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Ser Fluminense Escrito em 27 de agosto de 2009
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"Ser Fluminense é aplicar o sendo estético à vida"

Arthur da Távola

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Suíte Dama da Noite Escrito em 26 de agosto de 2009
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Amanhã, a partir das 19h, vai rolar o lançamento de Suíte Dama da Noite, romance com o qual a talentosa jornalista, escritora e dramaturga Manoela Sawitzki estréia na editora Record. O livro conta a história de Júlia Capovilla, que passou grande parte da vida sonhando com o momento em que reencontraria Leon, por quem se apaixonara ainda menina. Quando isso finalmente acontece, ela se dá conta de que a única forma de mantê-lo por perto é tornando-se sua amante. A partir de então, os únicos momentos de alegria na existência de Júlia acontecem na cama, a cada crepúsculo, na suíte que dá nome ao romance.

Segundo a autora, a história surgiu de uma vontade de entender melhor a espera amorosa. “Fala-se muito sobre o amor, como começa e acaba, mas aquilo que o precede, a espera, o hiato entre o desejo e a realização pode ser uma coisa brutal”, afirma Manoel. Fiel ao enredo, o lançamento será na suíte 1201 do Hotel Olinda Othon (Av. Atlântica, 2230 - Copacabana).

Segue um trecho do livro:

"Aos dez anos, Júlia Capovilla praticava vorazmente o amor fictício, cultivando um vasto elenco de amantes
imaginários. Esperava-os penteada, vestida com toda combinação de peças de que podia dispor entre as próprias
e as deixadas pela mãe. Os lábios, lambuzados de cor-de-rosa, cheiravam a framboesa, e no rosto, o incêndio
da correria, do susto, da ousadia de sair de casa dizendo que ia ao armazém comprar rapadura, merengue ou figurinha, e tomar o rumo da estação.

Depois, perambulava com seus pares invisíveis por ruelas vazias e terrenos baldios, tomando cuidado para
que ninguém os notasse — não achava graça em brincar de amores que não fossem clandestinos. A cada novo
amado, forjava também uma nova identidade para si. A todos contava histórias fantásticas sobre seus problemas
com a máfia, os mistérios que cercavam a vizinhança, os pecados do padre Federico, os zeladores-fantasmas
que assombravam a escola, a menina que vivia acorrentada num calabouço da loja de ferragens do seu Juca.
Para Júlia, não havia criatura no mundo, homem ou bicho, que não tivesse pelo menos uma vida oculta. E ela? Ela tinha muitas."

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Ainda a "licitação" Escrito em 26 de agosto de 2009
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Leio e ouço, enojado, os jornais e os debates nas rádios sobre a licitação da carochinha. Parece que, por ignorância, desonestidade ou má-fé, nossos comentaristas compraram a idéia de que a Liesa é o mito fundador do carnaval carioca. Copiando a estratégia da CBF com relação ao futebol, a entidade conseguiu (sabe-se lá como, ou melhor, sabe-se, sim) fazer vigorar a tese de que não houve desfiles antes de sua fundação. Ou seja, a bicharada organizada inaugurou o paraíso, antes mesmo de Adão e Eva pintarem por lá.

Outra tese que vem sendo disseminada: que a Liga, esse primor de transparência e seriedade, é a única entidade capaz de organizar com competência o carnaval. Mentira. Deslavada mentira, repetida por quem quer manter as rédeas sobre o lucro e o poder político que o desfile engendra, sob silêncio amedontrado e conivente. O que a Liesa vem operando, nos últimos anos, é a formação de uma elite entre as escolas, num processo seletivo que privilegia as agremiações vinculadas direta ou indiretamente à contravenção. Um clubinho dos amigos.

Essa ridícula ameaça de algumas escolas, garantindo que não haverá desfile caso a Liesa não ganhe a "licitação" (como se fosse possível perdê-la), apenas esfumaça a fragilidade do Edital e o fato de o documento não entrar no ponto essencial: a obscuridade da avaliação, que serve como baliza para o controle sobre as agremiações. O espantoso é que tal ameaça tenha sido reportada sem o menor senso crítico por parte da imprensa. A matéria do jornal O Dia, por exemplo, é apenas a veiculação de um release da Liesa. Sem reparos.

Sobre o assunto, saúdo a nota publicada pelo Aydano André Motta no Blog do Ancelmo, que destoa do coro dos contentes e corajosamente desmascara a chantagem pró-Liesa, e indico a leitura de mais um petardo de Carlos Andreazza (aqui).


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A licitação da carochinha e o prefeito cagão Escrito em 25 de agosto de 2009
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É fundamental a leitura da análise que o Carlos Andreazza publicou hoje, no site Tribuneiros, sobre o Edital de Licitação da Prefeitura para "selecionar" o responsável pela organização do carnaval dos próximos quatro anos. Sob o disfarce de realizar a tão ansiada moralização, o documento expõe de forma patética a postura covarde de Eduardo Paes ante os bandidos da Liesa.

Paes, que havia prometido enfiar a mão nessa cumbuca, deixa cair a máscara (vê-se, hoje, retrospectivamente, que aquela campanha eleitoral suja era sintomática). E mais uma vez, assim como vem acontecendo desde o governo César Maia (de triste lembrança), o poder público se coloca de joelhos, reafirmando a falta de coragem (o cagaço mesmo) e a disposição em se manter conivente com a contravenção e o crime. Choque de ordem? Isso é pra camelô. Com gente grande, não se mexe. Falta coragem. Falta vergonha na cara.

