
Belíssimo o texto publicado hoje pelo Arthur Dapieve em sua coluna no Segundo Caderno (O Globo). A partir de um momento de mal-estar ao testemunhar o crepúsculo numa fazenda, ele constrói uma poderosa reflexão sobre a escuridão, tanto a real, quanto a metafórica. Segue a íntegra da crônica.
"O coração nas trevas
(Metafísica para o crepúsculo)"
Arthur Dapieve
"Disposto a aproveitar do primeiro ao último raio de sol das férias estivais além-mar, o amigo da coluna perguntou candidamente ao porteiro do hotel: “Quando escurece aqui?” A resposta veio na mistura de humor torto e lógica implacável que nós, malandros otários d’aquém-mar, preferimos acreditar ser burrice: “Não, senhor, aqui não escurece nunca, pois quando está a escurecer, nós acendemos as luzes e, pronto, continua tudo claro.”
Lembrei-me dessa história verídica com vocação para anedota dias atrás, conforme a luz caía sobre a serra. A sede da fazenda já estava iluminada, bem como as outras casas, mas se assemelhavam, todas, a barcos iluminados e desamparados, cercados pela escuridão de alto-mar. Esse momento nunca me forneceu especial motivo para riso, mas, por alguma desrazão, senti aquele crepúsculo da semana passada como particularmente angustioso.
No lusco-fusco, quase trombei com uma amiga, que, vim a descobrir, pensava mais ou menos os mesmos pensamentos. Falou-me do sentimento de opressão que sentia no peito a cada vez que, hospedada no campo, chegava a noite, tornando luzes e sons esparsos, quando não extintos. A noite seguinte foi pior. Sozinho a perambular pelo gramado, o peso da hora ficou quase insuportável, e achei até que fosse chorar.
Minha mulher nasceu no interior de Minas, não na roça, mas numa pequena cidade da Zona da Mata. Ainda assim, ela com frequência fala da sensação de melancolia que a invade a cada pôr do sol, mesmo aqui na cidade grande. Lá na serra, a inevitabilidade da noite afinal pegou-me da forma que, creio, desde sempre a atormenta. E avistar um grande pássaro preto caminhando em silêncio pelo bambuzal não deixou o clima menos lúgubre.
Não há, porém, nada de sobrenatural no acima relatado. O medo que nossa espécie sente do escuro não foi de todo superado nem pelo pré-histórico anônimo que dominou o fogo nem por Thomas Alva Edison e sua lâmpada elétrica. Continuamos vagamente cientes de que, sim, as trevas continuam à espreita, logo adiante dos círculos de luz. Não é à toa que aquele que talvez seja o mais resistente mito grego, o do titã Prometeu, diga respeito ao roubo do fogo dos deuses do Olimpo para compartilhar com os homens cá embaixo.
Quiçá esse desconforto indefinível não seja nem tanto medo do escuro quanto do escurecer. Estará aí a chave para a angústia do crepúsculo? Com o escuro, a gente se conforma, até porque não há outro jeito. No escurecer, a gente se revolta, acha que cabe recurso, luz, injeção, coquetel de drogas. Entramos, claro, no terreno da metáfora para a morte e da metafísica em geral. Aliás, metafísica tal como desprezada por Wittgenstein: o terreno das coisas sobre as quais não podemos falar e, portanto, deveríamos calar.
Existe uma música que faz a trilha sonora dos meus crepúsculos mais tristes. É “Virgem”, de Marina Lima, dela com o irmão poeta e filósofo, Antônio Cícero, gravada pela primeira vez no LP homônimo, de 1987. Cumpre esse papel porque é exatamente na hora da morte da luz que se dá a canção: “O Hotel Marina quando acende/ Não é por nós dois/ Nem lembra o nosso amor/ Os inocentes do Leblon/ Esses nem sabem de você.”
Contudo, o mais brilhante achado da letra é logo o verso inicial, “as coisas não precisam de você”. Isso é a própria náusea sartriana em meio comprimido, o falso antídoto surgindo nos dois versos subsequentes, “quem disse que eu/ tinha que precisar?” O mal-estar que nasce da percepção de que as coisas não precisam de você _ e, subentende-se, de mim _ é precisamente o cerne do romance que o bom, então jovem e para sempre zarolho Jean-Paul publicou em 1938: “A náusea”, cujo titulo original era “Melancolia”.
Numa tarde de janeiro, que no inverno setentrional é toda crepúsculo, o personagem Antoine Roquentin, historiador de 35 anos, sente a existência cair-lhe sobre os ombros no jardim público da província. Ele descobre, aturdido, o que significa existir. A presença da copa das árvores sobre sua cabeça e das raízes delas sob seus pés se corporifica num enjoo. Roquentin sente-se num “amontoado de entes incômodos”, sem razão para estarem ali.
“Eles não desejavam existir, só que não podiam evitá-lo; era isso”, lê-se na tradução de Rita Braga para a Nova Fronteira, que preserva os itálicos do autor. “Então realizavam suas pequenas funções, devagar, sem entusiasmo; a seiva subia lentamente pelos veios, a contragosto, e as raízes se enfiavam lentamente na terra. Mas a cada momento eles pareciam a pique de abandonar tudo e se aniquilar. (...) Todo ente nasce sem razão, se prolonga por fraqueza e morre por acaso. Inclinei-me para trás e fechei as pálpebras. Mas as imagens, imediatamente alertadas, de um salto vieram encher de existências meus olhos fechados: a existência é uma plenitude que o homem não pode abandonar.”
No filme “Ricardo III _ Um ensaio”, Al Pacino cogita que tudo o que pensamos de modo desconexo já foi escrito por Shakespeare. O crítico Harold Bloom também escreveu algo assim. Só pelo Bardo, não sei, mas por alguém, como Sartre, tenho quase certeza. Ao cair da luz, as coisas se dissolvem no escuro, mas continuam ali, tão firmes quanto podem estar. O gramado, o bambuzal, os pássaros, as palmeiras, a mata circundante, os animais, eles continuam lá, no escuro, neste preciso momento. As coisas não precisam de nós."
