
Se vivo, meu pai completaria hoje 77 anos. Minha homenagem, com saudade, ao velho - que adorava o Altemar Dutra e, particularmente, esta canção.
No sábado passado, o suplemento Prosa & Verso (O Globo) publicou minha resenha sobre o ótimo romance A mulher que chora, do chinês Su Tong. Segue o texto na íntegra:
Lágrimas de que destruíram a Muralha
Escritor chinês recria em romance mito milenar sobre esperança e luta contra o destino
Marcelo Moutinho*
Em “O poder do mito”, Joseph Campbell define a mitologia como uma música que dançamos mesmo quando não reconhecemos sua melodia. Essa espécie de “canção do universo” faria ressoar seus refrões tanto na ladainha de um curandeiro do Congo quanto num poema de Lao Tse; em um argumento de São Tomás de Aquino ou na lenda de Meng Jiangnü, que, com seu choro, destrói parte da Grande Muralha. Pouco conhecida no Ocidente, a dolente história dessa jovem data da época de Huandgi, o Imperador Amarelo, e vem sendo transmitida oralmente na China há mais de dois mil anos, de geração em geração. Em 2007, pelas mãos do escritor Su Tong, virou livro.
No romance “A mulher que chora”, que acaba de ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras, Tong reconta o mito chinês com o filtro da literatura. Já no prefácio, ele adverte que pretende “reimaginar” as vidas emocionais dos personagens, sobretudo a da protagonista, mas sem enfumaçar a essência mítica do enredo. É o que efetivamente acontece.
Jiangnü recebe, no livro, o nome de Jiang Binu. De início, sabemos que é órfã e mora na aldeia do Pêssego, onde os habitantes são proibidos de chorar. Por não conseguir obedecer a essa lei, acaba marginalizada, e só consegue se casar quando conhece Qiliang, um criador de bichos-de-seda cujos pais também morreram. O rapaz, no entanto, é recrutado para trabalhar na elevação da Grande Muralha – e parte. Então ela decide cruzar o país a fim de reencontrar o marido e entregar-lhe um casaco que o protegeria do rigoroso inverno do Norte.
Cada etapa de sua trajetória de herói – no caso, de heroína – é cumprida com sofrimento e persistência. De início, Binu padece frente aos próprios moradores da aldeia, que a julgam louca por ter vendido os poucos bens para comprar o agasalho. Criticam, também, o fato de almejar ir tão longe. “Por acaso sua alma foi embora só porque seu marido saiu de casa? Quando um homem vai embora, as mãos vão com ele, os pés e até mesmo aquele penduricalho entre as pernas”, debocham as mulheres.
Adiante, ela será obrigada a suportar os sucessivos entraves da viagem. Na Ravina da Grama Azul, desconfiam que sua trouxa de roupas esconde um fantasma. No Terraço das Cem Nascentes, é atacada pelos meninos-cervos, vê-se obrigada a se unir a um cadáver e termina perdendo o casaco que levava para Qiliang. Na Cidade dos Cinco Grãos, é presa, condenada à decapitação e exposta à pilhéria pública. Sua única reação, por todo o tempo, é dizer a verdade - que está indo atrás do marido. E chorar.
Autor do romance “Lanternas vermelhas”, levado às telas com sucesso por Zhang Yimou, Tong descreve essa jornada com tintas fantásticas e uma narrativa fortemente visual. O texto é coalhado de pequenas metáforas, que prestam reverência ao caráter mítico da história e não chegam a atravancar a fluência.
Como afirma o próprio Tong, trata-se de uma “lenda sobre status e classe social”. Mas, também, de uma crítica ao absolutismo e de um elogio à perseverança – ainda que sem promessa de recompensa. À postura ativa de Binu, decidida a levar adiante e sob qualquer hipótese sua quimera particular, opõem-se quase todos os demais personagens, passivos e submissos ante os ditames do rei – e mesmo do poder local.
Duas passagens são especialmente ilustrativas. Na primeira, logo após saber da morte do rei, Binu pergunta a um senhor por que continuam a erguer a Muralha mesmo com o desaparecimento de quem ordenou sua edificação. “Por que não estariam? O velho rei pode ter morrido mas há um novo rei sentado no trono. Todos os reis querem construir muralhas”, o homem responde.
