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O Rio, da bossa nova ao funk, sempre presente na música brasileira
No próximo sábado, às 17h, na Biblioteca Municipal de Botafogo, estarei ao lado de Ruy Castro e Silvio Essinger numa conversa a três sobre as músicas que cantaram o Rio de Janeiro do longo de sua história nos mais diferentes gêneros. O mote para o debate é o livro Canções do Rio (Casa da Palavra), que tive a honra de organizar.
Ruy, autor de Chega de saudade - A história e as histórias da bossa nova e A onda que se ergueu no mar, entre outros, vai abordar a cidade do samba, da marchinha, da canção e da bossa nova. Já Essinger, autor de Punk: Anarquia planetária e a cena brasileira e Batidão - Uma história do funk, se concentrará no Rio que surge no rock, no rap e no funk. Caberá a mim mais a condução do papo, com observações pontuais aqui e acolá.
A entrada é gratuita, e a Biblioteca Municipal de Botafogo fica na Rua Farani, 53. Apareçam!
Dois queridos amigos - Flávio Carneiro e André de Leones - lançam livros novos nesta semana.
Hoje, a partir das 19h, na Livraria da Travessa de Ipanema, Flávio vai autografar O leitor fingido (Rocco). Na obra, Flávio analisa a relação com o texto a partir do ponto de vista do leitor. O livro é dividido em duas partes. A primeira, Através do espelho (e o que o leitor encontrou lá) (título inspirado no livro de Lewis Carrol) - compõe-se de fragmentos diversos sobre o tema. "São divagações do autor sobre as possíveis relações entre escrever e ler. Tais considerações aparecem entremeadas por breves narrativas envolvendo um suposto leitor – o leitor fingido – a meio caminho entre a biografia e a ficção", explica o release.
Já a segunda parte do obra – Álbum de retratos (o leitor em branco & branco) - trazensaios curtos sobre personagens leitores, tomados de contos e romances diversos. É uma espécie de galeria (ou álbum de retratos) de tipos de leitor, espelhados em personagens e obras da predileção de Flávio.
O outro evento será na quarta-feira, quando goiano André de Leones estará na Travessa do Leblon, também a partir das 19h, para lançar seu Como desaparecer completamente. O livro foi escrito originalmente para o projeto Amores expressos, mas acabou sendo recusado pela Companhia das Letras. Felizmente, a Rocco reconheceu o valor do trabalho do André e, agora, publica o romance.
Na obra, a cidade de São Paulo é o que liga (ou desconecta) várias histórias e personagens, numa narrativa fragmentada, que é marca do estilo do autor. "Jovens ou velhos, estão todos, de uma forma ou de outra, em busca de um recomeço. Como que encurralados pela cidade e pelas próprias escolhas, eles se movimentam o tempo todo. São existências fraturadas ecoando na própria estrutura ansiosa, alquebrada do livro. Histórias de amor também são (ou podem ser) histórias de violência", explica o release.
Os jornais O Globo e Folha de S. Paulo de hoje trazem um importante artigo assinado por Elio Gaspari. No texto, ele critica - com ótimos argumentos e a verve habitual - um item do anteprojeto de reforma do Código de Processo Civil, que prevê a incineração, passados cinco anos, de todos os processos remetidos a arquivo. Como bem observa Gaspari, "se a história do Brasil for tratada com o mesmo critério que a Polícia Federal dispensa à maconha, irão para o fogo dezenas de milhões de processos que retratam a vida dos brasileiros, sobretudo daqueles que vivem no andar de baixo, a gente miúda do cotidiano de uma sociedade". Segue a íntegra do texto, que merece a leitura.
"História não é maconha, para ser queimada"
Elio Gaspari
"A professora Silvia Hunold Lara, da Unicamp, pede que o Congresso socorra a história do Brasil. Há cerca de um mês, uma comissão de sábios entregou ao Senado um anteprojeto de reforma do Código de Processo Civil que prevê a incineração, depois de cinco anos, de todos os processos mandados ao arquivo. Querem reeditar uma piromania de 1973, revogada dois anos depois pelo presidente Ernesto Geisel.
