
O site Saraiva Conteúdo acaba de publicar uma entrevista que o jornalista e poeta Ramon Mello fez comigo, e que versa sobretudo sobre os livros que escrevi e organizei (as fotos são de Tomás Rangel). Publico, a seguir, o trecho inicial do texto. Confira a íntegra aqui.
"A infância está muito presente em seu livro "Somos todos iguais esta noite" (Rocco). Fale sobre esse período da sua vida.
Marcelo Moutinho – Em Memória dos barcos [7Letras], meu livro anterior, a infância não é tão presente. Quando estava escrevendo Somos todos iguais esta noite passei novamente a freqüentar a Madureira, meu bairro de infância, por conta do Império Serrano – sou apaixonado por escolas de samba. A quadra fica a 80 metros da loja do meu pai, mais ou menos, 600 metros da casa onde eu morava. E, também, perto da casa da minha bisavó, a matriarca da família, onde todos os parentes se reuniam. A visita a esses lugares da infância, aonde eu não ia há muitos anos porque morei 21 anos na Barra [da Tijuca], ficou muito latente na minha literatura. Não só os dilemas e lugares da infância, mas a própria ambientação.
O Rio de Janeiro é mostrado através um olhar que foge do clichê...
Moutinho – Porque o Rio do clichê é da Zona Sul.
Lembrei do trecho de uma canção do Chico Buarque: "o Cristo está de costas..."
Moutinho – É verdade. Tem uma música do Arlindo Cruz que diz: 'A oportunidade não cruza o Rebouças'. É um pouco isso, as imagens do Rio, em geral, não cruzam o Rebouças. Ou, se cruzam, são formas-clichê.
O contato com a literatura aconteceu na infância?
Moutinho – Na infância meu contato era muito maior com história em quadrinhos, de Mauricio de Sousa a Disney, eu lia muito. A literatura chegou através do interesse político. Em 86, aos 14 anos, durante a campanha do Gabeira para governador. Venho de uma família de conservadores de direita, comerciantes de Madureira, meu pai não tinha sequer o primeiro grau e minha mãe não completou o segundo. Então, eu não tive livros em casa, definitivamente. Sou de uma família de seis irmãos, a minha irmã mais velha se formou em jornalismo. Ela participava muito da campanha do Gabeira e eu acompanhava. Fui ao abraço da Lagoa e ao comício do dia 13 de novembro, antes da eleição, o que me rendeu brigas homéricas com meu pai – um xingava o outro. E, a partir desse momento, passei a ler tudo que você imagina. Não sei em que momento, nem exatamente o porquê, mas comecei a ler livros de ficção (...)"
O jornal Rascunho publicou, na edição de outubro, resenha do jornalista Maurício Melo Júnior sobre o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa. Segue a íntegra do texto:
"Para resistir ao acordo ortográfico"
Maurício Melo Júnior
"O gramático é um ser estranho que às vezes veste certa capa de praticidade. E aí começa a complicar a vida de todo mundo. A rigor, sua existência se deve à dinâmica da língua, para normatizar as inventividades da população que, de sua parte, move a permanente evolução de uma língua. Por meio de complicadores culturais, embora sendo a mesma nos vários lugares onde se manifesta, uma língua se reinventa em cada novo canto. Um pernambucano entende perfeitamente um gaúcho, mas ambos têm particularidades no falar que oferecem uma nova leitura cultural do mesmo fenômeno lingüístico. E aí está a riqueza de um idioma.
O imbróglio, perceptivo tão claramente em um mesmo país, se multiplica em dimensões incalculáveis quando atravessa fronteiras, vara oceanos, invade outros continentes. Mas aí vêm os gramáticos e propõem unificações que, a rigor, e talvez atingidas pelo tempo, tornam-se um entrave para a evolução natural do idioma.
Na rota de colisão às pretensões gramaticais surgem os escritores, usuários permanentes e caros do que podemos chamar de jeito de corpo que cada idioma ganha na conquista de um novo espaço. Num esforço bem interessante para firmar a defesa da diversidade, os escritores Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá reuniram um grupo de autores para escrever o Dicionário amoroso da língua portuguesa. Para se entender a dimensão do livro, basta ler o aviso impresso na sua capa: "Trinta e cinco palavras. Trinta e cinco autores. Quatro continentes. Um só idioma. A celebração da diversidade". Já para se conhecer a real grandeza do desafio, a leitura será mais longa, mas em compensação muito mais agradável e divertida.
