
No começo do ano passado, o amigo Henrique Rodrigues (o Buddy) teve a ideia de unir duas de suas paixões - a literatura e a banda Legião Urbana - num só projeto. Ele conversou com escritores de várias partes do país, no afã de descobrir quais deles tiveram ou tem essa mesma afinidade eletiva. O objetivo era juntá-los num livro, cujos contos seriam inspirados nas canções da Legião.
Terminada a seleção, Henrique chegou a 20 nomes e apresentou o projeto para a Record, que logo topou a parada. O livro ganhou título inspirado num dos mais célebres versos da banda - Como se não houvesse amanhã - e será lançado no Cinematheke Jam Club no próximo sábado, data em que Renato Russo completaria 50 anos de idade. Todos os discos da carreira estão contemplados com pelo menos uma música/conto.
Sou um dos autores da antologia, com muito orgulho, até porque sempre fui admirador da banda. Estive nos dois últimos shows da Legião no Rio - Jockey e Metropolitan -, tenho todos os discos e a caixa cor de cobre que traz a obra (então) completa. Talvez por isso tenha hesitado tanto na escolha da canção que serviria de inspiração para o conto. Pensei, inicialmente, em Andrea Doria, uma das minhas preferidas. Cogitei também Teatro dos Vampiros. Mas acabei escrevendo uma história baseada em Vento no litoral.
A meu lado, no livro, estão Alexandre Plosk (Que país é este), Ana Elisa Ribeiro (Andrea Doria), Carlos Fialho (Faroeste caboclo), Carlos Henrique Schroeder (Há tempos), Daniela Santi (Será), João Anzanello Carrascoza (Pais e filhos), Manoela Sawitzki (Giz), Mariel Reis (Música de trabalho), Maurício de Almeida (Sagrado coração), Miguel Sanches Neto (Meninos e meninas), Nereu Afonso (Ainda é cedo), Ramon Mello (Sereníssima), Renata Belmonte (Por enquanto), Rosana Caiado Ferreira (Eduardo e Mônica), Sérgio Fantini (Música urbana 2), Susana Fuentes (Quando o sol bater na janela do seu quarto), Tatiana Salem Levy (Tempo perdido), Wesley Peres (Monte Castelo) e o próprio Henrique (Acrilic on canvas).
Como disse o Buddy, é um livro "para ler no volume máximo". Esperamos vocês no sábado, pois.
O Império Serrano, baluarte da cultura brasileira, fez 63 anos hoje. Lembro aqui, emocionado ao rever essas imagens, meu primeiro desfile pela escola.
Já ia me esquecendo de anunciar aqui, em tom de entusiasmada saudação, o novo site que pintou na praça. Refiro-me ao blog A literatura na poltrona, do jornalista e escritor José Castello. No espaço, ele fala, evidentemente, sobre livros - os primeiros posts tratam de Fernando Pessoa, Roland Barthes, H. G. Wells e Lygia Fagundes Telles - e com a mesma elegância que caracteriza sua coluna no suplemento Prosa & Verso (O Globo).
Sou antigo admirador de Castello. Sua biografia de Vinícius de Moraes (adequadamente intitulada O poeta da paixão) e a magnífica seleta Inventário das sombras, na qual perfila escritores como Clarice Lispector, Manuel de Barros e Caio Fernando Abreu, são exemplos de obras ao mesmo tempo plenas de conteúdo e claríssimas na forma.
Quando lancei Somos todos iguais nesta noite, não nos conhecíamos e Castello ainda não era colunista de O Globo. Na ocasião, ele foi responsável por uma das melhores resenhas que saíram de meu livro (confira aqui). Aliás, o que mais valorizo em suas análises é exatamente o cuidado permanente de não perder a dimensão do leitor, de se manter sempre suscetível à descoberta, traço raro num tempo de exames tão técnicos quanto frios.
No blog, Castello retoma o título de seu mais recente trabalho, no qual defende que a literatura não deve perder o "vínculo díficil" que mantém com a vida cotidiana (leia mais sobre a obra aqui). Recomendo desde já - o livro e o blog.
Hoje, a partir das 19h, na Travessa do Leblon, Felipe Pena vai lançar O marido perfeito mora ao lado (Record), seu novo romance. Embora seja eminentemente uma peça de ficção, o livro é inspirado em um trabalho de campo que Felipe fez no curso de Psicologia da PUC-Rio (o curioso é que ele acabou se formando).
