
Uma grande cantora não se faz só com uma bela e afinada voz. Tampouco ela será grande apenas em razão do repertório bem escolhido, que abdica da repetição para apostar no inédito. Esses são pressupostos, claro. Mas, para ser uma grande cantora, é necessário mais. É preciso que, além dos dois ingredientes já citados, ela tenha uma relação atávica, profunda, com suas paixões. Que seja fiel às coisas que movem seu canto para além da mera entonação.
Pois hoje, às 21h, no Centro Cultural Carioca (CCC), teremos a oportunidade de ver, em plena ação, uma grande cantora. Refiro-me a Luiza Dionizio, a quem conheci faz alguns anos, no palco do Carioca da Gema. No primeiro encontro, impressionou-me a força daquela voz que tirava do limbo sambas de compositores como Nelson Rufino. À medida que nos aproximamos, a admiração cresceu. Percebi como Luiza se distingue de tantas outras artistas, seja pela simplicidade e gentileza que não se confundem com o imenso talento, seja pela visceralidade que dispensa à própria vida, e que escorre de seu canto. Quem já a viu interpretar a linda Prece a Xangô (Nelson Rufino / Zé Luis), por exemplo, entende o que digo.
Hoje, Luiza vai apresentar as canções de seu primeiro (e ótimo) disco: Devoção. Pérolas como Vila da Penha, belíssimo tributo ao bairro natal da cantora, escrito por Luiz Carlos Máximo e pelo saudoso Luiz Carlos da Vila. Um samba que, como bem destacou Hugo Sukman na apresentação do CD, “nasce clássico”. Máximo aparece também no samba-choro Velho amigo, parceria com Paulo César Pinheiro que homenageia Aldir Blanc.
Estão no disco (e no show) ainda Wanderley Monteiro, Toninho Geraes, Roque Ferreira, João de Aquino, Martinho da Vila e Délcio Carvalho (num samba exaltação ao Império). Como se vê, a cantora se cercou de compositores de alta voltagem poética, num repertório que une o passado ao presente e junta todas as vertentes que compõem o “mundo” de Luiza. Pegando emprestadas as palavras de Hugo Sukman, “os quintais da Vila da Penha, os pagodes do subúrbio, a quadra de seu [nosso] Império Serrano, as tardes de samba do Clube Renascença, a noite da Lapa”.
Sem mais, a convocação está feita: todos ao CCC!
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