Se a história do Brasil for tratada com o mesmo critério que a Polícia Federal dispensa à maconha, irão para o fogo dezenas de milhões de processos que retratam a vida dos brasileiros, sobretudo daqueles que vivem no andar de baixo, a gente miúda do cotidiano de uma sociedade. Graças à preservação dos processos cíveis dos negros do século 19 conseguiu-se reduzir o estrago do momento-Nero de Rui Barbosa, que determinou a queima dos registros de escravos guardados na Tesouraria da Fazenda.
Queimando-se os processos cíveis, virarão cinzas os documentos que contam partilhas de bens, disputas por terras, créditos e litígios familiares. É nessa papelada que estão as batalhas das mulheres pelos seus direitos, dos posseiros pelas suas roças, as queixas dos esbulhados. Ela vale mais que a lista de convidados da ilha de Caras ou dos churrascos da Granja do Torto.
A teoria do congestionamento dos arquivos é inepta. Eles podem ser microfilmados ou preservados digitalmente. Também podem ser remetidos à guarda de instituições universitárias. O que está em questão não é falta de espaço, é excesso de descaso pela história do povo. Pode-se argumentar que os processos com valor histórico não iriam ao fogo, mas falta definir "valor histórico".
Num critério estritamente pecuniário, quanto valeria o contrato de trabalho assinado nos anos 50 por uma costureira negra de Montgomery, no Alabama? Certamente menos que um manuscrito de Roger Taney, o presidente da Corte Suprema dos Estados Unidos que deu o pontapé inicial para a guerra civil. Engano. Uma simples fotografia autografada de Rosa Parks, a mulher que desencadeou o boicote às empresas de ônibus de Montgomery e lançou à fama um pastor de 29 anos chamado Martin Luther King, vale hoje US$ 2.500. O manuscrito encalhado de Taney sai por US$ 1.000.
O trabalho dos sábios incineradores está com o presidente do Senado, José Sarney, cuidadoso curador de sua própria memória e membro da Academia Brasileira de Letras. Como presidente da República, autorizou a queima dos arquivos da Justiça do Trabalho. Com isso, mutilou a memória das reclamações de trabalhadores, de acordos, greves e negociações coletivas.
A piromania é fruto do desinteresse, não da fatalidade. O STF, os Tribunais de Justiça de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Rondônia, bem como o TRT de Rio Grande do Sul, acertaram-se com arquivos públicos e universidades para prevenir o incêndio.
Há mais de uma década, a desembargadora Magda Biavaschi batalha na defesa dos arquivos trabalhistas, mas pouco conseguiu. Lula ainda tem mandato suficiente para agir em relação à fogueira trabalhista e para alertar sua bancada na defesa dos arquivos cíveis. Milhares de processos estimulados pelas lideranças sindicais dos anos 70, quando ele morava no andar de baixo, já viraram cinzas".
Roberto Ribeiro, a voz mais bonita do samba de todos os tempos, será lembrado hoje com show que seu filho realizará no Teatro Rival, às 19h30. Para participar do tributo, Alex Ribeiro convidou Luiza Dionizio, Zé Luis do Império, Délcio Carvalho, Ivan Milanez, Neguinho da Beija-Flor, Laudir de Oilveira, a escola mirim Império do Futuro e, fazer o quê?, o sub-sambista Dudu Nobre.
No palco do Rival, serão recordados sucessos da carreira de Roberto, como Amei demais, Coisas da vida, Resto de esperança, Estrela de Madureira, Vazio e Todo menino é um rei. Espero que a Luiza cante também Prece a Xangô, o lindo samba que Zé Luis e Nelson Rufino compuseram e o cantor gravou no disco Poeira pura, de 1977 (sempre me pergunto por que sua obra não está disponível em CD).
