
Foi bacana ver os dois suplementos literários dos jornais do Rio abrindo espaço, no sábado passado, para lembrar Paula Brito. O Ideias (Jornal do Brasil) trouxe em sua capa um artigo do amigo Rodrigo Ferrari, dono da Livraria Folha Seca (leia aqui), e uma caricatura do grande Loredano (reproduzida aí de cima). Já o Prosa & Verso (O Globo) publicou um texto meu, que se segue, na íntegra:
O operário das letras
Marcelo Moutinho*
Quando se menciona hoje o nome de Francisco de Paula Brito, cujo bicentenário será comemorado no próximo dia 2, a frase quase sempre comporta uma alusão a Machado de Assis. Essa recorrência, que parece natural pelo fato de Paula Brito ter sido o primeiro editor a publicar um texto de Machado, na verdade acaba por tornar periférico um personagem que teve papel central no universo da cultura brasileira do Século XIX.
Foi no jornal A Marmota que, em 1855, Paula Brito veiculou o poema “Ela”, escrito por aquele que viria a se consagrar como o Bruxo do Cosme Velho. Machado tinha, então, pouco mais de 15 anos de idade e já frequentava a loja que o editor mantinha na antiga Praça da Constituição (hoje Praça Tiradentes).
O estabelecimento chamava-se Empresa Tipográfica Dois de Dezembro - alusão aos aniversários de Paula Brito e do imperador D. Pedro II - e era um misto de papelaria, livraria, editora e tipografia. Além disso, funcionava como ponto de encontro de artistas, políticos e intelectuais da época. Gente como o próprio Machado, Manuel de Araújo Porto-Alegre, Joaquim Manuel de Macedo e o Visconde de Rio Branco, que formavam a Sociedade Petalógica.
Reunindo-se aos sábados, a confraria era um núcleo de debates sobre os assuntos mais variados, da plástica do verso à pirueta da dançarina da moda. O tom bem-humorado se sugeria já no título da irmandade, derivado da palavra “peta” (“mentira”).
“Queríeis saber do último acontecimento parlamentar? Era ir à Petalógica. Do nôvo livro publicado? (...) Da última peça de Macedo ou Alencar? Do estado da praça? Dos boatos de qualquer espécie? Não se precisava ir mais longe, era ir à Petalógica”, como comentou Machado, em texto de 1865. Neste sentido, a loja foi pioneira, abrindo caminho para outras livrarias que futuramente se transformaram em território de discussão e mediação cultural, como a José Olympio.
Em sua firma, Paula Brito publicou livros, jornais, revistas, opúsculos, peças de teatro, teses e estampas.
- Foi o primeiro grande editor do Brasil, responsável inclusive pela primeira revista cultural de importância por aqui, a Guanabara - conta o escritor e historiador da arte Rafael Cardoso, que dedica um dos capítulos do recém-lançado Impresso no Brasil – 1808/1930 (Verso Brasil) ao trabalho do tipógrafo.
Entre os livros editados por Paula Brito, estão o primeiro romance brasileiro - O filho do pescador, de Teixeira e Souza, uma de nossas peças inaugurais (Antonio José, ou o poeta e a Inquisição, de Gonçalves de Magalhães), obras de Martins Pena, Casimiro de Abreu, Machado e de vários membros da Petalógica.
- Quase tudo que se entende por Romantismo, nos estudos literários brasileiros, passou pro seus prelos - frisa Rafael.
Muitos desses autores costumavam colaborar também com A marmota, que promoveu inovações na imprensa do período. Menos sisudo do que os demais periódicos, o jornal de Paula Brito trazia em suas páginas anedotas, máximas, charadas e enigmas, além dos textos ficcionais.
Paula Brito foi, também, poeta, contista, dramaturgo, tradutor e letrista. Com Francisco Manuel da Silva, autor do Hino Nacional Brasileiro, compôs o Lundu da Marrequinha, bastante tocado em seu tempo. E, honrando a fama de bom anfitrião, promoveu eventos que reuniam músicos e escritores, estimulando parcerias em modinhas e lundus.
