
Muito bom o show de gravação do DVD Amor, festa e devoção, de Maria Bethânia, a que assisti no sábado passado no Vivo Rio. Artista que só se realiza plenamente no palco, Bethânia driblou bem o microfone demasiadamente baixo e cantou boa parte das músicas dos dois recentes cds, incluindo no repertório também canções até então não ouvidas na sua voz, como Queixa, do irmão Caetano.
Gostei do cenário da Bia Lessa (na primeira parte, uma coluna de rosas vermelhas; na segunda, pequenos quadros com imagem de casario antigo), mas não a ponto de achar genial, como alguns amigos. O trabalho barroco feito por Gabriel Vilela para Bethânia em 1995 continua sendo o mais bonito e expressivo entre os tantos shows que vi da cantora.
De modo geral, Amor, festa e devoção não chega a superar espetáculos como Nossos momentos (1982) ou Brasileirinho (2003), pontos altíssimos da carreira. O show, porém, honra a fama de Bethânia como sinônimo de qualidade tanto no que se refere à seleção das músicas quanto no que tange à sua conhecida excelência nas apresentações ao vivo. Para mim, o grande destaque da noite foi a interpretação da linda (e triste) Serra da boa esperança, de Silvio Caldas e Lamartine Babo.
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Lamartine, que compôs da música com Silvio Caldas
Serra da boa esperança, aliás, tem uma história curiosa. Lamartine escreveu a letra na década de 1930 após trocar correspondências, durante um ano, com Nair Oliveira Pimenta, mineira de Dores da Boa Esperança. As cartas de lado a lado eram redigidas em prosa e também sob a forma de versos, e Lamartine, empolgado com a inteligência e a verve da moça, chegou a lhe enviar fotos. A relação lhe parecia promissora.
Ela, no entanto, em certo momento interrompeu a correspondência, alegando que iria se casar com um primo e que “tudo não se passava de um sonho impossível”. Diante disso, o compositor decidiu ir à cidade a fim de conhecê-la pessoalmente. Lá, apresentaram-lhe a única Nair do lugar: uma menina de seis anos. A musa inspiradora do poeta era, na verdade, o dentista Carlos Alves Netto, um fã que iniciou a troca de cartas e adotou o pseudônimo feminino para tentar ficar mais próximo de seu ídolo.
A decepção de Lalá, expressa em versos como "Nós os poetas erramos / Porque rimamos também / Os nossos olhos nos olhos / De alguém que não vem", não impediu que se tornasse amigo de Netto. Acabou gerando uma pérola da música brasileira. E Dores da Boa Esperança prestou a devida referência ao compositor que a destacou no mapa: ele hoje é monumento em uma das principais vias públicas da cidade.
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