Em seu texto, Andreazza desvela, um a um, os tópicos do edital da carochinha. E adianta o que todos nós já sabemos: o vencedor está escolhido de véspera, e será a própria Liesa. Confira a íntegra do texto aqui.

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Poesia, música e amor Escrito em 25 de agosto de 2009
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Mais uma curta da série feita pelo escritor Fernando Sabino e pelo cineasta David Neves com autores brasileiros caiu na rede. Trata-se de Poesia, música e amor, filme em que o protagonista é o poeta, compositor e diplomata Vinicius de Moraes.

As cenas mostram Vinícius ao lado de Toquinho, Maria Creuza, Aloysio de Oliveira, a mulher Gesse e, claro, o inseparável copo de uísque. Ele comenta suas características poéticas, fala das influências de Rimbaud, Baudelaire, Verlaine e Manuel Bandeira, reverencia Pixinguinha e Jaime Ovalle, e canta pérolas de sua lavra, como a então recém-composta Onde anda você e a linda Quando tu passas por mim. Confira na tela abaixo.

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Twitter Escrito em 25 de agosto de 2009
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Capitulei: www.twitter.com/mmoutinho

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PNET Literatura Escrito em 25 de agosto de 2009
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O PNET Literatura é um site lusitano dedicado à escritura ficcional em língua portuguesa em todo o mundo. Contando com uma rede de correspondentes, a página disponibiliza notícias, artigos e produção inédita, além de disso de minientrevistas compostas de cinco perguntas, sempre as mesmas, que são levadas a autores de diferentes países. As questões:

1. No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?

2. Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Por quê?

3. Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.

4. Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?

5. Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.

Já foram entrevistados, entre outros, Mário de Carvalho, Paloma Vidal e João Pereira Coutinho. Recemente, eu participei da série. Confira aqui.

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Glauco Mattoso Escrito em 25 de agosto de 2009
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O Glauco Mattoso também escreveu sobre o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa. Foi na coluna que ele mantém no site Cronópios. Segue o texto do Glauco:

"Idiosyncrasias idiomaticas"

Glauco Mattoso

"Dizem que, mesmo com o advento da rede virtual e das innumeras dimensões do cyberespaço, o livro jamais desappareceria, tractando-se de objecto palpavel. Até depois de cego mantenho minha predilecção pela forma physica dos livros, especialmente aquelles de capa dura e impressos em papel biblia. Reflicto sobre isso emquanto tacteio uma primorosa edição da Casa da Palavra. O volume, intitulado "Diccionario amoroso da lingua portugueza", é uma anthologia organizada por Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá, reunindo auctores lusophonos dos quatro continentes. Cada auctor escolheu sua palavra preferida no idioma e a thematizou num verbete litterario. Mesmo em papel mais encorpado, o volume ficou gostoso de compulsar e de folhear, sem fallar nas illustrações e photos, coisa que não me compete avaliar.

Nessas felizes opportunidades editoriaes é que nos damos conta da distancia que separa o grammatico do litterato, o lexicographo do poeta. Ainda que restricto a algumas dezenas de verbetes, o vocabulario da anthologia abrange os mais diversos aspectos do vernaculo, morphologica e semanticamente, incluindo termos como "agua" e "fogo", "rosa" e "violeta", "neve" e "deserto", "arvore" e "sombra", "madrugada" e "silencio", "guerrilha" e "morte", "verdade" e "saudade", "condor" e "insecto", "sandalia" e "poeira", "porra" e "buceta", "vicio" e "você".

Mais que a plasticidade, a sonoridade, a raridade ou a vulgaridade da palavra escolhida, o significado que cada uma tem para o auctor que a escolheu é o que demonstra a subjectividade da linguagem poetica. Minha escolha foi, previsivelmente, a palavra "sola", e o poema que a verbeta vae abaixo. Mas nem todas as preferencias são tão inequivocas. Tentem adivinhar, dentre os demais participantes da anthologia, quem teria optado por qual dos vocabulos supracitados: Adriana Lisboa, Alexei Bueno, Amilcar Bettega, Ana Paula Ribeiro Tavares, Antonio Cicero, Antonio José Teixeira, Antonio Torres, Armando Freitas Filho, Bruna Lombardi, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Desiderio Murcho, Fabricio Carpinejar, Fernando Molica, Flavio Izhaki, Francisco José Viegas, Guita Jr., Heloisa Seixas, Henrique Rodrigues, João Melo, Jorge Fernandes da Silveira, Jorge Reis-Sá, Jorge Rocha, José Luis Peixoto, Luis Cardoso, Manuela Costa Ribeiro, Marcelino Freire, Marcelo Moutinho, Mariana Ianelli, Ondjaki, Paulo Brody, Paulo Henriques Britto, Raimundo Carrero, Rui Lage e Tatiana Salem Levy.

Independentemente do estylo ou da esthetica de cada poeta ou prosador, a occorrencia de certas palavras, em qualquer amostragem, sempre nos remette a considerações philologicas que escapam à attenção dos grammaticos e lexicographos. Peguemos, por exemplo, dois pares de vocabulos, um sublime, outro sordido: "rosa" e "saudade", "porra" e "buceta".