Aliás, dia desses encontrei o clipe, originalmente feito para o Fantástico, em que ele canta a música. Divido com vocês:
Na sexta passada, completaram-se exatos 30 anos de morte de Sidney Miller. Não li nada sobre a data na imprensa, o que talvez reflita o relativo ocaso a que esse cantor e compositor de pequena discografia e grande talento foi relegado desde o falecimento.
Miller gravou apenas três álbuns - Sidney Miller, de 1967; Brasil, do guarani ao guaraná, de 1968; e Línguas de fogo, de 1974 -, mas teve muitas suas composições registradas em LPs de outros artistas, gente do calibre de Nara Leão e Paulinho da Viola. As letras, pelo esmero construtivo e pelo corte político, muitas vezes levaram a comparações com Chico Buarque – a quem, de fato, faz lembrar. Escreveu também para o teatro e para o cinema.
Conheci mais detidamente a obra de Miller por conta de uma canção que julgo extraordinária: Nós, os foliões. O samba foi gravado por Paulinho no LP A toda hora rola numa estória. Nós, os foliões trata da dor do carnaval que passa, de quando “a realidade é maior”, até que um dia reacendem-se, de novo, as “alegrias e os salões” (ouça aqui, com Sanny Alves).
Esta é apenas uma entre as tantas pérolas que o compositor nos deixou em apenas 35 anos de vida. Pérolas de versos pungentes e alguma tristeza, como os de A estrada e o violeiro (“Segue em frente, violeiro, que eu lhe dou a garantia / De que alguém passou primeiro na procura da alegria”, ou os de Quem dera (“Mas afinal, de que serve então teu carnaval / Olhando para a tua fantasia, pode ser / Que a lua vá buscar um novo dia pra você”).
No último sábado, num papo regado a vinho com o querido Luis Antonio Simas e outros amigos, lembramos de outra canção, esta bastante popular, mas que na verdade pouca gente remete a Sidney Miller. Refiro-me a O circo (ouça aqui, com o próprio Miller), aquela que começa com “Vai, vai, vai começar a brincadeira / Tem charanga tocando a noite inteira / Vem, vem, vem ver o circo de verdade / Tem, tem, tem picadeiro de qualidade...”
O Simas cantarolou a música e me pus a pensar como, a exemplo de Nós, os foliões, O circo é uma peça exemplar da obra do compositor. O viés social crítico, a tensão entre a dureza do cotidiano e colorido da ilusão, o lirismo que irrompe em construções aparentemente simples como “Sopra o vento que protesta, cai no teto, rompe a lona / Pra que a lua de carona também possa ver a festa” sintetizam com perfeição a estética do Miller. Uma estética que me interessa, com a qual me identifico, que me emociona.
Se estivesse viva, a grande Elizeth Cardoso completaria hoje 90 anos. E a efeméride será lembrada pelo Instituto Moreira Sales (IMS) com um show especialíssimo na próxima terça-feira. No palco, estarão Áurea Martins – uma das cantoras favoritas de Elizeth – e Sérgio Cabral, biógrafo e amigo da cantora. Os dois apresentação histórias da Divina e músicas que faziam parte de seu repertório, como Canção de amor e Refém da solidão, ambas de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, e É luxo só, de Ary Barroso e Luís Peixoto.
Cabral lançou recentemente a segunda edição do livro Elizeth Cardoso, uma vida (Ibep -Companhia Editora Nacional) e vai autografar a obra após o espetáculo. O evento tem concepção de Bia Paes Leme, coordenadora de música, e de Paulo Roberto Pires, consultor do IMS.
O Instituto, aliás, mantém em seu acervo variada amostra da carreira da cantora. São partituras de arranjos escritos especialmente para ela, os cadernos em que copiava as letras das canções para decorá-las, gravações inéditas de ensaios e shows, fotografias pessoais e profissionais, documentos.
No show, marcado para 19h30, Áurea será acompanhada pelo violonista Bilinho Teixeira. A entrada é gratuita, e as senhas serão distribuídas uma hora antes. O IMS fica na Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea - Tel: (21) 3284-7400.
