
O site Saraiva Conteúdo acaba de publicar uma entrevista que o jornalista e poeta Ramon Mello fez comigo, e que versa sobretudo sobre os livros que escrevi e organizei (as fotos são de Tomás Rangel). Publico, a seguir, o trecho inicial do texto. Confira a íntegra aqui.
"A infância está muito presente em seu livro "Somos todos iguais esta noite" (Rocco). Fale sobre esse período da sua vida.
Marcelo Moutinho – Em Memória dos barcos [7Letras], meu livro anterior, a infância não é tão presente. Quando estava escrevendo Somos todos iguais esta noite passei novamente a freqüentar a Madureira, meu bairro de infância, por conta do Império Serrano – sou apaixonado por escolas de samba. A quadra fica a 80 metros da loja do meu pai, mais ou menos, 600 metros da casa onde eu morava. E, também, perto da casa da minha bisavó, a matriarca da família, onde todos os parentes se reuniam. A visita a esses lugares da infância, aonde eu não ia há muitos anos porque morei 21 anos na Barra [da Tijuca], ficou muito latente na minha literatura. Não só os dilemas e lugares da infância, mas a própria ambientação.
O Rio de Janeiro é mostrado através um olhar que foge do clichê...
Moutinho – Porque o Rio do clichê é da Zona Sul.
Lembrei do trecho de uma canção do Chico Buarque: "o Cristo está de costas..."
Moutinho – É verdade. Tem uma música do Arlindo Cruz que diz: 'A oportunidade não cruza o Rebouças'. É um pouco isso, as imagens do Rio, em geral, não cruzam o Rebouças. Ou, se cruzam, são formas-clichê.
O contato com a literatura aconteceu na infância?
Moutinho – Na infância meu contato era muito maior com história em quadrinhos, de Mauricio de Sousa a Disney, eu lia muito. A literatura chegou através do interesse político. Em 86, aos 14 anos, durante a campanha do Gabeira para governador. Venho de uma família de conservadores de direita, comerciantes de Madureira, meu pai não tinha sequer o primeiro grau e minha mãe não completou o segundo. Então, eu não tive livros em casa, definitivamente. Sou de uma família de seis irmãos, a minha irmã mais velha se formou em jornalismo. Ela participava muito da campanha do Gabeira e eu acompanhava. Fui ao abraço da Lagoa e ao comício do dia 13 de novembro, antes da eleição, o que me rendeu brigas homéricas com meu pai – um xingava o outro. E, a partir desse momento, passei a ler tudo que você imagina. Não sei em que momento, nem exatamente o porquê, mas comecei a ler livros de ficção (...)"
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