O que nenhum diccionario explica é por que "rosa" apparece com tamanha frequencia na obra de todo poeta, ou por que "saudade" só existe na lingua portugueza, sem exacta traducção noutros idiomas. Um detalhe orthographico ainda mais raro é o trema em "saüdade", indicando aquillo que, em poesia, chamamos "dierese", isto é, uma pausa forçada que transforma um diphthongo em hiato, como no caso das pronuncias erroneas "gratu-i-to" em vez do correcto "gratui-to" ou "flu-i-do" em vez do correcto "flui-do". No caso de "saüdade", a pronuncia ficaria "sa-u-dade", cuja funcção seria apenas contar mais uma syllaba na metrificação dum verso, como na palavra "poesia", que tanto pode ser trisyllaba como tetrasyllaba.

"Porra" configura um caso interessante porque não tem o mesmo sentido para brasileiros e portuguezes. Bocage, por exemplo, usa "porra" com sentido de "porrete" ou "cacete", ou seja, o caralho. Para nós, "porra" só tem relação com "esporrar", ou seja, o esperma ejaculado.

"Buceta", por sua vez, é corruptela de "boceta", assim como "viado" é de "veado" e "culhão" de "colhão", como si a pronuncia mais chula pedisse vogaes mais correntes na voz do povão. Tambem aqui temos differença entre lusitanos e brasileiros. Bocage usa, para a vagina, um termo que tanto pode ser feminino como masculino: "conna" ou "conno". A boceta para elles é só um estojinho, emquanto para nós uma conninha ou um conninho nada significam, excepto quando lembramos duma scena de sexo oral onde caberia a forma latina "cunnilingua".

Dicto isto, tracto de retornar à minha predilecção e me despeço com o soneto que offereci ao "Diccionario amoroso da lingua portugueza".

SONETO PARA UMA SÓ PALAVRA [2525]

A lusa poesia fez escola
cantando os sete mares, mas eu faço
questão de terra firme, e meu pedaço
de chão ninguem demarca nem controla.

Mais amplo que a terrestre esphera, ou bola
menor que o proprio espaço do meu passo,
o chão que um cego pisa, tão escasso
e immenso, mais que um solo, é o termo "sola".

Assim, no feminino, a sola é minha
lembrança da visão, quando o menino
pisou na minha cara e eu nove tinha.

Si tenho de compor, portanto, um hymno
ao maximo vocabulo, uma linha
bastava: escrevo "sola" e aqui termino".

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Caos e assepsia Escrito em 24 de agosto de 2009
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Tendo como gancho a notícia da reforma do Maracanã, José Geraldo Couto escreveu um ótimo texto, no sábado passado, em sua coluna no suplemento esportivo da Folha de S. Paulo. No artigo, ele propõe uma reflexão sobre as relações entre os estádios de futebol e a sociedade brasileira, abordando uma questão de fundo que me parece bastante relevante: a falsa dicotomia entre o 'caótico' e o asséptico'. Essa rígida oposição, que se aplica hoje tanto a estádios, quando a - por exemplo - botequins e outros espaços de convivência, tem sido utilizada para legitimar a intromissão cada vez mais acentuada do Estado na liberdade individual. Segue a íntegra do texto.

"Entre o caos e a assepsia"

José Geraldo Couto

"Leio no site da Justiça Desportiva que ao final do Brasileirão, em dezembro, o Maracanã será fechado para reformas com vista à Copa de 2014. Durante o ano de 2010, o estádio permanecerá interditado, e os cariocas terão de se habituar a ver os jogos de seus times no Engenhão.

Imaginar o Rio sem o Maracanã é quase como imaginá-lo sem o Pão de Açúcar. Um dos templos mais venerados do futebol mundial, o estádio Mário Filho correu há alguns anos, no entanto, o risco de ser demolido e substituído por uma dessas famigeradas "arenas multiuso". A ideia partiu de ninguém menos do que o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Ainda bem que não vingou.

Quem já esteve no Maracanã lotado sabe que a energia que emana dali é da ordem do sagrado, como a das tragédias gregas e dos rituais dionisíacos.

Algum dia talvez se chegue à conclusão friamente racional de que o Maracanã é irreformável, de que seu destino inexorável é o mesmo do mítico estádio de Wembley, demolido e substituído por outro, supermoderno. Os mais nostálgicos verterão uma lágrima, mas o mundo seguirá em frente rumo à funcionalidade asséptica e impessoal dos espaços de convivência humana.

A conversão dos velhos estádios em "arenas multiuso" é análoga à substituição dos antigos mercados públicos pelos modernos shopping centers e hipermercados com ar refrigerado.

O universo caótico, colorido, ruidoso, frequentemente sujo e malcheiroso dos mercados e feiras livres dá lugar a mundinhos limpos, perfumados, controlados por câmeras de vídeo e sedados por uma anódina música ambiente. Ganha-se em segurança, em higiene e em eficiência, perde-se em calor humano, em experiência vital. O mesmo acontece com os estádios.

O debate veio à tona com força alguns anos atrás, quando o Maracanã foi reformado e perdeu sua antiga "geral", destinada aos torcedores de menor poder aquisitivo. A arraia miúda, em suma, que se sujeitava a ficar em pé, com o rosto pouco acima do nível do campo, para ver seu time jogar.

Os que defendiam a manutenção da geral alegavam que seus ocupantes, com seu modo pitoresco de torcer e de festejar, faziam parte do espetáculo. Havia um ranço populista nessa visão, que folclorizava aqueles desdentados, de radinho de pilha grudado na orelha, que nos habituamos a ver na tela do "Canal 100".