O desafio foi seguido à risca. Cada um dos 35 autores elegeu uma palavra e sobre ela produziu um conto, um poema, uma crônica, um breve ensaio. Embora falando e escrevendo o mesmo idioma, o português, os escritores mantiveram suas particularidades. Assim a diversidade se construiu de maneira precisa e, sobretudo, legível. Da Água de Marcelo Moutinho ao Você de Henrique Rodrigues, as palavras ganharam dimensões inovadoras ao se mostrarem íntimas de seus eleitores. A Buceta de Fernando Molica quebra a gramática para se deixar grafar com u, e desperta todas as suas possibilidades eróticas. A Sandália de Ondjaki vê uma outra possibilidade, a dos caminhos. A Saudade de Antônio Torres vai além do lugar-comum de sua impossibilidade de tradução para revelar sua íntima sentimentalidade. A Palavra de Marcelino Freire se mostra pela ausência, pela conseqüência de uma miséria bem maior quando alguém deixa de dizê-la.
O livro se agiganta exatamente neste universo de possibilidades. Vai do lirismo à agressividade com a rapidez e a urgência que só a literatura bem construída permite. Raimundo Carrero pontua bem essa agilidade com a sua Sombra. Tudo começa com uma singela brincadeira infantil, o desejo de se livrar da própria sombra, para se chegar aos entraves todos de uma vida. É a palavra única, Sombra, que ganha outras vertentes e outros tantos sentidos num texto que surpreende pela possibilidade do riso.
"No piso das igrejas seculares é o pé sacrílego dos vivos que apaga a glória e a prosápia dos mortos, polindo pedras até transformá-las em espelhos de coisa nenhuma, alisando indiferentemente o mármore até devolvê-lo à sua lisa mudez de rocha", escreve Alexei Bueno para falar do Oblívio, a fatalidade da passagem permanente, infinda, um quase sinônimo de morte, uma palavra tão constante nesta antologia. Armando Freitas Filho é quem a encara de frente, a palavra Morte. Com se escrevesse um verbete de dicionário, o escritor vai enumerando as peculiaridades da morte, sua certeza, sua crueldade, sua previsibilidade. No entanto, foge do óbvio ao catar a poesia que existe também na tragicidade: "A Morte aguarda no silêncio no intervalo entre uma entre outra entre cada batida do coração."
Embora a maioria escreva contos e contos, há dois interessantes ensaios que, sem fugir do pressuposto da poesia, da literatura, refletem sobre a condição humana. A partir da palavra Moderno, Antonio Cícero busca compreender e explicar o sentido da modernidade. Tudo começa na lógica do tempo. A modernidade se explica no hoje, no agora, no instante preciso em que se vive. Passado o fervor, tudo se mostra antigo, ultrapassado, longe do moderno, fazendo do homem um eterno contemporâneo do antigo. É uma lição que, curiosamente, se une à escolha de Desidério Murcho, Verdade. Há no texto uma frase que pode resumir todo ele: "Não atender à justiça é uma das formas de não atender à verdade". Este paralelo entre justiça e verdade dita as convicções do texto, uma bela análise sobre a consolidação da verdade cartesiana na cultura latina.
E assim caminha este suave, mas vigoroso, protesto contra as unificações gramaticais. Com muita poesia, os escritores tecem seu grito, fogem do silêncio que, num belíssimo dizer de Ana Paula Tavares, se aprendia no berço: "Fiar o silêncio era coisa aprendida pelas mães e passada aos filhos com o primeiro leite e o medo". E fugir do medo é a principal ação de uma rebeldia.
Estes 35 escritores se rebelam em defesa da permanente diversidade".
Personagem de si mesmo
Marcelo Moutinho
Corriam os anos 70. A tarde se desenrolava sem sobressaltos na redação da revista Pop quando alguém entregou a Paula Dipp, repórter ainda iniciante, um recado sob forma de bilhete. “Todos já receberam o convite para seu aniversário; por acaso você teria se esquecido de mim ou ainda posso ter esperanças de ser convidado?”, dizia o texto. Assinava Caio Fernando Abreu.
