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Glauco Mattoso Escrito em 25 de agosto de 2009
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O Glauco Mattoso também escreveu sobre o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa. Foi na coluna que ele mantém no site Cronópios. Segue o texto do Glauco:

"Idiosyncrasias idiomaticas"

Glauco Mattoso

"Dizem que, mesmo com o advento da rede virtual e das innumeras dimensões do cyberespaço, o livro jamais desappareceria, tractando-se de objecto palpavel. Até depois de cego mantenho minha predilecção pela forma physica dos livros, especialmente aquelles de capa dura e impressos em papel biblia. Reflicto sobre isso emquanto tacteio uma primorosa edição da Casa da Palavra. O volume, intitulado "Diccionario amoroso da lingua portugueza", é uma anthologia organizada por Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá, reunindo auctores lusophonos dos quatro continentes. Cada auctor escolheu sua palavra preferida no idioma e a thematizou num verbete litterario. Mesmo em papel mais encorpado, o volume ficou gostoso de compulsar e de folhear, sem fallar nas illustrações e photos, coisa que não me compete avaliar.

Nessas felizes opportunidades editoriaes é que nos damos conta da distancia que separa o grammatico do litterato, o lexicographo do poeta. Ainda que restricto a algumas dezenas de verbetes, o vocabulario da anthologia abrange os mais diversos aspectos do vernaculo, morphologica e semanticamente, incluindo termos como "agua" e "fogo", "rosa" e "violeta", "neve" e "deserto", "arvore" e "sombra", "madrugada" e "silencio", "guerrilha" e "morte", "verdade" e "saudade", "condor" e "insecto", "sandalia" e "poeira", "porra" e "buceta", "vicio" e "você".

Mais que a plasticidade, a sonoridade, a raridade ou a vulgaridade da palavra escolhida, o significado que cada uma tem para o auctor que a escolheu é o que demonstra a subjectividade da linguagem poetica. Minha escolha foi, previsivelmente, a palavra "sola", e o poema que a verbeta vae abaixo. Mas nem todas as preferencias são tão inequivocas. Tentem adivinhar, dentre os demais participantes da anthologia, quem teria optado por qual dos vocabulos supracitados: Adriana Lisboa, Alexei Bueno, Amilcar Bettega, Ana Paula Ribeiro Tavares, Antonio Cicero, Antonio José Teixeira, Antonio Torres, Armando Freitas Filho, Bruna Lombardi, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Desiderio Murcho, Fabricio Carpinejar, Fernando Molica, Flavio Izhaki, Francisco José Viegas, Guita Jr., Heloisa Seixas, Henrique Rodrigues, João Melo, Jorge Fernandes da Silveira, Jorge Reis-Sá, Jorge Rocha, José Luis Peixoto, Luis Cardoso, Manuela Costa Ribeiro, Marcelino Freire, Marcelo Moutinho, Mariana Ianelli, Ondjaki, Paulo Brody, Paulo Henriques Britto, Raimundo Carrero, Rui Lage e Tatiana Salem Levy.

Independentemente do estylo ou da esthetica de cada poeta ou prosador, a occorrencia de certas palavras, em qualquer amostragem, sempre nos remette a considerações philologicas que escapam à attenção dos grammaticos e lexicographos. Peguemos, por exemplo, dois pares de vocabulos, um sublime, outro sordido: "rosa" e "saudade", "porra" e "buceta".

O que nenhum diccionario explica é por que "rosa" apparece com tamanha frequencia na obra de todo poeta, ou por que "saudade" só existe na lingua portugueza, sem exacta traducção noutros idiomas. Um detalhe orthographico ainda mais raro é o trema em "saüdade", indicando aquillo que, em poesia, chamamos "dierese", isto é, uma pausa forçada que transforma um diphthongo em hiato, como no caso das pronuncias erroneas "gratu-i-to" em vez do correcto "gratui-to" ou "flu-i-do" em vez do correcto "flui-do". No caso de "saüdade", a pronuncia ficaria "sa-u-dade", cuja funcção seria apenas contar mais uma syllaba na metrificação dum verso, como na palavra "poesia", que tanto pode ser trisyllaba como tetrasyllaba.

"Porra" configura um caso interessante porque não tem o mesmo sentido para brasileiros e portuguezes. Bocage, por exemplo, usa "porra" com sentido de "porrete" ou "cacete", ou seja, o caralho. Para nós, "porra" só tem relação com "esporrar", ou seja, o esperma ejaculado.

"Buceta", por sua vez, é corruptela de "boceta", assim como "viado" é de "veado" e "culhão" de "colhão", como si a pronuncia mais chula pedisse vogaes mais correntes na voz do povão. Tambem aqui temos differença entre lusitanos e brasileiros. Bocage usa, para a vagina, um termo que tanto pode ser feminino como masculino: "conna" ou "conno". A boceta para elles é só um estojinho, emquanto para nós uma conninha ou um conninho nada significam, excepto quando lembramos duma scena de sexo oral onde caberia a forma latina "cunnilingua".

Dicto isto, tracto de retornar à minha predilecção e me despeço com o soneto que offereci ao "Diccionario amoroso da lingua portugueza".

SONETO PARA UMA SÓ PALAVRA [2525]

A lusa poesia fez escola
cantando os sete mares, mas eu faço
questão de terra firme, e meu pedaço
de chão ninguem demarca nem controla.

Mais amplo que a terrestre esphera, ou bola
menor que o proprio espaço do meu passo,
o chão que um cego pisa, tão escasso
e immenso, mais que um solo, é o termo "sola".

Assim, no feminino, a sola é minha
lembrança da visão, quando o menino
pisou na minha cara e eu nove tinha.

Si tenho de compor, portanto, um hymno
ao maximo vocabulo, uma linha
bastava: escrevo "sola" e aqui termino".

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