P.S. Não achei o vídeo que queria postar aqui: Elizeth cantando "Janelas abertas" em dueto com Raphael Rabello (está no extraordinário disco "Todo sentimento"). Então deixo o registro da canção-título do CD. Bonito demais.
Há 26 anos, morria Mano Décio da Viola, compositor de mão cheia, parceiro de Silas de Oliveira e fundador do Império Serrano. Este é o mais belo samba feito em homenagem a ele, o verdadeiro imperador.
O último (e comovente) show de Paulo Moura, ao lado de amigos músicos. Foi sábado passado, na Clínica São Vicente, onde ele estava internado.
Despedida from Eduardo Escorel on Vimeo.
Lá em casa, o jornal era O Globo. Meu pai, de origem não letrada, alinhado à direita no campo político, simplesmente ignorava a existência do Jornal do Brasil e ou de qualquer outro. E eu, pequeno, lia o que a mim chegava.
Quando iniciei o Segundo Grau (hoje, chamam de Ensino Médio), passando a primeira lâmina do corte inevitável que um dia separa filhos e pais, comecei a me interessar mais fortemente por política – e por cultura. E quem se interessava por política e por cultura nos anos 1980 não tinha escapatória: era recorrer ao velho e bom JB. Assinei o jornal – assinatura que mantenho até hoje. Sim, sou um dos resistentes. E sabem por quê?
Porque foi lendo o JB que decidi estudar jornalismo. Foi lendo o Caderno B, o Ideias, a Programa, que, sem cultura de berço, pude satisfazer a ânsia por saber um pouco mais sobre cinema, literatura, teatro. Sobre a arte em geral. Sobre política. Foi lendo o JB que me formei.
Durante a faculdade, tudo o que eu queria era ser um Alexandre Medeiros, um Marceu Vieira. Aprender essa capacidade de olhar a notícia para além do óbvio, de entender e revelar o que pode estar por trás dela, turvado pela simples descrição do fato.
Nessa época, eu já sabia da importância do Jornal do Brasil, das revolucionárias inovações gráficas que promoveu, dos tantos grandes nomes que escreveram em suas páginas, e renovava essa admiração em minhas leituras, subscrevendo o passado no (então) presente. O sonho de todo estudante de Comunicação era trabalhar no JB.
Lembro que aos sábados, logo pela manhã corria para pegar o jornal e ler a Cantos do Rio, coluna que Marceu manteve durante um bom tempo. Foi ali que conheci a comovente história da mulher que chorava na Praça Nossa Senhora da Paz, que fui apresentado a personagens e espaços fascinantes de nossa cidade. Como Alfredinho e seu (nosso) Bip Bip.
Por isso doeu tanto saber ontem que o JB terminará com sua edição impressa. Sei que essa talvez seja uma tendência mundial, a progressiva troca do papel pela tela. Mas não há como sentir um gosto de fim de festa. A agonia pública parece ter chegado a termo. Apesar do heroico trabalho de colegas como Álvaro Costa e Silva, o nosso bravo Marechal, que tem sido exército de um homem só à frente do Ideias. Apesar do talento de gente que ainda trabalha lá, como Evandro Teixeira e Marcelo Migliaccio. Apesar do valor do nome/marca, ainda não de todo combalido.
Nesta hora, resta um fio de esperança: a de que algum empresário se convença de que há saída, e invista no jornal. Para que o JB, patrimônio carioca e do Brasil, não morra. E o leitor do Rio de Janeiro não fique, de vez, refém de um jornal só - por mais qualidade que tenha.
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Marcelino Freire, Murilo Sales, Guel Arraes e Fernando Bonassi
O amigo Marcelino Freire chega ao Rio hoje para participar do projeto Adaptação - A literatura no cinema, que acontecerá na Caixa Cultural. Incluindo mostra de filmes, debates e curso gratuito, o projeto pretende mostrar e debater como, apesar de suas diferenças, livros e filmes sempre percorreram caminhos paralelos - e muitas vezes cruzaram seus caminhos.