Paula organizara uma "festa de arromba". "Enviei convites, avisei pessoas, e o Caio, justo ele, foi ficando para trás. (...) Não foi esquecimento e sim uma espécie de cautela. Adiei o convite porque ele me intimidava”, conta ela, que acaba de cumprir, com a publicação de Pra sempre teu, Caio F, a promessa feita numa das tantas correspondências trocadas com o escritor após aquele episódio inaugural: reabrir seu baú de guardados e tirar da penumbra os afetos, as dores e idiossincrasias que moldaram quase 20 anos de amizade. Do início, farto em afinidades e promessas, ao último telefonema, a voz de Caio cambaleante falando da bem-sucedida cirurgia na vesícula.
Missivista contumaz, o escritor sempre insistiu em que a gente não devia permitir que as cartas se tornassem obsoletas, “mesmo que, talvez, já tenham se tornado”. Hoje possivelmente enviaria e-mails com a mesma intensidade. “As cartas eram uma forma de organizar a vida, a dele e a nossa”, comenta Paula no livro, cuja essência é justamente o teor dessas correspondências, às quais ela adicionou depoimentos, muitos depoimentos, de gente que conviveu com o autor. De Antonio Bivar a Adriana Calcanhotto. De José Márcio Penido a Marcos Breda. De Maria Adelaide Amaral a Okky de Souza.
Entre afagos e críticas algumas vezes duras, o livro contempla o escritor soturno que varava madrugadas em busca de inspiração, o jornalista que não atrasava a entrega dos textos, o ser marcadamente gregário, a personalidade instável, vertentes que nem sempre pareciam se integrar. Além disso, o sujeito encrenqueiro, o comentarista mordaz, o homem carente capaz de cenas públicas de ciúme, como a que se deu na redação da Pop.
Para reconstituir essa história, Paula se fez também personagem. E não se limitou a tratar do que é matéria íntima. Em mais de 500 páginas, pavimentou a trajetória do autor com as imagens, as modas, os humores, enfim, com os ícones que constituíram o zeitgeist da geração pós-ditadura. Até porque Caio surfou todas as ondas. Vibrou nas cordas lisérgicas do movimento hippie, gritou contra a burguesia ao lado dos punks, botou broche do PT no peito. Transou quiromancia, tarô, foi a cartomantes. Leu o I Ching, frequentou o Santo Daime, terreiros de Candomblé. E, no esteio desses muitos percursos, personificou, talvez como nenhum outro ficcionista, a mixórdia de inocência e esperança que animava os corações àquela época.
Paula traz revelações interessantes sobre a criação de obras como “Morangos mofados” e “Onde andará Dulce Veiga?”. Exemplo: a obsessão de Caio por desenhar os mapas astrais dos personagens, fixando data, hora e local de nascimento, para depois montar um perfil psicológico adequado e então começar a escrever. Essa paixão pela astrologia seria levada ao paroxismo em “Triângulo das águas”, cujas três novelas se inspiram nos arquétipos de Peixes, Câncer e Escorpião.
O livro cataloga também expressões que ele criou, com algum humor e muito sarcasmo, e que saíram de seu vocabulário pessoal para o repertório de pessoas próximas, como a própria Paula. “Lasanha”, para designar homem bonito; “adendo”, para os “chatos que colam na gente”; “nigrinha”, para gente simples que se quer descolada, mas batalha pesado pela sobrevivência. “Nigrinha não falta a vernissage por causa das empadinhas e não paga impulso de jeito maneira. Só liga da repartição”, fazia graça.
Pra sempre teu, Caio F. ajuda a confirmar que o sonho/temor que o autor mantinha quanto à glória póstuma se efetivou. Mais de 50 teses a seu respeito já foram defendidas ou estão em andamento, no Brasil e no exterior. Suas obras foram relançadas, as peças de teatro estão agrupadas num volume caprichado e as cartas, compiladas em livro. Ele é simplesmente “o Caio”, tal a afinidade com seus escritos, para muitos jovens fãs que mal andavam em 1996. E acaba de ganhar uma biografia: “Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável”, da jornalista Jeanne Callegari.
Em narrativa linear, Jeanne descortina a errante caminhada do autor, desde o menino-cinéfilo da pequena cidade gaúcha de Santiago do Boqueirão; passando pelas temporadas na Europa, onde chegou a morar em casas invadidas; pelos ciclos místicos no sítio de Hilda Hilst; até desembocar no drama da Aids. Há agora uma moda de se falar em “auto-ficção”. O conceito se aplica à perfeição: narrador e personagem, Caio o tempo todo escreveu a si mesmo.
