
Sempre ouço meus amigos da Zona Sul lamentando a nossa cidade partida. Mas são poucos os que saem do "Rio", atravessam o túnel e vão ao "de Janeiro" sorver sua cultura, respirar ares sem maresia. Pois hoje há uma ótima oportunidade. Vai acontecer em Madureira, mais especificamente na quadra do Império Serrano, a Festa do Imperiano de Fé. O evento contará com as participações da bateria de mestre Gilmar e de sua rainha Quitéria Chagas (ambos na foto), das Meninas da Serrinha e de três convidados especiais: Gabriel Cavalcante, Dorina e Alex Ribeiro, que homenageará o pai, Roberto Ribeiro.
Durante a festa, a porta-bandeira Daniele Nascimento, filha da lendária Vilma, receberá o estandarte oficial de 2010, já devidamente benzido na Igreja de São Jorge. E serão tocados hinos de antigos carnavais, como Alô, Taí Carmem Miranda, Bumbum Paticumbum Prugurundum, Heróis da Liberdade e Aquarela Brasileira, além, é claro, do samba de 2010: João das ruas do Rio. Vamos nessa?
P.S. A separação entre os termos "Rio" e "de Janeiro" foi feito pela primeira vez pelo jornalista e editor Paulo Roberto Pires em artigo publicado no jornal O Globo.
O Segundo Caderno (O Globo) publicou hoje matéria sobre o livro Canções do Rio. O texto, que se segue na íntegra, é assinado pelo jornalista Leonardo Lichote.
"Uma cidade em tensão entre o sonho e o real"
‘Canções do Rio’ reúne ensaios sobre como a música popular retratou a metrópole, suas ruas e personagens
Leonardo Lichote
"Do subúrbio de Noel Rosa (“Não há quem tenha/ Mais saudades lá da Penha/ Do que eu, juro que não”) ao de Marcelo D2 (“Nascido em São Cristóvão, morador de Madureira/ Desde pequeno acostumado a subir ladeira”), da beira-mar de Tom Jobim (“Eu, você, nós dois/ Sozinhos neste bar à meia luz/ E uma grande lua sai do mar/ Parece que esse bar já vai fechar”) à do Paralamas do Sucesso (“As meninas do Leblon não olham mais para mim”), do paraíso de Paulo da Portela (“Como é linda a nossa Guanabara/ Joia rara”) ao purgatório de Fernanda Abreu (“Capital do sangue quente do Brasil/ Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil”). É essa a cartografia traçada em “Canções do Rio — A cidade em letra e música” (Casa da Palavra), que reúne ensaios sobre os olhares que a música popular lançou sobre a cidade ao longo do último século. Retratos de uma musa “bonitinha e má”, como definiram Guinga e Nei Lopes em “No fundo do Rio”.
— O que se percebe pelo livro, acompanhando as canções que tratam do Rio, é a permanente tensão entre a cidade idílica e a real — aponta Marcelo Moutinho, organizador de “Canções do Rio”. — É claro que os problemas, a violência, começam a aparecer com mais força nas últimas décadas. Mas desde o início, várias marchinhas e sambas faziam referências, por exemplo, à falta de luz ou às condições miseráveis das favelas.
Moutinho conta que, mais que falar das canções que comentam o Rio como um todo, interessava a ele as que tinham locais da cidade como cenário:
— Marques Rebelo tem uma frase que diz que “O Rio é uma cidade com muitas cidades dentro”. Cada pedaço seu retrata um pequeno detalhe de sua vida, um personagem. Essa visão colabora muito para o livro.
“Canções do Rio” apresenta seis ensaios, com recortes diferentes sobre esse cancioneiro. “Dos primórdios à Era do Ouro — A cabocla de Caxangá sob o luar de Paquetá”, de João Máximo, dá conta das primeiras aparições do Rio nos versos da música popular. Sérgio Cabral, em “As marchinhas — Elas contam tudo”, avalia a produção desse gênero carioquíssimo, nascido, explica ele, no Andaraí. Compositor que tira do Rio muito de sua inspiração, Nei Lopes assina o ensaio “O samba — Cidade, quem te fala é um sambista”, no qual usa Freud para falar da relação do samba com a cidade. Em “A bossa nova — Brigas, nunca mais”, Ruy Castro se detém no gênero cujo habitat natural foi o sal, o sol, o sul do Rio. Hugo Sukman, em “A canção moderna — Uma cidade bonitinha e má ou os dois sentidos da palavra arrastão”, analisa os caminhos e descaminhos da cidade cantada desde “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes até o arrastão — assalto coletivo, símbolo da violência carioca hoje. Por fim, “Rock, rap, funk — E o gringo, quem diria, foi parar em Jacarepaguá”, Silvio Essinger fala do Rio retratado nos últimos anos, por vozes da Zona Sul e das periferias.