Os adeptos da reforma rebatiam dizendo que eram desumanas as condições a que os frequentadores da geral se submetiam. Tinham razão, claro, e acabaram vencendo.

Ninguém se lembrou de perguntar o que os "geraldinos" pensavam do assunto. Esqueceu-se também de que os supostos flagelados da geral não eram forçados a estar lá. Preferiam ver os jogos naquelas condições a não ver jogo nenhum, que é o que acontece hoje, já que a antiga geral virou um setor nobre e caro.

Não tenho uma opinião definitiva, mas desconfio que pensar sobre essas questões é pensar sobre o país que desejamos: uma arena confortável e moderna para uns poucos ou um velho estádio avacalhado no qual todos se espremem. Não haverá uma terceira via?"

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'Dicionário de escolhas íntimas' Escrito em 24 de agosto de 2009
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O suplemento Idéias (Jornal do Brasil) de sábado passado trouxe resenha da escritora Lúcia Bettencourt (foto) sobre o Dicionário amoroso da língua portuguesa. Com a sensibilidade que lhe é peculiar, Lúcia passeia pelos verbetes do livro estabelecendo insuspeitas relações entre eles. Segue a íntegra da resenha.

"Um dicionário de escolhas íntimas"

Lúcia Bettencourt*

"Do verbete ao conto, da poesia ao ensaio, as palavras que compõem o Dicionário amoroso da língua portuguesa, organizado por Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá, receberam um tratamento que as resgatou do uso diário, já desgastadas e sem lustro. Examinadas e explicadas, transformadas, expostas em vitrines ou escondidas entre obsessivas repetições, elas saem de seu marasmo e recuperam as forças.

No primeiro verbete, um conto de Marcelo Moutinho, a palavra escolhida (água) se esconde por trás de uma cortina que “insistia em fechar”. Apenas uma única vez se deixa surpreender e, no entanto, está presente nos ladrilhos suados, na toalha molhada, no banho a portas fechadas. E, com força de enxurrada, pinga nas lágrimas que suspeitamos terem sido engolidas pelos dois personagens da breve e poderosíssima história. Já no verbete sobre a incomum serendipidade (Bruna Lombardi), o sentimento se ausenta. Um pseudocientificismo nos oferece significado e etimologia do prazer da descoberta do desconhecido, gerando uma reflexão sobre a dificuldade de explicar a emoção. De pura emoção, quase um grito de lembrança, tratam os verbetes violeta e rosa (Paulo Brody, Jorge Rocha), que viram gente, mais que gente, uma amante e uma avó querida e saudosa. A saudade de Antonio Torres, por sua vez, se personifica para explicar, sem pressa e com humores, sua existência na língua, reverberando em versos e modinhas, em fatos da história e nas histórias dos fatos.

Algumas palavras são trazidas pelas mãos de nativos de Portugal Angola ou Moçambique. Assim sendo, o insecto apresentado por Rui Lage vem acompanhado de um ferrão, que nos atrai o olhar enquanto passeia pelo “tecto” . No sobreiro (Jorge Reis-Sá), que pouco conhecemos no Brasil, brotam as lembranças de casas e de outras árvores, que sempre trarão em si as marcas do sobreiro esguio, metáfora da vida.

Seja na singular árvore que António José Teixeira ergue num lamento contra o progresso que as devasta, como no bosque desenhado por Daniel Maia-Pinto Rodrigues entre as névoas da fé do passado, a leitura do dicionário é uma viagem que encetamos através da língua em diferentes sotaques e dicções. Liberados de uma ordem alfabética que nos permita juntar fogo e neve (Guita Jr. e Amilcar Bettega), misturamos sensações e despertamos em nós o prazer de meditar sobre nosso idioma. Qual a palavra mais bela, a fundamental? Oblívio, para Alexei Bueno, morte para Armando Freitas Filho, vocábulos profundos como o vicio de Flávio Izhaki que nos consome vida e pensamento, termos de reflexão – um espelho (Heloisa Seixas) que nos revela – ou um silêncio (Ana Paula Tavares) que traduz ainda mais que seu rompimento.

O “dicionário de palavras íntimas”, como o definem os organizadores, não recua diante da intimidade. A mais contundente talvez seja buceta, preferida por Fernando Molica, seguida de porra, escolha de João Melo. Ambos desenvolvem suas palavras em contos que suavizam as opções e nos apiedam face aos personagens escravizados aos signos que os identificam.

“De palavras vivemos, com palavras morremos”…, lembram-nos os organizadores. Desmontando o significante, o poeta Henrique Rodrigues recria você, desfiando o pronome para lhe insuflar novos significados, enquanto Jorge Fernandes Silveira recompõe rio, numa interessante justaposição, evocadora da cidade partida, compósita, fragmentada. Paulo Henriques Britto tudo desfaz num peteleco, Glauco Mattoso, de sola, nos confronta com a sensação de eternidade que se grava na humilhação sofrida.

A surpresa de encontrar a palavra inventada por José Luís Peixoto – calicatri –, aberta em opções, oferecida como flor desabrochada, convive com a misteriosa palavra de Marcelino Freire, adiada até o final. Entre significantes suaves, duas mulheres rompem as expectativas e introduzem uma, Tatiana Salem Levy, o deserto na solidão que evoca, outra, Adriana Lisboa, a guerrilha que eclode no aprendizado de vida, sem estratégias, aproveitando o oco, o vazio, a falta de ordem.