Os livros de Paula e Jeanne têm algo em comum. Ambos espelham a eterna procura que se refletiu em seus contos, suas crônicas, suas cartas, seus romances, numa imbricação em que vida e obra se alimentaram sempre, mutuamente, e que ele sintetizou num texto-desabafo publicado na revista Around: “O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor. Até as relações de produção, a luta de classes, a ecologia, o jogo pelo poder: tudo, questão de amor, (...) o nome que inventamos para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados”.
A impressão é que, mesmo ante a sensação de fracasso por nunca experimentar um acontecimento externo “que justificasse toda a largueza de dentro”, como lamenta o personagem do conto “A chave a porta”; mesmo sob o sol negro que luziu melancolia sobre a maior parte de seus dias, Caio no fundo sempre soube tirar, das coisas, a beleza possível. Em 1978, talvez sem uma consciência precisa, ele mesmo sugeria isso ao afirmar: “Moro sozinho, minha casa é muito bonita, eu sempre digo que posso ter uma solidão medonha, mas sempre vai haver um vasinho de flores num canto. A gente pode enfeitar a amargura”.
Ainda assim, foi surpreendente o modo como enfrentou o diagnóstico da contaminação pelo HIV, fatal naquela década de 90. Ele pedia apenas para ver o ano de 2000 chegar (não deu), e trocou o natural pavor diante da morte inevitável pela serenidade de quem cultiva rosas no jardim de casa, sorvendo o mel que cada fino grão de segundo pode oferecer. “Aquilo que eu supunha fosse o caminho do inferno está juncado de anjos. Aquilo que suja treva parecia guarda seu fio de luz”, declarou, como se renovasse a certeza de que, quando mofam os morangos, há como se colherem outros, “vivos, vermelhos”. Há sempre como se plantar.
* Esta é a versão sem cortes da resenha publicada hoje no caderno Prosa & Verso (O Globo)
No próximo sábado, às 17h, vou participar da Festa Literária da Edem, que integra a quarta edição do evento Arte em Laranjeiras e Cosme Velho. Estarei, ao lado dos bravos Flavio Izhaki, Henrique Rodrigues e Cesar Cardoso, na mesa que debaterá Literatura e internet, com mediação do editor assistente do caderno Prosa & Verso (O Globo), Miguel Conde.
A Festa da Edem terá também painéis sobre a literatura infanto-juvenil, oficinas de animação, contação de histórias, rodas de leituras e a encenação de contos de Machado de Assis. Confira a pauta completa aqui. A Edem fica na Rua Gago Coutinho, 14.
Vale dizer que, seguindo os moldes do evento que acontece todo ano em Santa Teresa, o Arte em Laranjeiras e Cosme Velho, inclui muitos outras atrações - não só na área da literatura, mas do cinema, do teatro, da arte circense e da gastronomia. Acesse aqui todas as informações sobre a programação.
Em sua coluna de ontem na Folha de S. Paulo, o Luiz Fernando Vianna conectou, com perspicácia, dois assuntos da pauta carioca: a vitória do samba de Martinho da Vila na Unidos de Vila Isabel e o abate de um helicóptero da política por traficantes do Morro dos Macacos. O texto, que se segue, vale a leitura.
"Helicóptero cai, Martinho não sobe"
Luiz Fernando Vianna
"Um helicóptero da polícia sobrevoa uma favela do Rio, é atingido por tiros, pega fogo e cai com mortos. Isso aconteceu em 16 de novembro de 1984, no morro do Juramento, numa operação para prender José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha.
No mesmo ano, saiu o disco "Martinho da Vila Isabel", um dos melhores da carreira do sambista e no qual ele aparece, na contracapa, no alto do morro dos Macacos.
Os traficantes levaram 25 anos para derrubar outra aeronave policial. Demoraram muito. Já tinham mostrado afinidade com o meio de transporte em 1986, quando içaram Escadinha do presídio de Ilha Grande numa fuga espetacular. De lá para cá, têm reforçado o seu armamento e, apesar da alta rotatividade da mão de obra, a sua mira.
