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Renato Russo: homenageado em coletânea de contos
. Está confirmado: será no dia 27 de março - data em que Renato Russo completaria 50 anos de idade -, no Cinematheke, o lançamento de Como se não houvesse amanhã. Organizado pelo amigo Henrique Rodrigues e publicado pela Editora Record, o livro reúne 20 contos inspirados nas canções da Legião Urbana. Sou um dos autores. Escrevi sobre Vento no litoral;
. Na próxima terça-feira, terá início no CCBB o ciclo Brasil, futebol e livros. A série, produzida pelo radialista Edison Vianna, acontecerá quinzenalmente, sempre às terças-feiras, no horário de 18h30, e irá até o mês de junho. Vou mediar algumas das mesas, inclusive a da estreia, que reunirá o escritor Flávio Carneiro, autor de Passe de letra, e o jornalista Roberto Porto (de Botafogo: 101 anos de histórias, mitos e superstições e Botafogo: o Glorioso), num painel de tom alvinegro;
. Entre as leituras recentes, uma decepção e bela surpresa. Até mais, vejo você amanhã, do ex-editor da New Yorker William Maxwell, parecia promissor, mas é arrastado toda vida. Já Um homem chamado Maria, perfil de Antonio Maria escrito pelo Joaquim Ferreira dos Santos, me encantou. Grande personagem, delícia de livro;
. Por falar em literatura, em abril vou para Lisboa me isolar um pouco e tentar terminar meu novo livro. Que, apesar das saudades da Flá e da Mafalda, os ares da Terrinha sejam inspiradores...
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João Donato: atração do primeiro show do ciclo no CCBB
Começa hoje, no CCBB, o ciclo Almanaque do Samba-Jazz. Produzida pelo amigo Edison Vianna, a série será composta de seis shows que promoverão encontros entre os protagonistas desse subgênero do samba e artistas que o renovam nos anos 2000. Os espetáculos acontecerão sempre dois horários - às 12h30 e às 19h - com ingressos a preços populares (R$ 6).
Edison afirma que, com a série, "espera tenta compensar - ao menos em parte - o esquecimento do samba-jazz na memória da música brasileira e a atual indisponibilidade dos fonogramas gravados por estes músicos na década de 1960, a maioria fora de catálogo, o que torna difícil o acesso e acaba dando a falsa impressão que este som é elitista”. Ele acrescenta que o ciclo se chama "Almanaque" porque observa o passado mas, diferentemente de uma peça de museu ou uma página de enciclopédia, "apresenta a arte de um modo informal, leve e tão divertido como é ouvir esta música"."Quero mostrar que o som do samba-jazz é vivo e atual, e que seu lugar é o presente”, resume.
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Raul de Souza se apresentará na segunda semana da série
O convidado da estreia, hoje, é João Donato, que será recebido pelos Copa 5 – conjunto que acompanhava o saxofonista J. T. Meirelles, um dos pioneiros do gênero, falecido em 2008 e homenageado neste primeiro encontro. Na segunda semana, o quinteto de Hamleto Stamato receberá o trombonista Raul de Souza. Henrique Band apresentará o terceiro show com seu hepteto e a participação especial de Antonio Adolfo. Na quarta semana, Paulo Moura subirá ao palco acompanhado do trio liderado pelo jovem pianista David Feldman.
O penúltimo encontro reunirá o gaitista Mauricio Einhorn e o Sambajazz Trio, formado por Kiko Continentino ao piano, Luiz Alves ao contrabaixo e Clauton “Neguinho” Sales em combinação de trompete e bateria. E o espetáculo de encerramento será conduzido pela Almanaque Samba-Jazz Band, criada especialmente para o projeto, tendo o saxofonista argentino Hector Costita como convidado especial do quarteto formado pelo pianista Rafael Vernet, o contrabaixista Guto Wirtti, o baterista Rafael Barata e Eduardo Neves nos sopros.
A seção Logo, do jornal O Globo, publicou ontem artigo meu sobre o elogiado "modelo Paulo Barros" (na mesma página, o amigo João Pimentel discordava de alguns pontos) Segue a íntegra do meu texto:
Carnaval from Broadway, bicho!