De amanhã a sexta, escritores como Fernando Bonassi e João Gilberto Noll, e de diretores, como Suzana Amaral, Murilo Salles e Guel Arraes, falarão ao público sobre o processo de criação e a transposição do texto literário para as telas. Paralelamente, será oferecido ainda um programa de capacitação de profissionais, com a realização do curso gratuito Criação literária, roteiro cinematográfico e adaptação, ministrado pelo Marcelino e pelos roteiristas David França Mendes e Maria Camargo.
Já a mostra de filmes contará com películas brasileiras e estrangeiras, antigas e atuais, raridades e longas-metragens ainda fora do circuito. Pérolas internacionais, como O sangue de um poeta, de Jean Cocteau, sucessos do cinema nacional , como Guerra conjugal, de Joaquim Pedro de Andrade, e produções nunca exibidas em circuito, como Luna Caliente, de Jorge Furtado, serão exibidos.
A programação completa está disponível nos sites www.literaturanocinema.com.br e www.caixa.gov.br/caixacultural.
"I
O verão era permanente
Tanto fazia: alegria e dor
tinham
o calor do meio-dia.
II
De primeiro, era o
sol
que 'em Pernambuco leva dois sóis'
e aterrissa de chofre
sobre a palha da cana
sobre a cabroeira do eito,
imundas,
ao arrepio da carícia
das geladeiras,
ao largos de azulejos
azuis.
Depois
é trinado de canção
no salão do barbeiro
suor do descamisado
campinado
o descampado.
Não há crepúsculo
mas o rangido do sol a pino
varrendo a sombra
e a árvore:
quintal pelado.
De longe,
a infância queima:
ela é a luz de uma estrela fria"
Trecho inicial do poema "A estrela fria", que abre o livro homônimo de José Almino, recém-lançado pela Companhia das Letras
Tenho atualizado pouquíssimo o Pentimento e isso se deve a algumas razões. Primeiro, porque soube, subitamente, que precisaria me mudar - e quem tem procurado apartamento no Rio de Janeiro após o anúncio da Copa de 2014 no Brasil e das Olímpidas de 2016 na cidade sabe da dificuldade de encontrar um imóvel bem localizado com valor ao menos racional. O tempo também anda escasso desde a volta da viagem a Portugal e Espanha, por conta do trabalho cotidiano na redação, que se intensificou, e de vários frilas. Para completar, ando em fase minguante.
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João Moreira Salles: extraordinário artigo na Folha de S. Paulo
A ideia, no entanto, é voltar a escrever aqui com alguma regularidade. E se me deu vontade de postar hoje, foi sobretudo em razão de dois excelentes artigos que li, com bastante atraso, na noite de ontem e cuja leitura gostaria de recomendar. Um deles, assinado pelo documentarista João Moreira Salles, foi publicado na Ilustríssima (Folha de S. Paulo) há cerca de um mês. O texto, derivado da participação do cineasta em simpósio da Academia Brasileira de Ciências, discute-se a hipervalorização das artes e humanidades em detrimento das chamadas ciências "duras" e da engenharia, e as consequências desse "desequilíbrio" para o desenvolvimento tecnológico, científico e cultural do país.
João Moreira Salles salienta que, "vivendo quase exclusivamente no hemisfério das humanidades", recebe "poucas notícias do lado de lá". "O que eu teria a dizer sobre ciência fica perto do zero. Por outro lado, como especialista na minha própria ignorância, posso discorrer sobre ela sem embaraços. Com as devidas ressalvas às exceções que devem existir por aí, estendo minha ignorância a todo um grupo de pessoas e me pergunto de quem seria a responsabilidade por sabermos tão pouco sobre as leis que regem o que nos cerca".
