
Não são poucas as vezes em que, debatendo questões do carnaval, noto que os olhares lançados em minha direção guardam um misto de dó e condescendência. Cada palavra contra a promíscua relação entre o Poder Público e os criminosos da Liesa, cada argumento contra a súbita amizade entre ex-militantes de esquerda e ex-torturadores que se gabam de usar até hoje o codinome consagrado nos porões, cada crítica à passividade dos meios de comunicação quanto ao sangue que escorre das Superalegorias S.A (sangue de homicídios por disputa de pontos de bicho e de videopôquer) são encarados como brados quixotescos e inocentes.
"É assim o jogo", é o que, no fundo, querem dizer. E, a partir daí, com a permissividade tendo vencido a virtude (ou ao menos a busca pela virtude), instala-se o vale tudo. O vale tudo em que vivemos, uma falsa malandragem na qual a maioria que dança conforme a música concede sua pena aos pobrezinhos que insistem em dar muro em ponta de faca.
Eu sempre achei que podia, ou ao menos deveria tentar, mudar o que me parece errado. As porradas da vida - na política, no esporte, no amor - já balançaram essa premissa, e não foram poucas vezes. Mas nunca - nunca - a derrubaram por completo. E talvez seja por isso que fico espantado - sim, ainda me espanto - ao testemunhar o elogio que ignora o óbvio, a euforia que confunde liderança e autoritarismo. Um comportamento que hoje dominante, inclusive entre gente de bem, com relação às escolas de samba.
Como dizia uma antiga composição de Beto Sem Braço, Jangada e Maurição, "pior cego é o que enxerga e não quer ver".
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