— É interessante acompanhar essa trajetória da cidade — nota Moutinho. — No texto de João Máximo, sobre os primeiros anos, aparece muito o caráter idílico. Ele ressalta, por exemplo, que muitas das músicas feitas sobre os morros, louvando-os, eram compostas por artistas do asfalto. E é a visão ensolarada que prevalece na bossa nova, apesar de artistas como Carlos Lyra, que já tinham um olhar voltado para a igualdade social, mais crítico. Mesmo assim, são olhares quase inocentes, cheio de dicotomias. O ensaio de Hugo Sukman faz essa ponte do idílio para a cidade violenta. O rock da década de 1980 também faz essa mudança da cidade leve, praieira, hedonista, para a da desigualdade social, de “Alagados”, por exemplo. Já o samba, tratado por Nei Lopes, sempre teve essa dualidade, até por ter nascido perseguido. Como o funk, aliás, que retrata uma cidade que não está contemplada nem pelo samba.
Algumas canções aparecem em mais de um ensaio, recorrentes na reflexão que se faz sobre o Rio cantado — e as mudanças pelas quais ele passou ao longo das décadas. Talvez as duas mais citadas sejam “Saudades da Guanabara” (Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro) e “Rio 40 graus” (Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Laufer).
— “Saudades da Guanabara” é saudosa, mas sem deixar de ser esperançosa. E “Rio 40 graus” é a síntese dessas duas faces da cidade, “purgatório da beleza e do caos”. Está aí a força de ambas — acredita Moutinho. — Fausto Fawcett e Aldir Blanc, em suas obras, falam com frequência dessa cidade que vive em permanente tensão."
O carnaval se aproxima e o Império Serrano já tocou reunir. Na próxima sexta (dia 29), a partir das 22h, acontecerá na quadra da escola a III Festa do Imperiano de Fé. O evento contará com as participações especiais de Dorina, Gabriel Cavalcante, Alex Ribeiro (filho do saudoso Roberto Ribeiro) e Meninas da Serrinha, além dos intérpretes oficiais do Império, da bateria Estandarte de Ouro e do casal de mestre-sala e porta-bandeira. O ingresso para a festa é a camisa acima, que custa R$ 15.
Já no dia 3 de fevereiro, às 19h30, o Teatro Rival vai sediar o show Vem que o Império te leva.... Zé Renato, Moacyr Luz, Carlos Malta, Fabiana Cozza, Zé Luís do Império, Luiza Dionizio e Alex Ribeiro se apresentarão ao lado do Jongo da Serrinha e da Velha Guarda Show do Império Serrano. A noite que se anuncia memorável contará ainda com ao mestre de cerimônias Jorginho do Império, a bateria Sinfônia do Samba, os intérpretes oficiais, o casal de mestre-sala e porta-bandeira e a Ala de Passistas. Os ingressos já estão à venda.
Vale lembrar que os dois eventos são beneficentes e têm como objetivo ajudar a sustentar, com dinheiro limpo, o carnaval da escola.
Estou para falar disso há algum tempo: há cerca de dois meses, a querida Monica Ramalho colocou no ar o site Caixinha de Música. No espaço, ela e os demais integrantes da equipe - Lia Baron, Marcelo Pacheco e Val Becker - escrevem sobre as novidades na área musical. "O Caixinha de Música vai muito além da cena musical independente, que aponta, de cara, para o território das novidades. O nosso conceito de 'novo' inclui trabalhos ainda em gestação e álbuns que acabaram de chegar nas prateleiras. Inclui a atitude de renovar o que é visto como antigo, mas ainda nos surpreende, e também uma prosa descompromissada com aquele artista que não está preparando nenhum trabalho pontual, mas que tanto já fez ou faz cotidianamente pela música. Há uma safra novinha em folha de jovens compositores que redesenham a roda e fazem ela girar num ritmo contemporâneo", explica Monica.
Atualmente, a capa do site traz matérias sobre as cantoras Maria Gadu, Ana Cañas, Alessandra Leão e Norah Jones, os cantores Ney Matogrosso e Jessy Harris, a banda Sobrado 112, o disco do Duofel tocando The Beatles, a série do CCBB em tributo aos arranjadores. Com design limpo e elegante, o que facilita a leitura, e ótimos textos, o Caixinha de Música veio para ficar.
A edição de janeiro da Tribuna do Advogado, jornal que edito para a OAB/RJ, traz uma entrevista que fiz com o jornalista Marcos Rolim, integrante da equipe que redigiu o Programa Nacional de Direitos Humanos. O tema de nossa conversa foi a criação da polêmica Comissão Nacional da Verdade. Como se trata de assunto que transcende o interesse jurídico, reproduzo na íntegra a entrevista, que saiu no jornal em versão reduzida:
'Comissão da Verdade não quer punir, mas recuperar a História'
Marcelo Moutinho
Especialista no tema e integrante da equipe que redigiu o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH) do governo federal, o jornalista Marcos Rolim é incisivo ao defender o documento, lembrando que as propostas são resultado de um processo iniciado ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso e fruto de ampla discussão. Ele se vale da mesma contundência para justificar a criação da controversa Comissão Nacional da Verdade. "O papel da Comissão é recuperar a história a respeito das violações, trabalhar para a abertura completa dos registros oficiais do período e colaborar na busca pelos restos mortais dos desaparecidos. Entendemos que o essencial era o acesso à verdade e que o comprometimento com a ideia da punição não agregava consenso e poderia ser contraproducente", afirma Rolim, que concedeu à TRIBUNA a seguinte entrevista.