Marcelo Moutinho*
Peço licença para devagar, devagarinho, destoar do coro dos contentes. Não vou entrar em matéria de mérito – até porque faz muito tempo não existe relação direta entre merecimento e resultado quando se trata de julgamento de carnaval. Quero apenas levantar a questão: o que havia, no desfile vitorioso em 2010, da tradicional escola de samba surgida em 1931 no Morro do Borel? Pouco, quase nada. Havia, sim, teatro. Pirotecnia. Efeitos especiais. Sub-Broadway.
Nada contra a Unidos da Tijuca, digna de todo o respeito, pela trajetória e pela representatividade no carnaval do Rio de Janeiro. Mas quando cada componente - de carro e de chão - passa a ter uma "função" rigorosa dentro do desfile, deixa de ser folião. E então nos distanciamos do conceito de escola de samba historicamente construído, que dá lugar a um “espetáculo" no qual, assim como numa ópera, ou numa peça, os atores desempenham papel rígido. Pode ser genial, mas está longe de caracterizar a essência da festa de Momo.
O uso de teatralização no desfile, que não repudio em si, é expediente utilizado pelas escolas há muitas décadas. Mas os excessos trazidos pelo modelo Paulo Barros transformam em central o que era - e deveria continuar sendo - periférico. E levam ao paroxismo um caminho que infelizmente parece inevitável: a mudança no eixo medular dos grêmios recreativos.
Sim, porque, na concepção consagrada pela História, as escolas de samba trabalhavam durante todo o ano para mostrar, na Avenida, um pouco do saber nascido e cultivado entre os seus. Para reafirmar, no desfile, as suas singularidades - ainda que se apropriando de influências externas, e sintetizando-as. Esse diálogo entre os núcleos das agremiações e a cultura “de fora” se revelou extremamente rico até que as escolas começassem progressivamente a cair de joelhos diante do poder do carnavalesco. A se tornar reféns de um olhar de fora, em geral acadêmico, sempre dominante. Em resumo, o vínculo se desequilibrou.
Como a Unidos da Tijuca deixou patente, uma escola comandada por Paulo Barros mostra a arte de Paulo Barros. Hoje a Tijuca, amanhã uma outra, sempre a arte de Paulo Barros. Os gritos da torcida durante a apuração foram emblemáticos: aludiam ao carnavalesco, não à escola campeã. Não lhe nego talento, a imensa criatividade. Mas seu modelo simboliza com limpidez a perigosa prevalência do teatral sobre o momesco, do visual sobre os demais quesitos. Não à-toa, os últimos sambas-enredo que efetivamente colaram na memória popular datam do início dos anos 1990.
Na verdade, a desproporcionalidade de critérios entre as notas dos itens, digamos, “sambísticos” (bateria, samba-enredo, harmonia, evolução) e as dos quesitos plásticos, como fantasia e alegorias, vem suscitando uma mudança na forma de se olhar o desfile. Como observou o jornalista Sidney Rezende, “o carnaval virou uma pasta geral e não uma festa de detalhes. Quem está na arquibancada valoriza o carro alegórico, as musas e o casal de mestre-sala e porta-bandeira, pois são as poucas possibilidades para o olhar mais distante. Fisicamente dizendo. O resto é plano geral”.
Esse processo se agrava com a débil transmissão pela TV, que repisa o favorecimento ao visual, privilegia as celebridades em detrimento das personagens das próprias escolas e é incapaz de contextualizar o desfile na perspectiva da ‘biografia’ de cada agremiação. Grandes referências, como Vilma, da Portela, ou Seu Molequinho, do Império Serrano, e mesmo talentos mais recentes, como Mestre Marcone, da Imperatriz Leopoldinense, se vêem diluídos num mar de gente, do qual as câmeras pescam apenas as modelos que vestem a camisa da escola uma vez ao ano e falam de sua "emoção", as rainhas de bateria que compram seus postos, ou os carros alegóricos, cada vez maiores.
Um dos motes dos defensores do novo modelo é a crítica a uma suposta repetição. Talvez por isso o aparecimento de personagens como Batman, Homem-Aranha, Michael Jackson - embora a rigor às vezes nem aludam ao enredo - tenha tanto apelo. Aliás, a roupagem pop de Paulo Barros é puro bálsamo para os pós-modernos sempre ávidos pelo novo, e o novo, e o novo.
