
A amiga Adriana Lisboa indicou, em seu blog, a entrevista que o escritor Rodrigo Lacerda concedeu ao jornal Rascunho em sua mais recente edição. As observações do Rodrigo, a quem tive o prazer de encontrar na Bienal, são, realmente, muito lúcidas. Assim como a Adriana, destaco o trecho em que ele trata das avaliações sobre a literatura brasileira contemporânea, no mais das vezes apressadas e generalizadoras, na linha do "não li e não gostei". Quando confrontado sobre o assunto, Rodrigo é preciso, como vocês podem constatar:
"(Rascunho) Em recente entrevista à revista Continente (de Recife), o português João Pereira Coutinho (cronista da Folha de S. Paulo) disse: "A literatura contemporânea brasileira é muito pobre. Da nova geração prefiro nem falar". O senhor, obviamente, deve discordar desta opinião. A literatura brasileira desmente tal afirmação ou Coutinho tem um pouco de razão?
(RL) Bem, ele tem todo o direito de acreditar nisso, mas acho que depende do que se busca na literatura. Eu, antes de tudo, busco nela a mesma coisa que busco nas outras formas de arte: uma história bem contada, isto é, aquela que constrói um fluxo envolvente e cujas situações transmitem eficientemente os dramas dos personagens, estabelecendo contato emocional com o leitor. Um romance, um conto, uma poesia, uma música popular ou erudita, um filme, uma peça, sempre me atraem mais quando contam uma história segundo esses critérios. Outro português, o Eça de Queiroz, dizia que "Contar uma história é a atividade mais generosa que um homem pode exercer". Para os que pensam assim, e eu sou um deles, a literatura contemporânea está longe de ser um cenário de desolação. Eu, do meu modesto ponto de vista, me sinto bastante bem atendido por exemplo com os romances do Milton Hatoum, do Bernardo Carvalho, do Cristovão Tezza, do Bernardo Ajzenberg, ou com os contos do Rubens Figueiredo, etc. São todos ótimos narradores, e há muitos outros nomes disponíveis. Suponho que esse crítico tenha interesses diferentes dos meus em relação à literatura. Talvez ele julgue a literatura contemporânea, não só no Brasil, muito conservadora do ponto de vista formal. Talvez o irrite um movimento predominante de resgate dos gêneros, décadas atrás abolidos pelas vanguardas; um certo comodismo no uso da linguagem; um retorno ao compromisso narrativo. Esse diagnóstico pode se explicar por um certo saudosismo em relação às experimentações estéticas de vanguarda; por uma questão de patrulhamento ideológico, para que continuemos cometendo o erro que a Geração 70 cometeu; ou ainda por uma relação excessivamente racionalista com a literatura, como se ela devesse se obrigar a ser, antes de tudo, algo a serviço da verve intelectual deles, críticos especializados, e a concretize as suas expectativas. Os críticos que recusam a literatura brasileira contemporânea, quando vão ao cinema, consomem e elogiam estratégias narrativas e de comunicação com o público que são as mesmas usadas na literatura contemporânea. Mas, por algum motivo que me escapa, a grandeza da literatura deve ser mantida acima do leitor comum. Em resumo, essa visão de que nada presta na produção contemporânea esconde, a meu ver, uma postura essencialmente elitista, ou um delírio de vaidade. Isso não significa que nós escritores devamos "baratear" nossa obra para sermos acessíveis, mas o retorno dos gêneros, o uso de uma linguagem mais próxima ao leitor e a revalorização do enredo talvez sejam sinais de que a literatura redescobriu sua verdadeira prioridade, que não é nem a ideologia revolucionária, nem o público acadêmico e nem a crítica de jornal. A verdadeira prioridade é estabelecer o contato emocional entre o autor e os leitores. É dessa generosidade que falava o Eça."
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