O prazer de (re)conhecer as palavras, de encontrá-las em novas situações e de refletir sobre elas é estimulado pela bela edição, em capa dura, com ilustrações em que o significante se transforma em sua própria interpretação. Como vem acompanhado de ímãs com os termos, para que os leitores se aventurem a combinar e experimentar com cada um dos verbetes, é possível imaginar o condor de Mariana Ianelli saindo da noite onde exibe sua arte e angústia para a madrugada de Luís Cardoso, clara, esperançosa, grávida de vida.

Deixando que a sombra carreriana nos acompanhe – como fugir ao destino? – calçamos a sandália, com Ondjaki, para viajar, na companhia de Manuela Costa Ribeiro, por estradas interiores em que a poeira (Francisco José Viegas) que levantamos se defina em desenhos de lembranças eternizadas no agora. E, como nos ensina o verbete assinado por António Cícero, moderno, esse é o tempo em que vivemos, o eterno agora, que nos assusta e inquieta. Mas, o que fazer? Desidério Murcho nos responde: “Onde há palavra, há verdade”. O dicionário, amorosamente, nos desperta a consciência de que nosso idioma é uma espécie de casa (Fabrício Carpinejar). Existimos na língua que nos possui.

* Escritora

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Desabrigo Escrito em 21 de agosto de 2009
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Antônio Fraga vendeu siri e bugigandas na zona do Mangue; foi agricultor, dono de pensão e lanterninha de cinema. Circulou - e muito - fora dos ambientes letrados, e dessa experiência à margem da perspectiva do "bom gosto" e do "bem dizer", se fez escritor. Seu livro inaugural, Desabrigo, foi publicado em 1945, gerando polêmica por inovações como a livre utilização de gírias, a ausência de pontuação, o registro narrativo próximo, praticamente colado, à língua falada.

Fraga é, infelizmente, pouco conhecido mesmo no meio literário. E por isso merece tantos elogios o relançamendo de seu trabalho de estréia, que a José Olympio promoverá amanhã, com merecida festa, na Livraria Folha Seca (Rua do Ouvidor, 37).

Em Desabrigo e outras narrativas, a editora reuniu, além do texto que lhe dá título, outras duas novelas e quatro contos, um deles até então inédito. A apresentação e organização do volume são da professora e pesquisadora Maria Célia Barbosa Reis da Silva, especialista na vida e na obra do autor.

Ah sim: o furdunço na Ouvidor, a partir para 11h, vai ter samba e feijão amigo.

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Leituras de agosto Escrito em 20 de agosto de 2009
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Ja foram:

A história dos ossos, de Alberto Martins
Anotações durante o incêndio, de Cíntia Moscovich
A segunda vez que te conheci, de Marcelo Rubens Paiva
Joana a contragosto, de Marcelo Mirisola
Animais em extinção, de Marcelo Mirisola
Tanto faz, de Reinaldo Moraes

Começando:

O segundo tempo, de Michel Laub

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Para além da língua, dos vícios e das palavras Escrito em 19 de agosto de 2009
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Ficcionista de mão cheia (e bom parceiro de copo), Raimundo Carrero escreveu sobre o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa na mais recente edição de O Pernambuco. Infelizmente, não tenho como reproduzir aqui a página impressa, que ficou uma beleza (a diagramação do suplemento é bem interessante, cheia de brancos, bem arejada...), então publico o texto, que se segue.

"Para além da língua, dos vícios e das palavras"

Raimundo Carrero

"A sombra estava ali, no meio da rua, destacando o menino que andava sem pressa. E ele percebeu que ela andava e o que era andar, repetia seus gestos e que seria sua companheira, ou inimiga, durante toda a vida. Desafiadora, não adiantava reclamar. Mudava o sol, mudava a lua, mudava o vento, e ela ali, colada ao corpo. Uma condenação.

Foi assim que descobri a sombra, a palavra – e não é apenas uma sombra, é também um sentimento brutal - que escolhi para participar do “Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa”, que acaba de chegar às livrarias, numa edição elegante da Casa da Palavra, com capa dura e ilustrações, além de uma imã de geladeira para fazer o autor se lembrar da sua condenação sempre que precisa beber um copo d´água.

Essa palavra e muitas outras estão no livro que reúne 35 autores, eles que escolheram as palavras misteriosas, que selam nos seus nomes para sempre. São autores de quatro continentes – América Latina. Europa, Ásia e África – das mais diversas tendências e das mais diversas origens. Há palavra tão simples como “Saudade”, de Antônio Torres, ou “Serendipidade”, de Bruna Lombardi. Sim, é ela mesma. Aquela que que, com ou sem “serendipidade”, nem precisa escrever para ser tão bela. Armando Freitas Filho não esquece a palavra fatal e final: “Morte”. Que é vizinha, parede e meia, de outra palavra sinistra: “Guerrilha”.

Mas por que amoroso com tantas palavras graves? Porque, nunca esqueçam, todas as palavras se amam, mesmo as que aparentemente são inimigas. “Porra” se dá com “Você”? Mas “Árvore” bem que podia fazer amor com “Rosa”. Com algum esforço “Madrugada” se juntaria a “Cício”, mesmo que “Vício não precise de “Madrugada”. Fogo”, por exemplo, é uma palavra solitária, não precisa se juntar a ninguém nem a outra palavra, basta irromper na carne, no sangue, ou na mata.

