Voltar para Página Principal
Blog
Clicando nos botões ao lado você aumenta o tamanho da fonte do textoDiminui FonteAumenta Fonte
»
Herivelto no toca-fitas Escrito em 29 de setembro de 2009
separador

Até hoje me lembro do repertório que meu pai guardava em fitas cassete e que configurava, ao lado dos programas Haroldo de Andrade e A cidade contra o crime, a trilha sonora de nossas viagens Barra/Madureira. Como morávamos longe, ele me levava para o colégio, que ficava em Piedade, antes de rumar para a loja da Avenida Edgar Romero.

As fitas juntavam sambistas, como Roberto Ribeiro, João Nogueira e Beth Carvalho, e cantores de “seresta” - Nelson Gonçalves (talvez o preferido do pai), Altemar Dutra, Sílvio Caldas, cujas músicas estavam sempre presentes nos eventos lá de casa. Na minha memória, essas canções e as transmissões em AM se empastelam na imagem do pai dirigindo seu Corcel 2.

Odiava algumas daquelas músicas. Como Fica comigo esta noite. Como a que falava da normalista, e eu achava de uma cafonice sem par (na minha escola havia o curso Normal e aquelas meninas me pareciam fora de tempo e lugar).

De outras, gostava. Matriz ou filial, cujo tema talvez ainda não entendesse bem. Esses moços, que antecipava a melancolia funda que sempre me acompanhou. Sentimental demais, cuja lembrança se confunde com a morte de Altemar Dutra.

Nesse grupo, no entanto, havia duas canções que se destacavam particularmente. As duas, eu viria saber muitos anos depois, compostas pela mesma pessoa: Herivelto Martins. Refiro-me a Caminhemos e a Segredo.

Sou capaz de redesenhar perfeitamente da manhã em que o pai mencionou pela primeira vez o nome de Herivelto dentro do carro. O toca-fitas tocava Ave Maria no morro, e ele fez um elogio entusiasmado. Talvez ali eu tenha começado a fazer relações entre aquelas duas músicas que me tocavam tão particularmente e a assinatura do compositor.

Todas essas recordações vieram à tona há algumas semanas, quando comprei o excepcional DVD do programa Ensaio, da TV Cultura, no qual Herivelto é o entrevistado. No programa, ele fala de muito de suas canções e pouco da atribuladíssima vida ao lado de (e, depois, em confronto com) Dalva de Oliveira.

Um dos pontos altos do DVD é o dueto entre Herivelto e o filho, Pery Ribeiro, que me parece bastante emocionado na cena. Eu olhava para aqueles dois homens cantando lado a lado e imaginava como deve ter sido tudo tão difícil para Pery. Ser a ponta mais frágil de uma briga pública entre os pais, artistas de sucesso. Viver a queda brusca do glamour à decadência, ainda que como personagem periférico.

Então fui ler o livro que ele escreveu, com a ajuda da esposa, Ana Duarte, tratando da história. Publicado pela editora Globo, Minhas duas estrelas mostra que qualquer coisa que se possa imaginar de terrível sobre a situação de Pery é pouco, quase nada. O drama de que ele trata é barra pesada, muito pesada.

Pery narra a trajetória de Dalva e Herivelto desde os primeiros momentos, na Dupla Preto e Branco + Dalva de Oliveira (que, batizado pelo comunicador César Ladeira, da Radio Mayrink Veiga, se transformaria, no bem sucedido Trio de Ouro), passando pela belicosa separação, cantada em verso (nas canções) e em prosa (no Diário da Noite) por Herivelto, com a ajuda do jornalista David Nasser, e pelos arrependimentos mútuos, até chegar à morte dos dois protagonistas.

O livro traz revelações curiosas, como a recusa de Benedito Lacerda em entrar na parceria de Ave Maria no morro, após ouvir de Herivelto o primeiro esboço de letra. “Não entro nem a pau. Isso é música de igreja”, disse Lacerda. Ou o xixi que Pery fez na cama de Carmen Miranda, para satisfação da cantora. Carmen cismara que só fecharia contrato com um empresário norte-americano se alguma criança molhasse seus lençóis.

Há alguns pequenos erros, como a atribuição da autoria de Olhos verdes à dupla Herivelto/Lacerda, quando a canção é de Vicente Paiva. No próprio livro, porém, o autor do livro desfaz o equívoco. E mesmo os excessos “espiritualistas” de Pery são compreensíveis pela proposta da obra: espelhar o depoimento de um filho que abre corajosamente o coração com relação a pais que, pelas circunstâncias, poderia simplesmente odiar.

Ou seja, não há dicotomias preto/branco, certo/errado. Pery não esconde as dores que sentiu (e que, de certo modo, carrega consigo), mas é sábio ao reconhecer que o tributo de um filho a seus pais passa por cortes outros que não o da perfeita organização da infância. Ele reafirma a herança que os dois lhe legaram - “com eles, aprendi a ver música em cada som” - e acrescenta um outro espólio, enviesado, fruto da experiência de quem testemunhou a tragédia de não saber exculpar: a capacidade do perdão.

A conclusão de Pery é que, se os caminhos dessa vida comprida estrada alongada são tão estranhos, é alvissareiro saber que algo de bom sempre fica. Algo, acrescento eu, que é capaz de nos remeter ao de bom que passou. Como as frescas manhãs, ao lado de meu pai, ouvindo Herivelto em seu velho Corcel 2.

Clique para deixar seu comentário {2}