Como se deu o trabalho de elaboração do PNDH?
Rolim - O Programa Nacional de Direitos Humanos foi proposto e aprovado durante o primeiro governo Fernando Henrique Cardoso, em 1996. O Brasil foi o segundo país do mundo a ter um programa do tipo (o primeiro foi a Austrália). Seis anos depois, em 2002, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, surgiu o PNDH-II, que procurou agregar novas metas, especialmente na área dos direitos econômicos e sociais, não abordada na primeira versão do texto. O PNDH-III procura atualizar aquelas metas e torná-las mais concretas a partir da definição de responsabilidades. Como as versões anteriores, ele foi precedido de um amplo processo de discussões com a sociedade civil que culminou na 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, que reuniu mais de 2 mil pessoas, entre delegados e observadores de todo o país. A Conferência aprovou uma resolução com milhares de propostas, processo que, na prática, funcionaram como uma pauta para o governo. De posse deste resultado, era preciso que o governo decidisse quais as propostas que seriam incorporadas ao programa e quais não seriam. Havia também a necessidade de elaborar alternativas para temas sobre os quais não havia um acúmulo significativo. Para isso, a Secretaria Especial de Direitos Humanos contou com a colaboração de três especialistas - Paulo Sérgio Pinheiro, Luiz Alberto Gomes de Souza e eu - para auxiliar no processo de redação do documento.
A criação da Comissão da Verdade tem provocado polêmica. Seus críticos acusam o governo de querer revogar a Lei da Anistia...
Rolim - A acusação é completamente infundada e assinala uma das manifestações mais graves de antijornalismo que já presenciei. A 11ª Conferência de Direitos Humanos havia sugerido a criação de uma "Comissão de Verdade e Justiça". O nome reflete, exatamente, a pretensão dos delegados de investigar e punir os responsáveis pelas violações na época da ditadura. Debatemos o tema e entendemos que o essencial era o acesso à verdade e que o comprometimento com a ideia da punição não agregava consenso e poderia ser contraproducente. Por isso, mudamos a sugestão, propondo a criação de uma "Comissão de Verdade" cujo papel seria o de recuperar a história a respeito das violações, trabalhar para a abertura completa dos registros oficiais do período e colaborar na busca pelos restos mortais dos desaparecidos. Isto significa, em bom jornalismo, que a notícia era exatamente a oposta àquela que foi produzida: com o programa, o governo se afastava da proposta de punir os responsáveis pelas violações da época da ditadura. Não porque se tenha entendido que isto esteja vedado pela Lei da Anistia (que, na verdade, nunca mencionou o crime de tortura), mas por se entender que a proposta não era conveniente. Minha posição neste tema foi muito clara: não vejo sentido na punição dos responsáveis por crimes cometidos há mais de 30 anos, mas considero fundamental que toda a verdade sobre a tortura seja conhecida, inclusive o nome dos torturadores. A cobertura oferecida por grande parte da mídia ao programa é escandalosamente preconceituosa e tendenciosa. Em alguns casos, chegou-se ao ridículo de acusar o governo de tentar implantar no Brasil uma "ditadura comunista". Esta foi a posição, aqui no Rio Grande do Sul, do jornalista Políbio Braga que - ao que consta - não foi internado em um Hospital Psiquiátrico por conta disto; de onde se deduz que não se trata de jornalismo, mas de militância política mesmo e de uma irresponsabilidade a toda prova. O mais interessante, entretanto, é que quase todas as propostas polêmicas do PNDH-III já estavam incluídas, de uma ou outra maneira, nos dois programas anteriores. Mas, então, era o governo FHC e, é claro, não estávamos às portas da "ditadura do proletariado".
Os críticos cusam o governo de querer punir só os que participavam do aparato estatal e lembram que muitos dos que lutaram contra a ditadura também cometeram crimes...
Rolim - Não há como se equiparar as condutas por duas razões: primeiro, a resistência armada às ditaduras é um princípio do direito internacional consagrado há mais de um século; pelo liberalismo, assinale-se, não pelo marxismo. Segundo a doutrina liberal, além de um direito, a resistência às autocracias é um dever do particular já que os atos do poder público não possuem a presunção da legalidade. Na tradição jurídica brasileira não
há dissenso quanto a isto desde, pelo menos, Nelson Hungria (ver a respeito os Comentários ao Código Penal). Em segundo lugar,os militantes que pegaram em armas no Brasil foram, em sua maioria, mortos pela repressão. Entre os sobreviventes, quase todos foram processados e presos, e muitos destes enfrentaram ainda a tortura e/ou o exílio. Os militantes da esquerda armada possuem nome, rosto e endereço conhecidos. Já os torturadores vivem nas sombras e boa parte deles sequer foi identificada até hoje. Muitos foram promovidos em suas carreiras nas polícias e nas FFAA e alguns, como Brilhante Ustra, escrevem livros negando o ocorrido, o que é nova agressão e desrespeito às vítimas e a seus familiares. O conflito que tivemos durante a ditadura não envolveu "partes" com os mesmos direitos e obrigações. De um lado estava o Estado, que optou pela repressão ilegal e que montou aparatos especiais de tortura e execução extrajudicial. De outro, estava uma dúzia de pequenos grupos de esquerda - alguns com algumas dezenas de militantes, quase todos muito jovens - que imaginaram sem possível desencadear uma guerra revolucionária a partir de "focos" nas cidades ou na zona rural. Nem a esquerda, nem os militantes dos direitos humanos reclamam a morte dos que caíram em combate. A reivindicação histórica é saber os responsáveis pela tortura e pelos assassinatos daqueles que foram presos (e que, portanto, como prisioneiros, estavam sob a tutela do Estado). Isto não significa que uma Comissão de Verdade não possa examinar reclamos sobre eventuais violações praticadas por grupos de esquerda. Há, certamente, casos que mereceriam, a meu juízo, uma discussão específica; o que faria bem a todos, especialmente à esquerda.