Essa ânsia reiterada exulta o descompasso no "mais do mesmo" que os desfiles teriam se tornado, como se fosse necessário apagar todas as marcas de origem que as diferentes escolas consolidaram. No entanto, ao negar a ponte com a tradição, rompe com o que há de mais belo e genuíno no carnaval. A emoção de ouvir o surdo sem resposta da Mangueira ou a cadência da bateria da Beija-Flor, de ver a coroa do Império, a águia da Portela, o vermelho e branco do Salgueiro, de reencontrar o colorido da União da Ilha.
Na década de 70, Candeia já alertava para o fenômeno da descaracterização das escolas de samba. Quando li pela primeira vez suas teses, julguei-as demasiadamente radicais, apocalípticas até. Hoje, percebo que o baluarte portelense foi profético. Ao abrir mão da personalidade que as distingue em prol da onda do momento, ao transformar o componente em mero repetidor de passos ensaiados, ao ceder à ditadura estética, as escolas perigam virar entidades ocas, exuberância sem conteúdo. E a natureza ensina: árvore que não rega as raízes acaba morrendo.
* Escritor e jornalista
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Eu, cansado e ainda feliz, ao fim do desfile
Vou me abster de fazer maiores comentários sobre o resultado do carnaval porque me falta ânimo. Quem costuma ler o Pentimento já sabe o quão pernicioso julgo ser o absoluto domínio dos carnavalescos sobre as escolas de samba, traço que o modelo Paulo Barros leva ao paroxismo. Neste ano, para não variar, tivemos também um grande escândalo: a vitória acachapante da São Clemente no Grupo de Acesso, com um enredo esquizofrênico sobre o choque de ordem (!) e notas 10 em todos os quesitos - as demais posições do Acesso, como o vice-campeonato para a Inocentes de Belford Roxo - também prefiro não comentar.
(Sabíamos que seria preciso um desfile memorável para que o Império Serrano pudesse almejar o título. Passamos bem, com um enredo claro e o único samba não reeditado efetivamente cantado pelas arquibancadas. Mas não fomos o arrasa-quarteirão que poderia garantir alguma chance de vitória. Agora, sexto lugar?)
Dito isso, é preciso reconhecer o fato - evidente, límpido, resplandecente até - de que hoje, no atual estado das coisas (aí falo em estética, mas igualmente em política), o Império Serrano é uma escola marginal. Na Liesa, da qual é fundadora, pelos protestos que fez em 2009 contra o injusto rabaixamento e, claro, por não ter um mafioso no comando. Na Lesga, arremedo da Liga principal, por não fazer parte do novo clubinho bandido.
Em resumo, não há perspectiva a curto prazo. E eu, sincera e lamentavelmente, cansei. Não há revolta, como em 2009, só tristeza, apatia, desesperança. Do carnaval deste ano, quero lembrar apenas - e para sempre - o momento em que o som da Sapucaí falhou, e todos os componentes do Império levaram no gogó, por cerca de um minuto, o samba da escola. Coesos. Afinados. Sem atravessar. É uma bela imagem para gravar na memória antes de guardar de vez a fantasia.
A faixa acima, estendida na quadra no último sábado, fala por si.
Que São Jorge, nosso padroeiro, nos proteja no sábado.
Bom carnaval a todos.
1. O clima "já ganhou" em torno da Vila Isabel está superando os limites da decência. Nos jornais, a coisa chega a ser constrangedora, com notinhas de exaltação a cada dia, mesmo quando não há fato ou motivo que as sustentem. O mais impressionante é que a maioria dos críticos da "mídia", aqueles que (quase sempre com razão) fazem reparos a essas ondas artificialmente criadas, vêm agindo da mesma forma, botando mais água na marola e forçando previamente o título de uma escola que ainda não desfilou.
2. Corre entre quem conhece os batidores do carnaval que o título do Grupo de Acesso já está dedicido. A Acadêmicos do Cubango, hoje mui querida dos capos da Liesa, será a vencedora. A conferir.
P.S: Não havia nenhum jornalista no maravilhoso show que a Luiza Dionizio fez ontem no Centro Cultural Carioca, lançando seu primeiro CD. Deviam estar todos ouvindo o disco da Maria Gadu.