Há três anos, talvez um pouco mais, ouvi o Dirceu Leite comentar o projeto de gravar um disco instrumental com músicas do pessoal do Cacique de Ramos. No ato, fiquei entusiasmado com a idéia. Em primeiro lugar, pela propriedade do autor - Leite é um flautista, clarinetista e saxofonista que acompanhou (a) meio mundo do samba e, portanto, tem inegável intimidade com o repertório escolhido. Em segundo, porque costuma haver, em certos círculos, um velado preconceito contra o trabalho de compositores como Arlindo Cruz, Sombra, Sombrinha, Jorge Aragão, Almir Guineto, Franco e até mesmo, pasmem, Luiz Carlos da Vila.
O CD, pensei eu, poderia ajudar a sublinhar a qualidade das músicas produzidas por esses sambistas, que tiveram uma importância capital (e muitas vezes não reconhecida) em segurar a batuta do samba quando o gênero estava em baixa. E, para além disso, criaram canções de altíssima qualidade, que ocupam, sim, e à revelia dos puristas de ocasião, lugar de honra na história da música brasileira.
Na semana passada, fiquei sabendo que o projeto do Dirceu enfim frutificou. Ontem, o CD chegou às minhas mãos. E digo a vocês: é um discaço. O resultado final foi totalmente ao encontro das minhas (altas) expectativas. Sambas como Lucidez (Cleber Augusto/Jorge Aragão), Ainda é tempo para ser feliz (Arlindo Cruz/Sombra/Sombrinha), Fogo de saudade (Sombrinha/Adilson Victor), Pra conquistar teu coração (Luiz Carlos da Vila/Wanderley Monteiro) e Lama nas ruas (Zeca Pagodinho/Almir Guineto) têm a melodia valorizada pelo sopro inspirado do instrumentista e a participação especial de outros bambas, como Hamilton de Hollanda, Carlos Malta, Vittor Santos e Ovídio Britto.
O clima do disco é de gafieira, e os arranjos das 13 faixas são precisos no equilíbrio entre a condução dos temas e os improvisos - sem excessos e, o mais importante, sem descaracterizar as músicas (problema, por exemplo, do CD de Leandro Braga com as canções de Doma Ivone Lara). Cacique instrumental é, em suma, um álbum que une o prazer estético à importância histórica. Desde já, fundamental.
Encerraram-se ontem as inscrições dos sambas concorrentes no Império Serrano para 2010, quando a escola cantará na Sapucaí o João das ruas do Rio. A safra está forte, com composições de vários ganhadores, como Arlindo Cruz, Henrique Hoffman, Vicente Mattos e Luiz Carlos do Cavaco, e de membros da Velha Guarda, como Ivan Milanez. Você pode ouvir 12 dos 20 candidatos aqui. Deixe, na caixa de comentários, a sua opinião.
Há algumas semanas, o Roberto Pompeu de Toledo escreveu, em sua coluna na revista Veja, um ótimo texto no qual relacionava a pichação de um muro em São Paulo a um poema de Jorge Luis Borges. Pois bem: na atual edição, ele acerta de novo - e traçando outra analogia improvável. Desta vez, a ponte se dá entre a condição do protagonista do romance O Deserto dos Tártaros>, de Dino Buzzati, e a situação dos astronautas que, em 1969, fizeram história ao pisar na Lua. Recomendo a leitura do artigo, que se segue.
"Mártires da glória"
Roberto Pompeu de Toledo
"O tema do romance O Deserto dos Tártaros, do italiano Dino Buzzati, publicado em 1940, é a esperança. Giovanni Drogo, o personagem central da história, é um militar que ganha seu primeiro posto no remoto e isolado forte Bastiani, situado na fronteira norte de um país indefinido, e ali permanecerá até o fim da carreira. As tarefas são repetitivas e inúteis. Nada acontecia por ali fazia anos, e continua não acontecendo. Drogo tem chances de mudar de posto em busca de uma vida com mais ação e mais propósito, mas deixa escapá-las todas. Move-o a esperança de que um dia o inimigo atacará por aquele flanco e enfim se revelará que a vigília não foi vã. Melhor ainda, nesse dia ele poderá se sagrar herói, aspiração máxima de quem escolhe a carreira militar.
Drogo envelhece esperando o que nunca acontece. Passaram-se os anos, mas ele "não pensa que o futuro se reduziu terrivelmente, não é mais como antes, quando o tempo vindouro podia parecer-lhe um período imenso, uma riqueza inexaurível que ele não corria nenhum risco em esbanjar". Ele persistia "na ilusão de que o importante ainda está para começar". Este é o grande momento do livro. Nele o autor ultrapassa os limites de sua história e de seu personagem para apontar lapidarmente um dos mais fortes motivos, se não o mais forte, pelos quais, em qualquer circunstância e qualquer tempo, continua-se a viver e a manter a flama: a persistente esperança de que o melhor ainda está por vir.
A trajetória do trio de astronautas da Apollo 11 não poderia, à primeira vista, oferecer contraste maior com a de Giovanni Drogo. Na vida de Drogo não aconteceu nada. Na deles aconteceu de serem os primeiros a empreender uma viagem de desembarque na Lua. Drogo esperou em vão pela glória. Os astronautas conheceram a glória de uma empreitada que por milênios pareceu impossível. No entanto, havia na semana passada algo de melancólico na figura daqueles três senhores, a participar, com o presidente Barack Obama, da cerimônia comemorativa dos quarenta anos da proeza. A cerimônia soava a desfile de veteranos de guerra. Desfiles de veteranos de guerra são patéticos. Mostram senhores não só distantes do antigo garbo e do momento que os alçou acima do comum dos homens e da existência comum, como os põem na desconfortável posição de reclamar o reconhecimento a uma geração que guarda memória apenas vaga de seus feitos.