O senhor diz haver um "pacto de mediocridade" entre políticos e comandantes militares para manter o silêncio oficial. O que é preciso para que os arquivos sejam abertos?
Rolim - É preciso ter coragem, o que, infelizmente, não é uma característica muito comum entre nossos políticos. Observe-se que mesmo o governo Lula tem se caracterizado por tratar a chamada "questão militar" com luvas de pelica. Em sete anos, pouco se avançou neste tema e o governo chegou a recorrer de decisões judiciais que o obrigavam a revelar os registros oficiais sobre o Araguaia. Neste aspecto, Argentina, Uruguai e mesmo o Chile e o Paraguai estão muito à frente do Brasil.
Estou feliz à beça pela grande festa de ontem, na Rua do Ouvidor. Que contou com canjas especialíssimas de Moacyr Luz, Zé Renato, Áurea Martins, Zé Luis do Império e Moyseis Marques - ao lado de Makley Mattos, Gabriel da Muda e Tiago Prata, eles garantiram uma roda de samba de alta voltagem. Que teve a presença não menos especial de autores do livro, como Sergio Cabral, Ruy Castro, João Máximo, Hugo Sukman e Silvio Essinger. De jornalistas de mão cheia como Álvaro Costa e Silva, Zé Sérgio Rocha, Chico Paula Freitas, Pedro Paulo Malta, Claudia Lamego e Cid Benjamin. Que reuniu escritores como Alberto Mussa, Heloísa Seixas, André Luís Mansur, Henrique Rodrigues, Ramon Mello, Lucia Bettencourt, Francisco Bosco, Celina Portocarrero, Luiz Eduardo Matta, Tatiana Salem Levy, Rosana Caiado, Arnaldo Bloch e Zeh Gustavo. Que levou à aniversariante Livraria Folha Seca, do grande Rodrigo Ferrari, os secretários de Cultura do Rio e de Nova Iguaçu, Jandira Feghalli e Marcus Vinícius Faustini, o pessoal do Império Serrano, o grande Hermínio Bello de Carvalho, minha família e tantos amigos queridos (Edu Goldenberg, Dudu Sarmento, Luiz Antonio Simas, Cássio Loredano, Rô Lobo, Rodrigo Zaidan, Ize Sanz, Eduardo Carvalho, Eugênia Rodrigues, Juli Mariano, Felipe Quintans, Carlinhos Laguna, Leo Boechat, Carlos Alves, Candinha, Luiz Carlos Fraga, Bá, Mariana Pamplona, Dani Name, Mariana Blanc, Edison Vianna, Thaís Salema - represento, nesses nomes, todos os que lá estiveram). E que reuniu também muita gente desconhecida. Gente que ajudou a construir uma tarde singular, como há muito não vivia. É em dias assim que o Rio tira as flechas do peito do seu padroeiro e nos dá a certeza de que pode, sim, se salvar.
Abaixo, a primeira fornada de fotos:
Sukman, Essinger, eu, Sérgio Cabral, Ruy Castro e João Máximo
Alfredinho do Bip Bip e Zé Luis do Império: grandes presenças
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A canja da grande Áurea Martins, em foto de Felipe Quintans
Em outra canja, o dueto de bambas: Moacyr Luz e Zé Renato
Henrique Hoffman, Paulinho Valença e Popeye, os autores do samba
do Império para 2010, estiveram lá. Do Império Serrano, pintaram
ainda Rachel Valença, Carlos Alberto Machado, Paulo Elias e Moisés
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Eu e Essinger, com os MCs Júnior e Leonardo, citados no livro
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A secretária Jandira Feghalli e o tamborim de Zé Sérgio Rocha
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Plano geral da festa na Ouvidor, em foto de Felipe Quintans
Os trechos abaixo fazem parte do livro Canções do Rio - A cidade em letra e música, que, vale lembrar, será lançado amanhã, Dia de São Sebastião, na Livraria Folha Seca (que faz aniversário). O evento acontecerá a partir das 14h, com roda de samba. Apareçam!