Martinho levou muito menos tempo para se afastar das tendinhas do morro que tanto frequentou e cantou. Em 1992, ainda podia desejar em "Alô" morar "até mesmo num barraco/ Naquele Macaco do meu coração". No final da década passada, já não circulava mais por lá. E em 2005 reconheceu que só "Quando Essa Onda Passar" ele poderia "pegar o Mané do Cavaco/ E levar pra uma roda de samba/ No meu morro dos Macacos".
Escadinha foi assassinado em 2004, quando saía do presídio para trabalhar. Tinha 48 anos. Demorou muito. Traficante coroa não é algo que se encontre no Rio. Quem é um pouco mais velho está, na melhor das hipóteses, dando ordens de um presídio de segurança máxima.
Martinho, 71, ganhou a disputa de samba-enredo na Unidos de Vila Isabel para o próximo Carnaval. A letra homenageia Noel Rosa. O encontro simbólico entre os dois maiores nomes do bairro foi visto como sinal de novos tempos para o Rio. O último sábado provou que ainda falta muito para a cidade voltar a merecer Martinho e Noel."
Flagrante da apresentação do samba campeão, o preferido da quadra
Na madrugada de hoje, numa festa que transcendeu a quadra (lotada) e chegou à rua Edgard Romero, o Império Serrano escolheu o samba-enredo para o carnaval de 2010. Foi um pleito democrático, no qual todos os setores da escola puderam votar (coisa rara no meio), e que resultou na vitória do hino composto por Marcelo Ramos, Henrique Hoffmann, Paulinho Valença, Willian Black e Popeye.
O fim da festa, que se estendeu pela rua Edgard Romero
Meu samba preferido - e que recebeu o voto do Departamento de Comunicação - era o da parceria Ivan Milanez, Aranha, Luiz Fernando, Fabinho Professor e Marcelão. Ficou em segundo lugar, posição honradíssima. Agora, meu samba preferido é outro, é o samba que o Império Serrano escolheu (ouça aqui).
"João das Ruas do Rio"
Marcelo Ramos, Henrique Hoffmann, Paulinho Valença, Willian Black e Popeye
"Vou levar meu samba por aí
Passeando pelas ruas
Feliz da vida
Saindo da Misericórdia onde tudo começou
Mistura de raças, a diversidade
No largo do Paço, a primeira cidade
Um encontro com a riqueza de culturas
Julieta na janela esperando seu amor
Pelas ruas do joão do rio
Chegando ao cais a força do estivador
Vem que o império te leva
Vem recitar poesias em canções
E nos boulevares e vielas
Vem ouvir o canto das favelas
Tem santo pra tudo
É a fé como escudo
Me amparo na lança do santo guerreiro
Livros e jornais, pintores geniais
Revistas, cantores e artistas
Ah! E nas ruas do centro o carnaval
Cordões, mais um show de alegria
Hoje flanelinhas, ambulantes camelôs
Cenário natural do dia a dia
Numa explosão de emoção
É verde-e-branca essa paixão
É um caso sério
E na Serrinha ecoa a voz de uma nação que diz:
Sou império!"
Amanhã, às 15h, estarei na Biblioteca Municipal de Botafogo (Rua Farani , 53), participando da Semana de Leitura da Prefeitura do Rio. Vou ler meus contos e conversar com o público sobre literatura. A conversa é aberta ao público.
No domingo passado, o Caderno B (Jornal do Brasil) publicou matéria sobre a desimportância do gênero "conto" em nosso país - assunto para o qual já chamei a atenção aqui no blog algumas vezes. O texto, que reproduzo a seguir, é assinado pelo repórter Bolívar Torres.
"Cheques, só para romances: contistas sofrem com falta de atenção"
Bolívar Torres
"Na última terça, a escritora canadense Alice Munro, considerada uma das principais contistas da atualidade, venceu o Booker International Prize, que premia anualmente o conjunto da obra de um artista. Atípica para autores de narrativa curta, uma recompensa como a da fundação inglesa talvez demore a se reproduzir no Brasil. A prova está nas últimas edições das mais prestigiadas – ou mais rentáveis – premiações nacionais. Em seis anos, o vultoso cheque do vencedor do Portugal Telecom (R$ 100 mil entre 2003 e 2007, e R$ 200 mil desde 2008) só foi entregue a dois livros de contos: Os lados do círculo, do gaúcho Amílcar Bettega Barbosa, e Pico na veia, de Dalton Trevisan (que o dividiu com o romance Nove noites, de Bernardo Carvalho). Entre os 10 finalistas deste ano, aliás, há apenas uma coletânea do gênero (Ó, de Nuno Ramos). Já os R$ 200 mil do Prêmio São Paulo, outro dos mais bem pagos do país, se designam especialmente para prestigiar livros de ficção no gênero romance.