Do trio de astronautas, os dois que pisaram na Lua (o outro permaneceu em órbita) experimentaram momentos dolorosos, nestes quarenta anos. Edwin Aldrin mergulhou no alcoolismo e na depressão. Neil Armstrong impôs-se um alerta neurótico contra a exploração não autorizada de sua fama. Deixou de dar autógrafos quando descobriu que eram comercializados. Moveu processo contra uma empresa que usou sua (tola) frase do "pequeno passo para um homem, grande salto para a humanidade". Moveu outro, campeão de exotismo, contra o barbeiro que ousou vender um chumaço de seus cabelos. Trancou-se, como ermitão, na pequena cidade em que mora.
Os heróis da Lua nada têm a ver com Giovanni Drogo, mas lhes ocorreu algo tão incômodo quanto. Conheceram cedo, antes dos 40 anos, o ponto mais alto de sua vida. Como escreveu Aldrin: "Que pode fazer um homem, depois de ter andado na Lua?". A eles foi roubado o princípio basilar da esperança, aquele segundo o qual, na fórmula de Dino Buzzati, "o importante ainda está por começar". É o que ocorre igualmente com outros profissionais de glória precoce, como os jogadores de futebol e as crianças-prodígio que ao crescerem não confirmam seus talentos. Os astronautas da Apollo 11 nos parecem, e talvez pareçam também a si mesmos, personagens que, cedo, foram condenados a virar sombras de si mesmos.
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Quanto a Giovanni Drogo, para quem quer saber o fim da história – a guerra acaba estourando, sim, na fronteira norte, mas bem no momento em que, velho e doente, ele é retirado do forte para dar lugar a alguém apto ao combate. Morre pouco depois, no solitário quarto de uma estalagem, e, no último momento, embora ninguém o contemple, sorri. Segundo escreveu o crítico Antonio Candido, num bonito ensaio, Drogo sorri porque enfim compreende que "a Morte era a grande aventura esperada" e que enfrentá-la "com firmeza e tranquilidade" é "o momento supremo da vida de todo homem". Pode ser. Mas pode ser também, mais prosaicamente, um sorriso de rendição. A morte, no cumprimento de seu papel, acabara de revelar-lhe a vacuidade do sonho, da glória e da esperança."
Tricolor que sou, me emocionei com a bela cena do Andrade em lágrimas ao fim do jogo do Flamengo contra o Santos - e isso nada tem a ver com a palhaçada da imprensa em torno de 'tabus' construídos apenas para esquentar transmissões. Pelo contrário: a imagem do velho craque, com a voz embargada, dedicando a vitória ao goleiro Zé Carlos (que falecera há pouco), é a antítese desse circo de deslumbramento e grana fácil em que o esporte se vê envolvido. Ontem, Andrade fez lembrar um tempo em que realmente havia ligação afetiva (hoje raríssima) dos jogadores com a camisa que vestiam. E, por cinco ou seis minutos, me fez acreditar novamente em paixão no futebol.
No sábado passado, a suplemento Prosa & Verso (O Globo) publicou a entrevista que o repórter Miguel Conde fez comigo sobre o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa. Segue a íntegra do texto:
"A Língua em 35 palavras"
Miguel Conde
"Há dois anos o escritor português Jorge-Reis Sá lançou em seu país a coletânea “A minha palavra favorita”, de título autoexplicativo, com textos de 90 autores. Algum tempo depois o livro caiu nas mãos do brasileiro Marcelo Moutinho, que sugeriu aproveitarem a ideia num novo livro, com menos gente e título mais ambicioso: daí surgiu o “Dicionário amoroso da língua portuguesa” (Casa da Palavra). Moutinho e Reis-Sá reduziram para 35 o número de autores, mas expandiram para quatro continentes a sua procedência, até chegar ao livro que se anuncia na capa como uma “celebração da diversidade”. O volume (que reaproveita alguns textos do livro de 2007) não incorporou as mudanças do Acordo Ortográfico, considerado utilitarista por Moutinho. Mas “não é um livro manifesto”, diz. Ele conversou com O GLOBO sobre a obra.
A inspiração inicial para essa coletânea foi um outro livro, “A minha palavra favorita”, organizado em Portugal por Jorge Reis-Sá. Mas vocês fizeram mudanças nesse modelo. Quais foram?
MARCELO MOUTINHO: Além de reunirmos escritores de vários países e não termos palavras repetidas, as palavras escolhidas pelos autores não são necessariamente as preferidas deles. Nem sempre a palavra preferida é a mais inspiradora. Sei lá se “peteleco” é a palavra preferida do Paulo Henriques Britto, mas imagino que não seja. Então o livro tem uma lente de afetividade dos autores com as palavras, mas sem essa exigência.
A reunião de autores de países diferentes mostra ao mesmo tempo a diversidade do português e sua unidade. O que se sobressai, em sua opinião, são as diferenças ou as aproximações?
MOUTINHO: Os pontos de contato aparecem mais do que o distanciamento, com toda certeza. Em geral, os textos se encaixam naquilo que se diz sobre a própria língua e a cultura portuguesas: saudade, nostalgia, um certo romantismo. Minha dúvida é se isso aconteceu pela proposta do livro ou mesmo pelas características da língua. Se fosse um “Dicionário amoroso da língua inglesa”, seria assim também? Eu não sei.
A língua é sempre pensada como elemento da identidade nacional, e às vezes é objeto de iniciativas xenófobas, inclusive. O livro traz um olhar mais cosmopolita sobre a língua, não?
MOUTINHO: Sim. Nesse sentido, a literatura africana ainda tem uma relação menos bem resolvida com o português do que o Brasil, até por nossa independência ser anterior à deles. Muitos autores africanos não gostam que se fale de lusofonia, por exemplo. Acham que isso remete ao colonizador. Mas isso tem a ver com a independência recente desses países.
Por que vocês resolveram não aplicar no livro as regras do Acordo Ortográfico?
