasil e das Olímpidas de 2016 na cidade sabe da dificuldade de encontrar um imóvel bem localizado com valor ao menos racional. O tempo também anda escasso desde a volta da viagem a Portugal e Espanha, por conta do trabalho cotidiano na redação, que se intensificou, e de vários frilas. Para completar, ando em fase minguante.
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João Moreira Salles: extraordinário artigo na Folha de S. Paulo
A ideia, no entanto, é voltar a escrever aqui com alguma regularidade. E se me deu vontade de postar hoje, foi sobretudo em razão de dois excelentes artigos que li, com bastante atraso, na noite de ontem e cuja leitura gostaria de recomendar. Um deles, assinado pelo documentarista João Moreira Salles, foi publicado na Ilustríssima (Folha de S. Paulo) há cerca de um mês. O texto, derivado da participação do cineasta em simpósio da Academia Brasileira de Ciências, discute-se a hipervalorização das artes e humanidades em detrimento das chamadas ciências "duras" e da engenharia, e as consequências desse "desequilíbrio" para o desenvolvimento tecnológico, científico e cultural do país.
João Moreira Salles salienta que, "vivendo quase exclusivamente no hemisfério das humanidades", recebe "poucas notícias do lado de lá". "O que eu teria a dizer sobre ciência fica perto do zero. Por outro lado, como especialista na minha própria ignorância, posso discorrer sobre ela sem embaraços. Com as devidas ressalvas às exceções que devem existir por aí, estendo minha ignorância a todo um grupo de pessoas e me pergunto de quem seria a responsabilidade por sabermos tão pouco sobre as leis que regem o que nos cerca".
Ele mesmno responde: "Em parte, a responsabilidade é dos próprios cientistas, que não fazem questão de se comunicar com a comunidade não-científica; em parte é dos governos, que raramente têm uma política eficaz de promoção da ciência nas escolas; e em parte -e essa é a parte que mais me interessa- é nossa, das humanidades, que tomamos as ciências como um objeto estranho, alheio a tudo o que nos diz respeito".
Citando a seção de estilo da Revista do Globo, o cineasta critica o destaque dado às profissões consideradas mais charmosas - absolutamente dominante entre os personagens retratados - e observa, por exemplo, que há 128 cursos superiores de moda em funcionamento no Brasil. "Em 2008, segundo o Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira], o país formou 1.114 físicos, 1.972 matemáticos e 2.066 modistas", afirma ele, para em seguida ironizar: Alimento o pesadelo de que, em alguns anos, os aviões não decolarão, mas todos nós seremos muito elegantes"
E ele estende a reflexão ao ressaltar que "a quase totalidade dos personagens de classe média da literatura e do cinema brasileiro contemporâneos pertence ao mundo dos artistas e intelectuais". Verdade, cristalina verdade. Por falta do balizamento do público-leitor - que efetivamente inexiste -, a literatura brasileira tornou-se refém dos "gostos" e "costumes" de um minúsculo grupo de jornalistas, escritores, críticos e editores (grupo no qual me incluo), o que limita a eleição dos autores e de temas. Feita por e para especialistas, a tendência é mesmo que a ficção fique dando voltas em torno de si mesmo.
Leia a íntegra do artigo aqui.
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Capa de "Retratos pintados", de Titus Riedl e Martin Paar
O outro texto a que me referi foi publicado no Sabático (O Estado de S. Paulo). Quem assina é Antonio Gonçalbes Filho, que já havia, há alguns meses, brindado os leitores do jornal com uma excelente matéria sobre Iberê Camargo. O mote para o artigo é o livro Retratos pintados, de Titus Riedl e Martin Paar. Na obra, o sociólogo alemão Riedl e o fotógrafo inglês Paar abordam o universo estético do sertanejo do Nordeste brasileiro a partir dos "fotorretratos". Para quem não ligou o termo ao objeto, trata-se daquelas imagens de família retocadas a mão a partir de fotos em geral originais que costumam figurar com destaque nas casas do sertão.
Os dois autores investigam as motivações de quem encomenda os quadros, comentam o trabalho dos bonequeiros e refletem sobre o valor antropológico e artístico dos fotorretratos. Motivado pelo artigo (que infelizmente não está disponível para leitura via internet), ontem mesmo encomendei meu exemplar por intermédio da Amazon. Por que pela Amazon? Porque, acreditem, o livro foi lançado na Alemanha (pela Nazraeli Press). O que as editoras brasileiras estão esperando?
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