A protagonista do romance é uma mulher angustiada que busca a ajuda de uma terapeuta para salvar o casamento. "Logo percebemos que a angústia é compartilhada por outros personagens, até mesmo pelos bem casados (ou principalmente por estes, como diz um deles). Então ocorre um crime. E os terapeutas farão o papel de investigadores. Quem é o culpado pela incomunicabilidade entre homens e mulheres? Uma questão que nem Freud foi capaz de resolver, embora passemos a vida atrás da resposta", como anota João Assafim, na orelha.
O livro conta com um trailer no YouTube (assista aqui), e Felipe avisa que a cerveja hoje mais tarde será por conta da Devassa. Estarei lá.
1. Muito interessante a série de depoimentos que o Michel Laub colheu e está publicando em seu blog. Ele perguntou a 100 escritores sobre suas manias quando escrevem e tem veiculado os testemunhais de cinco em cinco. Já revelaram suas manias Moacyr Scliar, José Castello, Fabrício Corsaletti, Edward Pimenta, Marçal Aquino, Luiz Ruffato, Carola Saavedra, Ivana Arruda Leite, Marcelino Freire, Cintia Moscovich, Fabrício Carpinejar e João Gilberto Noll, entre muitos outros. Confira aqui;
2. Já no blog do Almir de Freitas, o destaque são as esculturas feitas com páginas recortadas de livros da artista plástica britânica Su Blackwell. Su na maioria das vezes utiliza temas infanto-juvenis e fábulas, como Alice no País das Maravilhas, Peter Pan e O Mágico de Oz nas peças, cujas fotos que podem ser vistas aqui;
3. O encantador blog O silêncio dos livros dedica-se a publicar fotos, pinturas, desenhos e ilustrações nos quais há sempre um livro presente. Trazendo de imagens renascentistas a fotogramas de Godard e Buñuel, de cartuns a bico de pena aos maravilhosos traços de Escher, além de registros de artistas como Ernest Hemingway, Walt Disney e Marilyn Monroe, o blog é uma fascinante viagem pela relação homem-livro ao longo da história.
Amanhã, a partir das 19h, a Livraria Folha Seca vai sediar o lançamento brasileiro de Dez cariocas. A coletânea de contos, organizada pelo escritor Federico Lavezzo, foi publicada originalmente na Argentina, pela Ferreyra Editor. Como a edição é bilíngue e tem páginas espelhadas, o leitor pode cotejar as versões em Português e em Espanhol de cada texto.
Assino uma das histórias do livro, que traz ainda textos de Sérgio Sant'Anna, Cecilia Gianetti, Ana Paula Maia, Paulo Henriques Brito, Fernando Molica, Bráulio Tavares, João Paulo Cuenca, Leandro Salgueirinho e Manoela Sawitzki e Sérgio Sant'Anna. A Folha Seca fica na Rua do Ouvidor 37. Espero vocês lá!
Hoje, às 18h30, no CCBB, vai rolar o segundo debate do ciclo Brasil, futebol e livros. A mesa reunirá Mário Magalhães, autor de Viagem ao país do futebol, e Ivan Soter, de Quando a bola era redonda, que conversarão sobre pesquisa e reportagem, com mediação deste que vos escreve.
Depois de ler os dois livros citados, posso garantir que autores têm ótimos casos para contar - premissa de bom papo. Em Viagem ao país do futebol, Mário reproduz uma série de reportagens, feitas originalmente para a Folha de S. Paulo, sobre jogadores, times e campeonatos de cidades como São Paulo de Olivença (AM), que mostram um lado menos glamouroso do esporte. Quando a bola era redonda é uma seleta de histórias ocorridas entre 1914 a 1970, da quais Soter se vale para desfazer alguns dos mais duradouros mitos do ludopédio brazuca.
Vale lembrar que a entrada para o debate é gratuita, com retirada de senhas uma hora antes do painel.
Muito bom o show de gravação do DVD Amor, festa e devoção, de Maria Bethânia, a que assisti no sábado passado no Vivo Rio. Artista que só se realiza plenamente no palco, Bethânia driblou bem o microfone demasiadamente baixo e cantou boa parte das músicas dos dois recentes cds, incluindo no repertório também canções até então não ouvidas na sua voz, como Queixa, do irmão Caetano.