Outro aspecto relevante de sua trajetória foi o engajamento na luta abolicionista. Paula Brito já militava contra a escravidão e a favor da igualdade racial antes mesmo de expoentes da causa, como José do Patrocínio e Joaquim Nabuco, terem nascido. Como ressalta o escritor Nei Lopes, o jornal O homem de cor, editado a partir de 1833 por Paula Brito, marca o início de uma imprensa voltada para a defesa dos interesses da população negra no Brasil. “Segundo Roger Bastide, entre outros méritos, esse tipo de jornal permitiu aos escritores de cor, que dificilmente podiam participar de periódicos, a publicação de seus versos e contos, revelando novos valores literários”, observa Nei.
Doutora em História Social e pesquisadora do Iphan, Renata Santos destaca que Paula Britto fez tudo isso “sem obter uma educação formal e ocupando um lugar à margem da elegante Rua do Ouvidor”.
- Ele consolidou seu negócio como uma referência na cidade. Apesar de ter se esforçado para incorporar a cultura letrada, não abriu mão de afirmar a sua condição de tipógrafo, construindo uma trajetória que desconsiderou os limites entre o erudito e o popular - diz ela.
Renata salienta a colaboração do tipógrafo e editor à construção de uma identidade relacionada ao mundo do trabalho. “Sujar as mãos era coisa de escravo e Paula Brito foi ousado e corajoso o suficiente para contestar isso com inteligência. Naquela época - e, de certa forma, até hoje -, o trabalho intelectual se sobrepõe ao trabalho manual. Imagino o quanto não foi difícil não abdicar de sua identidade de origem e, ao mesmo tempo, projetar-se em um ambiente avesso a esse valor”, afirma a pesquisadora.
Em texto veiculado na Marmota em 1855, e reproduzido por Eunice Ribeiro Gondim na biografia Vida e obra de Paula Brito, o próprio tipógrafo reiterava esse orgulho: “Amamos tanto a tipografia, somos tão entusiastas dela, que por mais elevada que fosse a nossa posição, por maiores que fossem os nossos haveres, dir-nos-íamos sempre tipógrafo, porque se o ser artista, simplesmente, não é uma honra, o ter habilitações para o ser (...) é uma glória que, se nem todos a tem, todos deveriam caprichar em tê-la”.
No entanto, se esse mulato de origem humilde conseguiu conquistar lugar num meio tão hostil aos de sua linhagem, seus feitos são atualmente pouquíssimo reconhecidos. Lamentando a relativa desimportância a ele dispensada, Renata lembra por oposição o caso de Machado, também pobre e de ascendência negra, que conseguiu se inserir na esfera intelectual e cuja herança é festejada.
- Por que o legado social de Paula Brito não é mais que suficiente para lhe atribuir mérito? - questiona a pesquisadora, arriscando uma explicação. - Talvez porque ele se constituiu como uma espécie de ‘operário das letras’, não se encaixando na figura do intelectual padrão, o que dificulta a tarefa de classificá-lo. Como explicar um mulato que, sem dinheiro, sem nunca ter frequentado a escola, abre espaço para si em plena sociedade escravista do Século XIX, levando ao limite as possibilidades do seu ofício?
De todo modo, a memória de Paula Brito está sendo evocada ao menos pelas livrarias do Centro. Desde o começo do ano, o dono da Folha Seca, Rodrigo Ferrari, mantém em sua loja um banner em tributo ao tipógrafo, desenhado pelo caricaturista Cássio Loredano. Abraçando a iniciativa de Ferrari, a Leonardo da Vinci e a Travessa vão expor o painel no mês de dezembro. Paula Brito será também o homenageado na próxima edição do Mapa das Livrarias do Centro. Nada mais adequado para quem sempre viveu cercado de ideias – e livros.
Box: 'Imagem alterada para reforçar o mito de herói'
O episódio em torno do retrato do marinheiro Simão, publicado em 1853 na Marmota Fluminense e depois distribuído por Paula Brito sob a forma de estampa, é um exemplo da militância abolicionista do tipógrafo. No livro A arte brasileira em 25 quadros (Record), Rafael Cardoso mostra como Paula Brito utilizou a pintura de José Correia Lima para reiterar o mito de herói que recaía sobre o marinheiro negro, responsável pelo salvamento de 13 pessoas no naufrágio do vapor Pernambucana.
