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Para além da língua, dos vícios e das palavras Escrito em 19 de agosto de 2009
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Ficcionista de mão cheia (e bom parceiro de copo), Raimundo Carrero escreveu sobre o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa na mais recente edição de O Pernambuco. Infelizmente, não tenho como reproduzir aqui a página impressa, que ficou uma beleza (a diagramação do suplemento é bem interessante, cheia de brancos, bem arejada...), então publico o texto, que se segue.

"Para além da língua, dos vícios e das palavras"

Raimundo Carrero

"A sombra estava ali, no meio da rua, destacando o menino que andava sem pressa. E ele percebeu que ela andava e o que era andar, repetia seus gestos e que seria sua companheira, ou inimiga, durante toda a vida. Desafiadora, não adiantava reclamar. Mudava o sol, mudava a lua, mudava o vento, e ela ali, colada ao corpo. Uma condenação.

Foi assim que descobri a sombra, a palavra – e não é apenas uma sombra, é também um sentimento brutal - que escolhi para participar do “Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa”, que acaba de chegar às livrarias, numa edição elegante da Casa da Palavra, com capa dura e ilustrações, além de uma imã de geladeira para fazer o autor se lembrar da sua condenação sempre que precisa beber um copo d´água.

Essa palavra e muitas outras estão no livro que reúne 35 autores, eles que escolheram as palavras misteriosas, que selam nos seus nomes para sempre. São autores de quatro continentes – América Latina. Europa, Ásia e África – das mais diversas tendências e das mais diversas origens. Há palavra tão simples como “Saudade”, de Antônio Torres, ou “Serendipidade”, de Bruna Lombardi. Sim, é ela mesma. Aquela que que, com ou sem “serendipidade”, nem precisa escrever para ser tão bela. Armando Freitas Filho não esquece a palavra fatal e final: “Morte”. Que é vizinha, parede e meia, de outra palavra sinistra: “Guerrilha”.

Mas por que amoroso com tantas palavras graves? Porque, nunca esqueçam, todas as palavras se amam, mesmo as que aparentemente são inimigas. “Porra” se dá com “Você”? Mas “Árvore” bem que podia fazer amor com “Rosa”. Com algum esforço “Madrugada” se juntaria a “Cício”, mesmo que “Vício não precise de “Madrugada”. Fogo”, por exemplo, é uma palavra solitária, não precisa se juntar a ninguém nem a outra palavra, basta irromper na carne, no sangue, ou na mata.

Tudo isso, porém, só é possível por causa de outra solidão: o Brasil não tem uma política externa para a literatura e os escritores que se virem. Foi isso o que fizeram o brasileiro Marcelo Moutinho e português Jorge Reis-Sá, inventando armadilhas para que as palavras se amem e frutifiquem Amor, aliás, reclamado por Saramago, Agualusa e Anne Marie-Metellié, editora francesa, clamando contra a falta de apoio ao escritor brasileiro no exterior. Personagens brasileiros estão censurados: não pode falar em outras línguas.

Resta a nossa língua – e que língua – circular em muitos países pra lamber a ferida. Não é ferida, é dor mesmo. Ou para lamber os sabores de uma prosa que se apresenta, neste momento, com o título de “Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa”, reunindo escritores de cinco países, organizado por Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá. Advinha de quem é o patrocínio? Do Ministério da Cultura de Portugal, através do programa de biblioteca. E, é claro, da editora Casa da Palavra, com um trabalho elegante e requintado.

Para Marcelo Moutinho, apesar das dificuldades, “o livro ficou exatamente como planejávamos: há contos, ensaios e poemas, em forma fixa ou versos brancos. Acho que, em síntese o “Dicionário” é um flagrante da relação dos escritores com a sua língua”. E que língua rica e diversificada. E ainda mais sedutor, porque os organizadores decidiram “não obedecer às regras do novo acordo ortográfico”, diz Marcelo, lembrando que “a proposta era de que o livro ajudasse a destacar essa diversidade. Os livros de José Saramago, por exemplo, sempre foram lançados no Brasil com a grafia original, lusitana, e nem por isso os leitores daqui deixaram de entender o que liam. O acordo que, vale lembrar, vem enfrentando muita resistência em Portugal, me parece um fundo meramente utilitário, mercadológico, e não foi amplamente discutido antes de sua aprovação como deveria”.

Assegura, ainda, que “na verdade acho que, dentro de suas possibilidades, o “Dicionário” pode ao menos ajudar a desmistificar a idéias de que as diferenças solapam a compreensão do idioma. Isso é absolutamente falso. As diferenças, quase residuais quando se trata da palavra escrita, são enriquecedoras. Durante o processo de organização, pude aprender novos vocábulos, com “kandando”, que os angolanos utilizam para designar “abraço”.

O leitor, então, encontrará um livro extremamente enriquecedor, com textos de autores de Portugal, Angola, Moçambique e Timor Leste, além do Brasil, é claro. Todos com linguagem própria, com a cor local, com a riqueza vocabular. Tudo isso reunido a escritos de excelente qualidade, revelação de autor, um mundo novo. Sem dúvida. Talvez seja essa a principal contribuição deste livro, com trabalhos de autores bem conhecidos no Brasil, como Antonio Torres e Marcelino Freire, ou de outros que, embora brasileiros, estão sendo conhecidos agora, como Adriana Lisboa, Fabrício Carpinejar ou Tatiana Salem Levy, que conquistou, ano passado, o Prêmio São Paulo, na categoria de Revelação, com um belo romance.

Outro detalhe é que os organizadores optaram também, em grande parte, por autores pouco conhecidos ou desconhecidos no plano nacional, de forma a contribuir para o enriquecimento da literatura brasileira, o mesmo ocorrendo com Portugal, de onde vieram escritores ainda escondidos em livros de pouca – ou nenhuma – circulação. Descobre-se de logo, então, que as dificuldades são recíprocas e as batalhas as mesmas.

Embora parte da crítica tenha ignorado o surgimento de novos autores brasileiros, ele vê, com agrado, o ressurgimento da vida literária, no Brasil, com festas e festivais, encontros e congressos, do tipo Fliporto, Flip etc. “A facilidade de publicação e a ampliação das possibilidades de contato, através da internet, de pessoas que escreviam em diferentes cantos do País, foram dois fatos que colaboraram neste processo, pavimento o surgimento de jovens atores”. Ou seja, vida literária significa maios intercâmbio entre as pessoas, entre os escritores e críticos, que, pouco a pouco, vai criando um bloco de intelectuais que discutem, amplamente, as questões literárias e os caminhos que podem ser percorridos.

O que significa, definitivamente, as palavras se amam, mas são ainda mais amadas pelos leitores. Em qualquer língua. E em qualquer circunstância".

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