Na outra, Binu está na beira da estrada, encontra um pequeno grupo e o convida a caminhar com ela rumo à montanha da Grande Andorinha. O efeito de tais palavras “chega a produzir centelhas nos olhos” das pessoas, que por um segundo hesitam – talvez também saudosas dos parentes convocados a labutar na Grande Muralha -, mas logo desistem de acompanhá-la. “Para eles, esperar era a melhor alternativa. A multidão preguiçosa havia abandonado tudo, exceto o ato de esperar”, ressalta o narrador.
Em alguns momentos, Binu até consegue riscar uma faísca nessa frieza resignada dos que a cercam. Capturada pelos meninos-cervos, ela desata a chorar, e os garotos são então dominados por um abissal ataque de tristeza. Lembram-se de “uma aldeia distante, um cão, um par de cabras, três porcos, colheitas nos campos”, imagens de casa e da infância que retornam num espetáculo crepuscular, naquela que talvez seja a mais bela cena do livro.
“Ninguém consegue ver a tristeza melhor do que as pessoas tristes”, observa o narrador. A tristeza de Binu é consciência e ao mesmo tempo luta contra a inexorabilidade do destino, um tour de force permanente, cíclico, entre esses dois polos. Ao enfim se aproximar da Grande Muralha, ela é aconselhada a procurar uma pedra, transportar consigo e depositar na Grande Muralha, para garantir proteção da Divindade da Montanha a si e a seu marido. A circunstância faz recordar outro mito. Mas, ao contrário de Sísifo, cujo encargo é desalento e condenação, Binu leva sua pedra como quem carrega a esperança.
* Escritor e jornalista
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Lima Barreto e Cristovao Tezza: modos de ver o futebol
Na seção Logo (O Globo) de hoje, escalei um time com 11 escritores brasileiros que trataram do futebol em suas obras, seja em romances, contos ou poemas. São 11 diferentes olhares lançados por nossa literatura para o velho esporte bretão. Estão no "escrete da escrita" Lima Barreto, Graciliano Ramos, Coelho Neto, João do Rio, José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto, Mário Filho, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Glauco Mattoso e Cristovão Tezza. Confiram o texto aqui.
"Não escrevo para fugir da morte, porque ninguém foge da morte. É uma ilusão.O que pode acontecer é pensarmos – e devo ter pensado – que se escreve porque não se quer morrer.Parte-se do princípio de que a obra vai ficar, não se sabe por quanto tempo. Hoje não sou tão ambicioso. Eu me limito a dizer que escrevo para tentar compreender as coisas”.
É hoje o lançamento das obras infanto-juvenis dos amigos Fernando Molica e Moacyr Luz. Adianto que as edições - que integram a coleção Passe de Letra, da Rocco - ficaram lindas. E publico, abaixo, o texto que escrevi para a orelha do livro do Molica. Encontro vocês no Rio Sul.
"Acredite, leitor: antigamente não havia Fifa Soccer ou campo de grama sintética. A gente jogava bola no meio da rua, com os pés descalços sobre o asfalto ou a terra batida e traves improvisadas com chinelos. A pelada só era interrompida quando um carro se aproximava, ou quando uma moça passava a caminho de casa, desenhando em seu andar uma beleza que só mais tarde entenderíamos.
Nessa época, eu e Fernando Molica, o autor deste livro, éramos garotos e vivíamos no subúrbio de um Rio de Janeiro muito diferente do atual. O mesmo subúrbio que reaparece, com saudade mas sem saudosismo, na lembrança de Marcelo, o narrador da trama que você lerá nas próximas páginas.
Por conta de uma pergunta a respeito da origem da expressão "pegar o bonde andando", Marcelo conta aos filhos sobre um time-contra que marcou a sua infância. Tudo começa quando a bola cai na casa de Dona Lili, a vizinha mal humorada que costumava acabar com o jogo furando o principal objeto de diversão dos meninos. Para surpresa de todos, a bola é devolvida.
No dia seguinte, um novo jogador surge na pelada. Baixinho, magrinho, mais jovem que os demais garotos, mas muito habilidoso, o recém-chegado e misterioso peladeiro vai se tornar protagonista da surpreendente história narrada por Marcelo. Uma história que trata de futebol, de descobertas, de amadurecimento e, sobretudo, de amor."