Tudo isso, porém, só é possível por causa de outra solidão: o Brasil não tem uma política externa para a literatura e os escritores que se virem. Foi isso o que fizeram o brasileiro Marcelo Moutinho e português Jorge Reis-Sá, inventando armadilhas para que as palavras se amem e frutifiquem Amor, aliás, reclamado por Saramago, Agualusa e Anne Marie-Metellié, editora francesa, clamando contra a falta de apoio ao escritor brasileiro no exterior. Personagens brasileiros estão censurados: não pode falar em outras línguas.

Resta a nossa língua – e que língua – circular em muitos países pra lamber a ferida. Não é ferida, é dor mesmo. Ou para lamber os sabores de uma prosa que se apresenta, neste momento, com o título de “Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa”, reunindo escritores de cinco países, organizado por Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá. Advinha de quem é o patrocínio? Do Ministério da Cultura de Portugal, através do programa de biblioteca. E, é claro, da editora Casa da Palavra, com um trabalho elegante e requintado.

Para Marcelo Moutinho, apesar das dificuldades, “o livro ficou exatamente como planejávamos: há contos, ensaios e poemas, em forma fixa ou versos brancos. Acho que, em síntese o “Dicionário” é um flagrante da relação dos escritores com a sua língua”. E que língua rica e diversificada. E ainda mais sedutor, porque os organizadores decidiram “não obedecer às regras do novo acordo ortográfico”, diz Marcelo, lembrando que “a proposta era de que o livro ajudasse a destacar essa diversidade. Os livros de José Saramago, por exemplo, sempre foram lançados no Brasil com a grafia original, lusitana, e nem por isso os leitores daqui deixaram de entender o que liam. O acordo que, vale lembrar, vem enfrentando muita resistência em Portugal, me parece um fundo meramente utilitário, mercadológico, e não foi amplamente discutido antes de sua aprovação como deveria”.

Assegura, ainda, que “na verdade acho que, dentro de suas possibilidades, o “Dicionário” pode ao menos ajudar a desmistificar a idéias de que as diferenças solapam a compreensão do idioma. Isso é absolutamente falso. As diferenças, quase residuais quando se trata da palavra escrita, são enriquecedoras. Durante o processo de organização, pude aprender novos vocábulos, com “kandando”, que os angolanos utilizam para designar “abraço”.

O leitor, então, encontrará um livro extremamente enriquecedor, com textos de autores de Portugal, Angola, Moçambique e Timor Leste, além do Brasil, é claro. Todos com linguagem própria, com a cor local, com a riqueza vocabular. Tudo isso reunido a escritos de excelente qualidade, revelação de autor, um mundo novo. Sem dúvida. Talvez seja essa a principal contribuição deste livro, com trabalhos de autores bem conhecidos no Brasil, como Antonio Torres e Marcelino Freire, ou de outros que, embora brasileiros, estão sendo conhecidos agora, como Adriana Lisboa, Fabrício Carpinejar ou Tatiana Salem Levy, que conquistou, ano passado, o Prêmio São Paulo, na categoria de Revelação, com um belo romance.

Outro detalhe é que os organizadores optaram também, em grande parte, por autores pouco conhecidos ou desconhecidos no plano nacional, de forma a contribuir para o enriquecimento da literatura brasileira, o mesmo ocorrendo com Portugal, de onde vieram escritores ainda escondidos em livros de pouca – ou nenhuma – circulação. Descobre-se de logo, então, que as dificuldades são recíprocas e as batalhas as mesmas.

Embora parte da crítica tenha ignorado o surgimento de novos autores brasileiros, ele vê, com agrado, o ressurgimento da vida literária, no Brasil, com festas e festivais, encontros e congressos, do tipo Fliporto, Flip etc. “A facilidade de publicação e a ampliação das possibilidades de contato, através da internet, de pessoas que escreviam em diferentes cantos do País, foram dois fatos que colaboraram neste processo, pavimento o surgimento de jovens atores”. Ou seja, vida literária significa maios intercâmbio entre as pessoas, entre os escritores e críticos, que, pouco a pouco, vai criando um bloco de intelectuais que discutem, amplamente, as questões literárias e os caminhos que podem ser percorridos.

O que significa, definitivamente, as palavras se amam, mas são ainda mais amadas pelos leitores. Em qualquer língua. E em qualquer circunstância".

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Thaís Motta no Rival Escrito em 18 de agosto de 2009
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Em show que terá a participação de Altay Velloso, Marvio Ciribelli e Ronaldo do Bandolim, entre outros artistas, a querida Thaís Motta apresentará hoje, às 19h30, no Teatro Rival, as canções de Minha estação, seu primeiro CD. No repertório, estão composições como A mais bonita (Chico Buarque), Iguais e diferentes (Francisco Bosco e Fred Martins), Quarenta anos (Altay Velloso e Paulo Cesar Feital) e Vou deitar e rolar (Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro).

Thaís também vai mostrar, no espetáculo, a música O som do samba, que fizemos em parceria (eu: letra; ela, Marvio e Arthur Maia: melodia). No vídeo que se segue, trecho de uma apresentação no Vinícius Bar, ela interpreta a canção num set que inclui também Tempo feliz (Vinícius de Moraes e Baden Powell).

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O fazendeiro do ar Escrito em 17 de agosto de 2009
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Em homenagem ao poeta, cuja morte completa 22 anos hoje, publico abaixo o documentário O fazendeiro do ar, dirigido por Fernando Sabino e David Neves em 1972. O curta faz parte de uma série, gravada originalmente em 35mm, que a dupla dedicou a 10 autores brasileiros, registrando conversas e momentos de seu cotidiano. Os filmes, preciosos, foram lançados pela Biscoito Fino em DVD.