Simão, que na pintura aparecia em roupas simples, surge na estampa de Paula Britto vestido de casaca e gravata, com uma cabeleira alta e bem penteada. “Na passagem para a imprensa, a figura de Simão foi submetida ao mesmo critério de respeitabilidade que caracteriza outros retratos e auto-retratos abolicionistas do Século XIX, em que a imagem do negro é refeita para conformar aos padrões e convenções da boa sociedade branca”, observa Rafael.
O caso mereceu também uma série de textos laudatórios. No último deles, sob a forma de versos, Paula Brito dizia: “Ninguém a Simão despreze, / Ninguém lhe negue o valor: / Simão fez atos divinos; / A virtude não tem cor”.
Meu camarada Henrique Rodrigues convida para o lançamento de seus dois novos livros infantis, O segredo da gravata mágica e O segredo da bolsa mágica (ambos pela Memória Visual). Será domingo, a partir das 16h, dentro da Primavera dos Livros (Jardins do Museu da República - Rua do Catete, 153). Apareçam!
Herculano, André, Maria José e Márcio Souza, num dos painéis
Queria fazer aqui um agradecimento público ao querido Marcelino Freire pelo convite para participar da edição de 2009 da Balada Literária. Confirmando o que me adiantara o amigo Álvaro Costa e Silva (o Marecha), a Balada é um evento de altíssima voltagem, juntando duas das coisas que os escritores mais gostam: literatura e boemia.
Cheguei a São Paulo na quinta à tarde e fui logo conferir a mesa que reuniu, na Livraria da Vila, a professora Heloísa Buarque de Hollanda e os jornalistas Noemi Jaffe e Marcelo Coelho, ambos da Folha de S. Paulo, com mediação da escritora Ivana Arruda Leite. Heloísa, como era de se esperar, falou sobre as experiências da periferia, e Noemi fez uma defesa, que me pareceu um tanto nostálgica, da experimentação contra “a caretice”.
Já Coelho traçou uma análise perspicaz do atual panorama, destacando que a movimentação da cena literária não se reflete na qualidade das obras ou na vendagem de livros. Este é uma questão que venho comentando há tempos: o nó que escritores e editoras precisam enfrentar é a relação com o público-leitor. Mas observei, durante o debate, que pelo menos com relação ao problema da qualidade o jornalismo cultural tem sua parcela de culpa, pois costuma privilegiar, nas pautas, o personagem que o autor encena, em detrimento daqueles que ele cria.
Show em tributo ao Dia da Consciência Negra, no Sesc Pinheiros
No painel seguinte aconteceu no Sesc Pinheiros. Dividi a mesa com o português José Luis Peixoto e com o angolano João Mello. Foi uma ótima conversa sobre o trabalho dos dois (leia mais sobre o painel aqui) que terminou com a leitura de um texto de cada autor, salientando os diferentes sotaques da Língua Portuguesa (veja no vídeo abaixo).
À noite, aconteceu o show Viva o povo brasileiro, com os cantores Fabiana Cozza e Rubi, e o pianista Vitor Araújo, além de leituras feitas pelo Marcelino, pelo Ferrez e por dois atores. Um espetáculo emocionante, que homenageou o Dia da Consciência Negra recorrendo a textos e canções que abordam nossas raízes africanas.
Outro destaque da Balada foi o painel com Márcio Souza, André Sant’anna e Maria José Silveira. Fiquei impressionado com a cultura e a verve do Márcio, que deu uma verdadeira aula sobre a Amazônia, extensiva ao agradável almoço que tivemos logo em seguida. Ri muito também com o André, que festejou o fato de estar numa mesa que não tratava de transgressão. “Sempre me colocam nessas mesas. Numa delas, um cara da platéia pediu para ler um poema em minha homenagem. O poema era sobre coco”, disse ele. Quem mediou o painel foi o jornalista e escritor mineiro Carlos Herculano Lopes, grande parceiro de copo e boas conversas.
Eu e Chico Alvim, após a palestra dele
Não poderia deixar de salientar ainda a conversa com o grande Francisco Alvim. Poeta de primeiríssima, Alvim emocionou o público com sua leitura e com uma bela explanação sobre o lugar da arte. Além de se mostrar um escritor no auge da maturidade, com pleno domínio a respeito seu ofício e um olhar sereno sobre a vida. Ademais, Alvim é uma pessoa adorável, como descobri em São Paulo.