MOUTINHO: Nosso objetivo era que o livro refletisse as singularidades existentes dentro da unidade da língua portuguesa. E o acordo, se não deleta, minora essas singularidades, por que o que ele faz é padronizar. Se estou lançando um livro para valorizar a diversidade da língua, aderir ao acordo seria contraditório. Mas os autores não se pautaram por isso. Minha posição pessoal é contra o acordo, porque acho que ele tem uma visão utilitarista da língua, só pensa no lado econômico e em mais nada. Mas eu não poderia dizer que todos os autores do livro concordam comigo. Não é um livro manifesto.
Esse é um dicionário amoroso, mas muitas vezes a relação dos escritores com as palavras é descrita como uma luta, como no poema do Drummond. Isso também aparece no livro?
MOUTINHO: Isso aconteceu em alguns casos, um embate com o que seria o significado primeiro da palavra. Meu conto mesmo parte da palavra “água”, tida como algo que limpa, purifica. Mas a história é o oposto disso. O conto da Tatiana Salem Levy, com “deserto”, também vai um pouco por aí. A Adriana Lisboa ia usar “delicadeza”, para brincar com o que dizem a respeito dos contos dela. Mas ela trocou, temia que a escolha fosse levada ao pé da letra, quando era uma ironia.
Além das diferenças nacionais, o livro chama atenção para as relações individuais com as palavras.
MOUTINHO: Que é muito mais interessante. O Fernando Molica, por exemplo, insistiu que no conto dele “buceta” ficasse com “u”. No dicionário está com “o”, mas ele falou “minha buceta é com ‘u’”. A gente não se ateve ao que está no dicionário. O José Luiz Peixoto pegou uma palavra inventada, “calicatri”. Ele diz que é uma palavra que ele ouvia quando pequeno no norte de Portugal, mas ele mesmo não tem certeza se a palavra de fato existia. Era uma memória infantil. Ele registrou no romance dele, que tem um personagem chamado Príncipe de Calicatri, e recuperou para esse livro. É claro, a gente inclui uma observação lá explicando, porque se a gente não tiver um mínimo padrão na comunicação vira Torre de Babel, ninguém se entende.
Nos últimos anos foram publicadas inúmeras coletâneas de autores brasileiros, com temas diferentes. O que você acha desse fenômeno?
MOUTINHO: É, eu organizei algumas. Foi importante num primeiro momento, de reaquecimento da vida literária brasileira. Era uma forma muito interessante de apresentar novos autores. Para as editoras, era mais fácil lançar um livro com quinze autores do que lançar quinze livros diferentes. Mas é evidente que houve um desgaste. Eu tinha jurado para mim mesmo que não faria mais coletâneas, e não pretendo fazer mais, mas acho que não podia deixar de fazer essa. Agora estamos num segundo momento, os autores já caminham com suas próprias obras, mas isso também é consequência das coletâneas do Nelson de Oliveira.
Houve quem visse um lado meio marqueteiro naquele batismo da Geração 90.
MOUTINHO: E talvez a literatura precisasse desse efeito de marketing. Naquele momento, havia um vácuo absoluto em termos de novos autores. Ele teve que fazer um trabalho de escavação. Foi importante. Não vejo isso como ruim para a literatura. Mas é natural, chega uma hora em que o mercado repele, há uma saturação."
Na segunda passada, estive no evento em homenagem aos 100 anos de Mano Décio da Viola, que aconteceu no auditório da ABI. Cheguei com o debate já em andamento, mas a tempo de ouvir parte das falas de Rachel Valença, Ricardo Cravo Albim, Haroldo Costa e Sérgio Cabral (o original). Foi uma noite de grandes momentos: Cabral cantando, à capela, os versos de Conferência de São Francisco, samba-enredo de 1946; um senhor salgueirense da platéia afirmando, com a força de seus cabelos brancos, que "se o samba não tivesse vis compromissos, o Império Serrano não estaria no Grupo de Acesso"; o bamba Roberto Silva cantando Exaltação a Tiradentes; o show de Jorginho do Império, filho de Mano Décio, com pérolas menos conhecidas do pai compositor.
Em meio a tantos ponto altos, houve, no entanto, um ponto altíssimo. Refiro-me ao comovente depoimento da já mencionada Rachel Valença, pesquisadora, diretora da Casa de Ruy Barbosa e hoje vice-presidente do GRES Império Serrano. Rachel, essa mulher admirável, deu um testemunho ao mesmo tempo íntimo e histórico sobre sua relação com Mano Décio, que se confunde com a relação com o próprio Império. Foi ovacionada.
Logo que o evento se encerrou, pedi a ela que me mandasse o texto. É um pouco longo, mas lhes digo: vale a pena gastar alguns minutos e ler a peça até o fim (sugiro que a leitura se dê ao som de Obsessão, de Mano Décio com Osório Lima, e vocês já entenderão o porquê):
Com a palavra, Rachel Valença:
“Estou neste momento numa mansão na Praia Vermelha, na casa de uma encantada dama que deseja me entrevistar”. Assim começa o depoimento prestado por Mano Décio da Viola no dia 28 de novembro de 1978, para o livro Serra Serrinha Serrano o Império do Samba, de minha autoria, em parceria com Suetônio Valença, meu ex-marido, já falecido. A mansão era um modesto apartamento de sala e três quartos na Avenida Pasteur, onde morávamos na época. A encantada dama aqui está. De realidade na primeira frase do depoimento só resta a Praia Vermelha.
As pesquisas para o livro começaram em 1978, por sugestão do amigo Humberto Soares Carneiro, hoje presidente do Império. Ele falava da nossa quase obrigação de registrar a história da escola, onde chegáramos no final de 1971. A história, segundo ele, ia se perdendo à medida que seus protagonistas iam envelhecendo, esquecendo fatos e datas, ou mesmo morrendo. Já perdêramos Elói Antero Dias, em 68, Jorginho Pessanha, o grande compositor, em 1969, Silas de Oliveira em 1972. Era preciso correr contra o tempo, registrar depoimentos, pesquisar documentos e fotos e publicar, para que o Império Serrano tivesse um livro, como o Salgueiro já tinha.