Gostei do cenário da Bia Lessa (na primeira parte, uma coluna de rosas vermelhas; na segunda, pequenos quadros com imagem de casario antigo), mas não a ponto de achar genial, como alguns amigos. O trabalho barroco feito por Gabriel Vilela para Bethânia em 1995 continua sendo o mais bonito e expressivo entre os tantos shows que vi da cantora.
De modo geral, Amor, festa e devoção não chega a superar espetáculos como Nossos momentos (1982) ou Brasileirinho (2003), pontos altíssimos da carreira. O show, porém, honra a fama de Bethânia como sinônimo de qualidade tanto no que se refere à seleção das músicas quanto no que tange à sua conhecida excelência nas apresentações ao vivo. Para mim, o grande destaque da noite foi a interpretação da linda (e triste) Serra da boa esperança, de Silvio Caldas e Lamartine Babo.
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Lamartine, que compôs da música com Silvio Caldas
Serra da boa esperança, aliás, tem uma história curiosa. Lamartine escreveu a letra na década de 1930 após trocar correspondências, durante um ano, com Nair Oliveira Pimenta, mineira de Dores da Boa Esperança. As cartas de lado a lado eram redigidas em prosa e também sob a forma de versos, e Lamartine, empolgado com a inteligência e a verve da moça, chegou a lhe enviar fotos. A relação lhe parecia promissora.
Ela, no entanto, em certo momento interrompeu a correspondência, alegando que iria se casar com um primo e que “tudo não se passava de um sonho impossível”. Diante disso, o compositor decidiu ir à cidade a fim de conhecê-la pessoalmente. Lá, apresentaram-lhe a única Nair do lugar: uma menina de seis anos. A musa inspiradora do poeta era, na verdade, o dentista Carlos Alves Netto, um fã que iniciou a troca de cartas e adotou o pseudônimo feminino para tentar ficar mais próximo de seu ídolo.
A decepção de Lalá, expressa em versos como "Nós os poetas erramos / Porque rimamos também / Os nossos olhos nos olhos / De alguém que não vem", não impediu que se tornasse amigo de Netto. Acabou gerando uma pérola da música brasileira. E Dores da Boa Esperança prestou a devida referência ao compositor que a destacou no mapa: ele hoje é monumento em uma das principais vias públicas da cidade.
Retomando seu blog em altíssimo estilo, Paulo Roberto Pires publicou hoje um delicioso texto sobre os escritores e seus túmulos. O gancho é o recém-lançado Tumbas, de Cees Nooteboom, um passeio pelos túmulos de poetas, prosadores e filósofos de todo o planeta. Assim como Nooteboom, Paulo tem um confessado fascínio pelo assunto - ele diz que já chegou a desviar roteiro de férias para visitar cemitérios. Segue um trecho do texto. Leia a íntegra aqui.
"Uma mulher e dois homens, os três estrangeiros e comunicando-se mal em português, chegam à administração do São João Batista, o gigantesco cemitério incrustado no meio de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Procuram o túmulo de um certo Machado de Assis.
Só tendo o primeiro nome – informa o prestativo funcionário.
Mas o senhor não conhece o grande escritor? Não é fácil saber onde está?– arrisca o mais fluente.
Só pelo primeiro nome. Tem muita gente que se chama assim, nosso registro é baseado nos primeiros nomes – diz ele, revirando os livros de registro manuscritos
A mulher, fotógrafa, vê a possibilidade de um bom flagrante. Mas no primeiro clique, é repreendida pelo funcionário:
- Aqui não pode tirar foto não senhora. E também não pode tirar foto no cemitério.
É mais ou menos assim – dei à tradução uma “cor local” não difícil de imaginar – que começa “Tumbas”, fascinante viagem de Cees Nooteboom e sua mulher, Simone Sassen, pelos túmulos de escritores e filósofos em todo o mundo (...)"
Dois lançamentos literários movimentam hoje a cidade. Na Da Conde do Leblon, a partir das 19h, o amigo Fernando Molica apresenta mais um volume da coleção Jornalismo Investigativo: o livro 11 gols de placa. A seleta, organizada por ele e editada em parceria pela Record e pela Abraji, reúne grandes reportagens sobre futebol, publicadas originalmente em veículos como O Globo, Foha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Zero Hora, O Dia, Veja e Placar. Onze bambas da escrita, entre eles João Máximo, Marceu Vieira, Juca Kfouri e Mário Magalhães, assinam os textos e comentam, em relatos feitos hoje, os bastidores da apuração. A Da Conde fica na Rua Conde de Bernadotte, 26.