Santiago Nazarian e João Gilbeto Noll: bom papo entre fã e ídolo
Ainda tivemos um papo entre Santiago Nazarian e João Gilberto Noll, interessantes conversas com autores do Uruguai (como o simpático Dani Ump) e da Venezuela, grandes noites de cerveja na Mercearia. Ou seja, muitas outras coisas rolaram por lá. E todas - todas - num clima de amizade, de troca, sem picuinhas, sem vaidades. Tudo isso só pôde acontecer graças a esse indivíduo admirável que é o Marcelino. Sua generosidade deve ser sempre ressaltada. É imenso o bem que ele faz para a literatura brasileira.
Marcelino Freire: aplausos ao grande responsável pelo belo evento
Meu camarada Cláudio Jorge convida para a Semana da Referência Negra, que será realizada a partir de hoje, no Centro de Referência da Música Carioca (Rua Conde de Bonfim, 824). A abertura acontecerá às 17h, com uma exposição de fotografias do Januário Garcia. Em seguida, às 19h, será dado o pontapé inicial do projeto Depoimentos Cariocas. Na estréia, o cantor e compositor Arlindo Cruz será entrevistado pelo jornalista Hugo Sukman.
. Hoje, a partir das 20h, o amigo Fernando Molica participará de um debate com o jornalista colombiano Eccehomo Cetina, autor de O tesouro - uma história de roubo nas Farcs (Record). Como informa o próprio Molica, o livro narra um episódio fantástico: o encontro, em 2004, por soldados do exército colombiano, de uma fortuna estimada em US$ 80 millhões. "A grana tinha sido enterrada por guerrilheiros no meio da selva. No obra, Cetina narra como soldados e oficiais ficaram ensandecidos diante de tanto dinheiro", completa Molica. A conversa será na Livraria da Conde, na Rua Conde de Bernadotte, no Leblon.
Luiza Dionísio e Alex Ribeiro: na Lapa
. Também hoje, mas às 22h, no Estrela da Lapa, o cantor Alex Ribeiro vai iniciar a turnê do show Todo menino é um rei. Filho do grande Roberto Ribeiro, Alex apresentará composições de sua autoria, como Império de bambas (homenagem a baluartes do Império Serrano) e relembrará sucessos do saudoso pai. O show contará com a participação especialíssima da querida Luiza Dionízio. O Estrela da Lapa fica na Av. Mem de Sá, 69.
. Na próxima semana, estarei em São Paulo, para participar da Balada Literária organizada pelo cabra Marcelino Freire. No evento, que este ano homenageará João Silvério Trevisan e contará com um show de Fabiana Cozza, vai reunir críticos e escritores, como João Ubaldo Ribeiro, Heloísa Buarque de Hollanda, Marcelo Coelho, Joca Reiners Terron, Reinaldo Moraes, Raimundo Carrero. Dividirei uma das mesas com o português José Luís Peixoto e o angolano João Mello. Saiba mais sobre a Balada aqui.
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O bamba Nei Lopes lançará seu primeiro romance
. E também na semana que vem, mais especificamente no dia 18, a partir das 18h, o querido Nei Lopes lançará seu primeiro romance: Mandingas da mulata velha na Cidade Nova. O lançamento do livro, que chega ao mercado pela Língua Geral, acontecerá na livraria do Unibanco Arteplex (Praia de Botafogo, 316), a partir das 19h.
O jornalista e crítico André Luís Mansur criou um blog especificamente voltado à veiculação das resenhas que ele vem publicando nos jornais desde 1995. Hoje, André postou sua gentil análise sobre Memória dos barcos, livro que lançei em 2001. Segue o início do texto. Leia a íntegra aqui.
"Contos sobre a saudade do que não há de voltar"
André Luis Mansur
"Em vez de ações contínuas e de final imprevisto, os contos de Marcelo Moutinho têm como tema principal a saudade. E nos introspectivos monólogos de seus personagens, o autor evita o perigoso terreno do melodrama e faz da impossibilidade de tudo voltar a ser o que era um sentimento mais profundo.
Na história que dá título ao livro, por exemplo, os barcos azuis da infância do protagonista estão no mesmo local, "com uma ou duas mãos de tinta a mais", mas ele já vive em um outro mundo e a sensação de melancolia é inevitável.