Uma grande cantora não se faz só com uma bela e afinada voz. Tampouco ela será grande apenas em razão do repertório bem escolhido, que abdica da repetição para apostar no inédito. Esses são pressupostos, claro. Mas, para ser uma grande cantora, é necessário mais. É preciso que, além dos dois ingredientes já citados, ela tenha uma relação atávica, profunda, com suas paixões. Que seja fiel às coisas que movem seu canto para além da mera entonação.
Pois hoje, às 21h, no Centro Cultural Carioca (CCC), teremos a oportunidade de ver, em plena ação, uma grande cantora. Refiro-me a Luiza Dionizio, a quem conheci faz alguns anos, no palco do Carioca da Gema. No primeiro encontro, impressionou-me a força daquela voz que tirava do limbo sambas de compositores como Nelson Rufino. À medida que nos aproximamos, a admiração cresceu. Percebi como Luiza se distingue de tantas outras artistas, seja pela simplicidade e gentileza que não se confundem com o imenso talento, seja pela visceralidade que dispensa à própria vida, e que escorre de seu canto. Quem já a viu interpretar a linda Prece a Xangô (Nelson Rufino / Zé Luis), por exemplo, entende o que digo.
Hoje, Luiza vai apresentar as canções de seu primeiro (e ótimo) disco: Devoção. Pérolas como Vila da Penha, belíssimo tributo ao bairro natal da cantora, escrito por Luiz Carlos Máximo e pelo saudoso Luiz Carlos da Vila. Um samba que, como bem destacou Hugo Sukman na apresentação do CD, “nasce clássico”. Máximo aparece também no samba-choro Velho amigo, parceria com Paulo César Pinheiro que homenageia Aldir Blanc.
Estão no disco (e no show) ainda Wanderley Monteiro, Toninho Geraes, Roque Ferreira, João de Aquino, Martinho da Vila e Délcio Carvalho (num samba exaltação ao Império). Como se vê, a cantora se cercou de compositores de alta voltagem poética, num repertório que une o passado ao presente e junta todas as vertentes que compõem o “mundo” de Luiza. Pegando emprestadas as palavras de Hugo Sukman, “os quintais da Vila da Penha, os pagodes do subúrbio, a quadra de seu [nosso] Império Serrano, as tardes de samba do Clube Renascença, a noite da Lapa”.
Sem mais, a convocação está feita: todos ao CCC!
Na próxima quarta, o amigo Eduardo Carvalho vai lançar seu primeiro livro. Samba, boemia e vagabundos, que sai pela editora Multifoco, reúne textos que ele publicou nos últimos anos em seu blog - referência para quem gosta de samba e das coisas do Rio. Como afirma Fernando Molica na orelha, "Eduardo Carvalho nos revela detalhes desta paixão, esmiúça o tanto que existe em torno de uma roda de samba: o talento dos músicos e compositores, o respeito pelos que vieram antes, o carinho pelos amigos – eles, com quem dividimos sonhos, tristezas e esperanças. Afinal, como ele mesmo diz, o samba “conforta, ensina, marca, amolece a dureza de tudo”. Samba que nos salva “das pequenezas do nosso dia-a-dia sem arte”.
César Tartaglia acrescenta, no prefácio, que Eduardo Carvalho "é daqueles sujeitos que vivem passando o Rio a limpo". "É obsessivo – no que esta palavra encerra de positivo para descrever a atitude daquelas pessoas que vão até o fim naquilo em que acreditam – na vontade de depurar a cidade de seus males", observa Tartaglia. O lançamento acontecerá na própria sede da Multifoco (Rua Mem de Sá, 126 - Lapa) ,a partir das 19h. E, para que vocês possam sentir um gostinho do que o livro traz, publico a seguir trechos de uma das crônicas.
"Adeus, meu Samba Clube"
Eduardo Carvalho
"Voltemos rapidinho no tempo. Em maio de 1979, João Nogueira fundou, no Méier do seu coração, o Clube do Samba. Como não conseguiu outro lugar, o grande João (“Nascido no subúrbio nos melhores dias / Com votos da família de vida feliz”) instalou o clube em casa mesmo, no número 50 da Rua José Veríssimo. E começava mais um belo capítulo do samba, ligando-o a quintal, bebida, comida, reunião de gente bamba, festa.
Entre os sempre presentes, além dos muitos anônimos que batiam ponto naqueles sábados, estavam sambistas como Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, Clara Nunes, Nei Lopes, Aniceto do Império e vários outros. Daí o Clube do Samba virou bloco (que existe até hoje), viu a sede mudar algumas vezes de lugar e acabou indo pra Barra da Tijuca, onde durou até 88.