A tarefa nos empolgou e os anos de 78 e 79 foram para nós de muito trabalho. Mas já se aproximava o fim do ano e ainda não tínhamos o testemunho de um personagem importantíssimo: Mano Décio da Viola, citado em todos os depoimentos como parte da tríade sagrada de compositores imperianos, junto com Silas de Oliveira e Jorginho Pessanha. Marcava-se uma entrevista e não dava certo, porque o espírito de andarilho, sua marca mais forte, o impedia de estar na hora marcada e no lugar combinado para algo que ele não sabia bem o que era: uma entrevista a dois jovens, ilustres desconhecidos.
Naquele novembro de 30 anos atrás, vi que se anunciava, no estúdio da TV Tupi, na Urca, uma gravação do Império e Mano Décio faria parte dela. O Suetônio não podia estar lá, era dia de semana, dia de trabalho: mas eu tirei uma folga a que tinha direito e me bati a pé para a Urca, para tentar conversar com o Mano Décio ou ao menos combinar algo. Pois até combinar era complicado: os meios de comunicação na época eram bastante precários, ter telefone em casa ainda era um luxo, celular e internet nem em sonhos... não podia desperdiçar a chance de encontrá-lo. Fui, abordei-o na saída da gravação e, muito abusada, convidei-o para almoçar na minha casa, me identificando como amiga do Jorginho do Império, o que era verdade, porque minha amizade com o Jorginho data da época da minha chegada à escola, em 71. Mano Décio foi andando comigo pela amurada da Avenida Portugal, de frente para o mar, até chegarmos à praia Vermelha. Quis ver a praia, que não conhecia. Já lá em casa, ganhei tempo para não intimidá-lo: almoçamos primeiro, ele gostou da comida, me lembro que era uma berinjela recheada, que ele louvou muito, bem como ao pudim de leite da sobremesa. Depois, pus discos na vitrola, lps do Império que eu colecionava, inclusive os dele próprio. Aí ele ia falando sobre as músicas e os parceiros, tudo muito casual, e de repente perguntei se ele se importava que eu gravasse suas palavras. O clima da conversa era muito bom, e o depoimento em que fala da infância e da adolescência, em que fala de sua chegada ao Império, dos parceiros e dos demais baluartes da época, foi um dos mais importantes para nós para a elaboração do livro.
Lá estão narrados três episódios importantes: os problemas diplomáticos que em 1960 culminaram na mudança do enredo e do samba Medalhas e brasões, de sua autoria com o parceiro Silas de Oliveira; o enredo escolhido, Retirada da Laguna, susceptibilizara os brios nacionais do Embaixador paraguaio, a quem pareceu desrespeitosa a abordagem que o carnaval do Império faria da guerra entre os dois países.
Outro episódio esclarecido em seu depoimento foi sua saída do Império por pouco mais de um ano e seu complicado retorno, enfrentando a resistência principalmente da inflexível D. Eulália, que não admitia a mais ínfima infidelidade à escola que ajudara a fundar; e por fim os problemas enfrentados em 1968, em plenos anos de chumbo, quando o samba Heróis da Liberdade causou aos seus autores, obrigados pelo Dops a substituir a palavra revolução, da letra original, por evolução, como cantamos até hoje.
No ano seguinte fomos à sua casa para gravar sambas inéditos, que ele cantou com muito boa vontade e com a participação do filho Jorginho. Mais adiante vieram as fotos para o livro, feitas pelo fotógrafo Fernando Seixas, em que ele aparece com o violão em punho, bem informal, na varanda de sua casa na Rua Itaúba, hoje Rua Mano Décio da Viola.
Com fotos e documentos não pôde contribuir para nosso trabalho: nada tinha e culpava as mulheres e a vida desregrada que tivera por não ter guardado nada. Mas desde esta época nos tornamos bons amigos. Em 1981 cavamos a oportunidade de um show da Velha Guarda do Império, até então inexistente. A Velha Guarda da Portela começava a ter visibilidade e não nos conformávamos com o fato de o Império, com seus sambas antológicos, não ter como mostrá-los. Suetônio conseguiu a Sala Funarte e imaginamos que, agendado o show, os “artistas” seriam obrigados a se unir e se organizar. Jorginho do Império tomou a dianteira e administrou com paciência e habilidade as dissenções dos meninos: o grupo era formado por Mano Décio, Fuleiro, Molequinho, Manuel Ferreira, Nilton Campolino e Carlinhos Vovô e congregava ainda as damas que dançavam o jongo, uma das fortes tradições da Serrinha, e faziam o indispensável coro de vozes femininas. A diretora do show era a saudosa Tereza Aragão, que se apaixonou perdidamente pelo repertório e pelos irresistíveis artistas. Fui a todos os ensaios e guardo até hoje as críticas altamente elogiosas ao espetáculo, que teve lotação esgotada em toda a temporada.
Guardo também a foto do grupo no camarim e é com muita saudade que me lembro dos bons momentos passados em conversa com aqueles amigos que tinham em comum comigo a paixão pelo Império Serrano. A convivência com Mano Décio era sempre muito doce, pois ele era uma pessoa extremamente gentil, modesta, cordial, incapaz de dizer um não ou dar uma resposta que imaginasse desgostar o interlocutor. Tão doce quanto as balinhas que enchiam sempre seus bolsos e que oferecia a quem se aproximasse dele.
Foi nesse show que ouvi pela primeira vez a música que considero sua obra-prima: Obsessão, em parceria com Osório Lima. Essa música, que fala da inspiração, da gênese do samba na mente do compositor, sempre me faz chorar. Primeiro, porque tem uma melodia maravilhosa e uma letra inspirada e comovente. Segundo porque me faz lembrar um tempo feliz, em que eu tinha trinta e poucos anos e em que o próprio Império Serrano e as escolas de samba em geral eram muito mais ideal do que pragmatismo e lucro.