Neste raro momento em que ele pode vislumbrar o passado de forma tão viva, entre uma e outra viagem a trabalho, até mesmo um cartão de Natal caído no chão assume as proporções de um livro de memórias, quando se enviavam cartas apenas pelo prazer de receber cartas de volta, "ávidos, incomensuravelmente ávidos, por algo ou alguém que eleve nosso nome".
A menina que se agarra à árvore plantada pelo pai, já morto e substituído por um sujeito que discute com a sua mãe todos os dias, também se refugia no passado, mas encontra no fantástico, emoldurado pelo livro "Flicts", de Ziraldo, a alternativa que a vida, concreta como ela só, não dá. "Era como se a porta de entrada do quarto fosse a porta de saída do mundo" (...)
A matéria principal de O Globo de hoje, assinada pelos repórteres Chico Otavio e Cássio Bruno, revela apenas mais uma ponta da promíscua relação entre os bicheiros e os poderes constituídos no Rio de Janeiro. Para quem não leu, o texto revela que a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) pagou uma festa para os magistrados no encerramento do encontro do Colégio de Presidentes de Tribunais Regionais Eleitorais.
No evento, o então presidente do TRE-RJ, Motta Moraes, homenageou os bicheiros Aniz Abrahão David e Luizinho Drummond, que integram a cúpula da Liesa e, com a beneplécito da Prefeitura do Rio e - agora se vê - da Justiça eleitoral, mandam e desmandam no carnaval carioca.
É alvissareiro ver que ao menos parte da imprensa do Rio se nega ao elogio fácil e acrítico ao comando da Liesa, dispensa o uísque com sushi dos camatores da Sapucaí e mete o dedo nessa ferida.
Mas pra que licitação, né, prefeito Eduardo Paes? Pra quê?
P.S. Perguntado se não se incomodava de patrocinar eventos para magistrados, uma vez que integrantes da cúpula da Liesa têm graves problemas com a Justiça, o presidente da entidade, Jorge Castanheira, respondeu: "Magistrados? Não. Ao que me consta, são presidentes de TREs". Gênio da raça!
Obra-prima de Alfred Döblin, Berlin Alexanderplatz ganha nova tradução para o português
Marcelo Moutinho
Depois de vegetar por quatro anos na Prisão de Tegel devido ao assassinato de sua noiva, Franz Bikerkopf jurou a todo o mundo e a si mesmo levar uma vida decente. “No começo, dá certo. Mas então, embora esteja com as finanças remediadas, vê-se envolvido numa verdadeira batalha contra algo que vem de fora, algo imprevisível e que mais parece com o destino”, nos adverte, numa espécie de preâmbulo, um dos narradores de Berlin Alexanderplatz, a obra-prima de Alfref Döblin originalmente lançada em 1929 e que acaba de ganhar nova tradução no Brasil. O volume chega às livrarias com o acréscimo de dois comentários do autor – um de 1932, outro de 1955.
Marco da literatura expressionista alemã, o livro ganhou duas adaptações para as telas. A primeira, ainda na década de 30, sob a direção de Piel Jutzi. A segunda, bem mais conhecida, é a versão de Rainer Werner Fassbinder, que transformou o romance num filme com 15 horas e 21 minutos de duração.
Berlin Alexanderplatz é dividido em nove “livros” que descortinam a história do pobre Franz, da cadeia ao sanatório. Transitando por uma Berlim coalhada de proletários e malandros, o grandalhão Franz trabalha como operário e com o transporte de móveis, perambula pelas ruas, vende jornais, explora mulheres, bebe em quantidades industriais. E em todo esse percurso, padece como poucos numa espécie de “corredor polonês”, na definição do próprio Döblin.
Seu sofrimento não provém apenas da traição dos amigos, que em suas tantas e tão repetidas artimanhas farão com que ele perca um dos braços, além da mulher que ama. A angústia nasce, sobretudo, da impotência na luta contra aquele “destino” a que se refere Döblin. Franz é herói e vítima da Berlim do período entre guerras. E que Berlim é essa?
