
No domingo anterior à publicação do texto do Contardo Calligari (ver o post abaixo), a Folha de S. Paulo trouxe, no novo caderno Ilustríssima, um lindo poema de Ivan Turguêniev (tradução de Rubens Figueiredo) sobre os misteriosos laços que nos unem - a mesma incompreensão, o mesmo desamparo - aos bichos que nos acompanham. No caso de Turguêniev, um cachorro. Segue o poema (a pintura que o acompanha é O cão, de Goya):
"O cachorro"
Ivan Turguêniev
"Nós dois no quarto: meu cachorro e eu. Lá fora, a tempestade uiva, desenfreada, assustadora.
O cachorro está sentado à minha frente -e me olha direto nos olhos.
Eu também olho para os olhos dele.
Parece que quer me dizer alguma coisa. É mudo, sem fala, nem entende a si mesmo -mas eu o entendo.
Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nós não existe a menor diferença. Somos idênticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama, pequena e trêmula.
A morte virá voando, vai abanar sobre essa chama suas asas frias e largas...
E fim!
Depois, quem poderá distinguir que chama ardeu em cada um de nós?
Não! Não são um animal e um homem que se olham...
São dois pares de olhos idênticos, concentrados um no outro.
E em cada par de olhos, no animal e no homem, a mesma vida assustada tenta se agarrar no outro".
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