Hoje, às 16h30, estarei na PUC-Rio para participar do ciclo Concentração: pensar a bola antes que ela role, promovido pela Cátedra Unesco de Leitura e cujo objetivo é refletir sobre as relações do esporte com a arte e a sociedade. Meu tema será literatura e futebol.
A série teve início ontem e prosseguirá amanhã, com o coreógrafo João Saldanha, que falará sobre futebol e dança, e na quinta-feira, com Mário Neto, que comentará o livro O negro no futebol brasileiro, de seu pai, Mário Filho.
Também hoje, só que um pouco mais tarde (às 18h30), vai rolar no CCBB a mesa de enceramento da série Brasil, futebol e livros. O painel reunirá André Iki Siqueira, autor de João Saldanha - Uma vida em jogo, e Paulo Guilherme, de Goleiros - Heróis e Anti-heróis da Camisa 1. Dois ótimos livros que garantem um ótimo papo.
No domingo anterior à publicação do texto do Contardo Calligari (ver o post abaixo), a Folha de S. Paulo trouxe, no novo caderno Ilustríssima, um lindo poema de Ivan Turguêniev (tradução de Rubens Figueiredo) sobre os misteriosos laços que nos unem - a mesma incompreensão, o mesmo desamparo - aos bichos que nos acompanham. No caso de Turguêniev, um cachorro. Segue o poema (a pintura que o acompanha é O cão, de Goya):
"O cachorro"
Ivan Turguêniev
"Nós dois no quarto: meu cachorro e eu. Lá fora, a tempestade uiva, desenfreada, assustadora.
O cachorro está sentado à minha frente -e me olha direto nos olhos.
Eu também olho para os olhos dele.
Parece que quer me dizer alguma coisa. É mudo, sem fala, nem entende a si mesmo -mas eu o entendo.
Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nós não existe a menor diferença. Somos idênticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama, pequena e trêmula.
A morte virá voando, vai abanar sobre essa chama suas asas frias e largas...
E fim!
Depois, quem poderá distinguir que chama ardeu em cada um de nós?
Não! Não são um animal e um homem que se olham...
São dois pares de olhos idênticos, concentrados um no outro.
E em cada par de olhos, no animal e no homem, a mesma vida assustada tenta se agarrar no outro".
Colocando as leituras atrasadas em dia, me encantei com texto que o Contardo Calligaris - de quem sou fã confesso - publicou semana passada em sua coluna na Ilustrada (Folha de S. Paulo). Na contramão do amor "romântico" - aquele que se define pelo "apaixonamento" e que é matéria-prima de 99,9% das love stories -, Calligaris trata do amor como "construção", amálgama de esforço e coragem. Segue o texto na íntegra:
"A coragem do amor que dura"
Contardo Calligaris
"Prolongando minhas observações da semana passada sobre "Quincas Berro d'Água", vários leitores e leitoras observaram que a literatura e o cinema, em geral, glorificam a coragem de quem, um belo dia, chuta o balde e vai embora.
E como ficam os que passam a vida inteira deslocando o balde para estancar as goteiras? Será que eles são todos covardes e acomodados?
É inegável: nossa cultura idealiza a ruptura, a aventura, a saída para o mar aberto. Em matéria amorosa, o momento que preferimos contar é a hora do apaixonamento.
Depois disso, gostamos de imaginar que "eles viveram felizes para sempre", mas sem entrar em detalhes que poderiam transformar a história numa farsa.
Uma boa solução, aliás, é que os amantes morram logo. O sumiço (de ambos ou de um dos dois) evita que a comédia da vida que levariam juntos contamine a apoteose do encontro inicial. Os amantes ideais são os que não duraram no tempo: Romeu e Julieta, o jovem Werther e Charlotte, Tristão e Isolda.
Concluir o quê? Que a coragem é sempre a de quem deixa a mornidão de seu conforto para se queimar num instante de paixão? Será que não pode haver coragem nos esforços para que o amor dure?
É óbvio que a duração não é um valor em si: uma relação pode durar a vida inteira e ser uma longa e insulsa
experiência repetitiva, sem amor algum. Mas, inversamente, será que as paixões-relâmpago são amores? Enfim, seria útil dispor de uma definição do amor.
Justamente, li nestes dias um livro que me tocou, "Éloge de l'Amour" (elogio do amor, Flammarion 2009, ainda não traduzido para o português), de Alain Badiou; é a transcrição de uma breve entrevista do filósofo francês.
