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Zaquia Jorge Escrito em 07 de outubro de 2009
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Zaquia Jorge, a "vedete principal do subúrbio da Central"

O jornal O Globo reportava, com destaque, em sua edição de 23 de abril de 1957:

"Quando um guarda-vidas retirou, do perau em que caíra, o corpo da vedete, Celeste Aída, uma das que a acompanhavam, abraçou-se ao cadáver, chorando copiosamente. Celeste Aída vira a amiga desaparecer e tudo fizera para salvá-la, não o conseguindo porque era muito fundo o perau. Enquanto ela se esforçava, os dois homens que integravam o grupo e que estavam longe aproximaram-se. Na areia, muito assustadas, cinco girls assistiam à luta de Celeste Aída, sem poder ajudá-la. Afinal, cansada e desanimada, Celeste Aída voltou às areias, Zaquia Jorge desaparecera e, quando foi encontrada, já estava quase sem vida. Morreu pouco depois”.

Zaquia Jorge, para quem não sabe, é a Estrela de Madureira cantada por Roberto Ribeiro no samba-enredo da dupla Acyr Pimentel e Cardoso, que acabou se transformando em sucesso nas rodas de todo o Brasil. O samba, aliás, concorreu no Império Serrano, mas não chegou à Avenida. Naquele ano de 1975, a escola cantou a composição de Avarese, vitoriosa na quadra, que se inicia com uma saudação à homenageada (“O Império deu o toque de alvorada / Teu samba a estrela despertou / A cidade está toda enfeitada / Pra ver a vedete que voltou”) e cujo refrão diz: “Baleiro, bala / grita o pregão assim / da Central a Madureira / É pregão até o fim”.

Na verdade, a vedete principal do subúrbio da Central já havia sido pranteada em outro samba, o célebre Madureira chorou (“Madureira chorou / Madureira chorou de dor / Quando a voz do destino / Obedecendo ao divino / A sua estrela chamou”), de Carvalhinho e Júlio Monteiro, gravado por Joel de Almeida em 1958.

O curioso é que tanto Estrela de Madureira quanto Madureira chorou são, hoje, pouco relacionados a ela, como pude confirmar na sexta passada numa conversa de bar com amigos do trabalho. Ao que parece, essa mulher tributária de tantas músicas e lágrimas é, atualmente, quase uma desconhecida.

E pensar que ao morrer, em 1957, Zaquia Jorge levou mais de 4 mil pessoas a seu velório, no Teatro de Revista Madureira. O próprio presidente da República na época, Juscelino Kubitscheck, pretendia comparecer ao funeral, como revelou a notícia publicada em O Globo: “Todavia, tarefas imprevistas, no Palácio do Catete, frustraram o seu propósito, pelo que o chefe do governo se fará representar no sepultamento da artista”.


O Teatro Madureira, que ganhou o nome da vedete antes de acabar

Completavam-se, então, cinco anos que Zaquia Jorge havia inaugurado a casa de espetáculos – o primeiro e único teatro de rebolado do subúrbio carioca. A estréia ocorreu com a peça Trem de luxo, inclusive mencionada no samba Estrela de Madureira ("E um trem de luxo parte / Para exaltar a sua arte / Que encantou Madureira").

A compra do teatro, que funciona no prédio onde hoje existe uma loja da rede Insinuante – deu-se após uma carreira de grande sucesso como vedete. Nos palcos e nas telas, pois ela atuou na década de 40 em filmes de Gilda de Abreu, Moacyr Fenelon e Luiz de Barros. A estrela da revista, porém, não deitou na fama. Abdicando da luz dos holofotes mais disputados da cidade, mostrou coragem e pioneirismo ao levar a arte para além do Centro e da Zona Sul.

A trágica morte da vedete, aos 32 anos, por afogamento na Praia da Barra, significou também o fim de seu teatro. Mas é bacana saber que, apesar do esquecimento, e mesmo que as pessoas em geral não saibam que aqueles sambas prestam um tributo, Zaquia Jorge é a todo tempo evocada. Como cantou Roberto Ribeiro, a estrela continua brilhando - e nos cantos mais remotos do país.

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