Ali, no Império Serrano, minha vida foi passando: hoje tenho a idade que tinha o Mano Décio quando eu o conheci. Não é uma comparação: não fundei o Império, também não compus nenhum samba. Mas me orgulho de ter contribuído um pouquinho para que a memória da escola esteja hoje reunida, para que haja fotos, que comprei ao longo dos anos de arquivos de jornal e do próprio Arquivo Nacional, dessas pessoas iluminadas que fizeram da minha escola o que ela é hoje: um quilombo de resistência cultural da negritude. Como me orgulho de no momento estar dedicando todos os meus esforços, junto com Humberto, Jorginho e tantos outros, para dar prosseguimento a essa história, que não podia seguir por caminhos que não dessem a nossos maiores – Silas de Oliveira, Mano Décio, Jorginho Pessanha, Elói Antero Dias, João de Oliveira, Mestre Fuleiro, Aniceto Menezes e Dona Eulália – motivo de continuar tendo orgulho de haver “pintado de verde e branco a bandeira do samba” naquele longínquo 23 de março de 1947.
Rio de Janeiro, ABI, 20 de julho de 2009"
P.S. A foto acima é de Diego Mendes.
Jóia rara, raríssima, no meio nefasto em que a Liesa transformou o caraval carioca (com beneplácito do poder público, como bem ressalta o bom Carlos Andreazza aqui), a rainha de bateria do Império Serrano, Quitéria Chagas, deu mais um exemplo de dignidade ao anunciar a doação das pedras preciosas da fantasia com a qual brilhou na Sapucaí à escola do seu (nosso) coração. Ela, que já havia se manifestado com ênfase e coragem na ocasião do criminoso rebaixamento conduzido pelos bandidos da Liga em fevereiro passado, mostra novamente uma postura admirável.
“Sei que a escola já recusou inúmeras propostas para me substituir ao longo dos quatro anos em que desfilo como rainha de bateria. Sei também o quão difícil é, mantendo suas raízes, ser competitiva no carnaval atual. Meu gesto é uma forma de externar minha imensa gratidão ao Império, que não só não trata as mulheres de modo comercial como prioriza seu compromisso com a nossa cultura", justificou Quitéria.
A doação da fantasia acontecerá esta noite no Teatro Rival BR, durante a estreia do espetáculo Isto é Brasil, de Carlinhos de Jesus, que conta com a rainha de bateria no elenco. A fantasia conta com 100 pedras de esmeralda, avaliadas em R$ 35 mil, e será passada às mãos do presidente Humberto S. Carneiro, que terá a companhia do 2º casal de mestre-sala e porta-bandeira, Alex Marcelinho e Raphaela Caboclo, no palco.
Embora possam parecer tímidas diante do poderio para-estatal da Liesa, atitudes como a de Quitéria representam um afago naqueles que (ainda) acreditam na virtude, naqueles que não se vendem. São atos aparentemente pequenos e que no entanto marcam, por oposição, a flagrante divisão que há, hoje, no carnaval do Rio: de um lado, os bandidos (e quem, por omissão, os legitima); de outro, quem grita contra eles.
Um amigo fez obra em casa. Ao terminar o serviço, o pedreiro deu uma planta a ele. Disse que sempre deixa uma planta de presente ao dono da casa quando termina uma obra.
O mundo tem salvação.
Fiz a encomenda há dois dias, logo que li matéria sobre o livro no Caderno B (Jornal do Brasil), e um exemplar Coração americano - 35 anos do Clube da Esquina acaba de chegar às minhas mãos. A edição, belíssima, traz depoimentos de Milton Nascimento, Beto Guedes, Toninho Horta, Lô e Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant e Tavito, e é ricamente ilustrada, com fotos históricas e raras reproduzidas em papel couché.
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Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes: membros do Clube
A obra nasceu do projeto de conclusão de curso da organizadora, a designer Andréa Estanilau, que contou com a ajuda dos jornalistas Rodrigo James e Bernardo Mata Machado para esmiuçar o processo de criação do LP que deu origem e nome ao Clube, contextualizando-o historicamente. Se o referencial Os sonhos não envelhecem, de Márcio Borges, narrava a trajetória dos músicos que participaram do movimento, o livro de Andréa se detém sobre o disco inaugural, contando casos de bastidor e tentando reproduzir, na voz dos próprios protagonistas, o clima e os sentimentos que cercaram a gravação.
Por falar no Clube da Esquina, hoje e amanhã tem show do Beto Guedes no Teatro Rival. Para saber mais sobre Coração americano, clique aqui. E este outro site disponibiliza uma exposição bem interessante sobre o grupo.
. Hoje tem Zé Luiz do Império no Carioca da Gema. O show, que incluirá sucessos do cantor e compositor, como Todo menino é um rei, Malandros maneiros e Tempo ê, está marcado para 22h;
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Tuninho e Marceu: shows na Tijuca
. Amanhã e sábado, às 19h, os amigos Marceu Vieira e Tuninho Galante vão apresentar suas composições no Centro de Referência da Música Carioca (Rua Conde de Bonfim, 825, Tijuca). O show terá a participação da cantora Mariana Baltar, que gravou a música Suspenso no ar, de autoria da dupla, em seu álbum Uma dama também quer se divertir. O espetáculo de amanhã será gravado pela TV Brasil e irá ao ar no programa Cena Musical;
. Se as arbitragens nos jogos do Corínthians no Campeonato Brasileiro forem similares à de ontem e continuar patético e flagrante o apoio dos 'comentaristas' da TV Globo (ah, o mercado publicitário paulista...), é melhor entregar logo a taça ao time do Ronaaaaaaaaaaldo.
Em 2009, são comemorados os 100 anos de Mano Décio da Viola, parceiro de Silas de Oliveira em grandes clássicos da história do samba e baluarte do Império Serrano. Para festejar a efeméride, uma série com debates, homenagens e show terá vez no próximo dia 20, a partir das 18h, no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
O evento, com entrada franca, reunirá pesquisadores como Sérgio Cabral, Haroldo Costa, Rachel Valença e Ricardo Cravo Albin num painel em que será analisada a importância de Mano Décio para a música brasileira. Além disso, haverá a entrega de um troféu, alusivo ao centenário, aos bambas Paulinho da Viola, Elza Soares, Dona Ivone Lara, Nélson Sargento, Roberto Silva, João Bosco, Martinho da Vila, Monarco, Fernando Pamplona e Hiran Araújo.