Já na Travessa de Ipanema, também às 19h, Sérgio Rodrigues lançará seu Sobrescritos - 40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos. Publicado pela Arquipélago editorial, o livro é um compêndio com os melhores contos veiculados por Sérgio em seu referencial site Todo Prosa, e que têm como tema o mundo literário. Nos textos, aparecem personagens como Lúcio Nareba, "lenda da blogosfera nacional", e Demóstenes Bastião, aquele que só escrevia em preto-e-branco. A Travessa de Ipanema fica na Rua Visconde de Pirajá, 572.
Além dos dois lançamentos, será hoje a abertura a exposição Pedras portuguesas. Subúrbio, do fotógrafo Bruno Veiga. Sem expor na cidade há cinco anos, ele apresenta 24 trabalhos. São oito fotografias em grandes formatos, nas quais explora de forma o grafismo das calçadas da orla carioca, sobretudo as concebidas por Burle Marx para a Avenida Atlântica. Completam a mostra 16 registros de detalhes de fachadas e da decoração de casas da Zona Norte do Rio, como a imagem acima, além de cenas que enfocam costumes dos bairros da região. O material foi coletado ao longo de oito anos, a partir de 2001, quando Bruno ganhou uma bolsa da Rio Arte para retratar o estilo de vida de artistas como Noca da Portela, Nei Lopes, Tia Maria do Jongo, Jair do Cavaquinho, Wilson das Neves e Tia Eulália, entre outros. A exposição fica em cartaz até o dia 23 de abril, na Galeria da Gávea (Rua Marquês de São Vicente, 431, Loja A, Gávea).
Ressuscitando um tipo de casa noturna que parece em extinção, os amigos Hugo Sukman e Luís Pimenta inauguram, amanhã, o piano-bar Lapinha. O nome é uma referência carinhosa ao bairro onde se localiza (esquina da Rua Mem de Sá com a Rua do Lavradio) e, principalmente, à cantora lírica e atriz Joaquina Maria da Conceição Lapa, brasileira que fez muito sucesso em Lisboa no final do século XVIII, e ficou conhecida como Lapinha. É ela quem aparece na logomarca da casa, assinada pelo artista gráfico Mello Menezes.
Rui Quaresma, também sócio da casa, explica como Mello desenhou a logomarca: “Na ausência de registros iconográficos, o artista acendeu uma vela, tomou um gole de marafu e, em profundo transe, aguardou o contato de Lapinha. Mas, segundo ele, por um problema de conexão, ‘baixou’ a Anastácia. Ele agradeceu a deferência e, trocando de frequência, conseguiu uma conexão visual, mesmo que em preto e branco, da grandiosa diva Joaquina Maria da Conceição Lapa, nossa Lapinha pioneira. E psicografando o mestre Rugendas, traçou a imagem daquela que dá nome ao nosso piano-bar, também pioneiro, na Lapa”.
O show de estreia vai promover um encontro entre a Zona Sul e a Zona Norte, personificadas nos cantores Leny Andrade e Nei Lopes. A ideia dos sócios é justamente abrir espaço para a chamada "canção". "Queremos mostrar grandes nomes da música nacional como o público nunca viu, num ambiente íntimo, despojado e aberto à criação”, resume Teresa Quaresma, a produtora do Lapinha.
A programação do piano-bar, que inclui shows solo de Leny e apresentações de Carlos Malta com o Pife Muderno, pode ser conferida aqui.
Este vídeo, que conheci por intermédio da amiga Tatiana Salem Levy, é um retrato da alegria e da graça desta cidade. Mesmo sob temporal.
Baixo Gávea Debaixo D'água from Mellin Videos on Vimeo.
Sobretudo quando se trata de música, nossas afinidades eletivas não se esgotam no senso estético, na mera avaliação crítica. A memória afetiva tem razões estranhas, desviadas, singulares (sempre). Assim, ao lamentar aqui a morte do grande Johnny Alf, não vou me deter no seu talento, na capacidade de inovar, na importância para a música brasileira – tópicos que serão, merecidamente, destacados em todos os epitáfios.