Se a narrativa curta brasileira viveu seu auge entre os anos 60 e 70, com expoentes que permanecem na ativa até hoje (como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Sergio Sant'Anna), e prêmios generosos como o Concurso Nacional de Contos do Paraná, hoje ensaia uma clara decadência, que se reflete no surgimento cada vez menor de contistas – e lugares cada vez mais vazios nas fileiras dos grandes concursos literários.
– Apesar de termos ótimos contistas, a desimportância do gênero no Brasil é flagrante – afirma o contista e jornalista Marcelo Moutinho, autor de Somos todos iguais esta noite e organizador da antologia Dicionário amoroso da língua portuguesa. – Os prêmios literários em geral privilegiam o romance.
O escritor não concorda com aqueles que apontam uma irregularidade intrínseca ao formato entre os produtos da categoria.
– A justificativa mais comum dos prêmios é que os livros de contos teriam variações de qualidade que impediriam uma avaliação precisa da obra. Balela – aponta Moutinho. – Flutuações desse tipo podem perfeitamente ocorrer em romances, não são privilégio das seletas de contos. Acredito que não há diferença de qualidade em si entre os gêneros literários. Há, sim, bons e maus livros de contos ou de poesia; bons e maus romances. Seja por nocaute ou por pontos, o importante é vencer o leitor, como bem disse o Cortázar. Aliás, ele próprio um grande contista.
Recém-premiado com o Jabuti na categoria romance com Manual da paixão solitária (que também concorre ao Prêmio São Paulo de Literatura deste ano), Moacyr Scliar é reconhecido como um dos principais contistas brasileiros da atualidade. Participou do boom do conto no país, entre os anos 60 e 70, mas acredita que o gênero sofreu uma queda nos últimos anos.
– É um fenômeno que não ocorre apenas no Brasil – precisa. – Antigamente, publicava-se muito em suplementos literários. Uma revista como a New Yorker chegava a publicar cinco contos por edição e pagava tão bem que era possível viver apenas de escrevê-los. Mas os jornais reduziram espaço e as editoras passaram a se interessar menos. O conto é um grande gênero, mas literário demais, o que o torna menos acessível.
Para Scliar, a ausência de contistas nas premiações se dá “por uma questão de opinião, da qual o mercado é um indicador”.
– O formato ficou numa classe parecida com a frase de Mario de Andrade, que diz que “é conto tudo o que o autor diz que é conto” – continua o autor. – Há contos maravilhosos, mas também outros que são apenas meia dúzia de devaneios chamados como tais. Ficou muito impreciso e difícil de distinguir quem tem talento.
Diante da má vontade geral, os autores brasileiros chegam a falar em preconceito.
– Entendo que infelizmente é costume, sim, se fazer uma espécie de “escadinha qualitativa” com relação aos gêneros literários, na qual o romance aparece no andar de cima, o conto no do meio, e a poesia no mais rente ao chão, numa escala que sugere juízo de valor prévio de acordo não com excelência, mas com extensão, ou a capacidade de venda, do texto – acredita Moutinho. – Uma pergunta que sempre ouço é: “E quando virá o romance?”, como se o fato de eu escrever contos fosse “insuficiente”, ou um estágio anterior.
Editor da Ediouro, Paulo Pires não crê, porém, em discriminação por parte das editoras. Ele admite que, para um escritor iniciante, o conto não é a melhor opção para fazer sua estreia literária, já que as grandes editoras publicam livros do gênero apenas em casos específicos. Mas lembra que recebe cada vez menos originais com narrativas curtas.
– Os autores falam em preconceito, mas não vejo assim – diz. – É uma questão de momento. Hoje vivemos a afirmação do romance. Cada época tem seu predomínio e os novos talentos são romancistas.
Considerado um gênero difícil, o conto não consegue se firmar no mercado. Os contistas iniciantes continuam sofrendo com a falta de interesse dos leitores – isso quando conseguem vencer a indiferença das grandes editoras, dispostas a investir no gênero apenas se tiverem autores consagrados em mãos.