"(...) O rock pode ter começado sua caminhada pela cidade em Copacabana, mas, desde cedo, apontou para a Zona Norte e os subúrbios. Quem deu um toque foi Alberto Borges de Barros, o Betinho, um dos primeiros brasileiros a empunhar uma guitarra elétrica. No pré-rock “Neurastênico”, que ele gravou em 1954, seu aviso era um só: “Preciso me tratar/ Se não, eu vou pra Jacarepaguá”. E deve ter ido mesmo, porque, anos depois, Copa, Ipanema, Leblon... toda a Zona Sul, enfim, viraria campo livre para os bossanovistas, com seus violões e canções de amor e flores. Era a época em que os futuros ídolos do rock brasileiro Roberto e Erasmo Carlos rondavam a turma da rua do Matoso, na Tijuca (“Haddock Lobo/ Esquina com Matoso/ Foi lá que toda confusão começou”, cantaria, muitos anos depois, outro integrante da turma, o soulman Tim Maia), e sonhavam com um convite para um dos saraus bossa no apartamento de Nara Leão. Em vão. Desiludidos, levaram suas guitarras para São Paulo e, com o programa de tevê Jovem Guarda, conquistaram para o rock os corações e mentes de uma geração.
Os anos que se seguiram foram prósperos para as guitarras elétricas e seus cultores – até passeata contra elas o pessoal das raízes da música brasileira fez! E aí teve de tudo: Tropicalismo, psicodelia de garagem, Mutantes, Novos Baianos, som pauleira, baratos mil. Mas o Rio de Janeiro, coitado, ficou um bom tempo desacreditado como musa rock. Ora era o baiano Raul Seixas resmungando: “Eu devia estar alegre e satisfeito/ Por morar em Ipanema depois de ter passado fome/ Por dois anos aqui na Cidade Maravilhosa”. Ora, era o grupo paulistano Joelho de Porco e seu espírito de porco com a ácida “Rio de Janeiro City” (do disco Joelho de Porco, 1978): “A garota de Ipanema já não é mais aquela/ Palmas, palmas, palmas, palmas para ela/ O chopinho no Leblon/ Não tá com nada, não”, cantava o Joelho, concluindo com uma irônica referência ao “Neurastênico”, de Betinho: “Copacabana não me engana/ Vou pra Jacarepaguá”. De volta à estaca zero – mas não por muito tempo, como se haveria de ver. (...)".
(Trecho do livro Canções do Rio)
"(...) Já se aproximando do final do século XX, seu mais festejado compositor, Chico Buarque, definia com melancólica crueza essa nova cidade ainda linda e já brutalizada: “Rio de ladeiras/ Civilização encruzilhada/ Cada ribanceira é uma nação/ À sua maneira/ Com ladrão/ Lavadeiras, honra, tradição/ Fronteiras, munição pesada” (“Estação derradeira”, Chico Buarque, 1987). Arrancando um resto de lirismo de dentro de si (e da mais profunda tradição musical carioca, representada pelas escolas de samba), Chico complementa a nova visão que a música brasileira tem de sua cidade-símbolo: “SãoSebastião crivado/ Nublai minha visão na noite/ Da grande fogueira
desvairada/ Quero ver a Mangueira/ Derradeira estação/ Quero ouvir sua batucada, ai, ai, ai”.
Essa perplexidade diante do caos social, esse “ai, ai, ai” meio dor, meio emoção, de ver, apesar de tudo, a batucada da Mangueira concorrendo com os tiros, é totalmente inversa ao idílio narrado pela MPB da época clássica. Não havia dor, somente deslumbrada emoção, “Pois quem mora lá no morro/ Já vive pertinho do céu/ Tem alvorada, tem passarada/ Ao alvorecer/ Sinfonia de pardais/ Anunciando o anoitecer” (“Ave -Maria no morro”, Herivelto Martins, 1942) (...)"
(Trecho do livro Canções do Rio)
"(...) Menescal e Bôscoli e Marcos e Paulo Sergio Valle levaram a fama, mas, na verdade, ninguém falou tanto de mar na bossa nova quanto Tom Jobim. E com motivo. Tom dizia que, em jovem, era um peixe: ia a nado do Leme ao Leblon, assobiando e deixando os peixes de verdade para trás. Uma de suas primeiras canções de sucesso, em parceria com Billy Blanco, foi “Tereza da praia”, a moça que foi deixada “aos beijos do sol e abraços do mar”. Juntos, Tom e Billy fizeram também a “Sinfonia do Rio de Janeiro”, inspirada na “montanha, o sol e o mar”.
Às vezes, Tom associava o mar à solidão, como em “Inútil paisagem”, em parceria com Aloysio de Oliveira: “Mas pra que/ Pra que tanto céu/ Pra que tanto mar, pra quê?/ De que serve essa onda que quebra/ E o vento da tarde/ De que serve a tarde? Inútil paisagem”. Por sorte, nem sempre a paisagem era tão inútil, como em “Fotografia”: “Eu, você, nós dois/ Sozinhos neste bar à meia -luz/ E uma grande lua saiu do mar/ Parece que este bar já vai fechar/ há sempre uma canção para contar/ Aquela velha história de um desejo/ Que todas as canções têm pra contar/ E veio aquele beijo...”. Ou em “Wave”: “Agora eu já sei/ Da onda que se ergueu no mar/ E das estrelas que esquecemos de contar/ O amor se deixa surpreender/ Enquanto a noite vem nos envolver...” (...)".