Minha homenagem se dá a partir de lembranças pessoais. Da primeira vez em que ouvi o nome de Alf: eu era bem garoto e meu pai, que sempre organizava serestas em nossa casa de Madureira, pediu que cantassem Eu e a brisa. Ele então se virou para mim e comentou: “Filho, essa música foi eliminada na primeira fase de um festival. Você acredita?”.
Foi curioso, porque isso me fez prestar uma atenção especial naquela canção. Parecia diferente das que costumavam fazer parte do repertório das festas do pai, destoava dos boleros, dos sucessos de Nelson Gonçalves e Altemar Dutra que em geral dominavam as reuniões musicais.
Já adulto, comprei o CD Cult Alf, e conheci um pouco melhor a obra do artista. Mas foi na casa de meu amigo Rodrigo Zaidan, maestro e pianista, que me aproximei definitivamente de Alf. Rodrigo era meu vizinho na Urca, e costumávamos promover pequenos saraus na casa dele, chamando músicos conhecidos nossos para beber, tocar e cantar. Ontem, ao saber da morte de Alf, deu uma baita saudade dessa época. Um tempo de risos largos, parcerias, de conversas na varanda defronte à vista-poesia dos barcos da Urca. Meu reencontro comigo mesmo, depois de uma temporada de vazios.
Às vezes, eu comprava uma caixa de cerveja, descia da Av. São Sebastião (onde morava) para a Av. João Luís Alves (onde fica a casa do Rodrigo) e passávamos horas e horas escutando discos, bebendo, papeando. Foi numa dessas ocasiões que ele me mostrou o CD Olhos negros. Era uma cópia velhinha, cujo encarte trazia marcas de liquid paper (soube, depois, que cobriam a dedicatória de uma ex-namorada do Rodrigo).
Olhos negros, uma seleta em que as canções de Alf ganharam interpretações de Gal Costa, Zizi Possi, Emilio Santiago, Leny Andrade, Caetano Veloso e muitos outros, virou imediatamente meu "disco de cabeceira". Eu e Rodrigo sempre voltávamos a ele, comentando as expressões inusuais que Alf usava nas letras ("me apraz essa ilusão à toa", "ah, o evento do amor"...), a sofisticação harmônica, a beleza noturna daquelas músicas. Como estava fora de catálogo, Rodrigo reproduziu o disco para mim, mas acabei dando essa cópia para alguém que não a merecia. Vida que segue.
No ano passado, reencontrei o CD, que voltou às lojas, e - claro - comprei-o. Ontem, retirei do armário e, desde a manhã de hoje, é Olhos negros que está tocando: em casa, no carro, no computador em que digito essas palavras, com as janelas do peito escancaradas. Um saudação àquelas noites na Urca; uma lágrima por Johnny Alf.
O depoimento de João Carlos Rodrigues
Logo que li a notícia do falecimento, enviei um email ao jornalista e escritor João Carlos Rodrigues. Fã de primeira hora, produtor de discos de Alf e agora seu biógrafo, João Carlos certamente está sentindo fundo a morte. Disse-lhe, na mensagem, que o espaço estava aberto aqui no Pentimento, caso quisesse homenagear o compositor. E ele nos deu, mais do que uma simples declaração, um lindo depoimento sobre o artista que acabamos de perder. Com a palavra, João Carlos Rodrigues:
“Ele foi grande. E um inovador, pai de uma das correntes principais da bossa nova, o samba jazz (a outra é o samba zen do João Gilberto). Cantava como ninguém e teve como influenciados gente importante como Leni Andrade, Simonal, Ellis, Emílio Santiago, quem sabe lá até Elza Soares. Pro meu gosto era melhor que todos eles. E como pessoa era uma jóia, educado, delicado, intelectualizado, nunca reclamou de nada, e olhe que não teve muita sorte na vida. Adorava o cinema de Antonioni, Tarkovsy mas também Gene Kelly e Vincente Minnelli.
Eu produzi dois discos dele ("Cult Alf" e "Eu e a bossa" e também dois vídeos) e posso falar. O primeiro eu tento relançar há dois anos e nenhuma gravadora quis, nem a Biscoito Fino, nem a Trama, sem falar nas majors. Estou também escrevendo a biografia dele para a coleção Aplauso, tarefa nada fácil, pois não guardou uma foto, um documento, nada, era inteiramente só.