Ele mesmno responde: "Em parte, a responsabilidade é dos próprios cientistas, que não fazem questão de se comunicar com a comunidade não-científica; em parte é dos governos, que raramente têm uma política eficaz de promoção da ciência nas escolas; e em parte -e essa é a parte que mais me interessa- é nossa, das humanidades, que tomamos as ciências como um objeto estranho, alheio a tudo o que nos diz respeito".
Citando a seção de estilo da Revista do Globo, o cineasta critica o destaque dado às profissões consideradas mais charmosas - absolutamente dominante entre os personagens retratados - e observa, por exemplo, que há 128 cursos superiores de moda em funcionamento no Brasil. "Em 2008, segundo o Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira], o país formou 1.114 físicos, 1.972 matemáticos e 2.066 modistas", afirma ele, para em seguida ironizar: Alimento o pesadelo de que, em alguns anos, os aviões não decolarão, mas todos nós seremos muito elegantes"
E ele estende a reflexão ao ressaltar que "a quase totalidade dos personagens de classe média da literatura e do cinema brasileiro contemporâneos pertence ao mundo dos artistas e intelectuais". Verdade, cristalina verdade. Por falta do balizamento do público-leitor - que efetivamente inexiste -, a literatura brasileira tornou-se refém dos "gostos" e "costumes" de um minúsculo grupo de jornalistas, escritores, críticos e editores (grupo no qual me incluo), o que limita a eleição dos autores e de temas. Feita por e para especialistas, a tendência é mesmo que a ficção fique dando voltas em torno de si mesmo.
Leia a íntegra do artigo aqui.
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Capa de "Retratos pintados", de Titus Riedl e Martin Paar
O outro texto a que me referi foi publicado no Sabático (O Estado de S. Paulo). Quem assina é Antonio Gonçalbes Filho, que já havia, há alguns meses, brindado os leitores do jornal com uma excelente matéria sobre Iberê Camargo. O mote para o artigo é o livro Retratos pintados, de Titus Riedl e Martin Paar. Na obra, o sociólogo alemão Riedl e o fotógrafo inglês Paar abordam o universo estético do sertanejo do Nordeste brasileiro a partir dos "fotorretratos". Para quem não ligou o termo ao objeto, trata-se daquelas imagens de família retocadas a mão a partir de fotos em geral originais que costumam figurar com destaque nas casas do sertão.
Os dois autores investigam as motivações de quem encomenda os quadros, comentam o trabalho dos bonequeiros e refletem sobre o valor antropológico e artístico dos fotorretratos. Motivado pelo artigo (que infelizmente não está disponível para leitura via internet), ontem mesmo encomendei meu exemplar por intermédio da Amazon. Por que pela Amazon? Porque, acreditem, o livro foi lançado na Alemanha (pela Nazraeli Press). O que as editoras brasileiras estão esperando?
Criada em homenagem ao saudoso amigo e ex-professor Roberto M. Moura e inspirada no livro homônimo (leia mais sobre a obra aqui), a série No princípio era a roda promoverá um passeio pela história do samba, passando não só por suas bases geográficas, como pelos seus subgêneros. Os shows, que estreiam amanhã no CCBB e ocorrerão sempre na primeira terça-feira do mês, serão comandados por mestre Nei Lopes e pelo pessoal do grupo Galocantô.
E o espetáculo inicial terá cheiro e gosto de infância para mim. Sim, porque o subúrbio que Zé Luiz e Ivan Milanez cantarão certamente vai remontar a Madureira e às cores do Império Serrano, escola que mora no coração dos dois artistas. Nas semanas seguintes, bambas como Nelson Rufino, Toninho Geraes, Sergio Meriti, Eduardo Gallotti, Luiz Grande, Marquinho China e Renatinho Partideiro, entre outros, mostrarão o samba que vem da Bahia, de Minas Gerais e da Baixada Fluminense; o samba da velha e da nova Lapa, a roda de humor e o partido-alto.
Os ingressos custam R$ 6 e, a cada terça, haverá duas apresentações, uma às 12h30, outra às 19h.