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"Canções do Rio" em O Globo Escrito em 27 de janeiro de 2010
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O Segundo Caderno (O Globo) publicou hoje matéria sobre o livro Canções do Rio. O texto, que se segue na íntegra, é assinado pelo jornalista Leonardo Lichote.

"Uma cidade em tensão entre o sonho e o real"

‘Canções do Rio’ reúne ensaios sobre como a música popular retratou a metrópole, suas ruas e personagens

Leonardo Lichote

"Do subúrbio de Noel Rosa (“Não há quem tenha/ Mais saudades lá da Penha/ Do que eu, juro que não”) ao de Marcelo D2 (“Nascido em São Cristóvão, morador de Madureira/ Desde pequeno acostumado a subir ladeira”), da beira-mar de Tom Jobim (“Eu, você, nós dois/ Sozinhos neste bar à meia luz/ E uma grande lua sai do mar/ Parece que esse bar já vai fechar”) à do Paralamas do Sucesso (“As meninas do Leblon não olham mais para mim”), do paraíso de Paulo da Portela (“Como é linda a nossa Guanabara/ Joia rara”) ao purgatório de Fernanda Abreu (“Capital do sangue quente do Brasil/ Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil”). É essa a cartografia traçada em “Canções do Rio — A cidade em letra e música” (Casa da Palavra), que reúne ensaios sobre os olhares que a música popular lançou sobre a cidade ao longo do último século. Retratos de uma musa “bonitinha e má”, como definiram Guinga e Nei Lopes em “No fundo do Rio”.

— O que se percebe pelo livro, acompanhando as canções que tratam do Rio, é a permanente tensão entre a cidade idílica e a real — aponta Marcelo Moutinho, organizador de “Canções do Rio”. — É claro que os problemas, a violência, começam a aparecer com mais força nas últimas décadas. Mas desde o início, várias marchinhas e sambas faziam referências, por exemplo, à falta de luz ou às condições miseráveis das favelas.

Moutinho conta que, mais que falar das canções que comentam o Rio como um todo, interessava a ele as que tinham locais da cidade como cenário:

— Marques Rebelo tem uma frase que diz que “O Rio é uma cidade com muitas cidades dentro”. Cada pedaço seu retrata um pequeno detalhe de sua vida, um personagem. Essa visão colabora muito para o livro.

“Canções do Rio” apresenta seis ensaios, com recortes diferentes sobre esse cancioneiro. “Dos primórdios à Era do Ouro — A cabocla de Caxangá sob o luar de Paquetá”, de João Máximo, dá conta das primeiras aparições do Rio nos versos da música popular. Sérgio Cabral, em “As marchinhas — Elas contam tudo”, avalia a produção desse gênero carioquíssimo, nascido, explica ele, no Andaraí. Compositor que tira do Rio muito de sua inspiração, Nei Lopes assina o ensaio “O samba — Cidade, quem te fala é um sambista”, no qual usa Freud para falar da relação do samba com a cidade. Em “A bossa nova — Brigas, nunca mais”, Ruy Castro se detém no gênero cujo habitat natural foi o sal, o sol, o sul do Rio. Hugo Sukman, em “A canção moderna — Uma cidade bonitinha e má ou os dois sentidos da palavra arrastão”, analisa os caminhos e descaminhos da cidade cantada desde “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes até o arrastão — assalto coletivo, símbolo da violência carioca hoje. Por fim, “Rock, rap, funk — E o gringo, quem diria, foi parar em Jacarepaguá”, Silvio Essinger fala do Rio retratado nos últimos anos, por vozes da Zona Sul e das periferias.

— É interessante acompanhar essa trajetória da cidade — nota Moutinho. — No texto de João Máximo, sobre os primeiros anos, aparece muito o caráter idílico. Ele ressalta, por exemplo, que muitas das músicas feitas sobre os morros, louvando-os, eram compostas por artistas do asfalto. E é a visão ensolarada que prevalece na bossa nova, apesar de artistas como Carlos Lyra, que já tinham um olhar voltado para a igualdade social, mais crítico. Mesmo assim, são olhares quase inocentes, cheio de dicotomias. O ensaio de Hugo Sukman faz essa ponte do idílio para a cidade violenta. O rock da década de 1980 também faz essa mudança da cidade leve, praieira, hedonista, para a da desigualdade social, de “Alagados”, por exemplo. Já o samba, tratado por Nei Lopes, sempre teve essa dualidade, até por ter nascido perseguido. Como o funk, aliás, que retrata uma cidade que não está contemplada nem pelo samba.

Algumas canções aparecem em mais de um ensaio, recorrentes na reflexão que se faz sobre o Rio cantado — e as mudanças pelas quais ele passou ao longo das décadas. Talvez as duas mais citadas sejam “Saudades da Guanabara” (Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro) e “Rio 40 graus” (Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Laufer).

— “Saudades da Guanabara” é saudosa, mas sem deixar de ser esperançosa. E “Rio 40 graus” é a síntese dessas duas faces da cidade, “purgatório da beleza e do caos”. Está aí a força de ambas — acredita Moutinho. — Fausto Fawcett e Aldir Blanc, em suas obras, falam com frequência dessa cidade que vive em permanente tensão."

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