Isso é pra dizer que eu, que não nasci no subúrbio (nem nos melhores dias), também tive o meu Clube do Samba. E que esta semana me despedi dele, o Renascença – ninguém sabe, mas ele é meu –, dando fim a um período bonito e importante da minha vida pessoal, no que ela tem de ligação visceral com o samba. Pela última vez, fui ao Samba do Trabalhador (...)"
A edição de fevereiro da revista Bravo! traz artigo (em tom de crônica) que escrevi tendo como gancho o livro do Simas e do Mussa. O texto amalgama as reminiscências de minha infância em Madureira, quando travei os primeiros contatos com sambas-enredo, e as teses do estudo da dupla. Confira aqui.
O suplemento Ideias (Jornal do Brasil) de sábado passado trouxe em sua capa minha resenha sobre Samba de enredo: história e arte, de Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas. Segue a íntegra do texto:
Gênero épico e brasileiro
Livro de Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas ilumina o nascimento do samba de enredo
Marcelo Moutinho*
Durante muito tempo, carnaval no Rio foi sinônimo de samba de enredo. Os mais jovens podem estranhar, mas antes da monocórdica onda do axé music e de as marchinhas ressurgirem com força na esteira dos blocos, os hinos das escolas tocavam massivamente nas rádios, animavam foliões, serviam de trilha-sonora para paixões tão coloridas e fugazes quanto uma serpentina no ar. E batiam recordes: entre os anos 70 e 80, o disco com os sambas costumava superar de 1 milhão de cópias vendidas.
Foi nessa época que o escritor Alberto Mussa e o historiador Luiz Antonio Simas começaram a se interessar mais fortemente pelo tema. Desde então, eles acompanharam disputas nas quadras, assistiram a muitos desfiles e, sobretudo, ouviram sambas. Foram, ao todo, 1.324 hinos, que serviram de base para o recém-lançado Samba de enredo – história e arte.
O livro supre uma lacuna da bibliografia sobre carnaval ao jogar luz na formação e nas modificações estéticas de um modelo que evolui a partir dos chamados sambas de terreiro (ou “de quadra”) e pouco a pouco define sua singularidade. “O samba de enredo é o único gênero épico genuinamente brasileiro - que nasceu e se desenvolveu espontaneamente, sem ter sofrido a mínima influência de qualquer outra modalidade épica, literária ou musical”, observam os autores.
Para definir o gênero, Mussa e Simas baseiam-se em dois critérios. O intrínseco, segundo o qual o samba de enredo é “o poema musicado que alude, discorre ou ilustra o tema alegórico eleito pela escola”. E o extrínseco, que se refere à sua estrutura métrica e melódica. É aí que se estabelece a primeira das polêmicas teses do livro.
Destoando da maioria dos pesquisadores, os autores contestam que “O mundo do samba” (Unidos da Tijuca, 1933) e “Teste ao samba” (Portela, 1939) sejam as composições inaugurais do gênero. Isso porque, embora se enquadrem no critério intrínseco – ou seja, versem sobre o enredo -, têm estrutura musical similar à dos sambas de quadra.
“Antes de o formato se consolidar, houve oscilações. O samba de enredo passou por um processo de formação, para se diferenciar dos sambas de terreiro”, afirmam Mussa e Simas, que classificam “61 anos de República” (Império Serrano, 1951), de Silas de Oliveira, como o marco de uma tipicidade formal: “A partir dele, passa a ser impossível confundir um samba de enredo com qualquer outro gênero de samba”.
“61 anos de República” é um clássico samba-lençol: a letra de Silas “cobre” toda a história a ser narrada no desfile. Esse tipo de hino, dominante durante longo período, viria a ceder espaço a composições mais curtas nos anos 70, quando se inicia o processo de aceleração. Os enredos, então, se diversificam, deixando de privilegiar temas nacionais. Aparecem com mais evidência homenagens a artistas e personagens da literatura, além de assuntos como a política.