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Canto de rainha Escrito em 13 de agosto de 2009
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Gil duetou com Dona Ivone em 'Samba de roda pra Salvador'

Havia decidido escrever sobre o antológico show que Dona Ivone Lara, a "Senhora da Canção" (apud Nei Lopes e Cláudio Jorge), fez anteontem para um Canecão lotadíssimo. No entanto, ao ler o post que o amigo Eduardo Carvalho publicou hoje em seu blog, desisti. Não seria capaz de relatar com tanta precisão o que significou para nós, felizes testemunhas daquela noite, o que se passou na tradicional casa de espetáculos de Botafogo.

Uma mulher que é legenda da melhor música brasileira a desfilar, em dueto, clássicos inexpugnáveis, e brilhando solo em pérolas como Liberdade (que nos escaninhos da minha memória tinha a voz de Roberto Ribeiro, e só dele). Algo debilitada, sim, mas com a graça e o ritmo intactos em seus 87 anos de idade e história, e recebendo dos muitos convidados (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Arlindo Cruz, Délcio Carvalho, Jorge Aragão, os componentes da Velha Guarda do seu - nosso - Império Serrano, entre outros) a devida reverência.

Antes de passar a palavra ao Eduardo, faço o elogio ao lindo cenário criado por Luiz Henrique Pinto: folhas espalhadas pelo chão do palco, o fundo florido (que chegava a lembrar Beatriz Milhazes) e a cadeira estampada onde a cantora se sentou por boa parte do show (e que ganhou de presente ao final), evocando os quintais das casas de subúrbio e, ao mesmo tempo, fazendo uma alusão metafórica ao que Dona Ivone é, em essência: força e expressão da natureza.


Beth Carvalho, Lindomar (da VG do Império Serrano) e Dona Ivone

Segue o trecho inicial do texto do Eduardo. Confira a íntegra aqui.

"- Eu te amo! Te amo muito! - ele disse, depois de invadir o palco e beijá-la.

- Obrigada, meu filho. - ela respondeu.

Foi assim que o meu querido amigo Carlinhos Laguna, essa figuraça da melhor qualidade, esse doce - e único lusitano que torce pelo Flamengo no Brasil -, foi assim que ele coroou a nossa noite, ao fim do show histórico de Dona Ivone Lara num Canecão simplesmente lotado.

A cada vez que pediam para ela cantar de novo, Dona Ivone retomava do seu jeito, sublime porque intuitivo, melódico toda vida - ela é a melodia! -, e uma força inacreditável vinha dali e nos levava junto. (...)"

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Simas, Mussa e Edgar Escrito em 12 de agosto de 2009
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Há algumas semanas, tive a oportunidade de ouvir o samba que os amigos Luiz Antonio Simas e Beto Mussa, além do Edgar Filho, inscreveram na disputa do Império da Tijuca para o carnaval de 2010. Como já adiantei aqui no Pentimento, o enredo trata da história da Rainha Jinga, uma angolana que resistiu aos dominadores portugueses na África e tem uma história fabulosa.

"Jinga nasceu entre os Jagas - uma tribo de ferreiros, canibais e feiticeiros [os Kimbandas] - se disfarçou de homem para assumir o papel de rei; envenenou o irmão; morreu em batalha; virou o mito de libertação de Angola; é cultuada nas cerimônias da congada", conta o Simas.

Agora que o samba já ganhou os retoques finais, posso afirmar sem hesitação: é ainda melhor do que o ótimo hino que os três haviam criado no último carnaval e que o Salgueiro acabou por dispensar. Espero sinceramente que a tradicional escola do Morro da Formiga, agremiação pela qual tenho tanto afeto, consagre a composição do trio. Certo é que, assim como em fevereiro passado, em 2010 estarei entre os componentes da verde-e-branca. Desfile duplo, aliás, e duplamente imperial: primeiro o Império Serrano, depois o Império da Tijuca.

Segue a letra do samba, que pode ser ouvido aqui.

"Suprema Jinga - Senhora do trono Brazngola"

Simas, Beto Mussa e Edgar Filho

"Segredos e mistérios em Matamba
Ferreiros, quimbandas, canibais
Dos Jagas, herdei minha raça
Na aldeia de Cabassa
Houve estranhos rituais

Vozes fantásticas
De onde vinham, não sei
Profetizavam: a menina será rei

A palavra que se cumprirá
Dor e sangue virão do mar

Mas nunca ninguém vai tomar a minha terra
Uma embaixada a Luanda eu vou levar
Fiz da minha escrava um trono vivo
Que vou doar

Fui batizada, estudei, tornei-me grande
Meu irmão Ngola Mbande
Meu veneno vai provar
Viril rainha
Meu harém tem mil maridos
Enfeitados, travestidos
Para me deliciar

Última batalha: mortes, traição
Mas minha lenda
É o mito da libertação

Desce o Morro da Formiga
Vem me coroar
Sou rainha Jinga,
O congo vai passar"

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A música segunda Escrito em 11 de agosto de 2009
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Leonardo Medeiros e Helena Ranaldi estrelam a peça

Na sexta passada, fui conferir o espetáculo A música segunda, que está em cartaz no Teatro Maison de France com preços até razoáveis (R$ 30 às quintas e sextas) para os padrões atuais. Estava curioso para conhecer a peça escrita pela francesa Marguerite Duras e isso se devia sobretudo ao tema: o reencontro de um casal que se separou não pelo adormecimento dos afetos, mas por "amar demais". O texto de madame Duras é, de fato, um primor. E é muito bem conduzido pelos dois atores: uma Helena Ranaldi gélida e dura como uma manequim de vitrine e um Leonardo Medeiros cindido entre a lamentação e a entrega.