“É o lugar onde se dão as transformações mais violentas, onde guindastes e escavadeiras trabalham incessantemente, onde o solo treme com o impacto dessas máquinas, com as colunas de automóveis e com o rugido de trens subterrâneos, onde se escancaram, mais profundamente que em qualquer outro lugar, as vísceras da grande cidade”, informa o livro. É, ainda, um espaço onde “as massas tornavam-se cada vez mais visíveis (...). Um mundo de contrastes extremos, de usinas e quarteirões pobres atravessados por canais escuros que carregavam o lixo dos restaurantes caros”, como relata o historiador Luiz Nazário.
E essa cidade a quem o texto de Döblin desvela é, a exemplo de Franz, protagonista do romance. Não sob viés da louvação, da reverência. O autor não joga confetes sobre a terra natal. “Ele fala ‘a partir’ da cidade. Berlim é seu megafone”, observa Walter Benjamim no célebre ensaio que escreveu sobre o livro.
Döblin trata a cidade como um organismo vivo - e dotado de linguagem própria. Num minucioso trabalho de montagem, junta a voz dos narradores a manchetes de jornais, placas, anúncios, canções populares, informações sobre as tarifas dos bondes, dados estatísticos. Muitas vezes, como nos números sobre o abate de gado ou nos boletins sobre o tempo, há uma conexão silenciosa entre a informação e a trama: “Tempo agradável, com períodos amenos, um grau abaixo de zero. Alastra-se por toda a Alemanha uma zona de baixa pressão que põe um fim às condições metereológicas atuais em todo o território. (...) Durante o dia, as temperaturas deverão ser mais baixas do que até agora”.
Em outros momentos, a relação é mais evidente e chega a ganhar tons irônicos. Döblin é capaz de transitar, no mesmo parágrafo, da metafísica ao reclame: “Entretanto, não se tecem alianças eternas com as forças do destino. E o destino avança rápido. Se tiver dificuldades ao caminhar, use sapatos Leiser. Leiser é a maior sapataria da praça. E se não quiser caminhar, vá de carro: NSU convida-o para uma viagem de teste no automóvel de seis cilindros”.
O autor faz menção, também, ao processo de racionalização progressiva que o mundo então começava a experimentar. Isso ocorre, por exemplo, quando analisa o homicídio cometido por Franz a partir de uma perspectiva eminentemente científica. “O que acontecera um segundo antes com o tórax da criatura tem a ver com as leis da inércia e da elasticidade, de choque e de resistência. Sem o conhecimento destas leis o ocorrido é absolutamente incompreensível. Recorramos ao auxilio de fórmulas”, escreve ele, para em seguida citar as Leis de Newton.
Ainda no aspecto formal, há constante mistura de narradores – em primeira e terceira pessoa -, e uma profusão de gírias (“Menina, você é sapata?”), onomatopéias e alusões a mitos da tragédia grega e versículos da Bíblia, elementos não raramente combinados. Nesse mosaico, não existem fronteiras precisas. A busca é por reproduzir a polifonia da cidade.
“Raramente se havia narrado neste estilo, raramente a serenidade do leitor fora perturbada por ondas tão altas de acontecimentos e reflexões, raramente ele fora assim molhado, até os ossos, pela espuma da linguagem verdadeiramente falada”, observa Benjamin. Tratava-se, no fundo, de um projeto literário de Döblin. No artigo Aos romancistas e seus críticos. Programa berlinense, publicado em 1913, ele já defendia que a hegemonia do autor tinha que ser quebrada. “Eu não sou eu, mas a rua, a lanterna, este ou aquele acontecimento, e nada mais”, afirma o texto.
O rompimento com a clássica estrutura do romance – que levou a comparações com o Ulisses, de Joyce – serve ao comentário de temas caros ao Expressionismo, como a mecanização da sociedade, a degradação dos valores, a atrofia do homem nos grandes centros urbanos. Mas Berlin Alexanderplatz é também, e num plano mais amplo, um instantâneo do solo fertilizado por recessão, desemprego e fanatismo ideológico no qual Adolf Hitler plantou suas sementes. Ao redesenhar o cenário daquela Berlim em crise, tão vulnerável ao canto sedutor do totalitarismo, Döblin dá uma piscadela direta ao leitor transformando Franz em vendedor do Völkischer Beobachter. O Völkischer era o jornal do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, como esclarece a tradutora Irene Aron numa oportuna nota de rodapé. Sem alarde, a serpente gerava seu ovo.
