
"(...) Já se aproximando do final do século XX, seu mais festejado compositor, Chico Buarque, definia com melancólica crueza essa nova cidade ainda linda e já brutalizada: “Rio de ladeiras/ Civilização encruzilhada/ Cada ribanceira é uma nação/ À sua maneira/ Com ladrão/ Lavadeiras, honra, tradição/ Fronteiras, munição pesada” (“Estação derradeira”, Chico Buarque, 1987). Arrancando um resto de lirismo de dentro de si (e da mais profunda tradição musical carioca, representada pelas escolas de samba), Chico complementa a nova visão que a música brasileira tem de sua cidade-símbolo: “SãoSebastião crivado/ Nublai minha visão na noite/ Da grande fogueira
desvairada/ Quero ver a Mangueira/ Derradeira estação/ Quero ouvir sua batucada, ai, ai, ai”.
Essa perplexidade diante do caos social, esse “ai, ai, ai” meio dor, meio emoção, de ver, apesar de tudo, a batucada da Mangueira concorrendo com os tiros, é totalmente inversa ao idílio narrado pela MPB da época clássica. Não havia dor, somente deslumbrada emoção, “Pois quem mora lá no morro/ Já vive pertinho do céu/ Tem alvorada, tem passarada/ Ao alvorecer/ Sinfonia de pardais/ Anunciando o anoitecer” (“Ave -Maria no morro”, Herivelto Martins, 1942) (...)"
(Trecho do livro Canções do Rio)
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