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12 notas sobre a Flip Escrito em 06 de julho de 2009
separador


Paulo Roberto Pires, Rodrigo Lacerda e Domingos de Oliveira

1. O painel que reuniu Rodrigo Lacerda e Domingos de Oliveira, com mediação do Paulo Roberto Pires, foi o primeiro grande momento da Flip. Rodrigo se safou bem na difícil tarefa de dividir a mesa com um talento do tamanho do Domingos. O dramaturgo, por sua vez, brilhou intensamente. De início, ele leu uma linda pensata sobre a separação (tema do debate). Na seqüência, fez uma exposição absolutamente comovente, na qual defendeu, com tom embargado e uma voz vacilante que só o intensificava, a paixão pela vida (e pela arte). Ao fim, Rodrigo homenageou Domingos com a leitura de um trecho do roteiro do filme Separações. Dizia o texto: “A Justa Lei Máxima da Natureza obriga que a quantidade de acontecimentos maus na vida de um homem se iguale sempre à quantidade de acontecimentos favoráveis. O Homem Lúcido, porém, esse que optou pela vida com o consentimento dos deuses, tem o poder magno de alterar essa lei. Na sua vida, os acontecimentos favoráveis serão sempre maioria... Porque essa é uma cortesia que a Natureza faz com Os Homens Lúcidos”. Nesse instante, havia gente chorando;

2. A mesa de Arnaldo Bloch, Sérgio Rodrigues e Tatiana Salem Levy foi interessante também. Os três comentaram as imbricações entre história e ficção a partir de suas obras (respectivamente, Os irmãos Karamabloch; Elza, a garota e A chave da casa) com competência. O trecho lido pelo Arnaldo, muito bem escrito, me impressionou - e vou ler o livro dele o mais rapidamente possível;


Mario Bellatin, com sua prótese 'polêmica', e Cristõvao Tezza

3. No mediano debate entre Mario Bellatin e Cristóvão Tezza, as perguntas do mediador, Joca Terron, infelizmente se concentraram muito no autor mexicano (este que me soa ‘espetaculoso’ demais). O magnífico livro de Tezza – O filho eterno – foi pouco explorado;

4. A palestra de Richard Dawkins foi excelente, muito por conta da feliz mediação do Silio Boccanera, que, já na apresentação, definiu bem o autor britânico: "Deus e Darwin são os dois personagens mais importantes para nosso convidado. Não necessariamente nesta ordem". Algumas pessoas se decepcionaram, achando que Dawkins iria repetir a performance de Cristopher Hitchens há alguns anos. Mas o biólogo mostrou inteligência, equilíbrio e capacidade de argumentação sem apelar para a polêmica fácil. Foi, em suma, uma verdadeira aula, sobretudo para não cientistas, como eu;


Ondjaki, eu e Marcelino Freire, no debate da Casa de Cultura

5. Fiquei feliz com o sucesso do painel que mediei na Casa de Cultura e que reuniu Marcelino Freire e Ondjaki. Eram 10h30, chovia, o ingresso custava R$ 10, O Globo insistiu no erro ao divulgar a mesa, e ainda auditório ficou totalmente lotado. Foi um papo surpreendentemente divertido sobre um tema a princípio maçante: o acordo ortográfico. Marcelino já começou sua fala dando o tom bem- humorado que marcaria o painel: “Sou a favor do acordo pornográfico. Aquele em que a gente fica sabendo onde coloca a língua”. Ondjaki pegou a deixa e lembrou de um amigo que ‘atualizou’ a máxima de Fernando Pessoa ("Minha pátria é minha língua”), já alterada por Mia Couto ("Minha pátria é minha língua portuguesa”), e vaticinou: "Minha pátria é minha língua - numa portuguesa". Não obstante as brincadeiras, a discussão empolgou o público, que se dividiu entre a aprovação e a crítica ao acordo (os integrantes da mesa, inclusive eu, se mostraram contrários) e fez ótimas perguntas;