A seguir, o cantor e compositor Jorginho do Império, filho de Mano Décio, cantará sambas como Heróis da liberdade, Exaltação a Tiradentes, A paz universal, Sessenta e um anos de República, Medalhas e brasões, Antonio Castro Alves, O negro na cultura brasileira, Exaltação a Bárbara Heliodora, Obsessão, Rio dos vice-reis, Caçador de esmeraldas e Apoteose ao samba.
Mas os tributos não se limitarão ao evento na ABI. Já foi acertada a gravação de um cd duplo, que sairá pela Lumiar, com composições de Mano Décio interpretadas por Jorginho do Império. Estão previstos ainda um show na Praça da Apoteose, um festival de música na quadra do Império Serrano e um espetáculo ao ar livre na Rua Mano Décio da Viola, que dá acesso à Serrinha, em Madureira.
Encerrando as atividades, em julho de 2010 será lançada a biografia do inesquecível compositor, que tem o título provisório de Mano Décio da Viola, Imperador do Samba.
. O querido Antonio Torres vai dar hoje, às 19h, o pontapé inicial do curso Para gostar de ler (e escrever) romance, que acontecerá na Casa do Saber do Rio. Autor de ótimos livros como Essa terra, O cachorro e o lobo e Balada da infância perdida, Torres pretende analisar a essência do gênero literário desde Dom Quixote, de Cervantes, cuja primeira parte data de 1605, passando por mestres como Tolstoi, Dostoievski, Dickens, Flaubert, Balzac, Sthendal, Eça de Queirós e Machado de Assis, até chegar à revolução estrutural realizada por James Joyce. Além das leituras e dos debates, adianta Torres, haverá produção de textos por parte dos alunos. Mais informações aqui;
. Também hoje, e no mesmo horário, o grande destaque da Flip 2009, António Lobo Antunes, estará no Palácio São Clemente (Rua São Clemente 424, Botafogo), onde autografará seus dois mais recentes livros lançados no Brasil (O meu nome é legião e Explicação aos pássaros). Na quinta, ele comentará sua obra em evento promovido pelo Real Gabinete Português de Leitura (Rua Luís de Camões, 30 - Centro), com mediação de Ângela de Carvalho Faria e Madalena Vaz Pinto, doutoras em literatura portuguesa.
. Outro convidado da Flip 2009, Gay Talese, vai falar amanhã, às 20h30, no auditório do Instituto Moreira Salles-Rio (Rua Marquês de São Vicente, 476 - Gávea). O encontro, organizado pela editora Companhia das Letras, pelas revistas Piauí e Serrote, pelo jornal O Globo e pelo próprio Instituto, será mediado pelo jornalista e escritor Arthur Dapieve. Mais informações aqui.
Pós-escrito: Amanhã, quinta e sexta, sempre às 19h30, o Oi Futuro (Rua Dois de Dezembro, 63 – nível 7) também receberá autores que participaram da Flip. Os debates serão conduzidos pela dupla dinâmica Valéria Lamego e Cristiane Costa. Segue a programação:
Dia 7 de julho, terça-feira
Tema: A tradução da liberdade
Participantes: Edna O’Brien, Xinran e Paulo Henriques Brito
Dia 8 de julho, quarta-feira
Tema: Relações íntimas
Participantes: Zuenir Ventura e Rodrigo Lacerda
Dia 9 de julho, quinta-feira
Tema: Vida à brasileira: ficção e realidade
Participantes: Arnaldo Bloch e Domingos de Oliveira
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Paulo Roberto Pires, Rodrigo Lacerda e Domingos de Oliveira
1. O painel que reuniu Rodrigo Lacerda e Domingos de Oliveira, com mediação do Paulo Roberto Pires, foi o primeiro grande momento da Flip. Rodrigo se safou bem na difícil tarefa de dividir a mesa com um talento do tamanho do Domingos. O dramaturgo, por sua vez, brilhou intensamente. De início, ele leu uma linda pensata sobre a separação (tema do debate). Na seqüência, fez uma exposição absolutamente comovente, na qual defendeu, com tom embargado e uma voz vacilante que só o intensificava, a paixão pela vida (e pela arte). Ao fim, Rodrigo homenageou Domingos com a leitura de um trecho do roteiro do filme Separações. Dizia o texto: “A Justa Lei Máxima da Natureza obriga que a quantidade de acontecimentos maus na vida de um homem se iguale sempre à quantidade de acontecimentos favoráveis. O Homem Lúcido, porém, esse que optou pela vida com o consentimento dos deuses, tem o poder magno de alterar essa lei. Na sua vida, os acontecimentos favoráveis serão sempre maioria... Porque essa é uma cortesia que a Natureza faz com Os Homens Lúcidos”. Nesse instante, havia gente chorando;
2. A mesa de Arnaldo Bloch, Sérgio Rodrigues e Tatiana Salem Levy foi interessante também. Os três comentaram as imbricações entre história e ficção a partir de suas obras (respectivamente, Os irmãos Karamabloch; Elza, a garota e A chave da casa) com competência. O trecho lido pelo Arnaldo, muito bem escrito, me impressionou - e vou ler o livro dele o mais rapidamente possível;
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Mario Bellatin, com sua prótese 'polêmica', e Cristõvao Tezza
3. No mediano debate entre Mario Bellatin e Cristóvão Tezza, as perguntas do mediador, Joca Terron, infelizmente se concentraram muito no autor mexicano (este que me soa ‘espetaculoso’ demais). O magnífico livro de Tezza – O filho eterno – foi pouco explorado;
4. A palestra de Richard Dawkins foi excelente, muito por conta da feliz mediação do Silio Boccanera, que, já na apresentação, definiu bem o autor britânico: "Deus e Darwin são os dois personagens mais importantes para nosso convidado. Não necessariamente nesta ordem". Algumas pessoas se decepcionaram, achando que Dawkins iria repetir a performance de Cristopher Hitchens há alguns anos. Mas o biólogo mostrou inteligência, equilíbrio e capacidade de argumentação sem apelar para a polêmica fácil. Foi, em suma, uma verdadeira aula, sobretudo para não cientistas, como eu;