Sim, porque a “época de ouro” do samba de enredo se deu quase toda sob o jugo da ditadura, como destacam os autores. E o livro recorda a política de boa vizinhança adotada por algumas escolas, que chegaria ao puxa-saquismo explícito com a Beija Flor e seus enredos laudatórios ao governo. Por outro lado, houve também enfrentamento. Em 1969, carnaval seguinte à decretação do AI-5, o Império desfilou com o provocativo “Heróis da Liberdade” sob vôos rasantes de um avião da Força Aérea.
Curiosamente, embora mais tarde tenham se tornado comuns, as referências à cultura afro-brasileira só figuram a partir da década de 50. Mussa e Simas revelam que o Salgueiro foi precursor ao abordar o assunto e localizam a primeira alusão explícita a um orixá: em 1966, quando Iemanjá foi mencionada no samba da São Clemente.
Um dos méritos dos autores, aliás, é não se limitar aos hinos das “grandes” agremiações. Hinos de escolas como Arrastão, Unidos de Bangu e Canários de Laranjeiras dividem as páginas com sambas de Portela, Mangueira, Império. O que reforça a relevância do estudo como documento histórico - cujo único senão é a falta de um anexo identificando os compositores dos hinos citados, ao menos quando há tal possibilidade.
Na verdade, a questão da autoria é relativizada. “No mundo do samba, o conceito de autoria nunca correspondeu precisamente ao de composição. Há casos em que os parceiros são incorporados ao samba por questões de disputa, por serem membros influentes na comunidade da escola, porque podem financiar”, salientam os autores. Essa perspectiva não impede que dediquem um dos capítulos à biografia de compositores como Mano Décio da Viola, Didi, Djalma Sabiá, Martinho da Vila, Geraldo Babão, Hélio Turco e Dona Ivone Lara.
Mussa e Simas também não se furtam a responder por que os sambas de enredo deixaram de ostentar a popularidade de outrora. Situando no fim dos anos 80 o início do que chamam de “Encruzilhada”, a dupla lista razões para a debilidade das safras recentes: a perda relativa do peso do quesito no julgamento, o tecnicismo paternalista dos jurados e, sobretudo, a rígida padronização estilística, que obedece tão-só à funcionalidade. Embora haja exceções, como os hinos da Imperatriz Leopoldinense, em 1996, ou do Império da Tijuca, em 2006, “por mais belos que sejam, esses sambas não permanecem na memória popular”, lamentam os autores, defendendo a redução do andamento em prol da melodia. “Parece já haver algum movimento neste sentido”, eles ressaltam, na esperança de que os hinos deixem de ficar a reboque do aparato visual e as agremiações possam, assim, vir novamente a justificar seu nome: escola de samba.
* Escritor e jornalista
Na comovente altivez de Tia Maria do Jongo, um resumo que foi a festa de ontem no Rival. As imagens, feitas pela Flá, falam por si. Vejam aqui.
No show que o Império Serrano realiza hoje no Teatro Rival, serão distribuídos os calendários acima, que trazem a imagem de João do Rio ao lado de uma das frases mais marcantes do livro A alma encantadora das ruas. O calendário foi idealizado pelo Departamento de Comunicação do Império e desenhado pela Tangerina Design.
Vale lembrar que o show está marcado para 19h30 e contará com as participações especialíssimas de Zé Renato, Moacyr Luz, Carlos Malta, Fabiana Cozza, Zé Luís do Império, Luiza Dionizio e Alex Ribeiro, além do Jongo da Serrinha, da Velha Guarda Show do Império Serrano, da bateria Sinfônia do Samba com sua rainha Quitéria Chegas, dos intérpretes oficiais, do casal de mestre-sala e porta-bandeira e da Ala de Passistas.
Vamos nessa?
Amanhã é dia de samba em dose dupla. Antes do show do Império Serrano do Rival, vai rolar o lançamento do livro Samba de enredo - história e arte, dos queridos Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas. O evento aconterecá às 18h, no Sebo/Café Al Farabi (Rua do Rosário, 30/32) - portanto, o negócio é tomar a primeira cerveja na Rua do Rosário, e depois seguir para o Rival.
Falarei mais sobre a obra da dupla Mussa e Simas - desde já referencial - na resenha que ocupará a capa do caderno Ideias (Jornal do Brasil) no próximo sábado e em artigo com tom de crônica na revista Bravo! deste mês.