Na esfera individual, a aventura épica daquele Franz que tanto ansiava por uma vida decente acaba por mostrar que “as coisas funcionam de uma maneira que os provérbios mais idiotas acabam por dar certo”, e “se um homem acredita que agora está tudo bem, nem tudo está tão bem assim”. Em sua provação, todos os trajetos previamente desenhados se dissolveram no correr dos dias. E como lhe sussurra a Morte poucos instantes antes de consumada sua primeira existência (sim, Döblin o ressuscitará, e com outro nome), ele foi cego, atrevido e arrogante ao esperar que “o mundo se transforme naquilo que deseja”. “O mundo não se importa consigo”, ela lhe diz ainda. E Franz entende: se “o homem põe, Deus dispõe”. Pouco adianta querer ser maior que o destino.
* Esta resenha foi publicada na capa do suplemento Ideias (Jornal no Brasil) no sábado passado
A importância de João do Rio dentro dos contextos urbanístico e literário da cidade será debatida em encontro acontecerá hoje, às 19h, na Capela Ecumênica da Uerj. O evento, com entrada franca, contará com as participações de Rachel Valença, vice-presidente de Carnaval do Império Serrano, escritora e pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, e do professor Felipe Ferreira, do Centro de Referência do Carnaval na universidade.
O debate O Rio de João do Rio precede curso que será promovido pela própria Uerj e no qual o professor Carlos Moreno pretende elaborar uma reflexão sobre a tessitura da narrativa a respeito do cotidiano da cidade. Serão 18 horas de aulas, sempre às segundas e quartas-feiras, das 19h às 22h, no período de 16 de novembro a 2 de dezembro.
O livro A alma encantadora das ruas, que serviu de inspiração para a criação do enredo do Império pela carnavalesca Rosa Magalhães, será um dos esteios do curso. Entre os temas trabalhados nas aulas, estarão a vida do escritor e sua singularidade como cronista, tendo como pano de fundo as transformações urbanísticas pela quais passava o Rio.
As inscrições para o curso, que custa R$ 250, podem ser feitas online (cepuerj@uerj.br) até o dia 11. Mais informações pelo telefone 2334-0639.
Na próxima quinta-feira, haverá a abertura oficial do projeto Paixão de Ler, promovido pela Secretaria de Cultura da Cidade do Rio de Janeiro. Estou fazendo a curadoria dos debates do evento, que acontecerão nos dias 7, 8, 10 e 12, na Biblioteca Pública de Botafogo (Rua Farani, 53), com entrada gratuita.
Entre os debatedores, estão Ferreira Gullar, Alcione Araújo, Antonio Cícero, Antonio Torres, Eucanaã Ferraz, Adriana Falcão, Marina Colasanti, Silviano Santiago, João Carlos Rodrigues, Luiz Antonio Aguiar, entre outros. Conto com a presença de vocês!
Segue a programação completa:
Sábado, dia 7 de novembro
14h - Por que ler poesia? –Antonio Cícero e Eucanaã Ferraz. Mediação: Bianca Ramoneda - atriz e jornalista – apresentadora do programa Starte, da Globonews
16h15 - Ficções do Rio – Antonio Torres e João Carlos Rodrigues. Mediação: Álvaro Costa e Silva - editor do caderno Idéias (Jornal do Brasil)
Domingo, dia 8 de novembro
14h – Imaginação: quando a palavra voa – Adriana Falcão e Silviano Santiago. Mediação: Flávio Carneiro - escritor, crítico literário e professor da Uerj
16h15 - A paixão de ler – Ferreira Gullar e Alcione Araújo. Mediação: Cristiane Costa - professora da UFRJ, ex-editora do caderno Idéias (Jornal do Brasil) e da revista Nossa História
Terça, dia 10 de novembro
15h – O bibliotecário como leitor – Nanci Nóbrega e Lúcia Fidalgo. Mediação: Ricardo Oiticica – pesquisador da Cátedra Unesco da Leitura
Quarta, dia 11 de novembro
15h – No reino da literatura infanto-juvenil – Marina Colasanti e Luiz Antonio Aguiar. Mediação: Manya Millen - editora do caderno Prosa & Verso (O Globo)