(Trecho do livro Canções do Rio)
"(...) Se Freud explicasse o samba carioca, certamente diria que nossa relação com a cidade é, antes de tudo, “uterina”. Porque uma das primeiras formas de abordagem do tema, nos primeiros tempos, foi essa, em que a cidade cantada é o ventre materno, como expressou Paulo da Portela, louvando a baía carioca, útero da cidade: “Como é linda a nossa Guanabara!/ Joia rara!/ Que beleza/ Quando o nosso céu está todo azul.../ Anoitece e o céu se resplandece/ Em seu bordado de estrelas/ Vê -se o Cruzeiro do Sul...” (“Linda Guanabara”, 1935).
No já citado “Cidade mulher”, de 1939, o “professor Paulo” toma a bênção ao Rio inteiro, incorporando -se a ele e, reverente e filial, prostrando -se aos pés da musa Mãe, sem nem se considerar, ainda, um artista completo: “Cidade, quem te fala é um sambista,/ Anteprojeto de artista,/ Teu grande admirador./ Me confesso boquiaberto,/ De manhã, quando desperto/ Com tamanho esplendor. (...)/ Diante de tal beleza/ Que lhe deu a natureza/ Se há outra, não vi igual (...)/ Te admiram estrangeiros/ Se orgulham os brasileiros/ Teus poetas
(Trecho do livro Canções do Rio)
"(...) Nasceu no Andaraí um gênero musical que o carioca viria a adotar como uma linguagem para todas as circunstâncias. Quando, por exemplo, a seleção brasileira goleava a Espanha por seis a um, na Copa do Mundo de 1950, uma multidão calculada em 200 mil pessoas festejou cantando “Touradas de Madri”, de João de Barro e Alberto Ribeiro. João de Barro, que assistia ao jogo na arquibancada, não conseguia parar de chorar, nem mesmo quando um torcedor, irritado com o pranto, berrou: “Pode chorar, espanhol!”
Já que o carioca gosta de contar anedota, a marchinha foi a linguagem escolhida por alguns compositores, como na “Piada de salão”, de Klecius Caldas e Armando Cavalcanti: “Um sujeito que era gago/ Procurou um botequim/ Chegou perto do gerente/ Outro gago bem ruim/ E disse assim/ Eu estou, tou, tou, tou/ Onde é que está tá tá ta/ Mas o outro gaguejou/ Chi! tra ra ra ra ra” (...)".
(Trecho do livro Canções do Rio)
"(...) Não deixa de ser curioso que, antes dos bairros da moda, do Centro mais agitado e da emergente Zona Sul, tenham sido os morros e os subúrbios os pontos mais frequentados pelas letras de música. O caso dos morros deve ser visto primeiro. Estão cobertos de razão os que dizem que a maior parte das canções enaltecendo os morros da cidade foi feita a distância, por compositores e poetas cá de baixo, movidos por uma visão idealizada da vida lá de cima. Há exceções, tanto de letras do asfalto a desglamourizar o morro, como esta, de Luís Antônio e Aldemar Magalhães: “Ai, barracão, pendurado no morro/ Pedindo socorro à cidade aos seus pés”; quanto esta, em que Enéas da Silva e Aloísio da Costa exaltam as coisas que o morro tem:
“Mangueira, teu cenário é uma beleza/ Que a natureza criou...”; ou esta, de Jorge Moraes e Rufino Gonçalves, misturando o lirismo à rea lidade que os cerca: “Ave -Maria no Salgueiro é assim/ Com surdo, pandeiro e tamborim/ É a pobreza de joelhos a implorar:/ ‘Senhor, tenha pena de mim’...”. Mas a regra é mesmo o oposto (...)".
(Trecho do livro Canções do Rio)
Como felizmente o Império Serrano não é território de bicheiro, de assassino, de ex-torturador, precisa criar alternativas que rendam dinheiro para ajudar a colocar o carnaval na rua. Neste sentido, faremos a III Festa do Imperiano de Fé (dia 29 de janeiro, na quadra) e um show beneficente no Teatro Rival (dia 3 de fevereiro).
Além disso, a escola confeccionou esse adesivo aí de cima, cuja venda ajudará a pagar as despesas do barracão. Com a frase que já se tornou clássica entre os seus torcedores, o adesivo custa apenas R$ 5.
Não são poucas as vezes em que, debatendo questões do carnaval, noto que os olhares lançados em minha direção guardam um misto de dó e condescendência. Cada palavra contra a promíscua relação entre o Poder Público e os criminosos da Liesa, cada argumento contra a súbita amizade entre ex-militantes de esquerda e ex-torturadores que se gabam de usar até hoje o codinome consagrado nos porões, cada crítica à passividade dos meios de comunicação quanto ao sangue que escorre das Superalegorias S.A (sangue de homicídios por disputa de pontos de bicho e de videopôquer) são encarados como brados quixotescos e inocentes.
"É assim o jogo", é o que, no fundo, querem dizer. E, a partir daí, com a permissividade tendo vencido a virtude (ou ao menos a busca pela virtude), instala-se o vale tudo. O vale tudo em que vivemos, uma falsa malandragem na qual a maioria que dança conforme a música concede sua pena aos pobrezinhos que insistem em dar muro em ponta de faca.