No sábado passado, o jornal O Estado de S. Paulo publicou matéria sobre o Canções do Rio. Segue a íntegra do texto:
"Um retrato cantado e fiel do Rio"
Autores escrevem sobre gêneros que entoaram a cidade em distintas épocas
Lucas Nobile
"Imagine você que um sujeito tem a ideia de contar a história de uma cidade por meio de letras de músicas e, para isso, decide convocar craques para fazê-lo. Foi o que Marcelo Moutinho fez ao convidar verdadeiros "camisas 10" a escreverem sobre o Rio de Janeiro. Para organizar Canções do Rio - A Cidade em Letra e Música (Ed. Casa da Palavra, 136 págs., R$ 37), o jornalista pediu que João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger lhe enviassem textos inéditos sobre gêneros que cantaram a ex-capital federal.
Confiando que as músicas que há tempos falaram em seus versos sobre o Rio de Janeiro têm o poder de traçar um retrato histórico fiel da cidade, Moutinho sempre demonstrou preocupação de que seu livro transmitisse isso ao leitor de uma forma muito mais leve do que acadêmica. Objetivo integralmente alcançado. Com um time desse de escritores, a leitura flui de nem ver o tempo passar. "Essa é a diferença da ciência, que cabe ao historiador, para a arte, representada pela música. É o mesmo poder da literatura de construir e refletir a imagem de um local. Até o nome Cidade Maravilhosa surgiu de uma música. Os textos de João do Rio e Lima Barreto eram verdadeiras crônicas da cidade. Não é à toa que Noel Rosa e João do Rio serão homenageados neste ano pela Vila Isabel e pelo Império Serrano", diz Moutinho.
Ao longo do ano passado, cada autor cuidou do estilo musical com o qual tem maior envolvimento. Sendo assim, o livro tem sua abertura transformada em um verdadeiro mergulho histórico, encampado pelo conhecimento do jornalista João Máximo sobre os primórdios da música popular no País seguindo até a Era de Ouro. Assim como se faz em todo o livro, o capítulo inicial serve para apresentar verdades históricas e desbancar uma infinidade de mitos. Em seu texto, o jornalista lembra que, antes de ser cantado, o Rio de Janeiro era homenageado por músicas tocadas sem versos. "A maioria não tinha verso, como o choro Na Glória. Com a letra, o retrato da cidade acabou ficando mais objetivo", conta Marcelo Moutinho. João Máximo cita uma infinidade de canções de compositores declaratórias ao Rio, como Noel Rosa que, ao contrário do que se pensa, cantou muito mais a Penha do que a sua Vila Isabel. Também sobram exemplos saborosos de Geraldo Pereira, Moreira da Silva e Herivelto Martins, abusando do cenário da Praça Onze, e Wilson Batista e Benedito Lacerda, entoando a Lapa.
O mesmo voo panorâmico sobre canções que falaram do Rio se dá com outros gêneros e seus respectivos especialistas. Contando com belíssimo trabalho de produção, com fotos históricas e montagens de capas de discos ilustradas com os nomes dos autores como se eles fossem os artistas, Sérgio Cabral analisa as marchinhas cariocas desde os tempos de Chiquinha Gonzaga com sua Ó Abre Alas, do cordão Rosas de Ouro.
Da mesma maneira, o samba é destrinchado pelo compositor e pesquisador Nei Lopes. A bossa nova é interpretada por Ruy Castro, desvendando pela enésima vez mitos acerca do gênero, como a tremenda balela de que ela teria sido criada por jovens no apartamento de Nara Leão. Um texto com tom de ironia, com trechos como: "Talvez por isso as pessoas vivam querendo saber: "Mas afinal, quando começou a bossa nova?" Ninguém pergunta isso sobre o maxixe, o xaxado ou o chachachá. Da bossa nova, no entanto, exige-se o dia e a hora exatos do seu nascimento, com certidão passada em cartório." A canção moderna é estudada por Hugo Sukman, com direito a uma ponte entre os sentidos da palavra "arrastão": da composição antológica de Vinicius de Moraes e Edu Lobo aos saques nas praias. E, por fim, rock, rap e funk ganham texto de Silvio Essinger, com letras de Fausto Fawcett, Marcelo D2 e MV Bill.
"Não há dúvidas de que o Rio foi a cidade mais cantada do País. Fazer um livro deste sobre São Paulo seria tão rico quanto, mas seria diferente", diz Moutinho."