
Tinha 10 anos quando a Seleção Brasileira - aquela, sim, digna do nome - perdeu da Itália de Paolo Rossi e acabou eliminada da Copa de 1982, na qual era franca favorita. A derrota do espetacular escrete que contava com craques como Zico, Sócrates e Falcão fez muito mal ao futebol, pois serviu de argumento para os que apostam na falsa dicotomia força/êxito x arte/fracasso. E doeu como poucos revezes doeram na alma dos brasileiros.
As lembranças daquela Copa: eu e meus amigos colocando fitinhas verdes e amarelas nas antenas dos carros em troca de algum dinheiro para ajudar a pagar os enfeites da rua. Nós, juntos, pintando o Naranjito no asfalto, depois de riscar o desenho com caco de telha. Erguendo fios de nylon com fitas de um poste a outro. Marcando pelada para quando terminados os jogos. Ou, em casa, eu e meu pai vendo o Brasil pela TV - e recordo com precisão a cena em que ele, colérico de felicidade, arremessou longe parte do enconsto do sofá quando Júnior marcou o terceiro gol no embate contra Argentina e sambou junto à bandeirinha de corner.
Essas imagens se juntam ao frango de Valdir Peres na estreia, contra a URSS, ao golaço da virada na mesma partida, com Falcão abrindo as pernas para a bola passar e enganando a defesa adversária, à expulsão de Maradona no jogo contra a Argentina, depois que ele deu uma porrada no Batista. E, claro, ao traumático confronto com a Itália.
A disputa na Espanha, em 1982, é minha primeira reminiscência de uma Copa do Mundo, e talvez por isso tenha me emocionado tanto com a crônica que o amigo Luiz Antonio Simas publicou, alguns dias atrás, em seu blog Histórias brasileiras. Com a verve de sempre, Simas relata a experiência pessoal com relação aos 3x2 que nenhum de nós jamais esqueceu. O texto é melancólico, metafísico e, sobretudo, belo. Republico, a seguir, o trecho de abertura. Leia a íntegra aqui.
"O sorvete que eu não tomei"
Luiz Antonio Simas
"Eu achava, simplesmente, que se a seleção ganhasse a Copa a vida seria boa, Deus seria justo e eu, feliz.
Ganhar o mundial, todo mundo sabe, é menos prova de competência que a confirmação do destino - e o nosso destino, em 1982, era mesmo levar a taça, confirmando a máxima de que a nêga é minha, ninguém tasca, eu vi primeiro.
Era, além disso , a chance de dizer aos mais velhos, que me matavam de inveja porque tinham visto o escrete papar a Jules Rimet em 1970: eu também vi o Brasil ser campeão do mundo e está provado que a derrota em 1978 não foi minha culpa (...)".
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