A perda do amigo não vai me afastar dessa empreitada, vai ser a minha última homenagem. Se alguém puder ajudar com alguma informação ou foto ou documento do período da sua juventude (anos 50 até 70) seria de grande ajuda. Ou da misteriosa fase de Ribeirão Preto nos anos 70/80. Ele merece qualquer sacrifício. Séculos atrás eu conheci o João Gilberto em Nova York e, conversa vai, conversa vem, um dia perguntei sobre o Alf (para os íntimos era Alf, para os outros, era Johnny). O João deu aquela pausa, coçou a cabeça e depois falou: "Johnny era tudo". Não há como não concordar. Foi com ele que começou a renovação, lá em 1951, 52. Mais cedo ou mais tarde o Brasil vai ter seu reencontro com esse grande músico.
Ficou o projeto de um disco de estúdio, "Avatar", onde entre músicas inéditas, haveria gravação de "Tudo que aprendi do amor" da Fátima Guedes (nessa ele dava show) e da velha seresta "Noite cheia de estrelas", que ele cantava divinamente transformando o belcanto do Vicente Celestino numa suavidade só, e dissonante, e para terminar "Quando eu me chamar saudade" do Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, aquela que diz "sei que amanhã quando eu morrer os meus amigos vão dizer que eu tinha bom coração/ alguns até hão de chorar e querer me homenagear fazendo de ouro um violão/ mas depois que o tempo passar/ sei que ninguém, vai se lembrar que eu fui embora/ porisso é que eu canto assim/ se alguém quiser fazer por mim, que faça agora". Sic transit gloria mundi. Me desculpem que agora vou dar uma chorada. E a vida continua, um pouco mais pobre".
Flávio Carneiro, eu e Roberto Porto, na divertida mesa de abertura do ciclo Brasil, futebol e livros, no CCBB. No dia 16, tem mais: Mário Magalhães, autor de Viagem ao país do futebol, e Ivan Soter, de Quando a bola era redonda, serão os convidados.
Ao visitar o blog do Almir de Freitas, deparei-me com essa beleza de vídeo, feito pelo Abilio Vieira. As imagens são da ciclovia à beira do rio Tejo, que ganhou em seu piso os célebres versos de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa). E diante delas, ainda que na tela, já começo a sentir os ares de Portugal.
O Tejo from Abilio Vieira on Vimeo.
Hoje, às 18h30, será dado o pontapé inicial (com trocadilho) da série Brasil, futebol e livros, que será promovida pelo CCBB até o dia 8 de junho. Como explica o curador do evento, Edison Vianna, o objetivo é, através de debates quinzenais, "conhecer, redescobrir e celebrar grandes escritores brasileiros que informam, documentam, fantasiam, divertem e emocionam mostrando como as palavras da bola podem nos proporcionar prazer similar ao do espetáculo em campo".
A mesa de estreia reunirá o escritor Flávio Carneiro, autor de Passe de letra, e o jornalista Roberto Porto, que tem vasta bibliografia sobre o velho ludopédio, mais especificamente sobre o Botafogo, time de seu coração. Nesse primeiro encontro, que terei a honra de mediar, Flávio contará ao público como a beleza do futebol pôde ser associada aos acontecimentos cotidianos, inspirando uma série de crônicas em que o jogo se mistura à vida. Porto, por sua vez, falará sobre o alvinegro, clube que simbolizou a arte de uma época de ouro do futebol brasileiro.
Nas próximas semanas, o ciclo contará com as participações de Ivan Soter, Mario Magalhães, Teixeira Heizer, Cláudio Nogueira, Marcos Eduardo Neves, Ruy Castro, Roberto Assaf, Clóvis Martins, Roberto Sander, Antonio Carlos Napoleão, Ronaldo Helal, Rubim Aquino, Paulo Guilherme e André Iki Siqueira. Vale lembrar que a entrada é franca, com senhas distribuídas uma hora antes dos debates.
A querida Adriana Lisboa me enviou ontem o link para um vídeo no qual a escritora nigeriana Chimamanda Adichie (foto) dá um magnífico depoimento. A fala Chimamanda é um verdadeiro tratado sobre literatura e estereótipos, e sobre como é perigoso repetir sempre uma mesma história, a ponto de acabar acreditando nela. Vale muito a pena assistir. Aqui.