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Ondjaki, eu e Marcelino Freire, no debate da Casa de Cultura
5. Fiquei feliz com o sucesso do painel que mediei na Casa de Cultura e que reuniu Marcelino Freire e Ondjaki. Eram 10h30, chovia, o ingresso custava R$ 10, O Globo insistiu no erro ao divulgar a mesa, e ainda auditório ficou totalmente lotado. Foi um papo surpreendentemente divertido sobre um tema a princípio maçante: o acordo ortográfico. Marcelino já começou sua fala dando o tom bem- humorado que marcaria o painel: “Sou a favor do acordo pornográfico. Aquele em que a gente fica sabendo onde coloca a língua”. Ondjaki pegou a deixa e lembrou de um amigo que ‘atualizou’ a máxima de Fernando Pessoa ("Minha pátria é minha língua”), já alterada por Mia Couto ("Minha pátria é minha língua portuguesa”), e vaticinou: "Minha pátria é minha língua - numa portuguesa". Não obstante as brincadeiras, a discussão empolgou o público, que se dividiu entre a aprovação e a crítica ao acordo (os integrantes da mesa, inclusive eu, se mostraram contrários) e fez ótimas perguntas;
6. Infelizmente, não consegui ver a mesa do Bernardo Carvalho justamente por conta do debate na Casa de Cultura;
Lançamento no Che: Ivana Arruda Leite, Marcelino e dois amigos
Também no Che Bar: Fernando Molica e Henrique Rodrigues
7. Foi muito bom o lançamento do Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa, com uma feijoada no Che Bar. Muita gente que havia assistido ao painel sobre o acordo esteve lá e o resultado disso foi que o feijão acabou. Agradeço aos autores da antologia Fernando Molica, Henrique Rodrigues, Marcelino Freire e Ondjaki por prestigiarem o evento;
8. A mesa do Chico Buarque foi bacana, apesar do claro nervosismo do mediador (Samuel Titan Jr.). Chico e Milton Hatoum se entrosaram bem, até porque centraram a conversa em livros (Leite derramado, do primeiro; Órfãos do Eldorado, do segundo) que de fato têm muitas interseções. Senti falta de um questionamento sobre as recentes (e lamentáveis) declarações do Hatoum sobre blogs;
9. Clóvis Bulcão e Lúcia Bettencourt agradaram muito à platéia da Off-Flip. Ele, após a palestra sobre Padre Antonio Vieira, bateu o recorde de vendas do evento alternativo. Ela, como de hábito, encantou as pessoas com a humildade com que falou sobre a tardia carreira de escritora;
10. Talvez porque tenha lido várias entrevistas dele antes da palestra, achei a exposição de Gay Talese meio deja vú. Ele apenas repetiu informações e comentários já feitos aqui e ali. Claro que o discurso é interessante, mas faltou algo;
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Antonio Lobo Antunes: o grande destaque da Flip 2009
11. Nao tenho dúvidas de que o grande destaque da Flip 2009 foi o sensacional painel com Antonio Lobo Antunes. O português, cuja fama é de vaidoso e mau-humorado, arrebatou a platéia com a precisão de suas observações sobre a literatura e com sua extrema sinceridade. Sem pose de intelectual nem guirlandas de falsa erudição, Lobo Antunes lembrou da infância no Brasil, falou de colegas como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro e de seu processo de criação. Contou, também, histórias saborosas, como a que relata quando o avô, ao saber que o garoto andava “a rabiscar versos”, chamou-o à fala e, como homem antenado à moral da época, perguntou-lhe: “És viado?”.
Lobo Antunes fez, também, uma definição precisa sobre a condição ideal no ato de escrever - “Todos os escritores deverim ver Garrincha jogando bola. Para escrever bem é preciso juntar a racionalidade de Didi à inventividade de Garrincha” – e recordou a relação com o pai, que, embora nunca tenha se oposto à carreira do filho, afirmou durante toda a vida que nunca lera seus romances. No entanto, depois da morte, Lobo Antunes encontrou todos os seus livros com anotações e uma carta, endereçada a ele, com 600 páginas. Um trabalho de muitos anos, e certamente precioso;
12. A inteligência e a pouca afetação de Lobo Antunes, traço admirável (e já lhes digo por que reitero isso), me remeteram a outra palestra memorável na Flip: a de Adélia Prado, que aconteceu algumas edições atrás. Os dois casos servem de exemplo e lição. Sim, porque o ponto negativo (como quase sempre) de 2009 foram as cenas de cortejo meramente utilitarista, os flagrantes de deslumbramento precoce, esses males que infestam o meio literário e que em Paraty parecem encontrar seu ponto máximo ("Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal", já cantou Billy Blanco, e nunca é demais lembrar). Sem a necessidade de recorrer a próteses chamativas e pretensamente polêmicas, sem simpatias de pau oco ou ilusões de grandeza, Adélia e Lobo Antunes mostraram que o grande escritor é antes de tudo um homem, como nós. Com suas alegrias, seus dramas, sua solidão.
Sigo daqui a pouco para a Flip. A quem estiver por lá, dois convites:
. Na próxima sexta, às 10h30, na Casa de Cultura, vou mediar o painel "Acordo ortográfico em questao", que reunirá os escritores Ondjaki e Marcelino Freire;
. No sábado, a partir das 12h, faremos o lançamento do "Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa" no Che Bar. Na ocasiao, o bar oferecerá uma feijoada (R$ 29, incluindo a caipirinha).
Espero vocês!