6. Infelizmente, não consegui ver a mesa do Bernardo Carvalho justamente por conta do debate na Casa de Cultura;


Lançamento no Che: Ivana Arruda Leite, Marcelino e dois amigos


Também no Che Bar: Fernando Molica e Henrique Rodrigues

7. Foi muito bom o lançamento do Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa, com uma feijoada no Che Bar. Muita gente que havia assistido ao painel sobre o acordo esteve lá e o resultado disso foi que o feijão acabou. Agradeço aos autores da antologia Fernando Molica, Henrique Rodrigues, Marcelino Freire e Ondjaki por prestigiarem o evento;

8. A mesa do Chico Buarque foi bacana, apesar do claro nervosismo do mediador (Samuel Titan Jr.). Chico e Milton Hatoum se entrosaram bem, até porque centraram a conversa em livros (Leite derramado, do primeiro; Órfãos do Eldorado, do segundo) que de fato têm muitas interseções. Senti falta de um questionamento sobre as recentes (e lamentáveis) declarações do Hatoum sobre blogs;

9. Clóvis Bulcão e Lúcia Bettencourt agradaram muito à platéia da Off-Flip. Ele, após a palestra sobre Padre Antonio Vieira, bateu o recorde de vendas do evento alternativo. Ela, como de hábito, encantou as pessoas com a humildade com que falou sobre a tardia carreira de escritora;

10. Talvez porque tenha lido várias entrevistas dele antes da palestra, achei a exposição de Gay Talese meio deja vú. Ele apenas repetiu informações e comentários já feitos aqui e ali. Claro que o discurso é interessante, mas faltou algo;


Antonio Lobo Antunes: o grande destaque da Flip 2009

11. Nao tenho dúvidas de que o grande destaque da Flip 2009 foi o sensacional painel com Antonio Lobo Antunes. O português, cuja fama é de vaidoso e mau-humorado, arrebatou a platéia com a precisão de suas observações sobre a literatura e com sua extrema sinceridade. Sem pose de intelectual nem guirlandas de falsa erudição, Lobo Antunes lembrou da infância no Brasil, falou de colegas como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro e de seu processo de criação. Contou, também, histórias saborosas, como a que relata quando o avô, ao saber que o garoto andava “a rabiscar versos”, chamou-o à fala e, como homem antenado à moral da época, perguntou-lhe: “És viado?”.
Lobo Antunes fez, também, uma definição precisa sobre a condição ideal no ato de escrever - “Todos os escritores deverim ver Garrincha jogando bola. Para escrever bem é preciso juntar a racionalidade de Didi à inventividade de Garrincha” – e recordou a relação com o pai, que, embora nunca tenha se oposto à carreira do filho, afirmou durante toda a vida que nunca lera seus romances. No entanto, depois da morte, Lobo Antunes encontrou todos os seus livros com anotações e uma carta, endereçada a ele, com 600 páginas. Um trabalho de muitos anos, e certamente precioso;

12. A inteligência e a pouca afetação de Lobo Antunes, traço admirável (e já lhes digo por que reitero isso), me remeteram a outra palestra memorável na Flip: a de Adélia Prado, que aconteceu algumas edições atrás. Os dois casos servem de exemplo e lição. Sim, porque o ponto negativo (como quase sempre) de 2009 foram as cenas de cortejo meramente utilitarista, os flagrantes de deslumbramento precoce, esses males que infestam o meio literário e que em Paraty parecem encontrar seu ponto máximo ("Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal", já cantou Billy Blanco, e nunca é demais lembrar). Sem a necessidade de recorrer a próteses chamativas e pretensamente polêmicas, sem simpatias de pau oco ou ilusões de grandeza, Adélia e Lobo Antunes mostraram que o grande escritor é antes de tudo um homem, como nós. Com suas alegrias, seus dramas, sua solidão.

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