
No domingo passado, o Caderno B (Jornal do Brasil) publicou matéria sobre a desimportância do gênero "conto" em nosso país - assunto para o qual já chamei a atenção aqui no blog algumas vezes. O texto, que reproduzo a seguir, é assinado pelo repórter Bolívar Torres.
"Cheques, só para romances: contistas sofrem com falta de atenção"
Bolívar Torres
"Na última terça, a escritora canadense Alice Munro, considerada uma das principais contistas da atualidade, venceu o Booker International Prize, que premia anualmente o conjunto da obra de um artista. Atípica para autores de narrativa curta, uma recompensa como a da fundação inglesa talvez demore a se reproduzir no Brasil. A prova está nas últimas edições das mais prestigiadas – ou mais rentáveis – premiações nacionais. Em seis anos, o vultoso cheque do vencedor do Portugal Telecom (R$ 100 mil entre 2003 e 2007, e R$ 200 mil desde 2008) só foi entregue a dois livros de contos: Os lados do círculo, do gaúcho Amílcar Bettega Barbosa, e Pico na veia, de Dalton Trevisan (que o dividiu com o romance Nove noites, de Bernardo Carvalho). Entre os 10 finalistas deste ano, aliás, há apenas uma coletânea do gênero (Ó, de Nuno Ramos). Já os R$ 200 mil do Prêmio São Paulo, outro dos mais bem pagos do país, se designam especialmente para prestigiar livros de ficção no gênero romance.
Se a narrativa curta brasileira viveu seu auge entre os anos 60 e 70, com expoentes que permanecem na ativa até hoje (como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Sergio Sant'Anna), e prêmios generosos como o Concurso Nacional de Contos do Paraná, hoje ensaia uma clara decadência, que se reflete no surgimento cada vez menor de contistas – e lugares cada vez mais vazios nas fileiras dos grandes concursos literários.
– Apesar de termos ótimos contistas, a desimportância do gênero no Brasil é flagrante – afirma o contista e jornalista Marcelo Moutinho, autor de Somos todos iguais esta noite e organizador da antologia Dicionário amoroso da língua portuguesa. – Os prêmios literários em geral privilegiam o romance.
O escritor não concorda com aqueles que apontam uma irregularidade intrínseca ao formato entre os produtos da categoria.
– A justificativa mais comum dos prêmios é que os livros de contos teriam variações de qualidade que impediriam uma avaliação precisa da obra. Balela – aponta Moutinho. – Flutuações desse tipo podem perfeitamente ocorrer em romances, não são privilégio das seletas de contos. Acredito que não há diferença de qualidade em si entre os gêneros literários. Há, sim, bons e maus livros de contos ou de poesia; bons e maus romances. Seja por nocaute ou por pontos, o importante é vencer o leitor, como bem disse o Cortázar. Aliás, ele próprio um grande contista.
Recém-premiado com o Jabuti na categoria romance com Manual da paixão solitária (que também concorre ao Prêmio São Paulo de Literatura deste ano), Moacyr Scliar é reconhecido como um dos principais contistas brasileiros da atualidade. Participou do boom do conto no país, entre os anos 60 e 70, mas acredita que o gênero sofreu uma queda nos últimos anos.
– É um fenômeno que não ocorre apenas no Brasil – precisa. – Antigamente, publicava-se muito em suplementos literários. Uma revista como a New Yorker chegava a publicar cinco contos por edição e pagava tão bem que era possível viver apenas de escrevê-los. Mas os jornais reduziram espaço e as editoras passaram a se interessar menos. O conto é um grande gênero, mas literário demais, o que o torna menos acessível.
Para Scliar, a ausência de contistas nas premiações se dá “por uma questão de opinião, da qual o mercado é um indicador”.
– O formato ficou numa classe parecida com a frase de Mario de Andrade, que diz que “é conto tudo o que o autor diz que é conto” – continua o autor. – Há contos maravilhosos, mas também outros que são apenas meia dúzia de devaneios chamados como tais. Ficou muito impreciso e difícil de distinguir quem tem talento.
Diante da má vontade geral, os autores brasileiros chegam a falar em preconceito.
– Entendo que infelizmente é costume, sim, se fazer uma espécie de “escadinha qualitativa” com relação aos gêneros literários, na qual o romance aparece no andar de cima, o conto no do meio, e a poesia no mais rente ao chão, numa escala que sugere juízo de valor prévio de acordo não com excelência, mas com extensão, ou a capacidade de venda, do texto – acredita Moutinho. – Uma pergunta que sempre ouço é: “E quando virá o romance?”, como se o fato de eu escrever contos fosse “insuficiente”, ou um estágio anterior.
Editor da Ediouro, Paulo Pires não crê, porém, em discriminação por parte das editoras. Ele admite que, para um escritor iniciante, o conto não é a melhor opção para fazer sua estreia literária, já que as grandes editoras publicam livros do gênero apenas em casos específicos. Mas lembra que recebe cada vez menos originais com narrativas curtas.
– Os autores falam em preconceito, mas não vejo assim – diz. – É uma questão de momento. Hoje vivemos a afirmação do romance. Cada época tem seu predomínio e os novos talentos são romancistas.
Considerado um gênero difícil, o conto não consegue se firmar no mercado. Os contistas iniciantes continuam sofrendo com a falta de interesse dos leitores – isso quando conseguem vencer a indiferença das grandes editoras, dispostas a investir no gênero apenas se tiverem autores consagrados em mãos.
– Acredito que o leitor costuma estabelecer uma relação mais profunda com o romance – diz Cadão Volpato, autor do livro de contos Relógio sem sol. – Talvez pela ideia do volume, tenda a achar que o conto é mais superficial. Mas a habilidade técnica do formato exige muito mais preparação do leitor. "
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