– Acredito que o leitor costuma estabelecer uma relação mais profunda com o romance – diz Cadão Volpato, autor do livro de contos Relógio sem sol. – Talvez pela ideia do volume, tenda a achar que o conto é mais superficial. Mas a habilidade técnica do formato exige muito mais preparação do leitor. "
Esta é a camisa oficial do enredo João das Ruas do Rio, que o Império Serrano levará à Avenida em 2010. Adorei (sobretudo o fundo feito com jornais antigos). Há muito tempo minha escola não tinha uma camisa tão bonita...
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Zaquia Jorge, a "vedete principal do subúrbio da Central"
O jornal O Globo reportava, com destaque, em sua edição de 23 de abril de 1957:
"Quando um guarda-vidas retirou, do perau em que caíra, o corpo da vedete, Celeste Aída, uma das que a acompanhavam, abraçou-se ao cadáver, chorando copiosamente. Celeste Aída vira a amiga desaparecer e tudo fizera para salvá-la, não o conseguindo porque era muito fundo o perau. Enquanto ela se esforçava, os dois homens que integravam o grupo e que estavam longe aproximaram-se. Na areia, muito assustadas, cinco girls assistiam à luta de Celeste Aída, sem poder ajudá-la. Afinal, cansada e desanimada, Celeste Aída voltou às areias, Zaquia Jorge desaparecera e, quando foi encontrada, já estava quase sem vida. Morreu pouco depois”.
Zaquia Jorge, para quem não sabe, é a Estrela de Madureira cantada por Roberto Ribeiro no samba-enredo da dupla Acyr Pimentel e Cardoso, que acabou se transformando em sucesso nas rodas de todo o Brasil. O samba, aliás, concorreu no Império Serrano, mas não chegou à Avenida. Naquele ano de 1975, a escola cantou a composição de Avarese, vitoriosa na quadra, que se inicia com uma saudação à homenageada (“O Império deu o toque de alvorada / Teu samba a estrela despertou / A cidade está toda enfeitada / Pra ver a vedete que voltou”) e cujo refrão diz: “Baleiro, bala / grita o pregão assim / da Central a Madureira / É pregão até o fim”.
Na verdade, a vedete principal do subúrbio da Central já havia sido pranteada em outro samba, o célebre Madureira chorou (“Madureira chorou / Madureira chorou de dor / Quando a voz do destino / Obedecendo ao divino / A sua estrela chamou”), de Carvalhinho e Júlio Monteiro, gravado por Joel de Almeida em 1958.
O curioso é que tanto Estrela de Madureira quanto Madureira chorou são, hoje, pouco relacionados a ela, como pude confirmar na sexta passada numa conversa de bar com amigos do trabalho. Ao que parece, essa mulher tributária de tantas músicas e lágrimas é, atualmente, quase uma desconhecida.
E pensar que ao morrer, em 1957, Zaquia Jorge levou mais de 4 mil pessoas a seu velório, no Teatro de Revista Madureira. O próprio presidente da República na época, Juscelino Kubitscheck, pretendia comparecer ao funeral, como revelou a notícia publicada em O Globo: “Todavia, tarefas imprevistas, no Palácio do Catete, frustraram o seu propósito, pelo que o chefe do governo se fará representar no sepultamento da artista”.
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O Teatro Madureira, que ganhou o nome da vedete antes de acabar
Completavam-se, então, cinco anos que Zaquia Jorge havia inaugurado a casa de espetáculos – o primeiro e único teatro de rebolado do subúrbio carioca. A estréia ocorreu com a peça Trem de luxo, inclusive mencionada no samba Estrela de Madureira ("E um trem de luxo parte / Para exaltar a sua arte / Que encantou Madureira").
A compra do teatro, que funciona no prédio onde hoje existe uma loja da rede Insinuante – deu-se após uma carreira de grande sucesso como vedete. Nos palcos e nas telas, pois ela atuou na década de 40 em filmes de Gilda de Abreu, Moacyr Fenelon e Luiz de Barros. A estrela da revista, porém, não deitou na fama. Abdicando da luz dos holofotes mais disputados da cidade, mostrou coragem e pioneirismo ao levar a arte para além do Centro e da Zona Sul.