Nela, inevitavelmente, Badiou constata que, em nossa cultura, a visão dominante do amor é a de uma espécie de "heroísmo da fusão" dos amantes, que, uma vez consumidos por sua paixão, podem sair de cena (para não se tornar ridículos) ou sair do mundo e morrer (para se tornar sublimes).
Contra essa visão, Badiou define o amor mais como um percurso do que como um acontecimento: segundo ele, o amor precisa durar um tempo porque é "uma construção".
Confesso que fiquei com medo de que o filósofo nos propusesse amores tagarelas, em que os amantes não parariam de discutir a relação (claro, para construí-la). Por sorte, não se trata disso. Então, o que constroem os amantes?
Geralmente, explica Badiou, minha experiência do mundo é organizada por minha vontade de sobreviver e por meu interesse particular: vejo o mundo só de minha janela.
Certo, ao redor de mim, há muitos outros de quem gosto e aos quais reconheço o direito de também sobreviver e promover seus interesses.
Mas o fato de eu respeitar esses meus semelhantes não muda em nada meu ângulo de visão. É só quando amo que consigo olhar, ao mesmo tempo, por duas janelas que não se confundem, a minha e a de meu amado. A estranha experiência ótica faz com que os amantes reconstruam o mundo, enxergando coisas que ficam escondidas para quem só sabe olhar por uma janela.
Entende-se que o amor assim definido exija tempo. Quanto tempo? Um mês, um ano, uma vida, tanto faz. Consumir-se na paixão pode ser rápido, mas reinventar o mundo a dois é uma tarefa de fôlego.
O amor segundo Badiou, em suma, é uma aventura, mas que precisa ser obstinada: "Abandonar a empreitada ao primeiro obstáculo, à primeira divergência séria ou aos primeiros problemas é uma desfiguração do amor. Um amor verdadeiro é o que triunfa duravelmente, às vezes duramente, dos obstáculos que o espaço, o mundo e o tempo lhe propõem".
Você aprecia a definição, mas a acha um pouco abstrata? Gostaria da história de um amor que dura e se obstina sem se tornar pesadelo ou farsa? Pois bem, acabo de ler um texto comovedor, bonito e capaz de ilustrar e explicar perfeitamente as palavras de Badiou.
Em "Amar o Que É: Um Casamento Transformado" (Objetiva), Alix Kates Shulman conta como ela e Scott, o marido, reinventaram o mundo, a dois, obstinadamente, depois de um acidente que precipitou Scott numa forma de demência.
Há momentos difíceis, sacrifícios e durezas, mas, curiosamente, o relato não chega nunca a ser triste porque se trata de uma extraordinária história de amor.
. A edição de aniversário da Criativa (junho) traz um especial com 15 microcontos de até 140 caracteres sobre amores efêmeros. Os textos foram especialmente criados para a revista e vão da melancolia ao humor mais rasgado. Assino um dos contos, e na revista estão também Fabricio Carpinejar, Hennrique Rodrigues, Marcelino Freire, Tatiana Salem Levy, Mayra Dias Gomes, Mario Bortolotto, Maurício de Almeira e Paula Parisot, entre outros;
. No próximo dia 8 (terça), às 16h30, participarei do ciclo Concentração: pensar a bola antes que ela role , promovido pela Cátedra Unesco de Leitura na PUC-Rio. A proposta do evento é debater o futebol a partir de pontos de vista artísticos e étnicos. Vou falar sobre as relações entre o esporte e a literatura brasileira e, nos demais dias (segunda, quarta e quinta), o ciclo terá como convidados o cantor e compositor Alfredo del Penho (futebol e música), o coreógrafo e bailarino João Saldanha (futebol e dança) e o jornalista e escritor Mario Neto (futebol e raça);
. Já no dia 9 (quarta), a partir das 19h, os amigos Fernando Molica e Moacyr Luz farão na Saraiva do Rio Sul o lançamento conjunto dos livros que escreveram para a coleção Gols de Letra, da editora Rocco. Embora produzidos por autores diferentes, Camisa, short e meião, do Moacyr, e O misterioso craque da Vila Belmira, de Molica, curiosamente têm interseção no olhar que lançam em direção ao passado, um tempo de meninos de short e ruas suburbanas. Com muita honra, assino a orelha do livro do Molica.