A paixão fulminante (e excessiva, e destrutiva) vivida pelos dois no passado ressurge mais em olhares do que em palavras. É como se quisessem se lançar nos braços um do outro, mas fossem impedidos por algo que é menos da ordem da razão do que sintoma do cansaço. Como se a fagulha que ficou, embora ameaçe, nunca conseguisse provocar o incêndio. Sempre na borda. À beira de.

A trilha sonora, que em certos momentos da peça chega a assumir o protagonismo, e a iluminação, variando entre luz e sobras, ajudam a criar uma atmosfera ambígua, perfeitamente antenada com o texto. Na direção de José Possi Neto, a lamentar apenas a dispensável presença dos dois dançarinos que, ao fundo do palco, tentam "representar" as lacunas do diálogo entre os protagonistas da peça. Um expediente redundante, meramente ilustrativo, que destoa do todo por colocar negritos no que é insinuação, nuança, indeterminação.

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É amanhã! Escrito em 07 de agosto de 2009
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Um tricolor em Belgrado Escrito em 06 de agosto de 2009
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É assim, trajando uma histórica camisa tricolor, que o amigo Ondjaki aparece nas páginas de uma revista de Belgrado (Sérvia) que o entrevistou. Desde que veio morar no Brasil, o autor angolano tem o Fluminense como time de coração. Sinal inequívoco de bom gosto.

Falando no Ondjaki, vale lembrar que no próximo sábado, às 17h, ele vai participar, ao lado do Flávio Izhaki e deste que vos escreve, do Encontro entre escritores promovido pela Livraria Moviola (Rua das Laranjeiras, 280 - Lojas B e C). O debate será mediado pelo jornalista Miguel Conde, que, assim como eu, Flávio e Ondjaki, mora em Laranjeiras. Apareçam!

Inscrições e mais informações pelo telefone (21)2285-8339 ou do e-mail moviola.contato@gmail.com.

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Na sutileza do amanhecer Escrito em 04 de agosto de 2009
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Mestre da História (e das pequenas histórias) do Brasil, o querido Luis Antônio Simas colocou na internet uma versão rara, raríssima, do samba Domingo, obra-prima que a União da Ilha levou à Avenida em 1977. A gravação foi feita na quadra da escola, e quem canta é o grande Aroldo Melodia (foto). De emocionar.

Ouça aqui.

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Alergia a 'tijolões' Escrito em 03 de agosto de 2009
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Em seu ótimo blog, o Paulo Roberto Pires fez hoje uma confissão que certamente vai receber muitos olhares enviesados, já que afetação é artigo que nunca falta nas estantes do mundo literário. "Tenho horror a livro grosso", revela Paulo, para meu gáudio particular. Isso porque também reluto muito em encarar os chamados 'tijolões'. Recomendo a leitura do bem-humorado texto, cujo trecho inicial republico a seguir. Confira a íntegra aqui.

"Tenho horror a livro grosso. Ou melhor, a livro grosso que tenha sido escrito e publicado nos últimos 30 anos – Thomas Pynchon incluído. Pois a concisão é, definitivamente, uma virtude de nosso tempo. Não que o mundo deva ser feito de Dalton Trevisan ou David Markson, mas um Ian McEwan ou um Milton Hatoum mostram com brilhantismo que o limite das 400 e poucas páginas é sinal de bons modos literários.

Ok, “As benevolentes” bate quase mil páginas, assim como as obras seminais dos nouveaux génies Roberto Bolaño e David Lencinho Forster Wallace. Tudo caudaloso - ou prolixo, vocês escolhem. Pessoas que respeito me dizem “vale a pena”. Eu acredito. Mas não encaro. Ou melhor, uso minha escala Hermeto Paschoal: ele tem todo o direito de fazer show de cinco horas e meia, amarradão, assim como eu tenho de me retirar quando estiver bom para mim – no livro de Jonathan Littell, por exempo, parei nas 300 e poucas e pedi que o Arthur Dapieve me contasse o final. (...)"

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Encontros Moviola Escrito em 03 de agosto de 2009
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No próximo sábado, às 17h, a locadora/livraria Moviola sediará um debate com os escritores Ondjaki e Flávio Izhaki, além deste que vos escreve, sobre literatura contemporânea. A mediação será do jornalista Miguel Conde, subeditor do caderno Prosa & Verso (O Globo), e cada autor comentará seus livros, no contexto da atual produção na área ficcional. Recém-ampliada, a Moviola agora conta com um charmoso café e com salas para cursos e palestras, que começarão já na quinta-feira. A programação completa pode ser conferida aqui.

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Hotel Novo Mundo Escrito em 03 de agosto de 2009
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Amanhã, a partir das 20h, na Travessa de Ipanema, vai rolar o lançamento de Hotel Novo Mundo, da querida Ivana Arruda Leite. Contista de mão cheia, Ivana estréia na narrativa longa com esse romance, que sai pela Editora 34. O livro costura histórias personagens que transitam por um hotel barato do centro de São Paulo, tendo como elo uma ex-prostituta. Depois do lançamento, com toda certeza, haverá bebemoração.

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