Eu sempre achei que podia, ou ao menos deveria tentar, mudar o que me parece errado. As porradas da vida - na política, no esporte, no amor - já balançaram essa premissa, e não foram poucas vezes. Mas nunca - nunca - a derrubaram por completo. E talvez seja por isso que fico espantado - sim, ainda me espanto - ao testemunhar o elogio que ignora o óbvio, a euforia que confunde liderança e autoritarismo. Um comportamento que hoje dominante, inclusive entre gente de bem, com relação às escolas de samba.
Como dizia uma antiga composição de Beto Sem Braço, Jangada e Maurição, "pior cego é o que enxerga e não quer ver".
Daqui a uma semana (dia 20, próxima quarta, a partir das 14h), sem tirar nem pôr, vai acontecer na Livraria Folha Seca o lançamento de Canções do Rio (Casa da Palavra). Idealizado e organizado por este que vos escreve, o livro reúne ensaios de João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger, que contam como nossa cidade foi cantada ao longo da história nos mais diferentes gêneros musicais.
O volume é ilustrado com fotos de alguns dos artistas que ajudaram a construir, através de suas canções, a identidade do Rio de Janeiro, de Chiquinha Gozaga a Tom Jobim, de Herivelto Martins ao grupo O Rappa, de Aldir Blanc a Claudinho e Buchecha, de Edu Lobo a Cazuza, de Braguinha a Paulo César Pinheiro.
Em pleno Dia de São Sebastião, o padroeiro da cidade, o lançamento coincidirá com o aniversário da Folha Seca. E a festa conjunta, um verdadeiro tributo à alma carioca, contará uma roda de samba e choro. Ou seja, a coisa promete.
Deixo, aqui, o convite a todos vocês. A Folha Seca fica na Rua do Ouvidor, 37.
No dia 1 de janeiro, a Globo News transmitiu a edição do programa Espaço Aberto na qual conversei com Luciana Villas-Boas, gerente editorial da Record, sobre a chegada dos livros eletrônicos. Quem nos entrevistou, com a simpatia habitual, foi o Edney Silvestre. Confira, abaixo, o programa.
. Iniciando os trabalhos de 2010, queria recomendar dois textos. O primeiro deles, publicado pelo amigo Fernando Molica em seu blog, trata da polêmica árvore da Lagoa. "Quem, de um modo geral, se queixa da árvore de Natal da Lagoa não reclama da árvore. Até pode fazer comentários sobre a dita cuja, realçar seu anacronismo, seu caráter um tanto quanto kitsch. A maioria finge se importar com o aumento no trânsito, com o estacionamento ilegal. Mas, no fundo, o que lhes incomoda não está dentro da Lagoa nem em suas pistas destinadas a carros, ônibus e motos. O calo que lhes irrita e ofende é o povo que se aglomera para ver a árvore", escreve Molica, para em seguida tratar do tema sob uma perspectiva diferente: a daqueles que vêm com a família, do subúrbio, para ver a árvore. Leia aqui.
. O segundo texto, do amigo Carlos Andreazza, refere-se à abjeta recomendação da "promoter" Carol Sampaio, da GRES Grande Rio, para os "artistas" (sic) e socialites" que desfilarão na escola (sic), homenageando o enredo dos mendigos de Joãozinho Trinta. Vale lembrar que o enredo da escola (sic) presta tributo aos 30 anos do Camarote da Brahma, mas a Grande Rio tenta disfarçar essa bizarrice lembrando desfiles célebres. Leia a pancada do Andreazza aqui.
. O livro Canções do Rio, que idealizei e tive o prazer de organizar, já saiu do forno. A obra conta com ensaios de João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger, que explicam como a cidade foi historicamente cantada nos mais diferentes gêneros musicais. Em breve, dou informações sobre o lançamento.
. Há muito tempo não tinha tanta expectativa com relação a uma minissérie como no caso de Dalva e Herivelto, que estréia hoje, na TV Globo. O livro do Pery Ribeiro, que o descreve sob a perspectiva do elo mais frágil da confusão - o do filho -, já dá uma boa ideia do conflito (e do panorama musical do Brasil na época). Com imagens que recontituem aquele tempo e as músicas que nasceram da confusão, a minissérie promete.
. A viagem à Amazônia teve muito sol, muitos bichos e muitas leituras. A saber: Leituras de viagem: Morreste-me (Jose Luis Peixoto), Samba de enredo - História e arte (na prova, Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas), Não vem que não tem - A vida e o veneno de Wilson Simonal (Ricardo Alexandre), Poemas escolhidos (Sophia de Mello Breyner Andresen), A criança em ruínas (Jose Luis Peixoto), Se eu fechar os olhos agora (Edney Silvestre), Sinuca debaixo d'água (Carol Bensimol) e Minha fama de mau (Erasmo Carlos).
. O cara é superticioso, adora o número 13 e nasceu naquele que seja o país com a alma mais "trágica" da América do Sul. Tenho a impressão de que El Loco Abreu pode mesmo dar certo no Botafogo.
Com a correria de fim de ano, acabei não publicando aqui a resenha do novo livro de Luis Fernando Veríssimo, Os espiões, que escrevi para o suplemento Prosa & Verso (O Globo). O texto foi veiculado na edição do dia 26 de dezembro.
