Voltar para Página Principal
Blog
Clicando nos botões ao lado você aumenta o tamanho da fonte do textoDiminui FonteAumenta Fonte
»
Caos e assepsia Escrito em 24 de agosto de 2009
separador

Tendo como gancho a notícia da reforma do Maracanã, José Geraldo Couto escreveu um ótimo texto, no sábado passado, em sua coluna no suplemento esportivo da Folha de S. Paulo. No artigo, ele propõe uma reflexão sobre as relações entre os estádios de futebol e a sociedade brasileira, abordando uma questão de fundo que me parece bastante relevante: a falsa dicotomia entre o 'caótico' e o asséptico'. Essa rígida oposição, que se aplica hoje tanto a estádios, quando a - por exemplo - botequins e outros espaços de convivência, tem sido utilizada para legitimar a intromissão cada vez mais acentuada do Estado na liberdade individual. Segue a íntegra do texto.

"Entre o caos e a assepsia"

José Geraldo Couto

"Leio no site da Justiça Desportiva que ao final do Brasileirão, em dezembro, o Maracanã será fechado para reformas com vista à Copa de 2014. Durante o ano de 2010, o estádio permanecerá interditado, e os cariocas terão de se habituar a ver os jogos de seus times no Engenhão.

Imaginar o Rio sem o Maracanã é quase como imaginá-lo sem o Pão de Açúcar. Um dos templos mais venerados do futebol mundial, o estádio Mário Filho correu há alguns anos, no entanto, o risco de ser demolido e substituído por uma dessas famigeradas "arenas multiuso". A ideia partiu de ninguém menos do que o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Ainda bem que não vingou.

Quem já esteve no Maracanã lotado sabe que a energia que emana dali é da ordem do sagrado, como a das tragédias gregas e dos rituais dionisíacos.

Algum dia talvez se chegue à conclusão friamente racional de que o Maracanã é irreformável, de que seu destino inexorável é o mesmo do mítico estádio de Wembley, demolido e substituído por outro, supermoderno. Os mais nostálgicos verterão uma lágrima, mas o mundo seguirá em frente rumo à funcionalidade asséptica e impessoal dos espaços de convivência humana.

A conversão dos velhos estádios em "arenas multiuso" é análoga à substituição dos antigos mercados públicos pelos modernos shopping centers e hipermercados com ar refrigerado.

O universo caótico, colorido, ruidoso, frequentemente sujo e malcheiroso dos mercados e feiras livres dá lugar a mundinhos limpos, perfumados, controlados por câmeras de vídeo e sedados por uma anódina música ambiente. Ganha-se em segurança, em higiene e em eficiência, perde-se em calor humano, em experiência vital. O mesmo acontece com os estádios.

O debate veio à tona com força alguns anos atrás, quando o Maracanã foi reformado e perdeu sua antiga "geral", destinada aos torcedores de menor poder aquisitivo. A arraia miúda, em suma, que se sujeitava a ficar em pé, com o rosto pouco acima do nível do campo, para ver seu time jogar.

Os que defendiam a manutenção da geral alegavam que seus ocupantes, com seu modo pitoresco de torcer e de festejar, faziam parte do espetáculo. Havia um ranço populista nessa visão, que folclorizava aqueles desdentados, de radinho de pilha grudado na orelha, que nos habituamos a ver na tela do "Canal 100".

Os adeptos da reforma rebatiam dizendo que eram desumanas as condições a que os frequentadores da geral se submetiam. Tinham razão, claro, e acabaram vencendo.

Ninguém se lembrou de perguntar o que os "geraldinos" pensavam do assunto. Esqueceu-se também de que os supostos flagelados da geral não eram forçados a estar lá. Preferiam ver os jogos naquelas condições a não ver jogo nenhum, que é o que acontece hoje, já que a antiga geral virou um setor nobre e caro.

Não tenho uma opinião definitiva, mas desconfio que pensar sobre essas questões é pensar sobre o país que desejamos: uma arena confortável e moderna para uns poucos ou um velho estádio avacalhado no qual todos se espremem. Não haverá uma terceira via?"

Clique para deixar seu comentário {1}