
No sábado passado, a suplemento Prosa & Verso (O Globo) publicou a entrevista que o repórter Miguel Conde fez comigo sobre o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa. Segue a íntegra do texto:
"A Língua em 35 palavras"
Miguel Conde
"Há dois anos o escritor português Jorge-Reis Sá lançou em seu país a coletânea “A minha palavra favorita”, de título autoexplicativo, com textos de 90 autores. Algum tempo depois o livro caiu nas mãos do brasileiro Marcelo Moutinho, que sugeriu aproveitarem a ideia num novo livro, com menos gente e título mais ambicioso: daí surgiu o “Dicionário amoroso da língua portuguesa” (Casa da Palavra). Moutinho e Reis-Sá reduziram para 35 o número de autores, mas expandiram para quatro continentes a sua procedência, até chegar ao livro que se anuncia na capa como uma “celebração da diversidade”. O volume (que reaproveita alguns textos do livro de 2007) não incorporou as mudanças do Acordo Ortográfico, considerado utilitarista por Moutinho. Mas “não é um livro manifesto”, diz. Ele conversou com O GLOBO sobre a obra.
A inspiração inicial para essa coletânea foi um outro livro, “A minha palavra favorita”, organizado em Portugal por Jorge Reis-Sá. Mas vocês fizeram mudanças nesse modelo. Quais foram?
MARCELO MOUTINHO: Além de reunirmos escritores de vários países e não termos palavras repetidas, as palavras escolhidas pelos autores não são necessariamente as preferidas deles. Nem sempre a palavra preferida é a mais inspiradora. Sei lá se “peteleco” é a palavra preferida do Paulo Henriques Britto, mas imagino que não seja. Então o livro tem uma lente de afetividade dos autores com as palavras, mas sem essa exigência.
A reunião de autores de países diferentes mostra ao mesmo tempo a diversidade do português e sua unidade. O que se sobressai, em sua opinião, são as diferenças ou as aproximações?
MOUTINHO: Os pontos de contato aparecem mais do que o distanciamento, com toda certeza. Em geral, os textos se encaixam naquilo que se diz sobre a própria língua e a cultura portuguesas: saudade, nostalgia, um certo romantismo. Minha dúvida é se isso aconteceu pela proposta do livro ou mesmo pelas características da língua. Se fosse um “Dicionário amoroso da língua inglesa”, seria assim também? Eu não sei.
A língua é sempre pensada como elemento da identidade nacional, e às vezes é objeto de iniciativas xenófobas, inclusive. O livro traz um olhar mais cosmopolita sobre a língua, não?
MOUTINHO: Sim. Nesse sentido, a literatura africana ainda tem uma relação menos bem resolvida com o português do que o Brasil, até por nossa independência ser anterior à deles. Muitos autores africanos não gostam que se fale de lusofonia, por exemplo. Acham que isso remete ao colonizador. Mas isso tem a ver com a independência recente desses países.
Por que vocês resolveram não aplicar no livro as regras do Acordo Ortográfico?
MOUTINHO: Nosso objetivo era que o livro refletisse as singularidades existentes dentro da unidade da língua portuguesa. E o acordo, se não deleta, minora essas singularidades, por que o que ele faz é padronizar. Se estou lançando um livro para valorizar a diversidade da língua, aderir ao acordo seria contraditório. Mas os autores não se pautaram por isso. Minha posição pessoal é contra o acordo, porque acho que ele tem uma visão utilitarista da língua, só pensa no lado econômico e em mais nada. Mas eu não poderia dizer que todos os autores do livro concordam comigo. Não é um livro manifesto.
Esse é um dicionário amoroso, mas muitas vezes a relação dos escritores com as palavras é descrita como uma luta, como no poema do Drummond. Isso também aparece no livro?
MOUTINHO: Isso aconteceu em alguns casos, um embate com o que seria o significado primeiro da palavra. Meu conto mesmo parte da palavra “água”, tida como algo que limpa, purifica. Mas a história é o oposto disso. O conto da Tatiana Salem Levy, com “deserto”, também vai um pouco por aí. A Adriana Lisboa ia usar “delicadeza”, para brincar com o que dizem a respeito dos contos dela. Mas ela trocou, temia que a escolha fosse levada ao pé da letra, quando era uma ironia.
Além das diferenças nacionais, o livro chama atenção para as relações individuais com as palavras.
MOUTINHO: Que é muito mais interessante. O Fernando Molica, por exemplo, insistiu que no conto dele “buceta” ficasse com “u”. No dicionário está com “o”, mas ele falou “minha buceta é com ‘u’”. A gente não se ateve ao que está no dicionário. O José Luiz Peixoto pegou uma palavra inventada, “calicatri”. Ele diz que é uma palavra que ele ouvia quando pequeno no norte de Portugal, mas ele mesmo não tem certeza se a palavra de fato existia. Era uma memória infantil. Ele registrou no romance dele, que tem um personagem chamado Príncipe de Calicatri, e recuperou para esse livro. É claro, a gente inclui uma observação lá explicando, porque se a gente não tiver um mínimo padrão na comunicação vira Torre de Babel, ninguém se entende.
Nos últimos anos foram publicadas inúmeras coletâneas de autores brasileiros, com temas diferentes. O que você acha desse fenômeno?
MOUTINHO: É, eu organizei algumas. Foi importante num primeiro momento, de reaquecimento da vida literária brasileira. Era uma forma muito interessante de apresentar novos autores. Para as editoras, era mais fácil lançar um livro com quinze autores do que lançar quinze livros diferentes. Mas é evidente que houve um desgaste. Eu tinha jurado para mim mesmo que não faria mais coletâneas, e não pretendo fazer mais, mas acho que não podia deixar de fazer essa. Agora estamos num segundo momento, os autores já caminham com suas próprias obras, mas isso também é consequência das coletâneas do Nelson de Oliveira.
Houve quem visse um lado meio marqueteiro naquele batismo da Geração 90.
MOUTINHO: E talvez a literatura precisasse desse efeito de marketing. Naquele momento, havia um vácuo absoluto em termos de novos autores. Ele teve que fazer um trabalho de escavação. Foi importante. Não vejo isso como ruim para a literatura. Mas é natural, chega uma hora em que o mercado repele, há uma saturação."
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