A trágica morte da vedete, aos 32 anos, por afogamento na Praia da Barra, significou também o fim de seu teatro. Mas é bacana saber que, apesar do esquecimento, e mesmo que as pessoas em geral não saibam que aqueles sambas prestam um tributo, Zaquia Jorge é a todo tempo evocada. Como cantou Roberto Ribeiro, a estrela continua brilhando - e nos cantos mais remotos do país.
Esta é a logo oficial do enredo do Império Serrano para 2010: João das ruas do Rio. A escolha do samba que a escola levará à Sapucaí já está na reta final. Depois de várias eliminatórias, restam cinco composições, das quais três sobreviverão até a decisão do próximo dia 19. No site Tribuneiros, há um link para o áudio dos cinco sambas semifinalistas (trechos das letras abaixo). Acesse aqui.
“Tem santo pra tudo / É a fé como escudo / Me amparo na lança do Santo Guerreiro / Livros e jornais, pintores geniais / Revistas, cantores e artistas / Ah! E nas ruas do Centro o carnaval / Cordões, mais um show de alegria / Hoje flanelinhas, ambulantes camelôs / Cenário natural do dia a dia”
Marcelo Ramos, Henrique Hoffmann, Paulinho Valença, Willian Black e Popeye
"Tem vendedor de rato, e pro moleque um braço / Até pro mar sagrado oração / Heróis de tabuletas / Celebridades dessa São Sebastião/ Nomes curiosos, calçadas musicais / E, na Ouvidor, cordões nos carnavais / O tempo passou, é outra paisagem / Roupa nova, antigos personagens ”
Ivan Milanez, Aranha, Luiz Fernando, Fabinho Professor e Marcellão
“Serrinha vem mostrar na Avenida / Que a rua tem alma, é vida / Que nasce em cada casa construída / Buscando sossego, salubridade / É encontro da diversidade / O que a estrada é pro mundo a rua é pra cidade / Ganância, malandragem e sofrimento / Nesse paço surgiu o Rio de Janeiro / Nas ruas, o amor de Julieta e Romeu / Era diferente, mas verdadeiro”
Arlindo Cruz, Maurição, Carlos Senna, João Bosco e Arlindo Neto
“Dancei o reisado, brinquei nos cordões / Vi a cidade crescer, que alegria / Transportes, construções, ruas e bairros / Heróis buscando o pão de cada dia / Flanelinhas, camelôs, malabaristas nos sinais / A esperança dessa gente hospitaleira / Amo o fervo da cidade, as ruas de Madureira”
Chupeta, Luisinho Oliveira, Marcio Andrade e Lucio Moraes
“Os cordões que me levam pra lá e pra cá / Belas paisagens, vendedores varejistas / Nas tabuletas os brasões da evolução / O circo armado, eu tô na pista / É carnaval, eu sou mais um joão”
Paulo Samara, Lula Antunes, Jóia, Beto BR e Luizinho Professor
P. S. Ainda sobre o Império: em breve, muito em breve, a escola vai ter um blog.
"dotes"
Bruna Beber
"coleciono mas não leio
cartas antigas, anúncios de
almanaque
em latas de goiabada nolasco
sei que estou em permanente
mudança
porque todos os dias abro e fecho
gavetas e caixas
no entando aprendi pouco sobre
apostas
e temporais, so sei que levam
muito mais do que trazem"
* Este poema faz parte de 'Balés' (Língua Geral), o novo livro da Bruna
Com a Copa do Mundo de Futebol 2014 e, agora, a escolha como cidade-sede das Olimpíadas 2016, o Rio de Janeiro pode começar a retomar o protagonismo - de identidade, de relevância, de importância cultural - que a grana de São Paulo tentava comprar já há algum tempo, e de forma pouco generosa. A vitória é de todo o país, mas especialmente importante para os cariocas e para os que escolheram a Cidade Maravilhosa, hoje tão combalida, para viver.
Este é mais um curta da série dirigida por Fernando Sabino e David Neves sobre escritores brasileiros. O filme traz lindos planos em preto e branco da cidade esvaziada, sequências de Manuel Bandeira caminhando pelo Centro, comprando leite, fazendo torradas, em suma, cumprindo tarefas prosaicas do cotidiano - que foi, desde sempre, a principal matéria-prima de seus poemas.