Erudição, mistério e humor
Marcelo Moutinho
A leitura de “Os espiões” mostra que, ao escrever o primeiro romance sem encomenda, Luis Fernando Verissimo manteve-se fiel a seu estilo e suas obsessões. A exemplo do que acontecia em incursões anteriores pela narrativa longa — como “O jardim do Diabo” e “Borges e os orangotangos eternos” — , na nova obra o autor parte de uma paródia sobre o gênero policial para tratar, com refinado humor, de questões afeitas ao universo da literatura.
Se em “O jardim do Diabo” o protagonista é um escritor de livros baratos, e em “Borges e os orangotangos eternos” o personagem principal trabalha como tradutor, a trama de “Os espiões” gira em torno de um terceiro vértice da geometria literária. Quem narra a história é um editor misantropo, fã de John le Carré e completamente frustrado com sua profissão.
“Nas segundas-feiras estou sempre de ressaca, e os originais que chegam vão direto das minhas mãos trêmulas para o lixo. E nas segundas-feiras minhas cartas de rejeição são ferozes. Recomendo ao autor que não apenas nunca mais nos mande originais como nunca mais escreva uma linha, uma palavra, um recibo”, confessa ele, que faz de sua rotina na editora uma longa espera pelo fim de semana, quando poderá encontrar os colegas de copo no bar do Espanhol e purgar, com um porre, o próprio desalento. “No bar, nossas conversas começavam com a vírgula e depois se expandiam, abrangendo a condição humana e o Universo”, relata.
Esse ramerrão será interrompido quando recebe um envelope que traz as primeiras páginas de um livro que estaria sendo escrito por uma certa Ariadne. Ela promete contar, em sucessivas correspondências, a aventura envolvendo crime e paixão que viveu numa pequena cidade do interior, e sugere um futuro suicídio. A alusão à mitologia grega se evidencia já no nome da personagem, mas Veríssimo inverte o jogo: se, no mito, Ariadne ajuda Teseu a sair do labirinto, em “Os espiões” ela serve de elemento de atração, arrasta todos para dentro dele.
“A literatura de Ariadne era um apelo a Dionísio, qualquer Dionísio, inclusive um de meia-idade com cirrose incipiente, para salvá-lo do seu passado ou mudar o seu destino”, observa o narrador. Inebriado pelas palavras da mulher, ele firmará com seus parceiros de bar uma espécie de “Exército de Brancaleone” para levar à frente o que chamam de Operação Teseu. O objetivo: resgatar a bela e triste Ariadne das mãos de seus malfeitores.
Os soldados desse exército são tipos excêntricos como o professor Fortuna, sujeito que passa os dias a exaltar a própria erudição e diz estar escrevendo “uma resposta à ‘Crítica da razão pura’”, com o título provisório de “Anti Kant”. Para Fortuna, a literatura terminou com Sófocles — “Tudo que veio depois é post scriptum” — e o único mérito de Proust “foi ter dado uma reputação literária à asma”. Entre os parceiros de empreitada, estão também Fulvio Edmar, autor de “Astrologia e amor”, o único best-seller da editora, e o revisor Joel Dubin, um oficialista da língua que se notabiliza pelo rigor na colocação das vírgulas e costuma se apresentar como “poeta menor”.
À medida que o enredo se desenrola, Frondosa, a cidade de Ariadne, transforma-se no centro dos acontecimentos e surgem novos personagens, tão hilários quanto os do princípio do livro. É o caso de Diamantino Reis, chamado de “Uruguaio” mesmo sem ter nascido no país, porque ficou rico ao apostar contra a Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1950. Diamantino virou um pária no lugar, onde convive com um padre surdo em cuja igreja as confissões são feitas aos berros, e um editor de jornal que, saudoso do stalinismo, faz experiências no intento de obter uma flor de “vermelho perfeito”, à qual pretende chamar de Rosa Luxemburgo.
Com ironia, Verissimo vale-se desses tipos para fazer argutas observações sobre as imposturas intelectuais, o provincianismo e a ambição que cada vez mais pessoas têm de se tornarem escritoras. Quase sempre os comentários são sutis, mas em algumas passagens o narrador se permite uma referência mais explícita, como no momento em que repete uma das teses do professor Fortuna. “O professor diz que em vez de endeusar escritores deveríamos louvar os milhões que resistem e não escrevem, e cuja grande contribuição à literatura universal são as folhas que deixam em branco”.
As peripécias da trupe que tenta resgatar Ariadne terminarão de forma surpreendente, num desfecho que, aliás, reforça o ponto essencial desse que constitui um metarromance. Toda a Operação Teseu se assentava sobre a esperança, quase certeza, de que seria possível manipular o destino de outros indivíduos, como o próprio narrador em dado instante reitera: “Na ficção, você pode se meter na vida dos seus personagens o quanto quiser. Pode até matá-los, se desejar. Sem culpa, sem remorso e nunca por acidente. Ou então salvá-los”. Entretanto, aqueles que se queriam agentes ativos de um novo enredo soçobram diante do irremediável dos fatos; quem ambicionava “escrever” a história acaba “sendo escrito” por ela. Indício, talvez, de que a onipotência do escritor é limitada, frágil. É lâmina que não corta fora dos livros.
* Escritor e jornalista