A coluna Cariocas (quase sempre), que Carlos Leonam e Ana Maria Badaró mantêm na revista Carta Capital, publicou na edição desta semana um texto bacana sobre o livro Canções do Rio. Segue a íntegra.
"A bela cantada"
Carlos Leonam e Ana Maria Badaró
"O Rio é uma das cidades mais cantadas do planeta. Talvez, perca somente para Paris. O misticismo da capital francesa também fez sucumbir compositores brasileiros, mas não sem clara ironia: – "Paris, Paris je t’aime/, mas eu gosto mais do Leme". A rima impagável é do carioca Alberto Ribeiro e do mineiro Alcir Pires Vermelho.
Essa é uma das curiosidades de Canções do Rio (Casa da Palavra, 134 págs., R$ 37), livro coordenado pelo jornalista e escritor Marcelo Moutinho. A obra oferece cinco verdadeiras aulas de geo-política musical carioca. A leitura é tão prazerosa como ligar uma vitrola e, com um vinil caindo sobre o outro, deixar tocar o que há de melhor. Em hi-fi.
A história da moderna música brasileira começa no início do século XX. Até então, fazia-se música no Rio, mas não sobre o Rio, seus bairros, morros, favelas, praias e sua gente. Como inspiradora, a cidade encontra registros nos primórdios dos anos 1900, seguida da chamada "era de ouro", das marchinhas, samba, bossa nova, pop, funk e rap.
Herivelto Martins, Benedito Lacerda, João de Barro, Paulo da Portela, Tom Jobim, Moacyr Luz, Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque, Tim Maia, Claudinho e Buchecha e Marcelo D2 são, em diferentes tempos e gêneros, alguns dos trovadores das belezas e mazelas da cidade. Ordenados cronologicamente, os ensaios são de João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Suckman e Silvio Essinger.
Ao fim da leitura de cada módulo é difícil desligar a vitrola na nossa cabeça. E passamos o dia, senão vários dias, sob o domínio de canções que viraram instituições nacionais e internacionais. E descobre-se que André Filho tomou emprestado do poeta maranhense Coelho Neto a expressão "cidade maravilhosa" para compor aquela que de tanto ser a cara do Rio foi eleita seu hino oficial.
Mas, dentre tantas, que música tem a cara do Rio? Por mais referências à cidade nas obras que entraram para a história da MPB cada um pode fazer a sua listinha interminável. Como os perfumes e os sabores, a música reconstrói lugares, devolve momentos e ressuscita pessoas, principalmente se morreram – de uma forma ou de outra. Tem gente que adora dizer "fulano morreu para mim." Pois sim. Está vivinho só que não dá a menor bola para quem anuncia o defunto.
Esses solavancos n’alma causados pela música ocorrem quase sempre à revelia. A pessoa não tem querer. Já entrou num táxi e escutou no rádio uma música que deposita o passado no presente, ali na sua frente? E sobre o asfalto quente da cidade em pleno meio-dia de um verão à 2010 começa uma dança perturbadora. Putz! Desliga isso, motorista. Ou aumenta isso, meu caro, e silêncio, por favor.
Um beijo bom de sol
O tema é a música e a cidade. Pois nenhum grupo cantou tanto o Rio como Os Cariocas chamando pelo nome a musa ou lhe rendendo honras com notas de sol e de mar. Criado em 1946, o grupo, sempre aberto às tendências musicais, foi um dos principais intérpretes da bossa nova e nos anos 60 era certeza de sucesso, gravando Tom, Baden, Carlos Lyra, Menescal e os irmãos Valle, entre outros tops da MPB.
Os Cariocas, liderados pelo talento de Severino Filho, remanescente da formação original, voltam com um novo álbum neste fevereiro mais que solar. Nossa Alma Canta, clara alusão a Samba do Avião, de Tom Jobim, traz 15 faixas clássicas, jamais gravadas pelo hoje quarteto completado por Hernane Castro, Neil Teixeira e Elói Vicente. Destaque para E nada Mais, do saudoso Durval Ferreira e Lula Freire, e Estrada do Sol, de Tom e Dolores Duran. Neste CD, Os Cariocas ainda sacramentaram as visitas de João Donato, Milton Nascimento, Eumir Deodato e Roberto Menescal. "